PRINCIPIUM
INDIVIDUATIONIS
Ricardo
Franco de Lima
Arquétipos
e desenvolvimento psíquico
Resumo
A individuação é o processo arquetípico
que representa a jornada do ego em busca do Self. O presente artigo
aborda os principais arquétipos do inconsciente coletivo
como elementos que estruturam o crescimento psíquico e
guiam a individuação.
“(...) os conteúdos do inconsciente desencadeiam
um desenvolvimento ou uma verdadeira metamorfose da psique”
Jung
1. INTRODUÇÃO
Jung
(1989, p. 19) inicia o prólogo de sua autobiografia com
a afirmação: “minha vida é a história
de um inconsciente que se realizou”. Essa frase resume aquilo
que ele dedicou toda a sua vida e representa sua maior contribuição:
o estudo do inconsciente.
Esse estudo ocorreu através da análise das produções
simbólicas das civilizações, de seus pacientes
e principalmente, pelo submetimento aos desígnos de seu
próprio inconsciente.
O período de sua vida após o rompimento com Freud
que ele chamou de “confronto com o inconsciente” foi
particularmente importante, pois segundo ele, foi um período
de desorientação em que buscava sua própria
posição teórica e de vida (sua visão
de homem e mundo) (ibid, p. 152).
A importância que as imagens – símbolos tiveram
em sua vida pode ser vista na seguinte passagem:
“Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores
constituíram a época mais importante da minha vida
e neles todas as coisas essenciais se decidiram. Foi então
que tudo teve início e os detalhes posteriores foram apenas
complementos e elucidações. Toda minha atividade
ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles
anos e que inicialmente me inundara: era a matéria –
prima para a obra de uma vida inteira” (ibid., p. 176).
2. PRINCIPAIS CONCEITOS
Mas
como Jung definiu o inconsciente ?
De acordo com sua teoria, há dois tipos de inconscientes:
Inconsciente Pessoal e Inconsciente Coletivo. O primeiro abriga
eventos pessoais e cotidianos que são reprimidos ou simplesmente
esquecidos. Também fazem parte dele, percepções
subliminares às nossas sensações. Ele é
dinâmico e exerce uma função compensatória
à consciência. (JUNG, 1985). Esse conceito aproxima-se
do que Freud compreendeu como inconsciente.
O Inconsciente Coletivo representa a dimensão universal
do indivíduo. É constituído por conteúdos
herdados e que nos ligam simbolicamente à toda a humanidade.
Esses conteúdos são imagens primordiais chamadas
de Arquétipos (ibid.). A elaboração desse
conceito foi um dos grandes divisores de águas entre as
teorias de Jung e Freud, pois Jung aprofunda a visão de
inconsciente, resgatando as dimensões simbólica
e religiosa.
Os arquétipos são princípios, formas sem
conteúdo. Segundo Jung (1989, p. 352), eles são
“vazios em si”, que serão preenchidos pelas
experiências de vida de cada um. Por não possuírem
uma forma, eles manifestam-se através de símbolos
ou comportamentos. De acordo com Santos (1976, p. 26), eles constituem
“possibilidades de o indivíduo agir de uma certa
maneira diante de certas situações da vida”.
Por exemplo, uma mulher grávida “preencheria”
com suas experiências maternas o arquétipo maior
de Mãe.
Jung (1989) afirma que esse conceito surgiu através das
observações dos mitos, contos, fábulas universais,
pois eles abordam temas e representações específicas
que apareceram em diferentes povos de todas as partes do mundo.
Um exemplo disso ocorre com o conto “As orelhas do Rei”
que trata da sombra (defeitos, medos, etc.) presente por trás
do herói, possui correspondentes como: as histórias
judaicas “O Sonho do Rei” e “O Avarento”,
o conto russo “O Czar e o Anjo”, o conto indiano “O
Rei que queria ser mais forte do que o destino” ou “Sonhos”,
da China.
Segundo Magalhães (1984) seria difícil distinguir
ao certo os dois tipos de inconsciente, pois todos os elementos
que surgem à consciência possuem algo de arquetípico.
Os arquétipos per se não são acessíveis
à consciência e sim suas representações
ou imagens – símbolos.
Podemos afirmar que as imagens – símbolos atuam como
uma ponte de acesso ao nosso inconsciente coletivo. No entanto,
elas podem acumular-se no inconsciente pessoal e ligar-se à
emoções, sentimentos, vivências positivas,
auxiliando o desenvolvimento psíquico ou então,
à conteúdos reprimidos, formando complexos (MAGALHÃES,
1984).
Os complexos possuem em sua estrutura, um arquétipo atrelado
à conteúdos com elevada carga afetiva que consome
grande parte da energia psíquica. É a nossa inconsciência
(ignorância) dele que lhe fornece essa carga energética.
Quando são mobilizados por conteúdos internos (lembranças,
sensações, sentimentos) ou externos (situações
específicas), os complexos podem constelar à consciência,
influenciando diretamente os comportamentos do indivíduo
(ibid.).
Segundo Lindmeier (2000), além de integrarem os complexos,
as imagens - símbolos podem ser projetadas para pessoas
e objetos do ambiente, limitando nossa percepção.
Um indivíduo com um complexo paterno, em função
de um trauma, por exemplo, pode projetar essa imago paterna para
indivíduos do sexo masculino, manifestando raiva ou rejeitando
essas figuras. Ou ainda, pode sentir-se profundamente mobilizado
por situações, imagens, histórias, etc, que
expressem a relação entre pai e filho.
3.
PRINCIPIUM INDIVIDUATIONIS
Segundo
Jung (1986), o psiquismo está em constante transformação.
Ele chamou de Individuação, o processo universal
e arquetípico de mudança e crescimento psíquico.
De acordo com Gorresio (1997, p. 113), esse conceito (principium
individuationis) é antigo no pensamento filosófico,
ligando – se ao filósofo neoplatônico romano
Plotino (205 – 262 d.C.). Contudo, foi Jung quem evidenciou
a alienação do homem em relação ao
Si – Mesmo (Self – Selbst), vivendo em um constante
estado de desarmonia interior. Nesse contexto, a individuação
é a grande “jornada do ego na busca e no aumento
do Si – mesmo”.
Ele expressa o processo de voltarmos a olhar para nós mesmos
e reconhecermos como somos, o que gostamos e o que não,
quais são os nossos defeitos, “demônios”,
e qualidades. É a reconstrução de nossa identidade
individual e universal, já que esse é um processo
arquetípico.
Várias histórias, mitos, contos, retratam essa “inclinação”
humana ao desenvolvimento psíquico e evolução
espiritual. Dentre eles, podemos citar, por exemplo, a lenda do
Santo Graal e o mito de Eros e Psique. De acordo com Bulfinch
(1965), psique em grego significa borboleta ou alma. No mito,
psique representa a purificação da alma, que após
uma longa jornada cheia de infortúnios e sofrimentos, pode
gozar da mais pura felicidade e tornar-se imortal.
A individuação é o deslocamento do centro
da nossa consciência do Ego para níveis mais profundos
do Self. De acordo com Von Franz (1964), é como se o ego
existisse somente para auxiliar a realização da
psique, não consistindo assim, nossa realização
última. Dito de outra maneira, a estruturação
do ego não é um fim em si, mas necessária
para que ele nos auxilie em nosso desenvolvimento mais amplo.
Nesse processo, devemos contar com a participação
ativa de um ego estruturado que seja capaz de tomar decisões,
cooperar e principalmente, escutar atentamente os símbolos
(sinais) advindo do Inconsciente, pois eles que indicarão
o caminho a seguir.
Segundo Gorresio (1997), isso representa o aspecto ético
da individuação, pois o ego se propõe a observar
os símbolos do inconsciente e ser fiel à eles. Esta
seria uma grande questão da pós – modernidade.
Estamos a maior parte do tempo voltados para o mundo externo,
para o excesso e acúmulo de informações e
negligenciamos os cuidados com o nosso corpo e nossa alma.
Tenzin Gyatso (2000, p. 58) reforça a dimensão social
do desenvolvimento interior. Segundo ele “um ato ético
é aquele que não prejudica a experiência ou
a expectativa de felicidade de outras pessoas”. Seguir o
caminho interior nos põe em contato com o Outro. Não
estaremos “plenamente” realizados se aqueles que amamos
sofrem.
4.
ARQUÉTIPOS
Dentre
os principais arquétipos anunciados por Jung, estão
aqueles que configuram o psiquismo: a persona, a sombra, a anima,
o animus e o Self.
A palavra Persona significa “máscara” e representa
a forma como nos apresentamos ou somos levados a nos apresentar
à sociedade. Assim, possui relações com o
nosso Ego Ideal e nem sempre corresponde com nossa identidade
real (MAGALHÃES, 1984). Segundo Jung (1985, p. 32) “como
seu nome revela, ela é uma simples máscara da psique
coletiva, máscara que aparenta uma individualidade, procurando
convencer aos outros e a si mesma que é uma individualidade,
quando, na realidade, não passa de um papel, no qual fala
a psique coletiva”.
A máscara é expressa por nossos títulos,
ocupações, papéis, nomes que são necessários
e dizem respeito a nós mesmos, no entanto, não em
um nível mais profundo. A identificação extrema
do indivíduo com esses conteúdos ou ainda com os
complexos constelados, pode levá – lo ao que Jung
(1986) chamou de Inflação.
Outro arquétipo o qual no deparamos é o da Sombra.
Ela expressa tendências e impulsos que podem ser positivos
ou negativos e que negamos em nós mesmos. Geralmente são
defeitos e impulsos que não aceitamos como sendo nossos
e, portanto, projetamos em outras pessoas (JUNG, 1986).
“Portanto, seja qual for a forma que tome, a função
da sombra é representar o lado contrário do ego
e encarnar, precisamente, os traços de caráter que
mais detestamos nos outros” (VON FRANZ, 1964, p. 173). Por
isso, ela pode conter forças vitais positivas que devemos
elaborar e assimilar ao invés de reprimirmos. Caberia ao
Ego realizar essa diferenciação.
Com essa dimensão arquetípica, compreendemos que
a visão de homem na psicanálise é a de um
ser com tendências conflitivas (opostas), com aspectos positivos
e negativos. No entanto, esse conflito não é visto
como um impedimento à realização. Pelo contrário,
o ser humano realiza-se pela superação do conflito,
pois este o impulsiona `a busca e à transcendência.
Aceitar a sombra é aceitar a incerteza, aceitar que falhamos,
que muitas vezes não conseguimos, não nos realizamos,
nos frustramos, temos defeitos, não ajudamos ou compreendemos
ou outros, somos maus.
Esses aspectos dicotômicos também estão presentes
nos arquétipos anima e animus. A Anima expressa as tendências
psicológicas femininas na psique masculina. É a
imago materna, já que a primeira projeção
da anima do filho é em sua mãe (JUNG, 1986). Segundo
Von Franz (1964, p. 177) são características da
Anima, os “humores e sentimentos instáveis, as intuições
proféticas, a receptividade ao irracional, a capacidade
de amar, a sensibilidade à natureza e, por fim, mas nem
por isso menos importante, o relacionamento com o inconsciente”.
Algumas funções da anima seriam: a escolha da esposa,
sensibilização da mente masculina aos seus valores
internos, auxiliar no discernimento interno e mediar o contato
do ego com o Self.
Já o Animus são os aspectos masculinos na psique
feminina, correspondendo ao Logos paterno. Suas características
são: as convicções, opiniões, argumentos,
etc. Atender ao seu animus, auxiliar a mulher a ter mais iniciativa,
coragem e objetividade em suas decisões, características
essenciais do Logos (palavra, verbo, criação) (ibid.).
Esses dois arquétipos mediam nossas relações
com o Outro, a alteridade, a diferença, a realização
da polaridade (feminino e masculino) (MAGALHÃES, 1984).
Eles geralmente são projetados para os indivíduos
do sexo oposto. Por esse motivo, a forma como lidamos com o sexo
oposto nos fornecem indícios sobre como lidamos com as
nossas características femininas e masculinas.
Por fim, temos o Self (Si – Mesmo, Selbst) que é
o arquétipo central e regulador do psiquismo. É
a totalidade psíquica, integrando todos os arquétipos
e característica ao seu redor. Jung (1986, p. 29) afirma
que “o conceito de totalidade (...) é hierarquicamente
superior à sizígia (anima/ aminus) e à sombra,
mas mantém uma relação com estes já
que a sizígia representa simbolicamente a união
dos opostos”, condição indispensável
à individuação.
Sendo o “núcleo mais profundo da psique”, o
Self é expresso simbolicamente em sonhos, contos, histórias,
etc, sob diferentes formas. Na mulher pode surgir como uma figura
feminina superior como uma sacerdotista, uma feiticeira, etc.
No homem, como um guru, um velho sábio, etc. além
disso pode aparecer sob a forma de um ser gigante que contém
em si todo o universo, sob seres bissexuais, animais sagrados,
uma pedra preciosa (como a pedra filosofal da alquimia, lapis
philosophorum), etc. Ele pode se manifestar em nossos sonhos,
nos momentos críticos e que devemos tomar importantes decisões
ou que períodos de transição (VON FRANZ,
1964, p. 196).
Um símbolo bastante significativo do Self é o mandala.
Os mandalas (sânscrito, círculo) são figuras
circulares e simétrias, considerados um dos símbolos
mais antigos encontrados em manifestações artísticas
e religiosas de diferentes povos e épocas. Jung (1986,
p. 30) percebeu que eles apareciam no processo psicoterapêutico
de pacientes, em momento de desorientação e desorganização
psíquicas. “Eles (os pacientes) exocizam e esconjuram
sob a forma de círculos mágicos, as potências
anárquicas do mundo obscuro, copiando ou girando uma ordem
que converte o caos em cosmos”.
Por ser superior ao Ego, o Self também foi chamado de Deus,
Daimon, Voz Interior, que fornece as direções, a
energia (“o impulso ético”) para a individuação
(GORRESIO, 1997, p. 115).
Ao contrário do que possamos pensar, a individuação
não equivale ao individualismo, ou seja, a distinção
do homem enquanto uma absoluta individualidade destacada do contexto.
A jornada da individuação nos põe em contato
com nossos aspectos internos e à medida que aprofundamos
esse contato, percebemos a profunda integração existente
entre o indivíduo e o contexto. Desse modo, o crescimento
psíquico nos põe em contatos mais estreitos com
aqueles que nos cercam, pois percebemos que as distinções,
em um extremo, não existem. Por isso, podemos pensar que
o engajamento social e a assunção da responsabilidade
pelo meio são conseqüências desse processo,
pois tudo é visto como em um grande sistema de inter-relações.
“(...)
e o fim de vossa viagem será chegar ao lugar de onde partimos.
E conhecê-lo então pela primeira vez”
T.S. Eliot
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: a idade da fábula.
História de deuses e heróis. Rio de Janeiro: Ediouro,
1965.
GORRESIO, Z. M. P. A ética da individuação:
um estudo sobre a ética do ponto de vista da psicologia
junguiana. Hypnos, v. 2, n. 2, p. 112 – 118, 1997.
JUNG, C, G. O eu e o inconsciente. 5 ed. Petrópolis: Vozes,
1985.
______.
Aion. Estudos sobre o simbolismo do si – mesmo. 2 ed. Petrópolis:
Vozes, 1986.
______. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1989.
LINDMEIER, K. Avaliação experimental da interferência
dos arquétipos junguianos no fenômeno parapsicológico
da clarividência. Psico – USF, v. 5, n. 2, p. 25 –
63, jul./ dez., 2000.
MAGALHÃES, L. M. A. A teoria psicológica de Jung:
principais conceitos. In: REIS, A.O.A.; MAGALHÃES, L.M.A.
& GONÇALVES, W.L. Teorias da personalidade em Freud,
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em Psicologia, v. 7). p. 132 –162.
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Paulo: Sarvier, 1976.
TENZIN GYATSO (Dalai Lama). Uma ética para o novo milênio.
Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
VON FRANZ, M. L. O processo de individuação. In:
JUNG, C. G. (org). O homem e seus símbolos. 5ed. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira, 1964.
Ricardo Franco de Lima
Graduando em Psicologia (9º semestre) pela Universidade São
Francisco –
Itatiba/ 2004