STIGMATA,
UM FILME RELIGIOSO OU PSICOLÓGICO?
Paulo
de Souza
Introdução
O
filme Stigmata, no meu entendimento, pode ser abordado por duas
linhas mestras paralelas: uma religiosa e outra psicológica.
A primeira me parece ser a idéia do diretor, a outra será
uma interpretação pessoal baseada na psicologia
analítica de C. G. Jung. O filme parte de um fato verídico,
ele se baseia na descoberta do 'Evangelho de Tomé', e cria
uma história de ficção em cima dele. Como
um segundo tópico religioso encontramos no filme os estigmas
de Cristo e os estigmatizados, talvez para o diretor seja o ponto
principal, pois coloca o título do filme de "Stigmata".
Seguindo no filme a linha religiosa, ele apresenta alguns assuntos
secundários: as dúvidas e incertezas do padre Andrew
Kiernan entre ciência e religião; os métodos
pouco ortodoxos da Igreja Católica Apostólica Romana
em manter seu status; os conflitos de Frankie Paige que levava
uma vida mundana sem se preocupar com o religioso e o tema da
possessão de um ser humano por uma alma desencarnada. É
claro que não vou considerar nenhum aspecto técnico
do filme, nem algumas incorreções históricas
e geográficas. O filme comete alguns erros: língua
aramaica no lugar da copta, Mar Morto no lugar de Egito, frases
que não estão no "Evangelho segundo Tomé,
o Dídimo" e algumas datas.
Vejo a análise de filmes como se fosse a de um sonho, ou
seja, o sonho está centrado no indivíduo e serve
para o indivíduo. O diretor faz o filme para si, assim
como um músico faz a música para ele mesmo, é
o seu momento. É claro que depois de pronta, a obra de
arte tocará outras pessoas que projetam seus conteúdos
psicológicos nessa obra. Mas podemos ver o filme como um
'conto de fadas', ou seja é uma história que pertence
ao coletivo e foi 'colhida' pelo autor no 'inconsciente coletivo'.
É claro que vamos colocar conteúdos individuais
por cima dos conteúdos pessoais do diretor, por isso uma
análise nunca é isenta de 'projeções'.
O importante no final é que conteúdos psicológicos
de diversas pessoas podem ser atingidos e a obra artística
passa a interessar a coletividade.
Vou repassar o filme focando no aspecto religioso sugerido pelo
diretor, com inserções das imagens simbólicas
mais fortes e colocando uma interpretação junguiana
para os acontecimentos. Por isso escolhi fazer a interpretação
de cena-em-cena para não perdermos de vista a trama da
história.
Cena
1
O filme começa com o sol nascendo, em seguida aparece um
lago de águas mansas e surge uma igreja simples. A igreja
está situada na cidade de Belo Quinto (cidade fictícia),
sudeste do Brasil. Numa simples passagem de câmera o filme
apresenta: o sol que pode ser visto como uma divindade centralizadora,
para o qual Jung deu o nome de Self; a água que é
um símbolo tradicional do inconsciente, dividido por Jung
em 'individual' e 'coletivo' e a igreja como o religioso em cada
um de nós, independente da fé que professemos.
Logo após aparece o padre Paolo Almeida traduzindo um texto
antigo, onde um trecho chega até nós: ¾ "Jesus
disse que: o Reino de Deus está em nós... e não
em templos de madeira e pedra". Enrola o rosário na
mão e coloca na testa. Apesar da frase não constar
no 'Evangelho de Tomé' ela mostra a linha que o filme tomará,
a da religiosidade não ter necessidade de ser manifestada
apenas nas igrejas, nos templos, nos santuários...
Bate o sino, um cego porta uma cruz com o Cristo e doentes caminham
em procissão. O sino funciona como um chamamento religioso
que depois vai ser bem evidenciado na protagonista Frankie. O
cego me lembra a figura lendária de Tirésias, da
mitologia grega, ele tinha o poder oracular de ver o futuro e
a cegueira física vem nos mostrar a necessidade de olharmos
menos para o mundo externo e mais para o nosso interior, isso
complementado pela grande quantidade de pessoas doentes em busca
de Deus.
Surge a figura do padre Andrew Kiernan caminhando entre a multidão
em forma de procissão. A direita vemos um carro da polícia
que pode ser interpretado como a repressão da religião
no povo, ou o povo escapando da repressão pela religião.
O padre Kiernan entra na igreja e vê o padre Almeida morto.
Ele observa a imagem de Nossa Senhora que chora sangue. O padre
Almeida está no caixão segurando a foto de 3 padres
(ele com mais dois, ainda nossos desconhecidos). A água
pinga e a cena reverte, como se o tempo andasse para trás,
talvez numa tentativa de mostrar o inconsciente e a sua atemporalidade.
As próximas tomadas mostram muitas velas, vento, pombas
e penas voando; a chama da vela apaga e depois acende. O padre
Kiernan observa e fotografa. A pomba pode ser vista como um símbolo
da alma, o que será confirmado no decorrer do filme, em
algumas partes a pomba é a própria alma do padre
Almeida. O vento é uma representação do sopro
divino criador, juntamente com o fogo da vela nos dá a
idéia que algo será perpetuado ¾ no caso
a alma do padre ¾ como uma necessidade de revelar a palavra
de Deus.
Um jovem rouba o rosário do cadáver do padre Almeida
e vende a uma mulher por cinco dólares, mais tarde vamos
concluir que a senhora é mãe da personagem Frankie
Paige que o envia para a filha na cidade de Pittsburgh. Já
encontramos o cinco duas vezes, no valor do rosário e no
nome da cidade, voltaremos a ele mais tarde.
A cena fecha com a imagem de sangue em cima do caixão sugerindo
que o sangue permeará todo o filme. Só nesta primeira
cena nos é apresentado uma grande quantidade de simbolismo
e também a base da narrativa que irá se desenrolar.
Cena
2
Aparecem imagens sobrepostas ¾ o sagrado e o profano. Temos
aqui uma prévia do que ocorrerá no filme, o sagrado
e o profano misturados e até se confundindo, como deixando
para o espectador a tarefa de separá-los ou não.
Surgem imagens da Frankie e a cena fecha com sangue na sua casa,
fazendo uma ponte com o final da cena anterior, do sangue sobre
o caixão do padre Almeida.
Frankie Paige é cabeleireira em Pittsburgh, na Pensilvânia
e vive uma vida comum de jovem. Possivelmente o diretor quis mostrar
que os estigmas também podem ocorrer em pessoas comuns,
não religiosas e não somente em santos como ocorre
desde São Francisco de Assis. O número quatro é
um símbolo de totalidade, ele aparece duas vezes no filme:
no número 2.404 do seu apartamento ¾ como podemos
ver no pacote enviado pela mãe de Frankie e na data dos
estigmas de São Francisco, ocorridos no ano de 1.224. Mais
do que uma coincidência, principalmente pelo fato de estarmos
frente ao rumo da protagonista para a totalidade da sua alma.
Frankie vai a boate com sua amiga Donna e depois tem relações
sexuais com o jovem Steven. Destaque para o anel verde redondo,
onde o verde é encontrado duas vezes no anel de Frankie.
O anel com a sua forma redonda, mandálica, faz a representação
da aliança, da comunhão, da união; temos
aqui uma aliança com o verde da natureza, da terra cultivada,
do vegetal, da deusa Deméter. O ato sexual representa um
símbolo de precursor da vida, da fecundação
¾ depois a dúvida de uma gravidez e até a
visão de uma oferta de bebê ¾ permeando o
início do filme. Podemos admitir que Frankie tinha a seu
favor uma essência pura que estava a espera de ser libertada
pela força do fogo, da paixão, do sangue, para então
caminhar para sua vida espiritual que desemboca no branco do lençol,
como veremos no final do filme.
Cena
3
Frankie acorda pela manhã com água pingando e o
telefone tocando. A água nos remete ao início do
filme para a cena do lago, só que agora ela está
em movimento. A câmera mostra o pacote, dando destaque para
uma tulipa vermelha. O vermelho é vida, fogo da vida, das
paixões, da ação; associado a tulipa que
representa o feminino, o útero, a fecundidade e nos induz
a premeditar que Frankie estaria prestes a ser fecundada com vida,
no caso não uma vida humana, mas uma vida voltada para
o religioso, como veremos mais tarde no desenrolar do filme.
A mãe, ao telefone, comenta que mandou o pacote e ainda
se encontra em Belo Quinto, perto do Rio. Frankie ao abrir o pacote
não liga para o terço, mas depois ao segurá-lo,
apresenta enjôo ao tomar chá. Somos induzidos a ver
que o terço pertencente ao padre Almeida possui um 'mana',
uma força da natureza. Esta linha da história, com
forças místicas da natureza seguirá pelo
filme revelando a necessidade do padre Almeida em mandar uma mensagem
através do rosário.
Frankie toma café com sua amiga Donna, fala de gravidez
e o tema vai se repetindo. Veremos mais tarde que ela não
está grávida, o que nos induz para a gravidez do
sagrado, do místico, enfim, da sua espiritualidade latente.
Cena
4
Aparece o padre Kiernan em Roma, no Vaticano. A caminho da basílica
de São Pedro cruza com três prostitutas na rua e
comporta-se de uma maneira simpática para com elas. O diretor
mostra que o padre não possuía de antemão
nenhum problema com o sexo oposto. Na cena isso é deixado
bem claro, inclusive ele não usa a 'persona' clássica
do clero, pois fala com elas com um sorriso e por mímica
explica que é religioso. Aliás, a gola alta e branca
é um símbolo de aliança com o divino. Os
objetos circulares simbolizam aliança e compromisso, como
por exemplo: aliança de ouro no dedo, circuncisão
peniana, aura dos santos, etc. Não me parece que o padre
Andrew tenha problemas com a sua 'anima', pelo menos na área
da sexualidade. Vamos voltar a questão mais adiante quando
começar seu relacionamento com Frankie.
A figura do cardeal Daniel Houseman surge e representa a corrupção
na igreja, juntamente com o capacho do seu auxiliar padre Dario
que provoca o mal pela omissão, numa possível sombra
inocente do cardeal. O Cardeal Daniel representa o homem religioso
atrapalhado com a sua sombra, em conflito com a ética e
a moral vigente, muito comum nos homens religiosos que querem
chegar ao divino sem lidar com a 'persona' e a 'sombra', fato
muito discutido pelos diretores europeus, como por exemplo Ingmar
Bergman.
Padre Andrew fala da Nossa Senhora que sangra, admitindo a realidade
do fenômeno. É como se ele precisasse de um milagre
para voltar a acreditar na religião, não a religião
instituída ¾ como a Igreja Católica ¾
mas na nossa religiosidade interna que nos leva ao encontro do
Self. O crescente retorno ao religioso começa na igreja
de Belo Quinto. Podemos lembrar que ele foi atraído para
lá por uma 'sincronicidade'. Tinha ido ao Brasil, na cidade
de São Paulo, para verificar uma imagem de santa em um
prédio (que foi feita casualmente pela água da chuva)
e soube da santa chorando sangue em Belo Quinto. A cena encerra
com a frase secular colocada na boca do cardeal: "a igreja
é superior a tudo".
Cena
5
Frankie volta para casa. A cena é centrada com ela na banheira
comendo uma maçã, com destaque para o seu umbigo
tatuado com um sinal oriental lingüístico (?). A maçã
é um tema universal do conhecimento, do despertar da consciência;
lembremos da fruta oferecida pela cobra para Eva e a sua expulsão
do Paraíso, juntamente com Adão. Seu apartamento
é bem místico. Em torno da sua banheira estão
dispostas muitas velas. O rosário aparece jogado, mas lembra
uma serpente pela sua disposição sinuosa. Logo em
seguida aparece uma pomba. No Evangelho de Tomé, no login
39 encontramos o dito: "Quanto a vocês, sejam tão
astutos quanto cobras e tão inocentes quanto pombas".
Este tema é encontrado ao longo da história humana
na figura do dragão que diz que o homem deve ser pomba
e serpente ao mesmo tempo; o dragão nos lembra uma serpente
com asas.
Frankie imerge na água lembrando um batismo, uma iniciação.
O batismo possui a mesma conotação da morte, principalmente
da morte simbólica que leva a renovação.
Esse ritual será um batismo em sua trilha espiritual, pois
é aí que ocorre o 1° estigma, o do cravo nos
pulsos. Na realidade a cena mostra Frankie sendo atacada por forças
'não visíveis'. Os aspectos do 'mana' ou forças
da natureza podem ser analisados pelo fato da jovem ter sido escolhida
e contaminada pelo rosário. Jung aborda esse tema várias
vezes em sua obra e considerava os 'Cabiros' ou 'Telésforos'
como forças ctônicas (da terra) que sempre acompanhavam
os deuses. Essas forças sozinhas são indomáveis
e só com a associação de um deus elas podem
ser benéficas para o ser humano, um exemplo clássico
é o Cabiro do deus da medicina, Asclépio. Os Cabiros
eram cultuado principalmente na ilha de Samotrácia, na
Grécia Antiga.
Cena
6
A cena abre com uma ambulância na chuva. O filme foi todo
locado na chuva e só no final, na redenção
de Frankie, o tempo abrirá. Podemos ver a chuva como o
tema do inconsciente, mas desta vez vindo do céu, enviado
por uma força superior. No hospital Frankie dá um
grito e volta a sua consciência, numa atitude desperta,
contrária ao estado de possuída.
Volta para casa e encontra goteiras em vários locais. A
amiga Donna faz-lhe companhia e sente o cheiro de flores no ar.
O cheiro de flores é um fenômeno comum aos estigmatizados.
Frankie Paige, personagem central da trama, nos mostra o ‘Caminho
da Individuação’. O caminho, ou melhor a exacerbação
do caminho, geralmente começa com um fato contudente, provavelmente
vindo do inconsciente. O personagem feminino é uma pessoa
comum, não religiosa, que evolui até ser comparada
com São Francisco de Assis. O diretor aproveitou o fato
histórico do santo ser o primeiro a receber estigmas, para
compará-lo com a jovem. A jovem Frankie começa o
processo de Individuação levando uma vida tola e
acaba nos jardins como São Francisco. Nesse caminho passará
pelos cinco símbolos dos estigmas; o pulso/mão como
persona, as costas como a sombra, a cabeça como intelecto,
os pés como consciência do mundo e o fígado
como Self (em épocas passadas era mais representativo neste
aspecto do que o coração).
Cena
7
Em Roma surge o padre Gianni Delmonico, outro tradutor das escrituras
e um dos três da fotografia do início do filme. O
padre Andrew fala das suas dúvidas na busca por milagres,
como uma prévia para o diálogo mais desenvolvido
que vai ocorrer com Frankie. Padre Gianni está traduzindo
um evangelho do século II. Fala de 35 evangelhos encontrados
só temos quatro no Novo Testamento. Coincidência
ou não, o padre Gianni ao falar dos evangelhos diz: "eles
são, Memórias, sonhos, reflexões...",
que é o título do livro de memórias de Jung.
Os evangelhos para tradução são divididos
entre três grupos de religiosos: dominicanos, franciscanos
e jesuítas, com o motivo básico de exercer um controle
do saber, o que chega até os dias de hoje.
O texto "Evangelho de Tomé", ao qual o filme
se refere, faz parte de treze (13) códices e foram encontrados
em Nag Hammadi, próximo ao mosteiro de São Pacômio,
no Egito. Muhammad Ali e seus colegas procuravam fertilizantes
orgânicos e encontraram um vaso lacrado com códices
de papiro. Ele foi descoberto em dezembro de 1945, mais precisamente
no sopé do rochedo de Jabal al-Tarif que margeia o Nilo.
O evangelho estava escrito em língua copta que é
uma língua egípcia do tempo dos romanos e consta
do Códex número 2, na posição de segundo
livro. O formato do livro é o de sentenças e parábolas
de Jesus dividido em 114 logins ou sentenças e sua autoria
é atribuída a Judas Tomé, o Dídimo.
Logo notamos que as três palavras possuem o significado
de gêmeo nas línguas hebraico, aramaico e grega,
respectivamente. Autores acreditam que o escrito original estava
em grego, só uns poucos acham que ele foi escrito originalmente
em aramaico ou siríaco. Outros estudiosos afirmam que se
trata de um evangelho escrito por seguidores de Mani, como Cirilo
de Jerusalém (Catequeses 6,31). Hipólito de Roma,
século III cita em sua "Refutação de
todas as heresias" (5.7.20-21) um Evangelho de Tomé
dos Naassenos ou Ofitas. O local mais provável de sua elaboração
deve ter sido em Edessa (Urfa), na Síria, no século
I. De certa maneira o Evangelho de Tomé mostra Jesus como
seguidor da linha filosófica dos Cínicos.
O descoberta de Nag Hammadi foi um acontecimento marcante na vida
de Jung. Devemos lembrar que o Códice I de Nag Hamadi,
depois de insistentes buscas e contatos de C. Meier, foi comprado
com o patrocínio de George H. Page. Em 15 de novembro de
1953, em Rüden, na Suíça, o Instituto Jung
de Zurique, pelas mãos do próprio Jung, recebeu
o Códice número I da biblioteca de Nag Hammadi que
chamou-se desde então, Códice Jung. No Códice
Jung encontramos cinco livros e o mais apreciado por ele é
o 'Evangelho da Verdade' ¾ um texto da Escola Valentiniana
provavelmente do século II d. C. Depois de traduzido e
publicado o Códice de Jung saiu do Instituto C. G. Jung,
em Zurique e foi para o “Museu Copta do Cairo”. Jung
escreveu uma carta para Freud (referência 269) datada de
29 de agosto de 1911 e nela declara sua busca de inspiração
no gnosticismo e cita a figura de Sophia, da Cosmogonia de Valentino.
No presente artigo não vamos estudar o Evangelho de Tomé
pois foge ao nosso propósito. Quando o texto de Tomé
aparecer no filme, será comentado no contexto geral.
Cena
8
Frankie, na chuva, volta ao trabalho. De dentro do salão
tem a visão de uma mulher com o bebê enrolado em
um pano vermelho. De novo aparecem as pombas. A mulher está
com capa azul claro e de capuz, ela chora e oferece o bebê.
Depois deixa cair a criança na rua, como não agüentando
o peso e o sofrimento ou por não ter ninguém que
a receba. Frankie corre atrás da imagem e só encontra
o cobertor vermelho. Donna a leva para casa. Mais uma vez o simbolismo
da maternidade, da concepção, da busca pelo criativo
que de certa forma Frankie ainda está evitando. O aspecto
psicológico religioso ou a busca do 'Mito Pessoal' pode
ser trabalhado como o recebimento de um chamado que ocorreu com
a jovem Frankie, convocada para trilhar um caminho para o Self
ou o divino.
Frankie inicialmente não tem consciência do início
do seu 'processo de individuação', assim como o
personagem Jó, da Bíblia, também não
sabia de início do porquê do seu sofrimento. Parece-me
que o inconsciente 'provoca reações' em pessoas
que possuem em seu âmago alguma 'semente' que está
pronta para ser trabalhada. A semente é então encharcada
e depois fica em repouso no seio da mãe terra. Só
depois de morrer e putrificar é que surgem os primeiros
brotos que rasgam a terra em busca da luz do sol. Todos nós
já fizemos na escola primária aquela experiência
com o 'feijão no algodão com água' e muitos
reconhecem aí a base do processo alquímico de transformação.
Cena
9
A cena abre com Frankie e Donna no Metrô indo para casa.
Frankie avista um padre e duas freiras, a visão do eclesiástico
a descontrola. Ela vai até o padre Durning e pergunta pelo
padre Andrew Kiernan até o momento não tinha ouvido
falar dele. Frankie arranca o crucifixo de uma das freiras jogando-o
longe. O trem acelera. Neste momento ocorre o 2º Estigma,
as chicotadas nas costas. Como já foi citado acima podemos
ver as lesões nas costas como o nossa 'sombra', algo que
está atrás de nós, que não vemos,
só pressentimos. Anteriormente as máculas foram
nas mãos que é nossa expressão maior, a nossa
comunicação com o mundo exterior, o motivo de nossa
evolução, nossa 'persona' como nominou Jung. Precisamos
identificar a máscara que usamos e depois perceber o escuro
da nossa alma para depois prosseguir na senda a nós destinada.
Cena
10
A cena abre com Frankie no hospital suturando as costas. Ela pergunta
ao médico se estava grávida e recebe uma negativa
confirmando o que já falamos acima. São realizados
uma série de exames médicos. A figura do padre Andrew
vai se entrosando com a de Frankie por meio de imagens. O padre
reza uma missa e as tomadas são intercaladas com os exames
no hospital. A alusão a hóstia como corpo do Senhor
e a do vinho como Seu sangue é bem clara. É o velho
tema da antropofagia dos pagãos, em que o inimigo era comido
para se adquirir sua força, que a igreja aproveitou para
a figura de Cristo. Ficamos também inclinados a ver o sofrimento
de Frankie como um recebimento da graça de Cristo.
O médico atendente diz para Frankie que a sua doença
parece epilepsia, mas na saída do hospital, o padre Durning
fala da possibilidade dos estigmas. Frankie começa a perceber
o que está lhe ocorrendo, mas possui a atitude de negação
inicial do encontro com 'forças estranhas'. Ela tem de
um lado a ciência médica rotulando um fenômeno
estranho ao seu conhecimento e, de outro a igreja rotulando um
fenômeno 'numinoso' como se fosse uma coisa muito comum
de acontecer... As duas beiram ao ridículo e deixam o sofredor
ainda mais confuso.
A cena corta para o Vaticano. O cardeal constata que a Santa Sé
não possui igreja, nem padre em Belo Quinto. O cardeal
fala do incidente no metrô e envia Andrew à Pennsylvania
devido a uma notícia constrangedora no jornal. A crise
da igreja, de todas as igrejas, pode ser abordada por um lado
psicológico. Mentira, corrupção, falta de
ética e a procura dos valores espirituais fora do indivíduo,
podem ser vistos como a falta de consciência do homem. Enquanto
nós não sairmos da inconsciência, mesmo que
lentamente e paulatinamente, não vamos desenvolver nossa
religiosidade. A área abordada seria mais para 'psicologia
sociológica' e o tema ainda provoca muitas projeções
e desentendimentos; teríamos que falar do gnosticismo como
história e força éticas e poderíamos
nos perder.
Cena
11
Frankie mais uma vez retorna ao trabalho, sempre com chuva. As
clientes começam a ter medo de suas manifestações
e se afastam com receio de uma possível contaminação;
podemos nos lembrar da nossa lenda amazônica do 'Boto',
onde o desconhecido, o mal, a sombra têm que ser personificados
e temidos para se lidar com eles de uma forma mais confortável.
Andrew vai ao salão, corta cabelo com Frankie e ao revelar
seu nome assusta a jovem.
Cena
12
Os dois vão tomar café. Andrew fala dos estigmas
em pessoas católicas e devotas relatando que o primeiro
e principal estigmatizado foi São Francisco de Assis e
diz: "Todo estigmatizado é assombrado por essa dor
espiritual intensa... São tomados por suas visões
do mal." Frankie se diz atéia e por conseguinte não
católica. Andrew estava por desistir de sua investigação
quando Frankie mostra os pulsos. Nesse momento revela que sua
idade é de 23 anos, a mesma que São Francisco de
Assis tinha ao receber os estigmas. Em seguida mostra um papel
que escreveu em italiano, onde diz: "Parte um pedaço
de madeira e ali estarei, ergue uma pedra e me encontrarás".
A citação é do Evangelho de Tomé e
está no login 77. Nesta etapa do filme o padre ainda não
conhecia o evangelho de Tomé, mas fica impressionado; por
outro lado, sua 'persona' eclesiástica ainda nega ajuda
a jovem.
Frankie vai embora pois não pode ser ajudada. Chega em
casa e a água continua pingando. Estuda epilepsia e figuras
católicas com estigmas. Aparece nitidamente o conflito
interno que leva as pessoas a evoluírem. Ouve ou lembra
a mensagem: "Quanto mais próximo de Deus... mais sujeitas
ficam ao tormento de seus demônios".
Ainda relevante é o fato de Jung ter escrito um livro intitulado
“Sete Sermões aos Mortos”, em 1916, não
publicado durante sua vida (só distribuído aos amigos)
¾ com uma linguagem gnóstica e a assinatura de Basílides
no lugar da sua. Jung escreveu como um gnóstico da época
da composição do Evangelho segundo Tomé,
que segundo algumas fontes pode ter sido escrito por Valentino
ou alguém da sua escola. A linguagem do livro foi toda
gnóstica e poderia pertencer a época do Evangelho
segundo Tomé. Jung também escreveu uma obra de inspiração
gnóstica chamada “Aion”, nela desenvolve o
simbolismo de Cristo e do Si-mesmo com grande profundidade. Numa
abordagem parapsicológica, a vida de Jung está cheia
de acontecimentos impressionantes e, desde cedo em sua vida Jung
participou direta ou indiretamente de fatos inexplicáveis.
Em sua casa materna, faca e móvel rachavam sem motivo aparente.
Podemos ainda citar a sua tese para tirar o ‘Grau de Doutor
em Medicina’, “Sobre a psicologia e patologia dos
fenômenos chamados ocultos”, como uma tendência
precoce pelos fenômenos sobrenaturais. Esta seria uma linha
para avaliar o Jung como pessoa e seus escritos mais tardios.
Em princípio, o assunto foge do artigo e também
da psicologia profunda e das teorias junguianas clássicas.
Cena
13
Frankie vai a boate e ao encontrar com Donna declara: "Sabe
o que apavora mais que não acreditar em Deus? Acreditar
nele!" Reclama do sofrimento dos estigmas num visível
aumento de conflito espiritual. Logo em seguida começa
a receber o 3° estigma correspondente a coroa de espinhos.
Apavorada sai correndo na chuva. Quando se aproxima do seu apartamento
vê Andrew que fora lhe procurar. Ela foge para um beco com
Andrew no seu encalço e ele presencia diversos fenômenos
para-normais: pombas voando, vento, vapor, escada que cai e vidros
quebrando. Frankie como que possuída fala e escreve em
aramaico no capô de um carro. Na cena persiste o erro do
filme, o evangelho de Tomé foi escrito em copta, com escrita
e fala em aramaico. No padre Andrew somem todas as dúvidas
sobre os estigmas e os fenômenos que acompanham Frankie.
O terceiro estigma atinge a cabeça, simbolicamente a mente,
o pensar, a consciência; agora Frankie não duvida
dos fenômenos divinos e do seu chamado espiritual.
No beco aparece uma nova simbologia: a escada que cai na vertical
e os vidros quebrando. Pode ser uma referência a arrogância
de Andrew como vinha se comportando frente a santidade de Frankie
e a necessidade de quebrar sua persona de padre, seu espelho que
reflete para a sociedade algo que ele não é ou não
deveria ser.
Cena
14
Andrew leva Frankie para a igreja do padre Durning. Ele adentra
a igreja com Frankie no colo. A cena é forte, um padre
carregando uma mulher que está se 'santificando', lembra
o ritual do casamento pagão, do 'hierógamos', onde
a noiva é raptada e, para nós restou o carregar
a noiva no colo para entrar na câmara nupcial, normalmente
um quarto. A cena é um prelúdio do final do filme,
do casamento com o sagrado que seria o coroamento de um 'processo
de individuação'. Repete-se o cheiro de flores.
Andrew manda a gravação feita no beco para o padre
Gianni em Roma, ele responde que alguém falava aramaico
do início do primeiro milênio, usado na Galiléia.
Frankie levanta-se e anda pela igreja, observando uma imagem do
Cristo crucificado notando a diferença do local dos cravos,
da mão para o pulso. Frankie começa aí uma
comparação de seu sofrimento com a paixão
de Cristo. Andrew explica que a imagem não é correta,
os romanos prendiam as pessoas pelo pulso quando as colocavam
na cruz.
A cena corta para Frankie no alto do seu prédio lendo seu
bilhete em italiano: "Parte um pedaço de madeira e
ali estarei ergue uma pedra e me encontrarás". A cena
pode sugerir uma dúvida entre suicidar-se ou não.
Eu fico mais inclinado a ver Frankie num prelúdio de elevar-se
espiritualmente, pois o prédio onde ela mora lembra uma
catedral, outras tomadas já deram essa idéia. De
qualquer forma todas as duas são válidas no contexto.
Cena
15
Continua chovendo... Andrew vai até o apartamento de Frankie
e a encontra envelhecida rabiscando a parede da sala em aramaico
como se estivesse possuída. Andrew fotografa a cena e percebe
a transformação física e psicológica.
Pergunta então: "Quem é você?" A
resposta vem com uma voz grossa nitidamente masculina: "O
mensageiro não é importante". Frankie caminha
lentamente como um velho, vai até a cama e deita, a água
pinga em seu rosto e ela volta à juventude. De novo o anel
de Frankie é verde. Já normalizada e com sua voz
restabelecida declara angustiada: "Meu coração
está se partindo! Estou muito triste"! Repete-se o
cheiro de flores acrescido do espanto de ter escrito em aramaico
na parede.
Cena
16
A cena volta ao Vaticano. O cardeal Houseman está preocupado
com as notícias nos jornais, principalmente pela má
repercussão na mídia.
Novamente Andrew fotografa exaustivamente a parede enquanto Frankie
brinca com pombos na janela. Ela está bastante abstraída,
comprovando a evolução do seu estado em relação
ao que vem acontecendo. As fotos descontrolam Frankie e os pombos
voam. Andrew duvida que ela possa ter recebido as mensagens e
aventa a possibilidade do fenômeno ser de criptomnésia.
Frankie se aborrece e vai para a rua com Andrew no seu encalço.
Frankie fica olhando e selecionando flores. Depois resolvem sentar-se
em um bar ao ar livre.
O padre Andrew conta que flutua entre padre e cientista, vai então
reforçando a figura do padre que perdeu a fé. Era
um químico orgânico e foi buscar as respostas para
a ciência na fé católica. Acabou perito em
descobrir fraudes em possíveis milagres. Como cientista
viu que o mundo deveria ter sido criado por um Deus. No diálogo
declara que era um homem de ciência e depois por descrédito
procurou a religião. O que estava abalado era a sua fé,
tanto que no final foi testado pelo fogo quando vai salvar Frankie
do exorcismo. Quem lhe mostra o caminho de volta para a fé
é uma figura feminina, talvez uma expressão de sua
'anima' na forma santificada. A Anima quando bem trabalhada é
quem conduz o homem ao encontro com o Self e no final vamos intuir
esse fato com a cena do lençol envolto no corpo de Frankie,
o pássaro e o caminhar pelo bosque, associado a imagem
de São Francisco. Para confirmar mais ainda a linha não
sexual de seus problemas, o assunto da conversa vai para o celibato,
com Andrew declarando: "troquei um monte de complicações
por outras".
Surge o 4° estigma, dos cravos nos pés. Os pés
além da sua representação da sexualidade
nos mostra o contato com o chão, com a realidade, com o
cotidiano. Frankie precisa desligar-se de mais esta etapa para
uma percepção maior e mais diferenciada do inconsciente.
Cena
17
Andrew leva Frankie para casa. Fala das cinco chagas, principalmente
da última, a do flanco ou fígado. O flanco, rins
em algumas traduções da Bíblia e principalmente
o fígado são representações do inconsciente
pessoal, assim como o coração. São órgãos
vitais que em tempos remotos ¾ quando atingidos por objetos
perfurantes ¾ levavam o homem à morte. Andrew conta
dos estigmas do padre Pio, no sul da Itália, morto em 1968.
Lembra da mesma idade de Frankie, 23 anos e a de São Francisco
de Assis. Fala que:
Todos os estigmatizados sofrem o mais intenso conflito espiritual.
Quanto mais perto de Deus, mais sujeitos ficam a tentação,
as visões do mal, ao tormento de seus demônios.
Os estigmatizados são nossos conhecidos principalmente
vistos pela visão da igreja católica. Muitos estudiosos
pesquisaram o problema e não acham que os estigmas possam
ser de origem divina. O autor do livro "Milagres", Scott
Rogo cita o testemunho de um grande pesquisador chamado Herbert
Thurston que ao duvidar do fundamento divino dos estigmas coloca
em primeiro lugar o fato de eles só começarem a
aparecer em 1224, com um santo. Os argumentos vão em direção
aos sintomas histéricos em vários devotos mas um
estudo mais aprofundado fugiria ao conteúdo deste artigo.
Cena
18
Andrew envia as fotos da parede para Gianni em Roma. Quando Gianni
vê o sinal da pomba, pára a transmissão assustado.
Aparece de novo a frase: "O Reino de Deus está em
vós e a sua volta e não em templos de madeira e
pedra." Gianni fala do fechamento da 'comissão dos
evangelhos' declarando que foi tradutor do evangelho de Tomé
com mais dois padres. Padre Dario descobre o envio das fotos e
mostra as mesmas para o cardeal.
Andrew percebe uma figura de fundo nas fotos, possivelmente do
padre Almeida. Delmonico liga para o padre Marion Petrocelli em
New York, o terceiro padre da foto do início do filme,e
avisa que Almeida está em Pittsburgh. Este é o lado
policial do filme, onde a trama é esconder o manuscrito
até sua tradução final e posterior divulgação.
Cena
19
Andrew vai para a casa de Frankie e a encontra maquiada, com os
pontos do braço quase cicatrizados. Ela oferece cerveja
'pintando um certo clima'. Andrew vê a parede da sala, que
continha as frases em aramaico, pintada de vermelho. Frankie avança
no processo de sedução e a água que pinga
entra em ação novamente. Andrew não corresponde
ao jogo sensual. As vezes quando avançamos no processo
de individuação temos uma espécie de recaída,
como num movimento espiralado. Essa recaída pode ser pelo
lado do conflito sexual, como se nossa energia psíquica,
como a água, ao encontrar uma barreira vai pelo caminho
mais fácil.
Frankie é então atacada pela possessão do
padre Paolo Almeida misturando os sentimentos perturbadores da
recusa ao contato sexual. Sucede uma série de agressões
físicas ao padre Andrew. Quando vemos um padre beijar uma
fiel ou discípula na vida real, é claro que o padre
e a mulher estão com grandes conflitos de sua anima/animus/sexualidade.
Aqui no filme o diretor possivelmente não conseguiu diferenciar
sexualidade, sensualidade e 'energia psíquica'. Muitos
aí se confundiram, nosso exemplo maior é Freud que
tem a desculpa de ter sido o pioneiro. Nós humanos temos
o sexo como em um mamífero primata, puro instinto. Temos
a sensualidade que fica como numa encruzilhada entre sexo e energia
psíquica, sendo que esta pode levar o ser humano para a
espiritualidade. Podemos e devemos fazer o sexo animal, mas já
temos consciência suficiente para não desviar a energia
psíquica do sexo para o religioso e nem a do religioso
para o sexual. Os gregos usavam a sensualidade das deusas para
o divino, suas estátuas eram nuas, com curvas pronunciadas
e ficavam no templo religioso. Sei que é difícil
tratarmos o tema sexo sem um mínimo de projeção,
principalmente quando se é jovem, mas se quisermos evoluir
temos de tentar não projetar tanto nossa anima/animus no
sexo oposto.
Em seguida vem a cena mais bonita do filme. Primeiro Frankie pega
uma faca e corta o seu braço, depois perfura-o e em seguida
cai em direção a cama, mas ela se move. Frankie
fica suspensa no ar, deitada. Continua a flutuar só que
agora em pé, na posição da crucificação.
Permanece por um tempo crucificada no ar chorando lágrimas
de sangue. Andrew retira-a da suposta cruz.
Cenas
20 e 21
Padre Marion Petrocelli recebe um fax, em New York, com o texto
em aramaico. Andrew cuida de Frankie em casa, pega o rosário
de Almeida e reza. A água pinga mais uma vez. Andrew deita
na cama com Frankie para consolá-la.
Chegam ao apartamento de Frankie: o cardeal Houseman e os padres
Dario e Durning. Como sempre está chovendo. Os três
levam Frankie para a arquidiocese, e lá ela fica aos cuidados
de duas freiras. Andrew conversa com o cardeal que mente a respeito
do Evangelho de Tomé.
Cena
22
Andrew volta para a igreja e encontra o padre Marion Petrocelli
que veio de New York procurar o padre Almeida (ele acha que só
o padre almeida poderia ter escrito aquelas palavras na parede
do apartamento de Frankie). Como sempre está chovendo.
O padre Marion Petrocelli fala de pergaminhos no Mar Morto, do
século I, encontrado em 1945, perto de Jerusalém
e da escrita em aramaico; erros que já citamos anteriormente
(houve uma descoberta de manuscritos no Mar Morto, em 1947, em
Qumran, mas lá não foi encontrado o Evangelho de
Tomé). Conta do padre Almeida fugindo com os pergaminhos
quando a igreja queria bloquear sua publicação.
Repete a fala: ¾ "O Reino de Deus está em vós...
e não em templos de madeira e pedra.". Comenta o fato
do padre Almeida ter estigmas nas mãos e como num estalo,
Andrew descobre que Frankie é o mensageiro de Almeida.
Percebemos na cena que o padre Petrocelli revela seu lado sombrio
misturado com o da igreja.
Cenas
23 e 24
Na arquidiocese o cardeal Houseman tenta expulsar a alma do padre
Almeida que estaria possuindo à Frankie. Frankie misturada
com a possessão de Almeida percebe a situação
e se prepara para enfrentar o cardeal. Andrew, depois da conversa
com Petrocelli, percebendo o perigo de vida de Frankie e corre
para a arquidiocese. Mais uma vez está chovendo. Volta
a cena do exorcismo de Frankie com cada freira segurando um braço,
como os dois bandidos na cruz ao lado de Cristo. A alma de Almeida
incorpora em Frankie e o cardeal perde o controle da situação,
então expulsa os membros da igreja do quarto e tenta matar
a moça. Andrew chega a tempo de retirar o cardeal do quarto,
usando da força física.
Cena
25
Andrew volta para o quarto encontrando Frankie possuída
por Almeida e muito fogo ao redor do leito. Almeida fala das dúvidas
religiosas de Andrew e este entra no meio do fogo pedindo para
Almeida ir em paz. Frankie volta a falar com sua voz enquanto
uma pomba voa através do fogo. Ao passar no teste do fogo
Andrew salva Frankie e libera a possessão. O fogo cessa.
Aqui temos o tema de: passar no teste de fogo, ser purificado
pelo fogo, livrar-se de suas impurezas queimando-as no fogo. Andrew
retira Frankie do quarto, no colo e envolta em um lençol
branco.
Cenas Finais
O filme em VHS e DVD apresenta dois finais. Basicamente a diferença
é a morte de Frankie em um deles, quando sofre o quinto
estigma.
Cena
26
Andrew sai da igreja com Frankie no colo enrolada em um lençol
branco e chega a um belo jardim. A sua esquerda vemos a estátua
de São Francisco de Assis. Já não chove mais,
embora apareça uma suave névoa. O jardim está
bastante florido. Andrew senta no banco com Frankie no colo, pede
para ela ficar viva e dá um suave beijo na sua boca.
Na versão com a morte de Frankie, aparece uma mancha vermelha
no lençol insinuando o sangramento do 5° estigma, a
lança no flanco de Jesus que possivelmente atingiu o fígado.
Ela morre, mas sua alma caminha pelo jardim, onde uma pomba pousa
na sua mão. A imagem desvanece no jardim voltando a tomada
com Frankie morta no colo de Andrew.
Podemos ver a ausência de chuva como a tomada de consciência
de Frankie, principalmente, se olharmos a chuva como o inconsciente
enviado pelos céus, pela divindade. O quinto elemento,
como a fase de consciência final, está na quinta
ferida de Cristo assim como na quinta etapa de Jung. O desabrochar
das plantas em flores pode ser visto como a sua transformação
final; com os seus órgãos reprodutores exuberantes
a se perpetuarem e difundindo sua natureza pelo pólen,
com a ajuda dos pássaros, do alado, do divino.
Na versão em que Frankie vive ela levanta do colo de Andrew
e passeia pelo jardim com a pomba vindo em sua mão e depois
voando, indo embora. Frankie passeia pelo jardim florido e a cena
sugere uma comparação com São Francisco de
Assis.
O fato de ocorrerem cinco estigmas nos leva a uma tentativa de
compará-los com as cinco etapas da individuação
propostas por Jung e, tão bem relatadas no livro de Murray
Stein, “Jung - O mapa da Alma”. Vou usar o livro como
base tentando fazer um paralelismo entre as cinco fases da individuação
apresentadas por Stein e as cinco chagas de Cristo. Os cinco estigmas
podem ser vistos pelo lado simbólico; pulso/mão,
costas, cabeça, pés e fígado, conforme já
descrevi acima. A morte no final pode ser vista como uma morte
psicológica de uma vida puramente de prazeres e inconsciente;
portanto uma morte evolutiva. A individuação para
Jung é uma evolução natural de todo ser humano
que pode ser acelerada ou não.
Para vivenciarmos as cinco etapas do desenvolvimento da consciência
podemos fazer uma simples experiência prática: amarre
duas pedras com um elástico forte (do tipo que encontramos
em pastas de cartolina), coloque uma em cima da outra e cubra
com um lenço opaco e estaremos olhando para a primeira
fase. Retiramos o lenço e contemplamos as pedras sobrepostas
e temos a segunda etapa. Começamos a afastar uma pedra
da outra, é a terceira etapa. Depois do elástico
bem esticado vamos mentalmente imaginar um ou mais símbolos
transcendentes e concluímos a quarta etapa. Pela ação
dos símbolos, a tensão no elástico cede e
voltamos a juntar as pedras sem sobrepô-las, é a
quinta etapa. Vamos fazer uma breve exposição das
cinco etapas.
1ª etapa: O antropólogo francês Lévy
Bruhl chamou-a de 'Participation Mystique', é a etapa da
identificação da consciência com o mundo,
onde a consciência e o objeto são a mesma coisa;
é nossa identificação com o objeto, natureza,
bens materiais, etc. Quando um primitivo ouve uma voz interna
ele sempre atribui a Deus, ao Diabo, a uma árvore, um duende,
um animal, etc. Pode parecer que a fusão com a natureza
é uma totalidade, mas ela é inconsciente.
2ª etapa: Nesta etapa começamos a reconhecer um mundo
exterior e a projetar nossos conteúdos inconscientes. É
a etapa das projeções arquetípicas, as projeções
são seletivas e o inconsciente tem preferência por
colocá-la nos objetos. Podemos subdividi-la em vários
arquétipos: pai, mãe, irmãos, professor,
padre, amigo, chefe, esposa, filhos, etc....
3ª etapa: Começamos a reconhecer o outro, as projeções
são menos em coisas e pessoas e mais em princípios.
Deus ainda existe fora se, somos religiosos, mas não conseguimos
internalizá-Lo. Sabemos que o mundo possui existência
própria e não podemos interferir na natureza.
4ª etapa: Vamos tirando lentamente as projeções,
sempre com o cuidado de não trocar uma projeção
por outra achando que a retiramos. Devemos ter cuidado com 'culpa
e inflação' que são projeções
negativas e positivas no ego. Pensemos no 'Além do homem'
de Nietzsche e podemos ter uma idéia das dificuldades.
5ª etapa: Aqui começamos a deslumbrar o Self, a Imago
Dei. Estamos juntos de Deus sem sermos Deus, aceitamos a nós
mesmos e conseqüentemente os outros, pessoas, objetos, natureza,
etc. Aceitamos inteiramente o inconsciente como uma unidade a
parte que pode interferir na nossa vida.
Cena
27
A cena começa com o foco na igreja de Belo Quinto. Andrew
aparece abrindo em frente a santa, um alçapão no
chão, retira de lá um rolo de papiro e a tradução
correspondente, com isso recupera o belíssimo Quinto Evangelho.
Na versão com a morte de Frankie, Andrew coloca o retrato
dela aos pés de Nossa Senhora. Surge uma voz de fundo:
: "Estas são as palavras ocultas que Jesus proferiu
em vida..."
: "Quem descobrir o significado destas palavras não
conhecerá a morte."
A imagem interna da igreja amplia-se, com a câmara focando
no Cristo crucificado, do lado de fora o sol está quase
no meio-dia.
O início do Evangelho de Tomé começa com
a frase acima e o login número um registra a segunda frase.
O sol fulgurante do meio-dia mostra a vida em sua pujança
e nos convoca a uma busca constante, com a certeza de que é
o corpo que morre e a alma permanece, mesmo com o sacrifício
mortal do nosso ego teimoso. Só nos resta reler o Evangelho
de Tomé e extrair dele todos esses ensinamentos profundos.
The
End.