AS
BASES ARQUETÍPICAS DA PRÁTICA DE PSICOLOGIA
Selma
Knopfholz Morgenstern Axelrud
Esta monografia consiste de uma proposta de aplicação
dos conceitos de Psicologia Analítica em áreas afins.
Procura-se demonstrar que toda atividade humana possui um padrão
interno de organização; há sempre uma constelação
arquetípica determinando nossos atos e pensamentos
Muitos
profissionais não têm noção da profundidade
dos eventos de suas vidas. A civilização ocidental
valoriza o visível, o constatável. Costumamos não
considerar os aspectos ocultos da nossa profissão e da
vida em geral. Nossa cultura valoriza a razão, negligenciando
o inconsciente, fonte de energia e criação.
Baseando-se
nos conceitos de Psicologia Analítica, fez-se uma tentativa
de aplicação dos mesmos na Área da Saúde,
especialmente na Odontologia.
O
cuidado com a Região bucal é presente desde as épocas
mais remotas. Pode-se dizer que trata-se de um situação
arquetípica, onde uma pessoa zela pela saúde bucal
de outra. A relação entre dentista e paciente pode
ser melhor compreendida ao se analisar o simbolismo da Boca: é
a sede da palavra, órgão de entrada e saída,
veículo do prazer, da agressividade, e primeira fonte de
contacto com o mundo externo (seio materno). O manuseio desta
região tão complexa implica numa ativação
de conteúdos internos aí projetados. O que se procura
valorizar nesta monografia é o aspecto subjetivo da profissão
de cirurgião dentista. Faz-se uma tentativa de enfatizar
a pessoa do dentista e a pessoa do paciente; trata-se de focalizar
quem executa a quem recebe o ato odontológico. Acredita-se
que esta análise possa auxiliar no esclarecimento de alguns
episódios freqüentes da prática clínica.
A
relação paciente–dentista e a reação
do paciente ao tratamento depende basicamente da interação
dos complexos de ambos. O "medo do dentista" é
algo tradicional, pode-se dizer até arquetípico.
O profissional atento pode desempenhar melhor sua atividade, mediante
a auto-análise e a percepção das dificuldades
do paciente. Torna-se, assim, capaz de modificar a tonalidade
de sua atuação, de acordo com o que a situação
requer.
Foram
identificados, a princípio, cinco arquetípos atuando
sobre o cirurgião dentista. São eles:
O
ARQUÉTIPO DA GRANDE MÃE:
A boca associa-se à femilidade, à nutrição,
à criação, ou seja, ao arquétipo da
grande
mãe. O cirurgião dentista possui uma atuação
ambígua; promove simultaneamente saúde, nutrição,
transformação, dor, invasão, medo. Assim
sendo, a tonalidade com que o profissional articula o arquétipo
da Mãe dentro de si influencia seu modo de atuação,
promovendo desde uma atitude delicada até uma postura rígida
em relação ao paciente. Este também se relaciona
com o dentista de modo pessoal. Focalizando-se o arquétipo
da Grande Mãe, conclui-se que o paciente que se relaciona
mais com o aspecto sombrio deste arquétipo pode projetar
no dentista a figura da "mãe terrível".
O bom profissional dever ser capaz de lidar com esta situação
de forma a beneficiar o tratamento. Isto requer uma capacidade
de interiorização rara numa área como a Odontologia,
onde o foco recai sobre técnicas e materiais.
A
busca pela proteção, cuidado e amparo está
relacionada à constelação do complexo materno.
Esta procura geralmente se acentua nos momentos difíceis
da vida, quando se busca o maternal na mãe, na Natureza,
no médico, na igreja. Talvez seja esta uma explicação
viável para a quantidade de doenças que se estabelecem
em épocas de crise emocional, quando necessitamos de cuidados
allheios. Os sintomas físicos podem ser expressões
de desordens psíquicas. Este aspecto pode ser futuramente
melhor detalhado, abrindo neste trabalho um espaço para
a Psicossomática.
O
ARQUÉTIPO DO PAI:
Através da relação com o filho, o pai deve
exercer e estimular nesta as ? da
personalidade
que constituirão o complexo paterno. É necessário
que a criança encontre uma figura externa que sustente
esta projeção.
Uma
situação bastante comum em Odontopediatria é
a recusa ao tratamento.
O
pequeno paciente pode muitas vezes ser agressivo, rebelde e indisciplinado.
Cabe ao profissional, nesta situação, assumir uma
postura rígida, autoritária, ordenadora. Deve transformar-se
num pai temporário, para que este arquétipo se constele
também na criança. Isto pode ser conseguido mediante
o aumento no tom de voz, uma força maior no toque, uma
imposição de disciplina. Na verdade, o paciente
que requisita tal atitude é , quase sempre, um "pequeno
manipulador" de situações, que conta com a
cumplicidade da mãe. A necessidade de um pai ativo pode
se manifestar durante o tratamento dentário, como tentativa
inconsciente de integração desta possibilidade.
O
ARQUÉTIPO DO HERÓI
Os profissionais da Área da Saúde deparam-se muitas
vezes com casos de
difícil
resolução; estão constantemente personificando
um herói para vencer a batalha contra a doença e
o sofrimento. O perigo reside no fato de identificar-se com esta
figura, deixando-a dominar a personalidade. A vivência heróica,
quando excessiva, exige do profissional um desempenho que pode
estar além da sua aptidão. Todos temos limites,
mas aceitá-los parece ser difícil para os heróis
da modernidade. Se o profissional não aceitar suas limitações,
não poderá conduzir seus paciente à aceitação
das mesmas.
Para
desempenhar um papel com segurança, é preciso que
se aprendam todos as suas modalidades. O profissional precisa
saber de que é apenas o instrumento de manifestação
dos arquétipos muitas situações estão
além do seu controle, e a cobrança por parte da
sociedade ou do próprio ego pode ser desgastante.
"A
formulação e a transformação do ego
ocorrem durante toda a vida, e a percepção de sua
interdependência com o todo e da entrega final do ego é
fundamental".
(
ANDREW SAMUELS, Jung e os Pós Junguianos, p-80).
O
ARQUÉTIPO DO TRICKSTER:
O Trickster corresponde a uma experiência psíquica
interior. É descrito como
tolo,
caprichoso, malandro. É capaz de transformar-se e de desenvolver
qualquer função. É criativo e divertido.
A boa articulação do Trickster fornecer ao cirurgião
dentista uma maleabilidade de atuação e uma capacidade
de improvisação. Estas são características
básicas no exercício da Odontopediatria. O Trickster
é extremamente poderoso quando atua à nosso favor.
O homem moderno parece Ter negligenciado a relação
com o Trickster, que surge então quando nos encontramos
à mercê de circunstâncias irritantes, que se
opõem à nossa vontade.
O
Trickster da mitologia indígena pode ser comparado à
figura alquímica de Mercúrius, bem como à
figura de Hermes da mitologia Grega, o deus que tem facilidade
em movimentar-se na semi-obscuridade. O profissional da Área
de Saúde deve ser capaz de circular pela luz e pelas trevas,
pelo conhecido e pelo oculto. Desempenhará melhor seu papel
se puder desenvolver um estilo hermédico, mercurial.
O
ARQUÉTIPO DO CURADOR FERIDO:
Na atualidade, os profissionais adotam uma postura de auto-imunidade
às
doenças,
projetando-as integralmente no paciente. A compaixão e
a impatia pelo sofrimento alheio parecem só existir naqueles
que reconhecem a própria vulnerabilidade.
Ao
voltarmos à mitologia, percebemos que QUÍRON, o
centauro, era um curador que possuía uma ferida eternamente
aberta. Este ferimento próprio é que lhe garantia
a possibilidade de curar o próximo; através das
projeções que faz e recebe do paciente, o curador
experimenta suas próprias feridas. Gugenbühl-Craig
afirma que não só o paciente tem um médico
dentro dele, mas há também um paciente no médico
9 Gugenbühl-Craig, o Poder na Profissão de Ajuda ).
Enfrentar
e tentar curar o sofrimento do próximo é, na verdade,
uma tentativa de lidar com o próprio sofrimento. Conscientizar-se
disto é ser um profissional completo.
O
que se espera desta monografia é alertar os profissionais
em questão para aspectos ainda inexplorados de sua área
de atuação. É necessário uma maior
consideração pela personalidade humana, pelas crenças
e prioridades que possuímos enquanto indivíduos.
Precisamos focalizar o paciente como um como um todo, a fim de
obtermos melhores resultados clínicos.
Há
um velho provérbio clássico da odontologia:
"A
Odontologia é uma profissão que exige dos que a
ela se dedicam : os conhecimentos científicos de um médico,
o senso estético de um artista, a destreza manual de um
cirurgião e a paciência de um monge" . Vale
aí acrescentar "o olhar profundo de um psicólogo"
!