PAPAI
NOEL: IDÉIA ÉTNICA OU ELEMENTAR?
A VIDA SIMBÓLICA DE PAPAI NOEL
Rafael
T. Teixeira
A
arcaica figura do simpático velhinho que habita nossas
mentes fala de uma intraduzível época a divagar
por nossos sonhos. Entremeados na ilusão de escuras fantasias,
a sombra de uma cultivada imagem se inquieta em nosso tempo.
Todos
nós conhecemos a referente marca do antropológico
homem de longas barbas brancas, a delatada lenda que culturalmente
nos implica o reconhecimento natalino.
Mas
a mitologia referente a Papai Noel nos leva muito adiante em alguns
apontamentos. Se colocarmos nossos olhos na tradição
que o envolve, veremos uma poderosa figura e entidade mítica
que atravessa os campos e fronteiras culturais, transladando épocas,
países e costumes dos povos da terra. Seu estudo, as aparições
que o concernem e possibilitam, nos colocam até o fértil
oceano mitológico das idéias culturais, propostas
individual e especificamente em cada tradição folclórica.
Já
no século passado o renomado antropólogo alemão
Adolf Bastian (1826-1905), abria o campo da experiência
da datação dos mitos para distinguir duas importantes
concepções da esfera mitológica. Obsessivo
historiador dos costumes de cada povo, experimentado e curioso
explorador, Bastian, dentro das longas viagens que fez, desenvolveu
a teoria das "idéais elementares" (Elementargedanke),
em contrapartida as "idéias étnicas ou culturais"
(Volkergedanke).
Dentro
das "idéias étnicas", dizia ele, encontravam-se
os possibilitadores, as inferências culturais e personalizadas
que motivavam o desenvolvimento do mitos criadores, mais profundos
e fundamentais a toda experiência humana no passar das eras
(as "idéias elementares").
Assim,
dentro de sua teoria, enfocava ele a maneira como um mito fundamental
(um princípio criador/mobilizador ou um sistema de símbolos
geral a experiência humana através dos tempos) ganhava
corpo e instituía-se na possibilidade de transmutação
e transmigração através dos tempos, mudando
de forma, adquirindo novas carapaças/vestimentas e tonalidades
para sobreviver ao longo de eras (na medida em que os povos davam
novas e diferenciadas interpretações/afirmações).
Esta
teoria, afirmava ele, fazia crer na maneira peculiar como os mitos
iam gradual e progressivamente se modificando em novos povos e
em novas épocas, quando assumiam e repercutiam novas e
emergentes tendências de uma dada necessidade étnica.
Um
mito genuíno, segundo ele, não ficava livre das
novas e fortalecedoras vestimentas, os realces das máscaras
culturais de um determinado povo sob determinada necessidade simbólica.
A
mercê da síntese e decodificação, os
mitos e as referidas mitologias eram "explorados" pelo
sistema cultural emergente, quando uma "idéia elementar"
comum ao psiquismo humano adquiria uma nova roupagem em abandono
da estrutura antiga menos favorecida.
Tendo
como base uma teoria difusionista (aceita por renomados mitólogos
como Joseph Campbell), na qual os povos dominadores e tecnologicamente
mais desenvolvidos sobrepujavam os menos favorecidos, mas sofrendo
e incorporando influências das tradições e
costumes locais (existindo grande intercâmbio entre culturas),
podemos ver então como um mito particular e restrito inicialmente
a um determinado povo, o Papai Noel da antiga Lapônia, vai
sendo "adotado" e levado adiante pelas inumeráveis
conquistas dos vencedores, na medida em que é sistemática
e culturalmente absorvido pelos padrões mitológicos
de cada povo diferente.
Visto
dessa forma, podemos "revisitar" o mito de Papai Noel
e explicá-lo em sua contraparte mitológica, resgatando
seu valor pagão (os elementos que o compunham existiam
muito antes da cristalizada imagem, do celebrado ícone
da nossa era moderna).
Assim,
tendo o mito de Papai Noel incorporado grandes significações,
sendo adquirido e desenvolvido simbolicamente por muitas eras
até "receber" a forma mítica padronizada
dos tempos modernos.
Vendo-o
sob a ótica dos primeiros tempos da alma, aos estágios
e as camadas mais antigas da psique, e não apenas como
a invenção-convenção institucionalizada
pelo capitalismo, Papai Noel surge como o velho ser de natureza
indômita e ancestral que resgata o arquétipo do velho
homem de natureza pura e espirituosa, do brincalhão espírito
da floresta que, adentrando pelas chaminés das casas em
jornadas noturnas traz a possibilidade do desconhecido que existe
em nós. E as imagens evocadas pelo símbolo do Papai
Noel perdura insistentemente em nossos sonhos, indo muito além
da mera marca, a distorcida e falsificada impressão proposta/imposta
pelo mundo moderno.
Mas
Papai Noel não teria sobrevivido, não teria sido
"ocidentalizado", se não fosse necessário
como símbolo e arquétipo de cada povo ao qual penetra,
sensibilizando a imagem do sorridente e benévolo velhinho
que, vivendo em terras distantes e desconhecidas, preenche o nosso
sonho de paz, harmonia, reverência e compaixão que
o natal nos trás. Por entre uma melodiosa atmosfera de
conto de fadas que Papai Noel concede, podemos vislumbrar a realidade
do natal em nossas vidas, nas distantes passagens das nossas mentes
e no mais fundo de nós mesmos para recebermos a completude
da mensagem que o pitoresco ancião, com suas aventuras
fabulescas e inusitadas, insistentemente nos remete.
Trazendo
de volta o campo perdido da onírica infância e da
mitologia que esquecemos de olhar, que deixamos de "saber"
procurar e talvez assim nos encontrar.
Por
entre as chamas de uma estranha fogueira, cativando os numinosos
sonhos esquecidos de nossa mente ancestral, Papai Noel sobrevive
no coração de cada um de nós; como uma crença,
um distorcido princípio ou uma esquecida possibilidade
de imagem a ser miticamente reconhecida.
BIBLIOGRAFIA
1-Adolf
Bastian (Das Bestandinge in den Meschenrassen un die Spielweite
ihrer Veranderlinchkeit) - Citado por Joseph Campbell ( As máscaras
de Deus: mitologia primitiva"). Ed. Palas Athena, 1992
2-Joseph Campbell ("As Transformações do mito
através do tempo"). Ed Cultrix, 1994.