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SOBRE A FALA DO ANALISTA

Priscila Valente Alonso

Antes de existir a voz, existia o silêncio...
Vamos ouvir este silêncio, meu amor
Amplificado no amplificador
No estetoscópio do doutor
Lado esquerdo do peito, este tambor.
(Arnaldo Antunes)

Tenho estado atenta à este tema há algum tempo. E nas discussões em algumas aulas de formação no primeiro semestre deste ano, fui mais uma vez tocada, a ponto de mobilizar-me a tentar escrever sobre o assunto.
Refletir e pensar sobre o assunto é dar-se conta de escolher cuidadosamente o que temos “em mãos”. No consultório, trabalhamos com a fala frente ao paciente, este é o instrumento de nosso trabalho, como o dentista que escolhe cuidadosamente o melhor material para aplicar ao paciente, negligenciar o que falamos é como não usar a “broca” da melhor qualidade.
Como podemos pensar então a fala do analista?
Qual a língua do inconsciente? Como se traduz o inconsciente, que faz parte da alma, e também a própria consciência?
Etimologicamente, psicologia (logos da psique) significa razão, discurso, juízo da alma, ou seja temos a tarefa de compreender a alma, e de encontrar a discurso da psique.
Não serve qualquer coisa, qualquer palavra.
Qual a linguagem que traduz a fala da alma? Se é que ela pode ser traduzida... A alma não é traduzível, ela é “lível”, digamos, lê-se a alma, não a traduzimos. Qualquer tradução forçaria a barra, e na leitura podemos ficar com o evento tal como ele é, sem aprisioná-lo em traduções.
A psicologia criou termos e nomes que a distanciaram da fala da alma, “psicologizando” e “patologizando” a alma. O avanço da psicologia científica, da linguagem técnica da psicologia, permitiu que termos da psicopatologia descrevessem estados de alma caracterizando a própria psicologia. Talvez ela mesma, a psicologia, tenha se confundido com os termos psicopatológicos, enquadrando-se neles para explicar e aliviar a angústia da tradução e compreensão da alma. Nossa linguagem assim ficou: “desenvolvimento de ego”, “neurose”, “sintomatologia”, “tipo extrovertido com função superior sensação”, “depressão”, etc. Hillman diz: “Quando a psicologia se torna uma especialidade e a psique é divulgada num manual acadêmico, a alma desaparece (...) a psicologia acadêmica tem sido uma psicologia sem alma desde o início”.¹
É como se, historicamente, tivéssemos ficado distantes, ou perdido a linguagem que revela o material com que trabalhamos.
Trabalhamos com gente.
Como seria o olhar através da dor e do prazer, que nomes teriam tais sensações?
Não pretendo desvalorizar, nem menosprezar todos os termos por nós conhecidos, mas proponho uma reflexão sobre este tema. Todos os termos da psicopatologia são nomes que nos norteiam, porém não precisamos lidar com eles obedecendo-lhes. Muitos de nós analistas usamos a linguagem científica da psicologia, para falar aos nossos pacientes, e dos nossos pacientes, de uma maneira defensiva, asséptica. Penso que poderíamos tentar utilizar a fala, nosso instrumento, escolhendo mais amorosamente as palavras e menos cientificamente.
Jung também tocou neste assunto quando relata: “... algumas vezes fiquei embaraçado quando algum aficcionado por palavras me pressionava para lhe transmitir uma diagnose específica (...) há expressões na linguagem comum que descrevem adequadamente os fatos psicoterapêuticos essenciais”.² Ao que me parece, ele se coloca a favor de uma linguagem mais comum, mais “dionisíaca” e menos “apolínea”, apesar de referir-se `a fala da psique, da alma e não necessariamente à do analista, ainda que a fala do analista, tenha muito a ver com a da alma, da psique.
A consciência analítica, nosso instrumento intelectual, poderia deixar-se ser pega pela psique e não tentar aprisionar a psique nos termos da linguagem científica, que aproxima nosso pensamento de classificações. Penso que a fala do analista deve conter metáforas, adjetivos, substantivos. Necessitamos de afinação e sintonia com a psique, com as imagens, com a alma, o inconsciente, a consciência, na tentativa de fazer do discurso analítico uma “poesia”, para que não caia nos ouvidos do paciente como mais um discurso rígido.
As palavras têm muito poder, a mesma coisa pode ser dita de várias maneiras. Então como ajudar e curar, ser remédio para o paciente com nossas palavras, com a fala? Como nossa fala de analistas relaciona-se com as palavras do analisando que fala de sua alma na linguagem popular e comum?
Diz Jung: “Minha necessidade consiste sobretudo em apreender condições complexas e ser capaz de falar sobre elas. Devo ser capaz de expressar coisas complicadas em linguagem acessível e distinguir entre vários grupos de fatos psíquicos. Estas distinções não podem ser arbitrárias, porque devo chegar a um entendimento com o objeto de que me ocupo, isto é, de meu paciente”.³ Isso lembra a vocação da psicologia de compreender a alma, como citei acima. O que nos caracteriza como analistas junguianos, é o fato de estarmos envolvidos com nosso paciente numa relação simétrica, onde consciente e inconsciente tanto do analista como do analisando estão operando num processo dinâmico e real, com a participação de conteúdos pessoais e arquetípicos de ambos e tanto a fala como o silêncio traduzem e revelam esta experiência, como num ritual.
Tenho percebido na minha prática clínica, que muitas vezes o silêncio diz mais do que preencher o tempo com palavras soltas, até mesmo porque muitas vezes, não sei o que dizer. Alguém, aliás, já falou (não lembro a fonte) que quando não sabemos o que fazer, o melhor que temos a fazer é não fazer nada. Neste caso, seria não falar nada.
Podemos considerar o silêncio como parte da fala do analista. Na etimologia da palavra, silêncio vem de sileo- silentium, que significa: estar em repouso, tranqüilidade, descanso, ausência de qualquer estorvo. O silêncio pode preceder a maneira de falarmos ao nosso paciente, inspirando-nos na escolha da fala ou na permanência no próprio silêncio. “Antes de existir a voz, existia o silêncio”, diz Arnaldo Antunes numa de suas músicas.
A tentativa de escolher as palavras que digam o que queremos dizer com a precisão da psique, portanto não se trata de uma fala inculta. É importante ter intimidade com as próprias palavras, perceber a precisão na espontaneidade da psique. As palavras evocam a experiência no estado puro. E o que fazemos, nada mais é do que aproximar o paciente de sua própria experiência, ritualizando-a através do discurso. Toda vez que colocamos uma experiência numa linguagem que a defina, esquecemos a experiência. A fala afinada, em sintonia com a alma evoca em quem escuta novas histórias, novos discernimentos, novas imagens, fantasias, recordações, nos conduzindo à participação imediata ao conteúdo que nos é trazido pelo paciente. A alma fala muitas línguas. James Hillman chamou atenção ao que me refiro neste parágrafo afirmando que “...para a psique, a linguagem correta é tão sagrada quanto o ritual...” (...) “a psicologia – cuja prática era conhecida no início como a “cura pela fala” e que é, portanto, um ritual da palavra – requer , para sua renovação e para sua cura, preliminarmente uma renovação e cura de suas palavra”.³-¹
Minha intenção é submeter à reflexão as palavras e o tema que me propus, ou seja, a fala do analista. Essas são idéias iniciais, as quais eu gostaria de compartilhar com colegas, podendo prosseguir para um estudo mais elaborado.
No tempo em que estive pensando e elaborando meu trabalho, “caiu” em minhas mãos, uma crônica com o título Palavras, da escritora carioca Adriana Falcão. Um texto a meu ver muito sensível, e que me emocionou pelo fato de estar às voltas com o assunto. Finalizarei transcrevendo uma parte dele:
“As gramáticas classificam as palavras em substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, conjunção, pronome, numeral, artigo e preposição. Os poetas classificam as palavras pela alma, porque gostam de brincar com elas, e pra brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, que se coloca entre o significante e o significado pra dizer o que quer, pra dar sentimento às coisas, pra fazer sentido”.(...) “ As palavras têm corpo e alma mas são diferentes das pessoas em vários pontos. As palavras dizem o que querem, está dito, e pronto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas A palavra juro, não mente. (...) A palavra liberdade não se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia. Palavras sempre sabem o que querem.”³-²
Priscila Valente Alonso
julho/2003
______________________________________ revisão set/out/2003
Notas
¹ Hillman, James_ O mito da análise_ Editora Paz e Terra, 1984.
² Jung, C. Gustav _ CW XVI, prg 195-196.
³ Jung, C. Gustav_ CW VIII/2, prg 286.
³-¹ Hillman, James _ O mito da análise _ Editora Paz e Terra, 1991.
³-² Falcão, Adriana _ O doido da garrafa _ Editora Planeta, 2003.


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