O
PROCESSO ALQUÍMICO E A PSICOTERAPIA JUNGUIANA
Paulo
C. de Souza
A
Alquimia, ao longo dos séculos, sempre assustou e confundiu
as pessoas que tentavam compreendê-la. Mas esse era o propósito
dos alquimistas. Eles queriam realizar seu trabalho sem correr
o risco de serem queimados nas fogueiras da ‘Santa Inquisição’.
Muitos alquimistas trabalhavam escondidos em porões e até
usavam os subterrâneos das antigas catedrais; alguns eram
padres, sacerdotes religiosos e cientistas famosos. Portanto,
o encobrir e o iludir faziam parte da alquimia. Além disso,
a obra alquímica mexe muito com a nossa alma e por isto
nos atemoriza. Outra característica dos alquimistas é
o uso das figuras (imagens), o que normalmente desestabiliza o
Ego. Os termos alquímicos, desde os mais simples até
aos mais complicados, não podiam ser catalogados em um
dicionário, pois eram usados com sentidos diferentes, até
por uma mesma pessoa. Como fazer, para que matéria inicialmente
tão complexa, deixe de sê-la?
Podemos nos imaginar nos dias de hoje fazendo um churrasco dominical
e tentando afastar aquelas figuras indesejáveis que perguntam
a toda hora se o churrasco está pronto ou mexem na carne
que você acabou de virar. A tia que não encontramos
desde o Natal, quer saber o segredo do seu molho de alho, manteiga
e pimenta do reino. O sobrinho capeta estica o olhar guloso e
pergunta sobre o coração de galinha. Para não
causar constrangimento nas indiscretas figuras que mais parecem
sair de um conto de Nelson Rodrigues ou de Kafka, você responde:
¾ “Fui no mercado ‘Estadual dos Produtores
Associados Independentes’ e comprei a ‘substância
protéica bovina desnaturada’, com cortes ‘longitudinais
transcendentes e oblíquos’”.
Os chatos se afastam ou vão embora por alguns momentos
achando que você é um grande cozinheiro e, você
fica livre das desagradáveis companhias.
Na Alquimia aconteceu coisa parecida. Não acredito que
os alquimistas estavam em busca de ouro nem do elixir da longa
vida. Eram na sua maioria pessoas introvertidas em busca do seu
caminho espiritual. Eles queriam ficar em paz sem sofrer perseguição
por parte do ‘poder constituído’.
Vamos agora tentar simplificar bastante o ‘processo alquímico’
e tirar deles aquela aura de mistério. Vamos deixar o ‘pano
preto’ para os tímidos ou os ignorantes. Ao mesmo
tempo olharemos os processos básicos da alquimia com uma
visão psicológica, para ver que o evoluir da alma
é dolorido, mas no final vale a pena o sacrifício
da jornada.
Eles diziam, que deveríamos pegar a ‘prima materia’
(matéria prima) e trabalhá-la de diversos modos
até alcançar o ‘Lapis Philosoforum’
(pedra filosofal) e com essa pedra poderiam transformar metais
em ouro ou preparar o elixir da longa vida a partir do sereno
ou de outros líquidos da natureza. Vocês podem achar
que a colocação está muito simples, mas é
isso mesmo, ir de A até B; sendo que A é o ‘bruto’
e B o ‘elaborado’. O complicado e o difícil
era o caminho de A até B, pois esse era próprio
de cada indivíduo. O processo para ir da ‘matéria
prima’ à ‘pedra filosofal’ era longo,
trabalhoso e cheio de tortuosidades e muitas vezes, acidentado.
Um caminho muito parecido com a busca espiritual dos religiosos.
Um caminho muito parecido com o da individuação
de Jung. Um caminho muito parecido com o ‘conhece-te a ti
mesmo’ dos gregos.
Se formos listar os materiais usados como matéria prima,
vamos encontrar mais de 500 nomes e, alguns esdrúxulos
com: esterco de vaca, leite de virgem, urina de criança,
menstruação de prostituta, etc. A própria
pedra filosofal possuía várias denominações
conforme o alquimista que escrevia, o século em que viveu
ou seu país de origem. Mas no fundo se tratava de transformar
algo bruto em um material refinado, o que corresponde a nossa
transformação psíquica.
Como eu disse, a complicação maior estava nos processos
usados para a transformação, agravada pelo uso de
nomes em latim. Podemos citar alguns desses processos alquímicos:
mortificatio (morte), sublimatio (passar do sólido para
o gasoso - sublimação), coagulatio (coagulação),
calcinatio (queima), solutio (dissolver com água), putrefatio
(decomposição da carne), separatio (separação),
coniunctio (união), tinctur (tintura ou união) e
daí por diante. Por outro lado, um grande número
de alquimistas afirmava: “as vias usadas no processo são
duas e as chamamos de seca e úmida”. A via seca era
sempre mais rápida, realizada no Athanor (forno) aberto,
com fogo direto, vivo e forte e numa espécie de panela
que normalmente era chamada de ‘cadinho’. A via úmida
era mais eficaz, porém mais lenta. Normalmente feita em
um recipiente fechado que levava o nome de ‘retorta’
ou ‘pelicano’ e cozinhada em fogo brando por bastante
tempo. O forno também era fechado e muito maior do que
na via seca. Podemos perceber no caminho da via úmida uma
equivalência com a nossa longa estrada espiritual e do auto-conhecimento.
A maioria dos escritores dividia a via úmida em quatro
estágios e os associava a cores e suas vibrações.
Como não podia deixar de ser, os nomes eram em latim: Nigredo
(preto), Cauda Pavonis (cauda do pavão ou arco-íris),
Albedo (branco) e Rubedo (vermelho). Esses quatro processos ou
etapas, se observados de uma maneira global, lembram um pouco
as quatro fases da psicoterapia que Jung descreveu: Confissão,
Esclarecimento, Educação e Transformação.
Antes de tentarmos ver um por um os processos acima citados, temos
de ter em mente que esse processo é cíclico, qual
uma ‘espiral ascendente’ e praticamente nunca termina;
tanto na alquimia como no processo de individuação
de Jung. Ou seja, quando terminamos uma Rubedo voltamos à
Nigredo; quando terminamos uma Transformação, voltamos
a uma Confissão. É claro que esse retorno nunca
é a um ponto inicial do processo e, sim, um pouco mais
para dentro e um pouco mais para cima. Funciona como uma longa
estrada para alcançar o topo de um morro. A estrada vai
contornando o morro de maneira suave e imperceptível, e
de repente percebemos que já ultrapassamos as primeiras
nuvens. Além disso, nada nos impede, estando numa Albedo,
de retornar para a Nigredo; assim com, da Educação,
retornar ao Esclarecimento. O importante é sabermos que
por mais lento que seja o caminho ele é sempre para diante!
A Nigredo, o negro, já nos sugere a morte, a sombra, o
pesado, o denso, o sofrimento. Foi isso que nos disse Jung quando
falou da confissão no consultório do psicólogo.
Contamos nossa vida, nossos segredos, nossos aborrecimentos, nossos
sonhos não alcançados e, na maioria das vezes choramos
como um bebê que está com fome e quer mamar ou lhe
tiraram o brinquedo predileto. Ou seja, morremos para uma vida
que não valia a pena ou que simplesmente passou (valia
a pena talvez naquela época, agora já não
vale mais). Nessa ocasião ficamos parados, inativos, deprimidos,
sem ânimo, introvertidos, quietos e sentimos que algo se
‘dissolve’ em nós. Por mais angustiante que
seja o processo, o importante é seguir o que ele recomenda:
ficar quieto e adiar tudo o que for possível. Quando estamos
jogando nossos ‘conflitos psicológicos’ nos
problemas exteriores, ou seja, no mundo em que vivemos; eles se
sobrepõem e se confundem, numa mistura homogênea.
Podemos usar a metáfora do ‘copo com água
e álcool’; você olha para aquela substância
branca e não sabe quem é quem. Daí, as decisões
nessa fase da vida possuírem uma chance muito grande de
dar errado. Devemos identificar os problemas que são nossos
e separá-los dos problemas do mundo. Continuando na metáfora
do ‘copo’; é preciso colorir a água
para poder separá-la com mais facilidade do álcool.
Depois disso é como se o preto ¾ que é a
ausência de todas as cores ¾ transformasse no branco
¾ que é a presença de todas as cores. Só
que é o branco decomposto em todas as cores por uma espécie
de ‘cristal‘ e essa pedra cristalina é muitas
vezes o nosso analista, outras vezes um padre, um sacerdote, um
velho amigo ou até o travesseiro. É por isso que
alguns alquimistas pulam a fase da ‘cauda pavonis’
e vão da Nigredo para a Albedo. Mas como Jung colocou muito
bem, após a confissão de seus temores mais profundos,
o paciente fica esvaziado e se fixa na figura do psicólogo;
esse fenômeno levou o nome complicado de ‘Transferência’
(até a psicologia imita a alquimia em matéria de
nomes complicados). Como o nome já sugere, transferimos
para a figura do analista as figuras interiores que antes estávamos
jogando no pai, na mãe, no irmão, no vizinho, na
namorada, no marido etc. Essa transferência precisa ser
‘esclarecida’ e discutida com o paciente para que
ele entenda o que está acontecendo em sua alma ainda conturbada,
embora já bastante aliviada com o auxílio da confissão.
Muitos alquimistas representaram o desmembramento do branco com
o desmembramento do corpo humano. Acontece na realidade o desmembramento
de nossa psique; mas temos que manter essa dissociação
da nossa psique sob o controle do Ego. É para isto que
ele possui as características e a função
de um ‘complexo gerenciador’. Um gerente de uma grande
fábrica não olha diretamente o que cada operário
faz, não consegue saber o nome de todos os seus 5.000 funcionários;
mas, com uma rápida análise dos seus gráficos
de produção ele sabe de tudo que acontece no seu
negócio e pode se concentrar no que julga importante no
momento.
Após esta etapa, naturalmente vem o branco, a Albedo, a
brancura, o clareamento, o entendimento, o conhecimento, uma certa
tranqüilidade. É como se todas as cores do arco-íris
se fundissem e nos mostrassem a beleza do branco, da paz, do espiritual.
Deve ser por isso que se diz que no fim do arco-íris está
um pote de ouro. O problema é que nunca encontramos o fim
do arco-íris, mas na maioria das vezes o caminhar é
o verdadeiro tesouro. Nesse estado de brancura nos educamos e
nos inteiramos que existe uma vida nova que pode ser seguida e
quando olhamos para trás, o esforço já não
parece tão grande. Lembremos que educação
é repetição, porque para assimilar alguma
coisa precisamos repetir, precisamos tirar todos os véus
dos preconceitos, precisamos entender que os problemas estão
dentro de nós, precisamos ver que o outro está ali
também na sua busca. Precisamos até entender que
muitos buscam o mesmo Deus que nós buscamos, só
que por caminhos diferentes, mas geralmente, também chegam
lá. Corremos um risco de achar que o nosso gerente, o Ego,
é o maior gerente do mundo, pois está tocando uma
fábrica de grande porte. Cuidado com a estagnação,
o equilíbrio é sempre dinâmico e só
o conflito nos faz crescer e quando não crescemos, caímos.
É mais ou menos como andar de bicicleta, quanto mais rápido
mais equilíbrio, o movimento nos mantém em linha
reta. Vocês poderiam dizer que algumas pessoas ficam em
pé em um bicicleta parada. Mas o lugar deles é no
circo e perdem o objetivo da locomoção, que é
o objetivo da vida.
Quando estamos nesse processo de uma certa calmaria, as coisas
vão entrando nos eixos. Mas é hora, por incrível
que pareça, de colocar paixão, fogo, ardor, vermelho,
Rubedo. Aí conseguimos transformação ¾
transformar é ser o que já era, sem precisar fazer
força para isso. É quando não roubamos o
vizinho; não com medo da prisão, mas porque acreditamos
que isso não é o correto. É quando não
batemos no inimigo; não com medo do revide, mas quando
temos compaixão por outro ser humano. Na transformação
conseguimos um movimento com um mínimo de atrito. É
quando nos aproximamos dos pólos; lá o movimento
como um todo é o mesmo, mas, o deslocamento menor. Temos
mais consciência de fazermos parte de um mundo, percebemos
que somos dependentes de tudo e ao mesmo tempo tudo é impermanente.
Só nos resta a essência da alma, algo dentro de nós
que não morre nunca. Estes processos nos levam a essência
da vida por um caminho relativamente suave. Não deixem
de buscá-la, senão a dor pode vir para nos lembrar
de tudo isso. Quem já sentiu uma dor muito forte sabe que
naquela hora não conseguimos pensar em mais nada, só
em acabar com ela. Tentem lembrar de tudo que pensaram na hora
da dor, tanto física quanto espiritual e estarão
perto do que é a essência.
Podemos imaginar então que o processo está todo
concluído... Vamos descansar. Ledo engano, a transformação
ocorreu sim, mas em parte do nosso ser. Temos de voltar a Nigredo
e a Confissão, temos de passar pelas cores até o
branco e, de novo inflados com o esplendor da luz, vamos mais
uma vez nos inflamar para chegar às brasas, ao rubro, a
Rubedo. Esta é a roda da vida e não pára
nunca, nela vamos girar sem parar por muito tempo. Mas posso garantir:
quem fizer um primeiro ciclo vai aceitar todo os outros com galhardia,
força e abnegação e principalmente com pequenos
momentos de felicidade.