O
SÍMBOLO ANIMAL E OS SONHOS
Cristiane
Ennes Fridlund
O
presente trabalho, é um resumo da monografia apresentada
à Coordenação do Curso de Psicologia Analítica,
sob a orientação de Renata Cunha Wenth, como exigência
parcial para obtenção do título de Especialista,
em Setembro de 1998.
A
riqueza de símbolos animais em todas as manifestações
culturais da história da evolução humana,
seja na religião, lendas, crenças, fantasias, contos
de fadas, mitos, sonhos, na alquimia, nas artes e demais produções
do imaginário, reflete a importância do símbolo
animal na vida humana e o quanto é necessário integrar
estes assuntos psíquicos vitais.
A
Natureza é uma obra de arte em si mesma, um grande projeto
dinâmico, onde os seres habitam e vivem, respeitando certos
parámetros naturais. O homem, no processo de civilização,
encontrou outros valores se afastando da natureza. Em consequência,
sofre com isso – pois ele é parte da natureza, ao
se afastar desta, afasta-se de si próprio.
Jung,
no decorrer de sua vida e de seu trabalho, desenvolveu uma escola
de pensamento por ele denominada de Psicologia Analítica.
Sua obra baseia-se em sua própria experiência com
os seres humanos normais, neuróticos e psicóticos.
Sua psicologia é uma ciência com base empírica
e abrange teoria, pesquisa, reflexão apoiada em textos
e pratica clínica psicoterapêutica. Escreveu extensivamente
sobre a psique humana, proporcionando-nos uma visão bastante
ampla e abrangente a respeito do assunto, servindo de inspiração
e ponto de partida para outros autores, que podemos chamar depós-junguianos.
SONHOS
Para Jung
Ø
É o resíduo de uma atividade que se exerce durante
o sono.
Ø
É um produto involuntário, espontâneo do inconsciente
e se expressa por uma linguagem simbólica.
Ø
É a fotografia nua e crua da realidade psíquica
de um indivíduo, em determinado momento.
Ø
Todos os sonhos são compensatórios, visam estabelecer
o equilíbrio psíquico normal e são auto-reguladores
de posições unilaterais da consciência ou
demasiado anti-naturais, estabelecendo uma dialética entre
consciente e inconsciente, que caracteriza a dinâmica da
vida psíquica.
Para
dar sequência à minha pesquisa sobre sonhos dentro
do enfoque da psicologia analítica, quero agora introduzir
um autor que, ao meu ver, tem um dom especial para escrever e
elaborar o seu raciocínio: James Hillman, um expoente da
psicologia junguiana, nos traz uma nova abordagem de como pensar
a psicologia. Aprofunda e desenvolve alguns conceitos já
apresentados por Jung. Denomina sua psicologia de “arquetípica”
por lhe parecer o nome mais adequado para refletir a abordagem
característica de Jung, abrangendo a teoria, a pratica
e a vida em geral. É uma psicologia da imaginação
e da interioridade.
SONHOS
Para Hillman
Ø Os sonhos estão relacionados com a morte, com
o morrer, com a depressão, com o mundo das trevas, o mundo
inferior e seus deuses.
Ø
A tradução terapêutica dos sonhos para o mundo
desperto da vida, tira o sonho de seu mundo noturno e de sua natureza.
Ø
Faz o movimento inverso, puxa as questões da vida diurna
para o mundo noturno, as vivências de nossa vida diária
são cozinhadas em substância psíquica e transformadas
em alma.
Ø
Os sonhos como fenômenos que emergem de um “lugar”
arquetípico específico e que correspondem a uma
geografia mítica distinta, para a reflexão desse
mundo inferior em uma teoria psicológica.
Ø
É necessário que o ego tenha uma atitude de ajuste
para com o mundo noturno, para poder alcançar o sonho em
sua terra natal.
Ø
Abandonar as concepções diurnas, a idéia
de compensação e de tradução e se
ater às imagens.
Ø
Os sonhos revelam o que somos, não o que podemos vir a
ser, eles refletem a essência. Nos mostram que somos plurais
e que cada uma das formas que lá figuram são “o
próprio homem inteiro”, potenciais inteiros de comportamento.
Ø
mundo das trevas é psique
Ø
mundo das trevas se refere a uma perspectiva totalmente psíquica,
onde todo o nosso ser foi desubstancializado, destituído
de vida natural, e ainda assim é em toda forma, o sentido
e o tamanho, a réplica exata da vida natural.
Ø
sonho é uma afirmação das profundezas ctonicas;
um estado frio, denso, imutável, onde não se encontra
o sentido de moralidade, nem sentimentos humanos, e nem uma noção
de tempo.
Ø
Diferença entre alma e emoção.
Ø
Cada manifestação onírica é uma expressão
arquetípica, é um deus falando através da
imagem.
Ø
A imagem como fator essencial para a compreensão dela mesma
no sonho.
Ø
A proposta de Hillman é a reflexão; estou espelhado
neles, e eles estão espelhados em mim, não para
ser entendido em um sentido compensatório, mas para uma
reflexão de onde eu estou, e o que eu estou fazendo.
Podemos
sonhar com vários temas, escolhi o motivo onírico
do animal: sonhos onde animais aparecem. Sonhar com animais é
um fato comum presente na humanidade. Desde os primórdios
da existência do homo sapiens, os animais sempre tiveram
importante participação na vida do homem fornecendo
alimento, vestuário e até proteção
ao estabelecer relações íntimas. Animais
participam da vida externa e da vida interna da humanidade desde
sempre, e uma vez que os animais são parte integrante da
natureza, me é natural que a psique utilize imagens de
animais para se expressar.
O
MOTIVO “ANIMAL”
Para
Jung
Ø A imagem do animal simboliza a natureza primitiva e instintiva
do homem.
Ø
Formas animais designam movimentos e experiências psíquicas,
que surgem freqüentemente nos sonhos e em outras manifestações
do inconsciente.
Ø
Quanto mais primitivo o animal, mais profundo o extrato do inconsciente
que ele representa.
Ø
Conteúdos das camadas mais profundas da psique tornam-se
mais difíceis de assimilar, pois estão mais afastados
da consciência comum.(Ex.: cavalo e cobra)
Ø
A maneira pela qual os animais nos aparecem nos sonhos e desenhos
indica a nossa atitude em relação ao inconsciente.
Ø
simbolismo associado a um animal baseia-se em seus atributos naturais;
as associações do sonhador com o animal são
relevantes.
Ø
Reconhecido e respeitado na vida do indivíduo, o “ser
animal”, que é a sua psique instintual, permite desenvolver
uma relação com os padrões instintivos intimamente
gravados presente nos seres humanos, podendo proporcionar criatividade,
refletindo o significado e a sabedoria coletiva.
O
MOTIVO ANIMAL
Para Hillman
Ø A imaginação é, ela própria,
um grande animal, ou uma arca de imagens, que estão todas
vivas e se movem independentemente. Elas vêm e vão.
Em todos os formatos e tamanhos.
Ø
Entende o animal isento de projeções, nossa percepção
e compreensão sobre eles está conectado nas vivências,
conceitos, parâmetros e histórias humanas.
Ø
Estamos sempre interpretando e buscando um significado para atender
a nossa necessidade de esclarecimento, e os documentários
sobre a vida animal são reflexos destas interpretações.
Ø
Preocupação com a extinção e o paradoxo
desta: documentários e reportagens proliferam na TV, na
mesma medida que estes animais estão desaparecendo do planeta.
Ø
Animais como eternas imagens arquetípicas, como habitantes
da imaginação, podem morrer, mas não ir embora.
Ø
Fascinação com os dinossauros, ou espécies
extintas ou lendárias é uma demonstração
da autonomia e imprevisibilidade do animal interior, que continua
se desenvolvendo na imaginação.
Ø
É pela imagem que os animais se reconhecem, e talvez, nos
reconheçam, e nós ao olharmos para eles possamos
nos reconhecer.
Ø
Os sonhos podem estar refletindo a forma de comunicação
natural entre os seres, a aparência física, a imagem,
sua beleza e traços individuais.
Ø
É fundamental que, ao olhar para o animal estamos desenvolvendo
a nossa subjetividade.
Ø
Talvez, esta seja a função maior da imagem, nos
fazer descobrir a subjetividade.
Ø
Quem somos, aquilo que nos forma e nos organiza sob o jugo de
qual fantasia arquetípica.
Ø
Para Hillman os animais acordam a imaginação. Os
sonhos com animais podem fazer isso também – despertam
as pessoas, provocam os seus sentimentos, as faz pensativas, interessadas
e curiosas.
Ø
À medida que penetramos na imaginação, nós
nos tornamos mais parecidos com os animais – não
bestiais, mas, mais vivos instintivamente e com mais compreensão,
um nariz aguçado e um ouvido afiado.
Ø
Os animais do mundo refletem nossos seres interiores – Os
contos com animais nos fazem retornar para este ser interior,
ajudando-nos, adultos e crianças a nos instruirmos sobre
nós mesmos.
Ø
Nos sonhos, nossas almas se encontram com outros seres, como imagens.
Os sonhos são passagens abertas através do fundo
em comum que todos compartilhamos, possibilitando a intercomunicaçao
das almas.
Ø
Se compartilhamos com vários seres o planeta, os elementos,
as subestruturas genéticas, compartilhamos também
o mesmo campo psíquico.
Ø
Todos temos a mesma origem na natureza, nós humanos não
somos os personagens principais no mundo dos sonhos. Estamos,
sob este prisma, na mesma condição de igualdade
com toda a manifestação animal.
Analisarei
mais especificamente a simbologia referente ao cavalo, na intenção
de fazer uma apreciação das analogias a ele ligados,
e observar as possíveis aplicabilidades deste símbolo
no estudo dos sonhos.
Os
sonhos para Jung são a expressão natural e espontânea
do inconsciente. É a psique falando pelas imagens e o modo
como o inconsciente se comunica com a consciência. Jung
foi consultado sobre a suspeita de histeria, em uma paciente de
17 anos. Transcrevo aqui o sonho que ela relatou:
“Não
faz muito tempo sonhei que estou chegando em casa. É noite.
A porta que dá para o salão está entreaberta
e vejo a minha mãe enforcada no lustre, seu corpo balançando
ao vento gelado que entra pelas janelas abertas. E depois também
sonhei que havia um barulho terrível dentro de casa. Vou
ver o que é, e vejo um cavalo espantado correndo feito
doido pelo apartamento. Por fim ele encontra a porta do corredor
e pula pela janela do corredor para a rua. O apartamento fica
no 4º andar. Vi, horrorizada, seu corpo estendido lá
embaixo, todo espatifado.”(Carl Gustav Jung. C.W. XVI $
343).
Esta
será uma demonstração clássica de
como Jung trabalha com os sonhos. Num primeiro momento, ele observa
que “mãe” e “cavalo”, devem ser
equivalentes, pois neste sonho os dois símbolos se comportam
de forma similar; se suicidam. Vejamos as associações
que Jung faz:
““Mãe”é
um arquétipo que indica origem, natureza, o procriador
passivo (logo, matéria, substância) e portanto a
natureza material, o ventre (útero) e as funções
vegetativas e por conseguinte também o inconsciente, o
instinto e o natural, a coisa fisiológica, o corpo no qual
habitamos ou somos contidos.
“Mãe”,
enquanto vaso, continente oco (e também ventre), que gesta
e nutre, exprime igualmente as bases da consciência. Ligado
ao estar dentro ou contido, temos o escuro, o noturno, o angustioso
(angusto=estreito). Com estes dados, estou reproduzindo uma parte
essencial da versão mitológica e histórico-lingüística
do conceito de mãe, ou do conceito do YIN da filosofia
chinesa. Não se trata de um conteúdo adquirido individualmente
pela menina de 17 anos, mas de uma herança coletiva. Esta
herança permanece viva na linguagem, por um lado, e, por
outro, na estrutura da psique. Por esta razão é
encontrada em todos os tempos e em todos os povos.”(Carl
Gustav Jung C.W. XVI $ 344)
Jung
percebe que a “mãe” do sonho, enquanto símbolo
“designa algo que no fundo se opõe obstinadamente
à formulação conceitual, algo que se poderia
definir vagamente e intuitivamente como a vida do corpo, oculta
e natural.”(Carl Gustav Jung C.W. XVI $ 345). O inconsciente;
“a vida inconsciente se destrói a si mesma”.(Carl
Gusrav Jung C.W. XVI $ 346).
““Cavalo”é
um arquétipo amplamente presente na mitologia e no folclore.
Enquanto animal, representa a psique não humana, o infra-humano,
a parte animal e, por conseguinte, a parte psíquica inconsciente;
por este motivo encontramos no folclore os cavalos clarividentes
e “clariaudientes”, que às vezes até
falam. Enquanto animais de carga, a sua relação
com o arquétipo da mãe e das mais próximas
(as valquírias que carregam o herói morto até
Walhalla, o cavalo de Tróia, etc.) Enquanto inferiores
ao homem representam o ventre e o mundo instintivo que dele ascende.
O cavalo é “dynamis” e veículo, somos
por ele levados como por um impulso, mas como os impulsos está
sujeito ao pânico, por lhe faltarem as qualidades superiores
da consciência. Tem algo a ver com a magia, isto é,
com a esfera do irracional, do mágico, principalmente os
cavalos pretos (os cavalos da noite), que anunciam a morte.”(Carl
Gustav Jung. C.W. XVI $ 347).
“Assim
sendo, o “cavalo” é um equivalente de “mãe”,
com uma tênue diferença na nuança do significado,
sendo o de uma, vida originária e o de outra, a vida puramente
animal e corporal. Esta expressão, aplicada ao contexto
do sonho, leva à seguinte interpretação:
A vida animal se destrói a si mesma.”(Carl Gustav
Jung.C.W. XVI $ 348).
Ø
O nosso irracional, o inconsciente é a mãe do racional,
a consciência. Segundo Jung, o sonho não está
falando da morte da sonhadora, ele está indicando uma doença
orgânica grave, com desfecho letal. O prognóstico
acabou sendo confirmado.
De
um modo geral, a figura do cavalo designa a força vital
animal do homem, também, muito associada a “mãe”.”Como
o cavalo é o animal de montaria e de trabalho do homem
e este até mede a energia em ‘forças de cavalo”,
o corcel significa uma quantidade de energia à disposição
do homem. Ele representa assim a libido que penetrou no mundo”.(Carl
Gustav Jung.C.W. V. $ 658)
Stephen Larsen em Imaginação Mítica, pontua
que podemos entender o cavaleiro como a psique consciente, e o
cavalo como o inconsciente e mesmo o corpo físico. Pelos
sonhos podemos observar como vai esta relação; um
está cooperando com o outro? Quando aparecemos cavalgando,
como é a nossa atitude para com o cavalo, e o cavalo nos
obedece ou faz o que bem entende? Com esta imagem de parceria
podemos perscrutar como anda o nosso dinamismo psíquico
– como anda a conversa entre nossos fundamentos inconscientes
e nossa consciência.
A
garota de 17 anos, deve ter atingido um ponto em que este aspecto
vital representado pelo cavalo no sonho, não teria mais
condições de recuperação. Sua conduta
neurótica, provavelmente, não conseguiu ou não
teve condições de compreender as mensagens provindas
do inconsciente, persistindo em um comportamento unilateral, defasando
um aspecto de si mesma.
Hillman
escreve em “Dreams Animals”, no capítulo “Horses
and Heroes”, uma analogia com a psicologia alquímica
e o cavalo. No calor da barriga do cavalo se encontra a concentração
interna necessária para a formação e transformação
da alma.
A
proposta alquímica é, ao invés de matar o
cavalo e libertar sua força deixando o calor escapar, entremos
dentro da barriga do cavalo, penetremos nele, como Jonas na baleia.
Olhar o estrume do cavalo, é analisar o que você
processou, conscientizar-se do resultado da vida que você
vem levando. Segundo Hillman, escremento é a imagem da
sua matéria psicológica residual da sua energia
cavalo., o cozinhar na fermentação forma um outro
tipo de consciência.
O
cavalo de Tróia é uma boa ilustração
do “entrar na barriga”. O cavalo era oco e em seu
interior haviam guerreiros gregos armados. Os troianos decidiram
trazer o cavalo para dentro de seus muros impenetráveis.
Dessa forma, os gregos invadiram Tróia.
Hillman
analisa o porque dos troianos não suspeitarem do cavalo;
por falta de imaginação. Faltou para os troianos
o que os gregos estavam desenvolvendo. Eles conseguiram, literalmente
entrar no cavalo, penetraram em seu poder vital e foram extremamente
imaginativos. Tomaram Troia imaginarivamente, metaforicamente,
pela imaginação conseguiram por um fim à
guerra, e o cavalo oco foi a figura imaginada para esta cena,
não outro animal.
O
cavalo tem um valor histórico como animal de montaria e
de carga. Pela reflexão que sua imagem nos traz, o seu
símbolo parece estar ligado à atividade imaginativa.
As
idéias de Jung muito tem contribuído para o entendimento
da alma em suas manifestações. Os sonhos como expressão
da psique, comunicando à consciência aspectos outros
do si-mesmo, incitam à analise e à busca de compreensão
dessas mensagens.
O
trabalho de outros estudiosos, como o Hillman, vem acrescentar
e despertar novos pontos de vista, ampliando nossa visão
particular e pessoal, favorecendo a prática clínica.
O
animal em um sonho pode estar personificando conteúdos
instintivos; pode estar nos contando como nos relacionamos conosco
mesmo; pode estar ensinando alguma coisa que escapa à consciência
e só ele tem condições de alcançar
e expressar nos sonhos, e pode estar se exibindo, inflando nossa
subjetividade com sua beleza e energia.
Uma
imagem não surge só de dentro para fora, o fenômeno
também acontece de fora para dentro. Quando apreciada a
imagem pode evocar a alma, quando manifestada é a alma
quem fala. Devemos considerar que um não exclue o outro.
O interno e o externo se movimentam sincronicamente, proporcionando
um significado da existência.
Nossa
consciência não pode captar todo esse movimento,
então é tomada por afetos e humores. Mas, a possibilidade
de olhar para essas imagens em forma de animais, e entender alguma
coisa que escapa à conceituação racional,
podendo inclusive fornecer subsídios para lidar com as
dificuldades existenciais, já é interessante.
Vistas
estas idéias, conclui-se que se a psique fala por imagens,
se não há distinção entre natureza
e imaginação, se os animais são parte integrante
do mundo natural, então, é natural que eles sejam
manifestados como expressão da psique. Eles podem ser vistos
como a psique imaginando a si própria.
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