POR
QUE ESTUDAR PSICOLOGIA ANALÍTICA? A VISÃO DO CRIMINÓLOGO
Joe
Tennyson Velo - Advogado
A
questão título deste tópico poderia ser respondida
através de duas perspectivas: segundo os motivos pessoais
que sensibilizaram o autor, ou segundo as razões impessoais
que justificam a importância de tal estudo, e neste caso
exige-se a exposição de justificativas de aceitação
acadêmica nem sempre coincidentes com a primeira perspectiva.
O segundo caminho, ainda que dissimulado, é o que deve
ser agora escolhido, mas quanto às justificativas, a esperança
é que elas apareçam com o tempo. Fato é que
a Psicologia Analítica tem algo a dizer também ao
criminólogo e é exatamente um pequeno apontamento
acerca disso que se quer rapidamente ressaltar.
No
final do século XIX e no início do seguinte a perspectiva
clínica acerca do inconsciente conseguiu pela primeira
vez reconhecimento universitário. Isso aconteceu principalmente
através das pesquisas de Charcot, Pierre Janet (1859-1947)
e Théodore Flournoy (1854-1920). Interessa-nos o caminho
que o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961)
assumiu. Suas idéias sobre o inconsciente estiveram mais
próximas das pesquisas do médico e filósofo
Flournoy, em especial àquelas desenvolvidas acerca da cryptomnésie,
o que não diminui a influência dos ensinamentos de
Janet, Freud ou Adler, além de um expressivo número
de filósofos românticos. O fenômeno compreendia,
em essência, casos de desdobramento da personalidade. Analisando
tais manifestações, Flournoy aperfeiçoou
pesquisas sobre as várias funções do inconsciente,
com maior atenção à sua capacidade criativa
e compensatória, procurando também explicar através
delas fenômenos como clarividência e telepatia.
Um
assunto muito debatido entre psicólogos e filósofos
no final do século XIX era a hipótese do indivíduo
conservar uma recordação inconsciente de todas as
situações vividas, fato que Flournoy entendeu haver
constatado nas personalidades que analisou. Também era
aceito que as funções dissolutivas do inconsciente
compreendiam outras duas classes de fenômenos, segundo escreve
Ellenberger: a primeira era composta dos fenômenos psíquicos
que antes estiveram conscientes, mas que pela força do
hábito tornaram-se inconscientes e automáticos.
A segunda classe compreendia alguns fragmentos da personalidade
que ainda não se desenvolveram totalmente, mas que intervinham
na vida consciente e normal, a exemplo das sugestões hipnóticas,
ou sugestões levadas forçosamente ao inconsciente.
Tais fenômenos foram o ponto de partida para Charcot, Freud
e Janet, mas não exatamente para Flournoy, que se impressionou
mais com as funções criativas ou mitopoiéticas
do inconsciente, vale dizer, com a faculdade do inconsciente criar
mitos, dramatizações, personificações
e fantasias que podem tender a permanecer inconscientes ou se
transformarem em comportamentos muito interessantes, sempre voltadas
à necessidade de auto-realização de funções
inconscientes. A descoberta e a interpretação psicológica
e biológica dessa atividade criadora a que Flournoy entendia
surgir do subconsciente e capazes de desenvolver algo como um
segundo eu ou segunda personalidade, é o que marca sua
influência em Jung. Em suma, a concepção de
Fournoy acerca do automatismo teleológico (impulsos úteis
e gratuitos que preparam o futuro da personalidade), antecipou
idéias que constituem o corpo do pensamento de Carl Jung,
fato notável desde sua dissertação de conclusão
do curso de Medicina e explicitamente admitido com o lançamento,
em 1912, do livro Transformações e símbolos
da libido, obra que principiou o nascimento da Psicologia Analítica.
Por isso é errado dizer haver ele sido discípulo
de Freud. Desde o início Jung esteve mais próximo
de outra visão, algo romântica, acerca do inconsciente,
porém cuidadosamente tratada distante de um grotesco nonsense
ou outra coisa.
Carl
Gustav Jung nasceu na Suíça em 1875 e morreu em
1961. Foi portanto pessoa de dois séculos. Trilhou um claro
percurso. Desde a juventude já lhe eram perturbadores determinados
questionamentos. Foi filósofo, pesquisador e médico,
sobretudo um pensador de problemas, se usada uma expressão
atribuída a Nicolai Hartmann. Enquanto os pensadores de
sistemas podem ser vistos como os que procuram construir um edifício
completo de pensamento, cujas partes se juntam em um todo logicamente
coerente, os pensadores de problemas voltam-se à experiência
de idéias, preferindo explorar diferentes caminhos através
de um problema do que chegar a uma solução; fascinam-se,
os pensadores de problemas, pelo processo em si de busca do que
pelo alcance de um resultado final. Isto já denota uma
particular importância ao trabalho desenvolvido por Jung,
se for considerado que, no âmbito filosófico costuma
ser tanto ou mais importante o descobrimento das perguntas do
que o das respostas, como raciocina o jurista argentino Raúl
Zaffaroni. Caso não indentificadas adequadamente as perguntas
ou os problemas, não poderão ser encontradas as
respostas e muito freqüentemente carecemos de respostas em
virtude da má formulação das perguntas. A
Psicologia Analítica procura demonstrar a existência
de uma realidade psíquica em paralelo à tradicional
realidade material, evidentemente não propondo, para tanto,
o abandono do método empírico, mas afirmando que
a psique tem funções e linguagem específicas,
cuja apreensão pressupõe atitude diferenciada da
comum observação ou atitude jurídica. A importância
de seu estudo para a Criminologia reside exatamente nisto, no
fato dela ter em conta a realidade inconsciente - até hoje
pouco explorada no âmbito do pensamento jurídico
ou mesmo no do criminológico sequer num contexto somente
especulativo ou filosófico - capaz de aperfeiçoar
o raciocínio e a conduta profissional do "criminólogo",
contribuindo para que ele não permaneça alheio às
implicações científicas relacionadas ao inconsciente.
O
jurista alemão Hans Welzel notabilizou-se pela lógica
consideração de que a conduta humana é finalista
e de que convém jamais menosprezar isto. Para o prof. de
Göttingen, a intencionalidade é o elemento central
da ação finalista e que predomina na construção
ética do ilícito penal. A Psicologia Analítica
divulga que também convém admitir que o inconsciente
é algo dinâmico e finalista, sugerindo a ampliação
do conceito de ação ou conduta (consciente e inconsciente,
um ou outro pode estar com as rédeas nas mãos).
O inconsciente tem propósitos e os juízos ou os
relacionamentos que envolvam problemas criminais devem ponderá-los.
As considerações sobre o inconsciente favorecem
estudos não só de Medicina, Religião ou Psicologia,
mas também de Direito ou Criminologia, enfim, de qualquer
área que sobreviva à base de idéias. Qualquer
pesquisa que se desenvolva no âmbito da Criminologia em
particular, deve favorecer o esclarecimento de realidades, pois
sempre o que se busca é consciência, quer para traçar-lhe
a historicidade, deixá-la livre de incômodos emocionais,
estabelecer juízos e valorações ou organizá-la
a nível social. A experiência da consciência
é talvez a maior de todas as já vividas pelo homem.
Exercitar a compreensão de seu significado, por vezes apresentado
através de um comportamento censurável, é
uma tarefa existencial a que o criminólogo não pode
se eximir e para tanto precisará aceitar a hipótese
da realidade inconsciente operante.
É
possível imaginar que hoje uma das grandes tarefas do homem
seja recuperar o significado real da existência. A inquietação
sentida em muitos setores universitários denotam essa ambiência.
Não é só o psicólogo quem deve apresentar
opiniões nesse sentido.