POR
UMA PSICOLOGIA COM ALMA E BELEZA
Marcus
Quintaes
Ainda
será possível nos tempos de hoje, final de século,
onde os discursos neurobiológicos proliferam tentando capturar
tudo o que possa ser da ordem do psíquico, falar de psicologia?
Em
tempos onde estes discursos apresentam suas sofisticadíssimas
teorias da sinapse, teorias enzimáticas ou teorias neuronais,
faz sentido ainda usar uma palavra como alma?
Em
tempos onde a depressão, outrora conhecida como melancolia
ou como um estado afetivo regido pelo Deus Saturno é transformada
em um desequilíbrio químico no cérebro, é
possível afirmar que a Beleza é fundamental para
o psiquismo?
Acreditamos
que sim.
Uma
psicologia com Beleza e alma. É esta a proposta de James
Hillman e da Psicologia Arquetípica.
Hillman
que foi diretor de estudos do Instituto C.G.Jung em Zurique durante
dez anos, é sem dúvida para muitos, mas não
para todos, o mais importante e original pensador junguiano contemporâneo.
É
a partir de uma afirmação de Jung em seu livro "Tipos
Psicológicos", onde este situa a alma como um terceiro
lugar entre as perspectivas do corpo e da mente que Hillman irá
sustentar que a psicologia arquetípica baseia-se na alma,
isto é, ela é um "esse in anima", um estar
na alma.
Livre
das tentativas de aprisionamento pelos métodos das ciências
naturais, da metafísica, das psicologias das percepções
e das bases bioquímicas, a alma sustenta-se na imaginação
e revela o que James Hillman denominou a base poética da
alma.
Privilegiar
a alma significa retornar as imagens pois é assim que a
psique se apresenta espontaneamente.
Imagens
são os dados básicos da vida psíquica, são
o modo privilegiado de acesso ao conhecimento da alma. Nada é
mais primário na psique do que as imagens. Imagens são
a psique na sua visibilidade imaginativa, conforme Jung nos ensina
ao afirmar que "todo processo psíquico é uma
imagem e um imaginar".
James
Hillman irá propor uma psicologia da alma e da imagem.
Irá decompor a própria palavra "psicologia"
em "logos da psique" para re-significá-las como
estórias ou discursos da alma através das imagens.
Hillman
recorre a um fragmento do filósofo Heráclito para
apresentar sua psicologia:
"Por
mais que caminhe em todas as direções, jamais descobrirás
os limites da alma , tão profundo é o seu Logos."
Hillman
comenta que neste fragmento, Heráclito une alma, profundidade,
e a complexa palavra Logos numa única sentença,
relacionando e tornando-as necessárias umas às outras.
O
Logos da alma, a psicologia por excelência, na opinião
de Hillman é a capacidade de penetrarmos na profundidade
das coisas e de ouvirmos o que as imagens estão a nos dizer.
Neste sentido, os analistas são transformados em mitólogos
da psique, em estudiosos das narrativas da alma, pois um dos significados
primeiros da palavra mitologia é narração
de histórias.
Todos
aqueles que se juntam ao pensamento de Hillman unem-se em torno
da importância destas duas palavras: alma e imagem.
Podemos
perceber isto claramente quando Edward Casey, filósofo
que contribui com a psicologia arquetípica, diz que imagem
não é aquilo que vemos, mas sim como vemos. Para
ver uma imagem não basta termos percepções.
Algum processo psíquico deve se intrometer nesta atividade
para que possamos dizer que estamos lidando com imagens e não
com percepções. Este processo se chama alma.
Para
fundamentar sua psicologia , Hillman reutiliza a partição
tradicional do ser em espírito-alma-matéria. A alma
é concebida como um terceiro , um espaço intermediário
entre o espírito e a matéria.
Falar
a partir da alma é criar um instante de reflexão
, um intervalo entre as certezas tanto espirituais como materiais.
A
psicologia arquetípica não se interessa em buscar
verdades ou explicações. O que ela visa é
tentar estabelecer uma relação psicológica
com as idéias presentes no mundo.
Um
exemplo: das diferentes visões apresentadas entre matéria,
espírito e alma quando das discussões surgidas quando
surge por exemplo alguma imagem de Santa chorando.
É
um choro verdadeiro? Um milagre? Uma teofania que irá transformar
o local em centro mundial de peregrinações? ( diriam
os espiritualistas).
Ou
as lágrimas seriam apenas a umidade absorvida pelo material
poroso que a Santa foi fabricada, expelida sob a forma de gotas?
Charlatanismo? Exploração da ingenuidade dos fiéis?
( materialistas).
Qual
seria a posição da alma, consequentemente da psicologia?
Se
a alma é o que nos permite um olhar poético sobre
o mundo, diríamos: "vamos supôr que a Santa
estivesse chorando, vamos imaginar esta possibilidade, vamos buscar
respostas metafóricas para este choro".
Cada
qual iria encontrar as suas, cada qual iria fazer a sua própria
leitura da imagem da Santa chorando. É esta a perspectiva
da alma, colocar a todos num modo ficcional, isto é, na
capacidade de criarmos ficções e acreditarmos nelas.
Capacidade esta que James Hillman denominou fé psicológica.
Se
a alma tem importância central na psicologia arquetípica
, levando Hillman a estabelecer como objetivo do processo analítico
o cultivo da alma, o mito básico que a informa e orienta
é o de Eros e Psique.
O
mito se refere ao despertar da alma através do amor, reconhecendo
a alma como fator interno que leva as profundezas aludidas por
Heráclito. Através da atenção amorosa
dada ao psiquismo, transferência é o seu outro nome,
a alma começa a desenvolver-se e a fazer a sua revelação.
O mito narra o que acontece entre as pessoas e dentro das pessoas.
Mostra que o desenvolvimento da psique não ocorre num mar
de rosas. Sofrimento, tortura, depressão, tentativas de
suicídio são vivências fundamentais em todo
o processo. Eros, o amor, é visto como um grande torturador
e não como um querubim bondoso.
O
processo é árduo, difícil e cheio de obstáculos.
O que caracteriza a experiência da alma para Hillman é
o fato dela não abdicar de todo sofrimento que encontramos
em nosso caminhar pelo mundo.
Hillman
não separa a experiência da alma de emoções
e vivências das quais procuramos evitar: traição,
suicídio,depressão, angústia, repetição,
imobilismo, morte são temas estudados pela psicologia arquetípica
, não em busca de sua cura mas em busca de suas retóricas.
Porém
o que é "alma" para a psicologia arquetípica?
Alma
é uma palavra que incomoda. Devido as suas conotações
religiosas, falar em alma abala a psicologia naquilo que Hillman
denominou "complexo de ciência", que leva à
eliminação de importantes experiências psíquicas
por não se encaixarem dentro de um determinado conceito
de cientificismo.
É
importante lembrar que tanto Freud como Jung usaram a palavra
alma ("seele" em alemão) para expressar a experiência
da interioridade.
Foi
o tradutor oficial de Freud para o inglês quem contribuiu
decisivamente para a diminuição do valor da palavra
alma dentro da psicologia. Em vez de traduzir "seele"
por "soul", preservando a formação romântica
de Freud, escolheu optar por "mind", palavra de sonoridade
acentuadamente científica.
A
palavra "mind" afasta-se do campo poético e religioso
para fortalecer seus vínculos com o registro biológico.
Fica então estabelecida a associação entre
mente-cérebro-orgânico-concretude. Prova disso são
os próprios cérebros concretos, fedorentos e desnecessários,
levados às salas de aula nos cursos de psicologia.
E
a alma? Pode ela ser levada, mostrada e verificada em algum grau
de concretude? A alma resiste a qualquer tentativa de conceituação
com a intenção de fixá-la numa definição
precisa.
A
principal característica da psicologia arquetípica
é a sua posição re-visionista em relação
a própria psicologia. Esta revisão se faz a partir
do ponto de vista da alma.
O
trabalho da psicologia é oferecer um caminho e achar um
lugar para a alma dentro de seu próprio campo. Hillman
nos fala que cada área de conhecimento possui a sua raíz
metafórica , o seu princípio básico de funcionamento.
Se para a medicina a raíz metafórica é o
corpo, para psicologia sua raíz metafórica é
a alma.
Podemos
apresentar a alma como sendo um outro que se revela com seus desejos,
que se expressa através do jogo fenomenológico das
imagens com seu discurso que é , fundalmentalmente, metafórico.
O
que a psicologia arquetípica quer ressaltar é que
a alma é uma perspectiva, não uma substância.
É
um ponto de vista em relação as coisas, um instante
de reflexão entre pensamento e ação. Alma
é o que torna possível a existência de significados,
pois transforma eventos em experiências. Esta transformação
se opera quando penetramos no interior dos eventos para que eles
possam entrar em contato com o nosso interior.
Por
isso, tudo que toca a alma passa a assumir uma sensação
de grande importância. A alma de qualquer coisa é
sua parte mais fundamental e vital.
Dizer
que algo toca nossa alma é dizer que esse algo é
fundamental.
Um
evento é uma vivência externa ,ao passo que uma experiência
é uma vivência interna plena de significados, justamente
por envolver a alma, que por sua vez nos conduz a um aprofundamento
nesta mesma vivência.
Alma
e profundidade são inseparáveis, um dá sentido
ao outro e vice-versa.
Hillman
reconhece os perigos da utilização da palavra alma.
Corre-se o risco de ser substancializada, transformando-se numa
espécie de ser invisível. Alma nos interessa no
seu uso imaginativo,metafórico e retórico: alma
como metáfora primária da psicologia arquetípica.
Cultivar
a alma é esta a proposta de Hillman, cultivo este que será
construído passo a passo nas relações entre
o ego e a alma. A alma será cultivada na medida em que
o ego for se transformando num ego-imaginal, isto é, na
medida em que aceite e aprende a conviver no Imaginal, a viver
no mundo das imagens.
A
expressão para "cultivo da alma" em inglês
é "soul-making" que numa tradução
literal significaria "fazer alma". Cultivar e fazer
são verbos de ação que transmitem adequadamente
a idéia de que deve haver um trabalho de construção
para obtermos um sentido de alma. Porém, o verbo fazer
é mais pertinente,visto que ele é a tradução
da palavra grega "poiesis", poesia.
Por
este motivo, Hillman coloca seu trabalho sob o signo da retórica
da poética, "o poder persuasivo de imaginar em palavras".
Sua psicologia assume que a alma possui uma base poética
e é a partir desta base que a alma cria suas ficções.
A
expressão "soul-making" foi retirada de um trecho
de uma carta do poeta inglês John Keats:
"chame
o mundo, por favor, de vale de fazer alma,...
...descobrirás,
então, para que serve o mundo"
Ao
utilizar esta expressão, Hillman revela que seu fazer é
totalmente calcado no mundo, que a alma a ser cultivada não
é apenas a "minha", encontrada no meu "interior",
mas também a alma do mundo, ou seja, a alma dos carros,
edifícios, negócios, doenças, esportes, televisões,
transportes, tetos...
Tudo
é objeto para uma reflexão psicológica.
Para
cultivarmos a alma temos que estar no mundo, pois as imagens sobre
as quais nos debruçamos pertencem a ele e não a
nós.
Para
que ocorra o cultivo da alma é imprescindível que
vivamos a vida inseridos no mundo, que não busquemos nada
para além dele como nas disciplinas espirituais que negam
ou desvalorizam o mundo, nem que busquemos algo para aquém
dele como nas práticas psicológicas que se interessam
unicamente pelos aspectos subjetivos.
O
movimento em direção à alma é um movimento
de interiorização, um olhar para o interior das
coisas. Porém esta interiorização não
deve ser confundida como o interior do homem, mas sim o interior
das coisas, de todas as coisas.
Hillman
resgata a antiga idéia neoplatônica de Anima Mundi,
a alma do mundo, para mostrar que tudo possui alma, que em tudo
é possível haver interiorizações.
O olhar proposto pela psicologia arquetípica se assemelha
ao olhar do poeta que percebe o mundo não como se ele fosse
uma res extensa cartesiana, um mundo de objetos vazios. O olhar
do poeta/psicólogo irá perceber o mundo como uma
fonte inesgotável de imagens, interessando-se em descobrir
a sua retórica. Perceber as imagens do mundo é fotografá-lo
com a máquina do devaneio, devaneio no sentido de Gaston
Bachelard. Sem devaneio, o mundo permanece imerso na escuridão,
apagado, escondido e sem poesia.
Em
oposição à concepção do mundo
como um lugar de objetos vazios, resgatamos a idéia de
Anima Mundi, a alma do mundo, pela qual entende-se que cada coisa
oferece a sua imagem através da sua forma visível
e disponível para a imaginação. A idéia
de Anima Mundi possui também conexões políticas
fazendo com que a psicoterapia desloque o seu interesse com questões
exclusivamente subjetivas para um interesse na psicoterapia do
mundo. O mundo , agora, é o nosso verdadeiro paciente.
Se
o mundo se apresenta em formas, cores, cheiros e texturas faz-se
necessário recuperar um senso estético.
A
intenção de Hillman é a de desenvolver um
senso estético para a psicologia. Senso estético
não se confunde com uma preocupação com o
embelezamento. Hillman emprega a palavra estética no seu
sentido grego de aiesthesis, percepção, qualquer
coisa percebida é estética. O que Hillman está
propondo é que a psicologia necessita de Beleza.
Se
concebermos a psicologia ainda como fundamentada na visão
médica do comportamento humano e de sua vida emocional,
o valor primário para ela será a noção
de saúde. Porém se reinvidicarmos uma psicologia
fiel as suas origens arquetípicas e etimológicas,
isto é, uma psicologia à serviço da alma,então
o objetivo do nosso trabalho,diferentemente da visão médica
não será a saúde, mas sim a Beleza.
Recuperar
a Beleza como um propósito da psicologia é criar
uma resposta estética para as coisas do mundo. O que queremos
é uma psicologia estética que resgate uma relação
sensual com as imagens.
Uma
psicologia animada pela Beleza é necessariamente uma psicologia
que resgata a importância da percepção para
a alma. Não à percepção dominada e
aprisionada pelos laboratórios e dinâmicas psicologizantes
que insistem em manter a dicotomia entre uma realidade psíquica
constituída de sujeitos animados e uma realidade exterior
composta de objetos inteiramente destituídos de alma.
Queremos
nos aproximar dos gregos e de sua noção de aiesthesis
, palavra usada por eles para se referir à percepção.
Aiesthesis
significa uma reação de susto,espanto e surpresa
frente as imagens apresentadas. Perceber não é mais
uma operação do olhar regida pelo Logos da consciência.
Ser
fiel a noção de aiesthesis implica em poder deslocar
o órgão da percepção do olhar para
o coração. Privilegiar a Beleza é poder reagir
com o coração ,despertá-lo de seu entorpecimento,
muitas vezes provocado pelos ansiolíticos da vida moderna,
e convocá-lo a assumir o lugar que lhe é devido.
Para
os antigos, o órgão responsável pela percepção
era o coração, ele era associado as coisas do sentido.
Tanto para os gregos como também na Bíblia o coração
era o órgão da sensação e da imaginação.
Se a sua função no mundo antigo era apreender imagens,
perceber pelo coração é promover uma reação
estética frente as imagens apresentadas pelo mundo.
A
palavra coração não deve ser entendida no
seu sentido literal, devemos evitar o inimigo principal da psicologia
que é o literalismo visto que o discurso da alma é
e sempre será metafórico e poético. Não
se trata do coração músculo ,menos ainda
um coração que supostamente sedia os sentimentos
pessoais. Trata-se de um outro coração, o coração
da "vera imaginatio". O pensamento do coração
não precisa estar ligado a experiências e vivências
que o "eu" por acaso teve, pois o seu pensamento é
imaginativo.
O
pulsar deste coração é ficcional, dele não
brotam confissões subjetivas mas relatos objetivos sobre
o mundo das imagens.
Propor
uma psicologia baseada na Alma, Beleza e no Coração
é considerá-la menos um método de compreensão
cognitiva e mais um modo de cultivar nossa sensibilidade estética,
é operar um deslocamento significativo dos neuro-transmissores
cerebrais para as imagens metafóricas do coração.
Privilegiar
o coração é se mover em direção
ao reino da imaginação, movimento este que se faz
psicológico por excelência.
A
psicologia arquetípica nos ensina a existência de
um Deus em cada perspectiva ,em cada posição assumida
por nós. Estamos sempre envolvidos dentro de uma fantasia
arquetípica e de uma ficção mítica.
Deste
modo, buscamos que a psicologia se distancie serenamente de Apolo,
Hera e Atená, deuses da razão, representantes dos
princípios da consciência e do Logos e que ela venha
se aproximar mais de Eros, Dioniso e Hermes, deuses ligados ao
mundo dos mistérios e das transformações.
Neste
novo cenário, a psicologia inicia o seu culto a uma nova
deusa e seu nome é Afrodite, a Deusa da Beleza para os
gregos.
Reconhecer
a presença de Afrodite é reconhecer que cada coisa
sorri, possui fascinação e provoca aiesthesis.
É
Afrodite quem nos permite considerar o mundo não apenas
como uma assinatura codificada para ser decifrada em busca de
significados, mas o mundo como uma fisionomia a ser encarada,
isto é, o mundo se apresentando sensorialmente como um
rosto revelando sua imagem interior e sua disponibilidade para
a imaginação.
Com
Afrodite percebemos o mundo em sua visibilidade, em sua diversa
e infindável variabilidade de formas, cores, texturas,
sons,...
Perder
a Deusa é cair num mundo seco e árido desprovido
de imagens estéticas ,repleto de abstrações
conceituais onde os deuses se tornam anônimos por perderem
suas imagens, seus mitos e seus rostos.
Afrodite
é um imperativo para a psicologia e Beleza é sua
necessidade.
É
importante ressaltar que quando falamos de Beleza ,estamos afastados
de qualquer preocupação com embelezamento, nenhum
critério artístico sobre o que é belo ou
feio, nenhum julgamento acadêmico sobre o belo.
Seguimos
a tradição neoplatônica que concebe a Beleza
como "pura manifestação", Beleza é
a exposição de fenômenos. Ela não se
localiza nem no sujeito, isto é, no olho do observador
como também não está no objeto, onde a beleza
é reduzida a formalismos conceituais.
Queremos
imaginar a Beleza como algo constitutivo do mundo, inerente a
ele, Beleza como permanentemente dada, sempre à mostra
em suas qualidades.
E
a esta Beleza que se refere Afrodite,a Deusa dourada e sorridente.
É através dela que todos os outros deuses podem
vir a se manifestar deixando de ser abstrações teológicas
para poderem manifestar suas qualidades aos sentidos. Os deuses
se desligam de sistemas conceituais metafísicos e encarnam
nas coisas do mundo podendo serem vistos, ouvidos e sentidos.
Os deuses revelam suas faces seja no sabor de um vinho, na cólera
de uma discussão seja no delicado passeio dos dedos pelos
cabelos de uma mulher.
Na
ausência de Afrodite, na supressão da Beleza, formas,
fenômenos e deuses ficariam para sempre condenados a se
ocultar , impedidos de realizarem suas aparições.
É
esta a noção de Beleza que interessa para a psicologia.
Beleza regida por Afrodite como percepção sensorial
ou aiesthesis , apostando na visibilidade do mundo e seus objetos
e afirmando que a aparência é uma das formas da alma
se revelar.
Se
o mundo só é possível de ser conhecido através
de sua Beleza ,devemos sofisticar nossa percepção,
aprimorar nossa aiesthesis. Devemos reeducar nossos olhos, mãos
e ouvidos para obter uma nova sensibilização para
os detalhes, para apreciar a singularidade com que cada evento
se apresenta para nós.
Nossa
educação deve se voltar mais para a alma e a imaginação,
retomar a noção de paidéia dos gregos e a
formação humanista do homem renascentista. A alma
requer estudos de história, antropologia, artes, literatura,
história dos costumes, etc.
Para
os psicólogos, menos leitura de livros de psicologia e
mais ensinamentos sobre como ler livros psicologicamente.
A
alma e Beleza se alimentam muito mais de quadros e esculturas
de Salvador Dali,de filmes de Frederico Fellini, da literatura
de Machado de Assis e de músicas de Caetano Veloso do que
da pesquisa de comportamento de ratos em laboratórios,
de estudos estatísticos ou de análise dos distúrbios
de atenção na consciência.
Hillman
nos diz : "se você quer estudar Jung, não leia
Jung. Leia o que Jung leu. Leia o "Fausto de Goethe"
. Atualmente na psicologia só se lê psicologia. Ninguém
lê literatura ou filosofia!
Retornando
a nossa deusa , afirmamos: perceber é o modo de conhecer
o mundo e Afrodite é a sedução, a nudez das
coisas como elas se revelam para a imaginação sensual.
Cultivar
uma relação estética é nos aproximar-mos
da inteligibilidade aparente das coisas, seus sons, seus cheiros
e suas formas, falar através das reações
de nossos corações, respondendo a olhares , tons
e gestos das imagens entre as quais nos movemos.
É
este o nosso desejo: suspender a repressão a Beleza e convidá-la
para retornar ao campo da psicologia.
Uma
psicologia com alma e regida por Afrodite, a deusa da Beleza,
aquela que para os gregos mas também para nós ,
"possui o sorriso que torna o mundo mais prazeroso e amável".
Trabalho
difícil, apaixonado, árduo e laborioso. Porém,
fundamentalmente, trabalho feito com alma em nome da Beleza.