TRABALHADORES
BRASILEIROS NO JAPÃO E SUA RECOLOCAÇÃO
Eides
Medeiros
1)
Aspectos Psicosociais
O Japão quando fez a reforma da lei de controle da imigração,
passou a conceder algumas facilidades à permanência
de descendentes em seu território. Isso aumentou o fluxo
de nipo-brasileiros para aquele país, invertendo a situação
anterior em que os japoneses é que vinham para o Brasil.
Acredito que no início do século os japoneses emigravam
por não terem mais garantias de sobrevivência em
sua terra. A emigração chegou ao ponto do Brasil
ser o país, depois do Japão, com maior contingente
de japoneses.
Porém, assim como o Japão não conseguiu garantir
a fixação de seus filhos em seu país, hoje
os nipo-brasileiros não estão sentindo garantias
em sua sobrevivência no Brasil e vão para o Japão
em busca da suposta sobrevivência. Ao mesmo tempo eles tentam
fazer o retorno de seus pais, pois muitos não puderam mais
retornar ao país de origem.
E nesse trânsito do Japão para o Brasil e vice-versa,
existe simbolicamente uma finalidade: para Carl Jung, o grande
psiquiatra e psicólogo suíço, todos os acontecimentos
conflituosos têm sempre uma finalidade de organização,
ora resgatando algo perdido, ora ampliando o novel de consciência
pessoal ou coletiva, ora clarificando as necessidades individuais
ou coletivas. Com isso se pretende humanizar mais cidades, nações
e indivíduos. Mas nem sempre se consegue atingir este objetivo,
embora exista essa necessidade de organização e
humanização em todas as pessoas e nações.
Sendo eu psicóloga, que trabalha com leituras simbólicas
dos acontecimentos concretos, pessoais ou coletivos, percebi inconscientemente
que os Dekasseguis estão parecendo cobrar do grande pai,
o Japão, a falta de acolhimento social que o pais deveria
ter para que seus filhos não emigrassem. Essa cobrança
é feita através dos conflitos criados pelos filhos
desses imigrantes, os Dekasseguis, que agora estão no Japão.
O termo Dekassegui significa "o trabalhador imigrante que
alimenta o desejo de voltar à terra natal". Porém
poucos pais e avós dos Dekasseguis voltaram para rever
a terra natal. Então, inconscientemente, estão parecendo
cobrar do Japão as falhas do "Grande Pai", pois
os imigrantes sofreram muito ao sair de sua pátria, e tiveram
que batalhar muito pela sobrevivência no Brasil.
Hoje os Dekasseguis, entre um dos aspectos inconscientes nessa
suposta busca de bens materiais, procuram camufladamente um cobrança
de dívidas antigas para com o Japão e atuais para
com o Brasil. Não podemos nos esquecer que os Japoneses
são muito obedientes e gratos aos seus pais.
E estas dívidas são sociais, pois o fenômeno
Dekassegui está obrigando o Japão a fazer uma revisão
do seu mundo social, estudando e pesquisando situações
sociais e educacionais. Podemos citar como exemplo a constante
vinda de pesquisadores japoneses para o Brasil, pois o conflito
está em sua casa.
E o Brasil o que deve aos Dekasseguis?
O Brasil precisa estudar e procurar uma maneira de fixar, dar
estabilidade e ensiná-los a serem brasileiros. Hoje é
o Japão que acaba ensinando aos Dekasseguis a serem brasileiros
a duras penas.
O Brasil precisa rever o sistema social no tocante aos descendentes
não só de japoneses mas de holandeses, alemães,
etc.
Não é raro para mim o atendimento de descendentes
Holandeses, Alemães que chegam deprimidos, muitas vezes
nem terminam suas especializações que vão
fazer nas terras de seus pais, pios lá foram tratados como
brasileiros e não sabiam como se portar como tal.
Inúmeros países procuram incutir em seus filhos,
o sentido da Pátria, o conhecimento de seus símbolos
e deveres cívicos de maneira contínua. E esse reforçamento
patriótico dá segurança individual, dá
garantias de pertencer a um território, pois desde que
o mundo é mundo, o homem guerreia por seu território,
pois ele tem necessidade maior de fixar-se em algum solo, para
servir de base para a estabilidade emocional de um povo.
A 4º Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisadores
Nikkei, tratou de fazer um diagnóstico da situação
dos trabalhadores japoneses evidenciando os aspectos psicológicos,
físicos, sociais (ausência dos direitos trabalhistas
e recolocação infantil nas escolas brasileiras).
Foram apresentadas soluções desses problemas para
o governo brasileiro. Essa sociedade tenta ajudar a reforçar
a Saúde e a Identidade Social dos Dekasseguis no Japão.
O Japão é um pais socialmente hierárquico
e aristocrático e os Dekaseguis nessa hierarquia estão
na escala mais inferior por não serem especializados e
não terem direitos trabalhistas.
Não posemos esquecer que os Japoneses valorizam intensamente
o profissional e suas especializações. Essa inferioridade
social vem também da idéia que muitos japoneses
têm, de que os Dekasseguis são filhos de japoneses
que não conseguiram vencer no Japão, boicotando
a idéia verdadeira de que foi o Japão que, no começo
do século, não conseguiu dar estabilidade e fixação
a seus filhos.
Os Dekasseguis quando saem do Brasil geralmente pertencem a classe
média e chegando no Japão vão para a classe
mais inferior. Há uma mudança brusca de posição
pois eles vão trabalhar em funções que os
japoneses não querem mais fazer como, por exemplo, apertar
parafusos em ritmo acelerado. Muitas vezes em seus trabalhos são
avaliados de maneira positiva, mas no tocante ao "SER"
descendente, de forma negativa.
Para o Japão os filhos que saem do seu território
não são mais aceitos, porque quando voltam não
são mais os mesmos, estão modificados. São
comparados ao BONSAI uma vez arrancada a árvore do seu
lugar original, ela nunca mais será a mesma. (Dr. Mário
Sato).
Os Dekasseguis são beneficiados apenas na valorização
de sua produção em detrimento ao "SER"
descendente. Isso cria sentimentos ambivalentes que ajudam a enfraquecer
tanto a identidade pessoal como o social, pois só são
respeitados pelo que produzem, não pelo que são.
Assim o indivíduo passa a valorizar mais o recolhecimento
externo que o auto-reconhecimento; os contatos a nível
de sentimento ficam superficiais. Passam a preocupar-se com o
lá fora, com a varanda. Passam a vivenciar o mito do "Tatemaiê",
que é a valorização mais do outro em detrimento
do SER. E ao valorizar mais o fora de si, são envolvidos
por outro mito " medo do fracasso", assim eles passam
a vivenciarem o que a antropóloga americana Ruth Benedict
( estudou a cultura japonesa), chamou a sociedade de: "Sociedade
da Vergonha". Não se dão ao direito de errar
para não passarem vergonha perante os outros. Só
que no Brasil o erro leva ao acerto. Como valorizam mais o coletivo
em detrimento do seu SER INDIVIDUAL, acabam com sintomas que forçosamente
os obrigam a entrar mais em si.
2)
Aspectos Psiquiátricos
Dr. Décio Nakagawa que é o mais experiente no atendimento
aos Dekasseguis, sintetizou os sintomas como "Síndrome
do Regresso" percebeu esses sintomas não como os de
esquizofrenia e sim como uma síndrome que pode ser controlada.
Como não sou Psiquiatra e sim Psicóloga, quanto
aos casos de complicações severas não se
pode fazer psicoterapia profunda. Geralmente o apoio Psicoterápico
só pode ser dado com efeito quando o cliente tem lucidez.
E atendendo alguns Dekasseguis com sintomas de medo, personalidade
pranóide que devidos aos conflitos às vezes desencadeiam
delírios e alucinações, depressões,
crise de identidade, visão deturpada de si e de seu corpo.
Constatei que são sintomas que podem ser controlados.
Por não ser eu descendente de japoneses, a transferência
é mais demorada, mas à medida que conseguem lembrar-se
de seus sonhos, pois estes falam do seu interior psíquico,
eles começam a acreditar no meu trabalho. O mais difícil
é fazê-los acreditar na força do inconsciente;
pois são muito racionais.
E nesses atendimentos tento relatar de maneira genérica
alguns movimentos psíquicos conflitantes que causam o sofrimento
aos Dekasseguis, observados em seus sonhos. Esses movimentos psíquicos
conflituosos sempre tem uma finalidade como já foi falado,
o de aumentar o campo da consciência e essa ampliação
se dá de maneira sombria, pois só assim sofrendo
ele procura ajuda, o indivíduo sai do próprio endeusamento
para chegar ao ser mortal e portanto real.
Segundo James Hilman, o pai da Psicologia Arquetípico,
a psicologia deveria ser sempre o estudo da alma. E só
se chega à ela quebrando as fantasias que se criam de si
e as criadas em função da convivência com
o mundo.
Exemplo: A busca de bens materiais, indo para o Japão é
um verdadeiro disfarce da busca do verdadeiro EU, e essa procura
tem inúmeros aspectos:
a) Conciliação entre raça e nacionalidade,
pis a raça é mais forte.
b) O ir trabalhar no Japão tem inúmeras finalidades,
a de fazer o retorno para os seus pais imigrantes, que na maioria
não retornam ao Japão. Mas ao fazerem isso simboliza
a nível inconsciente que os Dekasseguis podem ser tão
heróicos como seus pais um dia foram. O mito do herói
é muito manifestado no Japão. E nesse ato heróico
a finalidade é tentar sair do pai infantil e ao mesmo tempo
tentar superar o pai ou de ficar igual a ele.
c) Os Imigrantes no Brasil cultuam o Japão antigo onde
os indivíduos são treinados na auto-disciplina de
seus impulsos, em que a vontade controla os desejos que possam
atrapalhar a harmonia coletiva.
Os Dekasseguis tentam se identificar com esse autodomínio
disciplinar, mas o sofrimento no Japão derruba este conceito
por ser ainda ingênuo e puro, e não maduro e experiente
como de seus pais. A quebra desse autodomínio simboliza
o fato que só no desequilíbrio emocional é
que os Dekasseguis acabam tendo que olhar mais para si, para melhor
se individualizar, vendo-se e revendo-se, buscando o seu ser singular.
d) Ao se valorizar mais o primogênito, os outros filhos
se sentem em posição de inferioridade em relação
ao irmão mais velho. Essa preferência dificulta a
saída desses filhos do papel de filho para "pais de
suas ações", tornando-se filhos perenes. Instaura-se
nesses filhos uma ânsia obsessiva de procurar o reconhecimento
paterno em Instituições, Igrejas, Empresas, Trabalho
ou em terras distantes.
Se o não reconhecimento concreto "Sou filho de João
e filho de Maria" causa danos emocionais na criança,
a falta de reconhecimento igualado entre irmãos também
ocasiona uma ânsia exagerada, necessidade imperiosa de serem
reconhecidos em quaisquer movimento que estejam envolvidos, seja
no trabalho, no relacionamento conjugal, familiar ou social.
O reconhecimento externo é, outra vez, mais valorizado
que o interno. E essa busca desesperada de reconhecimento externo
é tão forte que dificulta a entrada na realidade:
de se fixarem em si, em alguém ou em alguma coisa. Tornam-se
pessoas transitórias e pueris. Não se aquietam nem
em si, nem em sua pátria, pois o sonho infantil de serem
reconhecidos e glorificados em suas famílias ainda os persegue
hoje.
E como o Japão não reconhece positivamente os Dekasseguis,
eles sofrem e com isso forçosamente se interiorizam mais
na busca de si.
e) Os japoneses imigrantes aprenderam que a dor moral, física,
psíquica tem um ápice e, ao suportá-la nesse
ápice, ela tende a declinar-se. Porém seus descendentes,
que não foram treinados para suportar a dor, imitam o comportamento
dos pais. Não pedem ajuda no sofrimento, pois isso poderá
ser interpretado como fraqueza. Não exteriorizam o sofrimento,
mas acontece que eles nasceram no Brasil, que é extrovertido
e a ajuda na dor é bem recebida. Essas situações
contraditórias criam sentimentos ambivalentes mas dificilmente
pedem ajuda, pelo mito do "medo do fracasso" e do mito
"Tatemaiê".
São inúmeros aspectos na personalidade dos Dekasseguis
que tendem a valorizar o coletivo, o grupo, procurando sempre
a harmonia social.
E esse excesso de vivência na procura da Harmonia Coletiva
acaba em desequilíbrio, e mais uma vez, o Dekassegui se
aprofunda em si, para retirar do profundo a espontaneidade e sua
marca no mundo.
Estamos hoje vivendo o fenômeno Dekassegui, o qual o Dr.
Décio sintetizou tão bem em "Sindrome do Regresso".
Agora pergunto a vocês, o que acontece com o Japão
que recebeu 200 mil brasileiro? Que é invadido por uma
cultura miscigenada como a brasileira? Que são enviados
2 milhões de dólares para o Brasil, segundo o Banco
Central? Arrependeram-se da reforma da lei do controle de imigração?
E isso não poderá transformar-se em uma outra síndrome
dos que permanecem naquele país?
2)
Associação de Apoio aos Dekasseguis – AAD
Em 18 de agosto de 1997 foi fundada oficialmente em Curitiba a
Associação de Apoio aos Dekasseguis – AAD.
Seu fundador é o nosso primeiro presidente o Dr. Rui Hara,
que tem uma personalidade empreendedora e humanitária.
A AAD é mantida através de mensalidades (R$ 5,00).
O atendimento é feito por profissionais de diversas áreas
e podem se associar Dekasseguis e familiares. O atendimento é
feito através dos departamentos de: Saúde, Apoio
empresarial, Apoio aos que vão para o Japão, Educação’,
Logística, Comunicação Social, Fisco-contábil,
Jurídico e Social.
Além do atendimento profissional, a entidade é um
local de lazer.
O Departamento de Saúde além de trabalho clínico
desenvolve outras atividades relacionadas à prevenção
de doenças, organiza grupos familiares para orientação
nas dificuldades que poderão advir na estadia no Japão.
Presta apoio aos familiares que ficam no Brasil. Promove divulgação
nos meios de comunicação de massa do tema Dekassegui
com a finalidade de orientação. Coordenou o Simpósio
sobre Educação e Saúde. Realizou Simpósio
sobre a Cultura Japonesa com a finalidade de esclarecer mais,
para melhor entendimento do comportamento japonês.
Além do Setor de Saúde outro setor que é
muito procurado pelos Dekasseguis é o empresarial, pois
muitos não estão tendo sucesso em seus negócios
e acabam falindo. O setor empresarial os orienta na abertura de
novo negócios. Devido aos problemas que vinham ocorrendo
na área empresarial, AAD criou este ano uma Sociedade Anônima
de natureza mercantil. A finalidade dessa S/A é para que
os Dekasseguis possam investir apenas parte de seu dinheiro em
um negócio, em conjunto com outras pessoas, e que tenha
objetivos sólidos. Esta forma de investimento ajuda a fixação
dos Dekasseguis no Brasil.
Eides de A. P. Medeiros
Psicologa CRP 08/04804
Membership
The C.G. Jung Fundation Analytical Psychology,
Icn. Number:24568
Ctba,
07/Out/98
ASSOCIAÇÃO
DE APOIO AO DEKASSEGUI - AAD
Outubro
de 1997
Uma Das Dificuldades Culturais Que Influenciam O Psicológico
Do Dekassegui
Ao partir com a nacionalidade comprometida pelo choque cultural,
é, lá no Japão que ele começa a aprender
o que é ser de fato brasileiro.
Pois lá o povo é ultra-nacionalista, ele terá
também que se comportar com mais civismo, terá que
ressaltar as qualidades do Brasil mais que suas insuficiências,
caso contrário, será mal interpretado. Ao ser tratado
como brasileiro ele sentirá confuso pois atrás da
busca dos bens materiais está a busca de suas raízes
nipônicas e ao mesmo tempo tem que ser mais brasileiro do
que ele já foi, Isso o deixará muito confuso e desiludido.
Quanto mais ele corre atrás de suas origens mais ele encontra
o Brasil.
Ao se deparar com os costumes, leis, atitudes, visão de
mundo tão diferente, ele se dá conta que japonês
ele não é... Assim, o Brasil começa a entrar
com categoria em sua vida.
O que ele não percebeu foi que enquanto esteve no Japão,
o gigante japonês, o Japão Imperial começou
a despertar dentro dele, mas é só chegando ao Brasil
que ele é acordado com lucidez e isso o envolverá
intensamente de uma forma até obsessiva com a idéia
permanente e contínua de voltar.
É nesse momento de grande luta interior que ele precisa
de ajuda profissional para fixá-lo em sua terra, entre
outras coisas, pois fixando-se nela é que ele terá
o controle desse Japão Imperial, de sua raça que
é mais forte do que a terra em que ele nasceu. E assim
ele tentará conciliar sua Origem, sua Raça com sua
nacionalidade. Pois é muito difícil lidar com os
opostos entre Brasil e Japão. O Dekassegui congrega em
si a origem de um povo muito extremista tanto no trabalho, como
nos estudos, nas atitudes e deveres morais, e no entanto, ele
nasceu num país onde as pessoas vivem de maneira completamente
diferente.
O Dekassegui para se ajustar nessas duas culturas tão opostas
terá que encontrar em si o caminho do meio que só
é encontrado no viver individual, o que muitas vezes é
atrapalhado pela convivência com suas origens japonesas
que é baseado na coletividade, no viver grupal pois para
eles é mais difícil quebrar um feixe de graveto
do que um único.
Novembro
de 1997
Uma Das Dificuldades Culturais Do Dekassegui Na Busca De Sua Identidade
(Síndrome De Regresso)
Uma das formas para os descendentes dos japoneses ajudar a buscar
a sua identidade está no saber de sua cultura.
O que é cultura? Segundo Aurélio Buarque de Holanda
são sistemas de atividades e modos de agir de uma sociedade.
Se não conheço a cultura do meu povo eu também
não posso me conhecer, pois ela é a base soberana
que vai dar calçada aos meus pés, ela é minha
realidade, meu equilíbrio.
Se estou longe de meu país eu não posso deixar meus
descendentes ignorarem o que nasceu bem antes de mim e que está
em mim ainda de uma maneira não integrada.
Como poderei entender que essa atitude de "Honra e Orgulho"
que parece ser apenas deles não é tão deles?
E quantas vezes eu não entendi essas atitudes nos meus
pais a ponto e me rebelar e acabar tendo uma resposta orgulhosa?
Orgulho ferido a ponto de distanciar-me deles e me silenciar?
A "Honra e o Orgulho" também têm seus opostos.
Quanto mais corro atrás da "Honra" acabo encontrando
a Vergonha.
E quando mais corro atrás do "Orgulho" acabo
encontrando a humilhação.
Se os descendentes soubessem mais sobre a cultura o lado posto
das atitudes não os pegaria.
A cultura japonesa deve ser conhecida e compreendida para poder
dar maior segurança aos descendentes.
Além do modo de agir ela também trás a História
do meu país que nada mais é que fatos, acontecimentos
que são repetidos, relatados até virar a História.
E essa História trás o passado, as raízes,
o velho, a sabedoria que nunca poderia ser descartada pois ela
dá segurança.
Daí a importância de escutarmos o que o "Velho"
tem a dizer pois precisamos saber de nossas raízes, pois
sem ela não poderemos parar e pé, vamos cambalear.
E nessa escuta atermos ao lado bom e deixarmos o ranço
da idade de lado, pois ninguém melhor que eles poderão
passar a cultura do meu povo e a minha própria História.
Outubro
de 1997
Uma Das Dificuldades Culturais Que Influenciam O Psicológico
Do Dekassegui
O governo brasileiro ao sancionar a lei que libera aos pais as
custas do registro de nascimento está trazendo saúde
emocional para os seus filhos, pois esse registro o situará
na família: "Sou filho de João e filho de Maria".
Pois a falta desse reconhecimento concreto embora por falta de
dinheiro ou por outros motivos quaisquer, dificulta a busca da
criança de sua identidade pessoal.
Se o não reconhecimento concreto dificulta a estabilidade
emocional da criança o que não ocasionará
a falta de reconhecimento afetivo igualado entre os filhos? Muitas
vezes a cultura de uma nação em que o primogênito
é mais ovacionado, admirado, respeitado em detrimento dos
outros irmãos. Também deixará sequelas no
coração da realidade de vida desse indivíduo.
Mesmo com tudo legalizado ele se sentirá em defasagem em
relação ao mais velho, dificultando assim neles
a saída do papel de filho para o papel de pai de suas ações.
Instauram-se nesses filhos uma ânsia obsessiva de procurar
esse reconhecimento que gostariam de ter, em outras paragens e
outras terras.
Muitas vezes esse reconhecimento afetivo se camufla em busca de
bens materiais que são mesclados de fantasias de poder
e glória. Alguns até conseguem, mas a maioria em
suas novas paragens começam a perceber a realidade dura,
as suas fragilidades emocionais que dificultam também o
físico, ao se debaterem com as dificuldades de adaptação
aos costumes do novo lugar.
A cultura de uma Nação ao ovacionar o primogênito
cria nos demais filhos, uma ânsia, uma necessidade imperiosa
de serem reconhecidos em quaisquer movimentos em que estejam metidos,
seja no trabalho, no relacionamento conjugal ou familiar. O reconhecimento
externo é muito mais valorizado que o auto-reconhecimento.
E essa busca é tão forte que dificulta a eles a
entrada na realidade de se fixarem, de se aquietarem num mesmo
lugar ou em sua Pátria, pois o sonho infantil de serem
reconhecidos e glorificados em suas famílias ainda os perseguem
no "Hoje".
Uma Das Dificuldades Cultural Do Dekassegui
Os Dekasseguis por terem a raça japonesa e nacionalidade
brasileira, eles são considerados brasileiros no Japão.
E como no Brasil os seus pais japoneses além de cultuar
a cultura japonesa, precisam de um referencial de identidade patriótico
para não se perderem num país estrangeiro, reforçam
a sua raça sem perceberem reforçam mais a Nação
Japonesa de onde vieram do que a Nação Brasileira.
E como a Nação Brasileira não é muito
exigente e é mais aberta do que muitas outras, não
cobrando uma continuidade de culto do civismo, o futuro dekassegui
não assume com convicção a sua nação
que é o Brasil. Tornando-se dekassegui com a nacionalidade
comprometida ele vai em defasagem para competir no mercado de
trabalho; pois a Pátria nos dá a garantia no Japão
para vencer, para lutar e até perder com dignidade.
Pois desde que o mundo é mundo, o homem luta pela soberania
de sua pátria. A Pátria nos dá estabilidade,
nos dá realidade de pertencer a um território e
isso é saúde.
O dekassegui tendo mais convicção de sua nacionalidade
terá mais respaldo para enfrentar o Japão com sua
cultura tão complexa.
Ou o Japão aceita-os como filhos legítimos, como
fazem os israelitas, italianos, alemães ou o Estado Brasileiro
promova mais o civismo, o patriotismo para fixar esses seres humanos
em sua nacionalidade brasileira ou as entidades nipo-brasileiras
procurem desenvolver a nacionalidade em seus descendentes.
SIMPÓSIO
SOBRE CULTURA JAPONESA
Tema:
Igimê, Mecanismo e Prevenção
Igimê, mecanismo que usa a punição para mudar
comportamentos, ora de maneira velada, ora de maneira literal.
O Japão por ser um País hierárquico e aristocrático,
precisa lançar desse mecanismo para manter a harmonia social
e ao mesmo tempo controlar o lado sombrio dessa nação,
sem estar precisando sempre lançar mãos de leis
e mais leis sociais para controlar o lado instintivo de seu povo.
Para o Psicólogo SKINNER a punição, o reforçamento
negativo pode mudar comportamento nocivo para melhor, é
o que o Igimê pretende sempre fazer.
Como tudo na vida tem os dois lados, o lado positivo desse mecanismo
é dar maior estrutura a essa nação, ora mantendo
a ordem social e a segurança nacional ( no Japão
não tem revoluções); ora garantindo a perpetuação
da raça, ora harmonizando a população através
do social.
E seu lado negativo manifesta o impedimento do desenvolvimento
da massa crítica intelectual, impede a espontaneidade,
o questionamento, pode provocar a quebra da genialidade pelo excesso
da auto disciplina, dos instintos, pode diminuir a criação
de líderes ( pelo medo do fracasso); pode impedir a Universidade
e a liberdade individual.
O Igimê para "Manter a Ordem Social", usa de uma
cobrança velada para que os japoneses sejam vencedores
e não seres derrotados. Ele faz cumprir também as
leis, as ordens, pagar o ON, Através do GUIRI, do KO, do
CHU, do GIMU, etc.
O Igimê pode causar sentimentos de inferioridade, de fracasso
e vergonha. E esses sentimentos os fazem muitas vezes isolados
em suas próprias famílias, ficam como seres diferentes
por não agirem dentro dessa cultura antiga.
Mas acontece que eles nasceram no Brasil que aceita criticas,
questionamentos; que contrapõe seus superiores ou mesmo
seus pais. Que aceita o pressuposto, "o erro leva ao acerto".
Geralmente os descendentes que sofrem o Igimê, são
os mais sensíveis, sonhadores, criativos. Para fugir do
Igimê muitos se fecham internamente ou saem para outras
paragens, ou ficam no mesmo lugar e todos a deriva, sem fixação
a lugares ou pessoas, não encontram estabilidade física
e emocional. Eles acabam reforçando a imaturidade pela
escassez do reconhecimento familiar. O que não tem em sua
família acaba se tronando obsessão na busca lá
fora do reconhecimento externo. Vivem ajudando aos outros pelo
simples "obrigado" e esquecendo de se ajudar: muitas
vezes são possuídos por sonhos heróicos sem
Ter a capacidade real para sê-lo.
O Japão sempre viveu o pressuposto de hierarquia e ordem,
e o Brasil igualdade e liberdade e Igimê para manter o grupo
unido, logo a harmonia coletiva precisa lançar mão
desses processos rígidos, pois só através
deles os japoneses puderam enfrentar os acidentes da natureza
( as guerras, maremotos, terremotos, erupção vulcânica
), com uma certa ordem e controle ( e também as guerras).
O Igimê é particular da Nação Japonesa,
mas no Brasil ele é ativado de maneira suave: praticado
em Política, Repartição Pública em
Sociedade, mas não faz parte da cultura dele.
Uma Das Dificuldades Dos Dekasseguis No Japão
Ao presenciar inúmeras vezes em seus progenitores o sofrimento
contido e não revelado, sendo que muitas vezes são
perdas dolorosas que derrubam a maioria, mas neles a dor se torna
resignada, calada e quieta. E os filhos ficam a perguntar "Porque
não compartilharmos dessa dor"? O porque de isolar
apenas para eles essa tamanha dor?. O fato de não compartilharem
fantasiam os seus filhos em cima dessa dor. Nossos pais não
podem demonstrar suas fragilidades perante a dor? Será
por orgulho ou por quererem controlarem essa tamanha dor? Ou eles
aprenderam em sua cultura milenar que tudo passa e que só
é termos que usar nossas forças para o àpice
da dor, que logo depois ela declina?
Os sofrimentos não compartilhados, não falados,
mas apenas sentidos pela observação dos que os rodeiam
criam neles não o significado de uma cultura antiga, mas
sim que tem que suportar qualquer sofrimento sem demonstrá-lo,
pois caso contrário isso significa que não sei sofrer,
sou um fracasso, não sou forte... E assim não percebo
quando estou precisando de ajuda para minhas dificuldades, com
isso de ser forte eu acabo trransformando o sofrimento, a dor
em doença. Pois eu nasci desse Brasil que é muito
extrovertido, que a dor dele geralmente é repartido com
outros e eu preciso, necessito de sufocar a minha dor? Isso é
o choque de culturas que me deixa conflituoso, um lado quer falar
e o outro não deixa falar dos sentimentos. No Brasil, há
a necessidade da expressão dos sentimentos tanto na dor
como na alegria, pois o meu falar vai me aliviar e diferenciar-me
como um ser único, individual e autenticamente singular.
Embora os descendentes venham de uma cultura milenar em que precisam
terem atitudes heróicos e guerreiros de um Samurai ( vencer
a dor ou perder-se nela). Essas atitudes antigas de meus pais
eu preciso aceitá-las que nunca poderemos mudar, mas eu
sim posso, pois não sou como eles que tem apenas uma Nação
dentro de si, mas eu sim tenho duas tão diferentes que
até podem travar a minha caminhada no País das minhas
origens, não permitindo que eu viva e sim sobreviva.
Desemprego,
pode ajudar a dar alma ao homem?
O homem sofre o problema do desemprego e não está
preparado para tal fenômeno. Por que?
Desde que o homem entrou na demanda industrial, a filosofia industrial
centrou na produtividade do ser humano. O homem é avaliado
pelo que produz, e nesse afã de produzir, ele partiu para
o mundo exterior, procurou sempre no fora dele as suas potencialidades:
nas especialidades, nos treinamentos, nos cursos, nas pesquisar,
nos estudos profundos, para aumentar cada vez mais a produção
material.
E a produção interior?
O grande Rousseau criticou há muito tempo esse tipo de
pensar e agir.
Acreditava ele que o ser humano está valorizando mais o
parecer ser do que buscar no seu interior o seu ser existente,
que sempre esteve lá, mais poucos fizeram e fazem a jornada
dessa procura do que se é.
E essa fissura do parecer ser, do ser verdadeiro, é que
deu respaldo para o ser humano ser tragado, engolido pela materialização
e o racionalismo de Descartes "Penso logo sou". Só
que esquecemos que o pensar lógico muitas vezes nos prega
peças, pois para pensarmos melhor as idéias tem-se
que ir além da lógica- tem que ter mais coração.
Esse parecer ser originou a instabilidade emocional que nos levou
a bengalar e valorizar mais o grupo, o social, a política,
a religião – em detrimento do nosso ser.
Vivemos sempre preocupados, exageradamente, com que vão
pensar de nós. Então quando esse homem se vê
desempregado, dentro de um processo individual, quando o indivíduo
vai amargar as dificuldade financeiras, emocionais – ele
despenca, pois ele ainda não é forte, apenas supunha
ser. E nessa fragilidade os sintomas se tornam presentes, precisou
de um fato desesperador para desencadear doenças que noutras
situações ficariam só na latência.
Hoje , a influência exagerada do convencional acaba levando
o homem a valorização do externo e, sendo assim,
os valores interiores são pueris, efêmeros, leves.
Os valores estruturados, sólidos, não são
manifestados, eles precisam ser buscados, e isso é difícil,
é um processo doloroso, pois eles residem na alma humana.
É a alma que dá suporte para os embates da vida.
Mas como buscar a alma, se o ser humano está buscando mais
o efêmero? Se algo o faz sofrer, ele logo desvia, boicota
esse sofrimento que poderia dar consistência aos seus valores?
Não crescemos no prazer, em festas, em relacionamentos
agradáveis, no lazer, etc. Para se ter uma personalidade
consistente paga-se um preço alto e, quem hoje quer pagar
esse preço?
O homem, hoje, não sabe sofrer, pequenos problemas são
resolvidos com os barbitúricos e assim ele jamais vai fazer
a grande viagem na busca de si.
Mas nessa viagem, precisa-se de ajuda e é difícil
admitir isso.
Quando a personalidade busca a sua integração, como
o mestre Jung dizia, ela está geralmente aliada a outra
força que é a decisão do caminho a escolher.
E esse caminho tem que ser o melhor para a auto-motivação
do ser humano e para o seu melhor desenvolvimento.
O grande Jung já dizia que essas convenções
tiram a naturalidade do desenvolvimento da personalidade, podendo
levar o homem ao individualismo e isto o fará vazio, ôco,
sem respaldo para o confronto com os problemas da vida. E o ser
humano tende sempre a buscar uma personalidade mais organizada,
pois isso faz parte da natureza íntima.
Só que hoje estamos atrasando demais essa organização.
Essa natureza íntima muitas vezes acaba usando de processos
delorosos para obrigar o homem a interioriza-se e devolver a ele
mesmo, o que se é.
E será que essa situação sofrida do desemprego
não é uma tentativa da natureza capitalista de fazer
o homem mais humano? Obrigando-o a rever intimamente suas emoções
para melhor depurá-las, e buscar em si o homem empreendedor
que poderá transformar um desempregado em empregador?
Então, ao buscar apenas no mundo fora de mim as minhas
potencialidades, esse mundo realista faz a devolução
mostrando que pode ajudar, mas a maior parte cabe a mim fazer,
mas para isso é preciso que se aja e não reaja.