O
PAPEL DA MATERNIDADE NO PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO
FEMININO
Gisele
Sarmento
RESUMO
Utilizando a Psicologia Analítica como embasamento teórico,
este artigo tem por objeto situar a experiência da maternidade
(biológica ou não), como uma possibilidade de avanço
no processo de individuação feminino. Para que,
transformação, crescimento e maturação
sejam possíveis, é fundamental que a mulher tenha
consciência das mudanças internas que acompanham
este processo e vivencie a experiência de forma positiva,
o que implica na aceitação da introversão,
crise e ambigüidade que envolvem este duplo nascimento: o
da mãe e o do filho. A experiência da maternidade
será abordada sob o aspecto simbólico, como um rito
de passagem da “mulher filha” para a “mulher
mãe”, quando se faz necessário o sacrifício
da filha para que nasça a mãe. Assim, o processo
de individuação será abordado como um movimento
em direção à totalidade, através de
uma integração de partes conscientes e inconscientes
da personalidade feminina.
Palavras-chave: Psicologia Analítica; Maternidade; Individuação.
1.Introdução
Este
artigo busca articular a ligação entre as reais
dificuldades da maternidade e suas raízes psíquicas
mais profundas, colocando esta experiência num contexto
subjetivo e considerando-a como parte de um processo de expansão
da consciência.
A maternidade posiciona a mulher diante de uma nova situação
que implica em adaptação e reposicionamento de conduta;
esse processo é lento e gradual exigindo da mulher capacidade
de dar sentido a esta vivência , através de um processo
elaborativo que resulta em auto conhecimento e crescimento.
A forma de vivenciar a maternidade difere pela individualidade
de cada mulher . Aqui serão tratados alguns aspectos emocionais
comuns a mulheres que se identificam com o papel de mãe
e relacionam-se com a maternidade de forma positiva , não
sendo consideradas a depressão pós-parto e a psicose
puerperal.
O objetivo geral do presente trabalho será discutir as
implicações da transformação da mulher
de filha para a mãe, focando a experiência da maternidade
como uma possibilidade de avanço no processo de individuação
feminino. Assim, será considerada a primeira experiência
da mulher diante da maternidade. Apesar das alterações
hormonais e a vivência do parto que fazem parte do processo
biológico da maternidade, a mãe adotiva experimenta
a mesma mudança de identidade e possibilidade de auto conhecimento
que a experiência da maternidade oferece e como o presente
trabalho pretende abordar a maternidade em seu aspecto simbólico,
serão consideradas as mães biológicas e as
adotivas.
Este artigo será elaborado através de revisão
literária do tema, focado na Psicologia Analítica.
Os objetivos específicos são: identificar as implicações
da mudança de identidade e o arquétipo materno,
das sombras da maternidade e da individuação da
” mulher- filha” para “mulher- mãe”.
2. A Mudança de Identidade e o Arquétipo Materno
A
maternidade traz mudanças intensas na vida da mulher, principalmente
no que concerne à sua identidade, pois o nascimento de
um filho implica no nascimento de uma “mãe”
para este filho. “A mulher passa por uma mudança
simbólica radical em sua consciência de si –
mesma ao tornar-se mãe” (Galbach 1995, p. 43). Aqui,
a maternidade será focalizada como a passagem da mulher-filha
para a mulher-mãe, colocada sob o ponto de vista do sacrifício
da filha e a iniciação da mãe, atentando
para o conflito psíquico que a mulher experimenta ao abandonar
um lugar conhecido para iniciar-se num processo desconhecido que
exige uma redefinição de sua identidade pessoal.
“Quando ocorre o nascimento e com ele se conclui a transformação
da mulher em mãe, põe-se em atividade uma nova constelação
arquetípica, a qual remodela a vida da mulher até
suas camadas mais profundas” ( Erich Neumann 1995 p.40).
A modalidade arquetípica a qual se refere Neumann é
o arquétipo materno.
A seguir analisado o conceito de arquétipo definido por
Jung para que possamos tratar do arquétipo materno e as
implicações deste na maternidade.
Jung considera que o inconsciente não contém somente
componentes de ordem pessoal, “mas também impessoal,
coletiva, sob a forma de catergorias herdadas, ou arquétipos”
(Jung 1997, p.13). Sobre este conceito Jung diz:
“Há
tantos arquétipos quanto situações típicas
na vida. Intermináveis repetições imprimiram
essas experiências na constituição psíquica,
não sob a forma de imagens preenchidas de um conteúdo,
mas principalmente apenas forma sem conteúdo, representando
a mera possibilidade de um determinado tipo de percepção
e ação. Quando ocorre algo na vida que corresponde
a um arquétipo, este é ativado e surge uma compulsão
que se impõe a moda de uma reação instintiva
contra toda razão e vontade, ou produz um conflito de dimensões
eventualmente patológicas, isto é, uma neurose“
(Jung, 1976, p.58).
Assim,
a maternidade pode ser vista como uma situação típica
na vida, em que a mulher é confrontada com o arquétipo
materno, o que evoca um determinado tipo de ação
e percepção característico. “O arquétipo
materno, sendo a matriz da autoconsciência feminina, estrutura
a consciência da mulher num eixo próprio seu, feminino,
e sua constelação na gravidez e maternidade levam
a uma revisão da estruturação matriarcal
de sua personalidade” (Galbach 1995,p. 38).
Jung considera que arquétipo materno, como todo arquétipo,
possui uma variedade incalculável de aspectos e sobre os
traços essenciais deste arquétipo Jung menciona:
Seus
atributos são o “maternal”: simplesmente a
mágica da autoridade do feminino; a sabedoria e a elevação
espiritual além da razão; o bondoso, o que cuida,
o que sustenta, o que proporciona as condições de
crescimento, fertilidade e alimento; o lugar da transformação
mágica, do renascimento; o instinto e o impulso favoráveis;
o secreto, o oculto, o obscuro, o abissal, o mundo dos mortos,
o devorador, sedutor e venenoso, o apavorante e fatal( Jung 1976,
p.93).
Daí
depreende-se o caráter bivalente do arquétipo materno.
Trataremos inicialmente as implicações do aspecto
positivo deste arquétipo na experiência da maternidade,
ou seja, os atributos maternais: o que cuida, o que sustenta,
o que proporciona as condições de crescimento, fertilidade
e alimento.
Ao tornar-se responsável pelo bebê, ao cuidá-lo
e alimentá-lo, a mulher encontra a possibilidade de cuidar-se
e nutrir-se, tornando-se responsável pela vida em si e
pela sua própria vida. Para tanto, faz-se necessário
o sacrifício da filha, nutrida e protegida, para a iniciação
da mãe que nutre e protege, vivenciando simbolicamente
uma espécie de morte e renascimento, “o nascimento
de um primeiro filho representa “morrer” como jovem
e “renascer “ como mãe” (Galbach 1995,
p. 82).
Jung ressalta cinco aspectos do renascimento, uma delas é
na forma renovativa:
“O renascimento pode ser uma ”renovatio” sem
modificações do ser, na medida em que a personalidade
renovada não é alterada em sua essência, mas
apenas em suas funções, partes da personalidade
que podem ser curadas, fortalecidas ou melhoradas” (Jung
1976 , p.120).
Assim, havendo renovação a maternidade possibilitaria
o fortalecimento da personalidade feminina.
“O paralelo ao tema da morte e ressureição
é o da perda e reencontro” (Jung 1973 , p. 332) .
3. As Sombras da Maternidade
Os traços negativos da bipolaridade do arquétipo
materno definido por Jung como “o secreto, o oculto, o obscuro,
o abissal, o mundo dos mortos, o devorador, sedutor e venenoso,
o apavorante e o fatal” ( Jung 1976, p. 92), remetem a mulher
ao aspecto sombrio da maternidade.
“O termo sombra refere-se à parte da personalidade
que foi reprimida em benefício do ego ideal ( ... ) a sombra
representa o inconsciente pessoal” (Whitmon 1998, p.144).
A sociedade e a cultura super valorizam o aspecto positivo da
maternidade, não considerando a dimensão do feminino
e portanto não orientando a mulher para esta iniciação.
Este tabu criado em torno da maternidade e as implicações
da percepção de seu aspecto sombrio, dificulta a
verbalização desta experiência, o que leva
as mulheres a não revelarem umas às outras a situação
conflitiva que se deparam quando do nascimento de um filho, o
que dificulta ainda mais a elaboração do processo.
“Na gestação e no parto, (... ) , algumas
mulheres vêem-se às voltas com uma luta dramática
entre vida e morte que destrói por completo o velho senso
de “estar no controle”, conhecido pelo ego. E com
isso elas têm uma iniciação que diz respeito
a muito mais do que apenas ter de lidar com um bebe novinho. Elas
estão face a face com a mãe como criadora e destruidora
(Carlson 1989, p. 143).
4. O Processo de Individuação
Neste trabalho a possibilidade de avanço no processo de
individuação será abordado pela via da ampliação
da consciência através da introversão experimentada
na vivência da maternidade. Este processo de introversão
pode possibilitar a integração e harmonização
de conteúdos conscientes e inconscientes da psique feminina.
“Como mostram muitos exemplos históricos pela introversão
o indivíduo é fecundado, entusiasmado, reconcebido
e renasce” (Jung 1973,p.368).
A introversão vivenciada no pós parto é decorrente
de um rebaixamento do nível mental, como conseqüência
da forte emoção experimentada e o cansaço
físico que envolve o parto e os cuidados dispensados ao
bebê, este rebaixamento do nível mental Jung denomina
”abaissemant”. “O abaissemant pode ser conseqüência
de um cansaço físico e psíquico, de doenças
somáticas, de emoções e choques violentos,
cujo efeito é especialmente deletério sobre a auto
segurança da personalidade” ( Jung 1976, p. 125).
Este rebaixamento do nível mental, ou “relaxamento
da consciência” (Jung 1976,p.125), experimentado na
maternidade, pode ser visto sob dois aspectos: o negativo que
põe em risco a personalidade, quando os conteúdos
inconscientes assumem forma autônoma, e o positivo que possibilita
uma transformação subjetiva através da ampliação
da consciência. A transformação da personalidade
no sentido da ampliação “é a conscientização
de um alargamento que emana de fontes internas” (Jung 1976,p.
126), para tanto a mulher “deve ter dentro de si a capacidade
de crescer, senão nem a mais árdua tarefa servi-lhe-á
de alguma coisa. No máximo ela o destruirá”
(Jung 1976,p.126).
A possibilidade de ampliação da consciência
feminina na maternidade está relacionada com a discriminação
e percepção de sua participação no
processo criativo. “O mistério, o simbólico,
é o que transcende a estreiteza da consciência pessoal.
Perceber a gravidez e o nascimento como símbolos enriquece
e promove crescimento, abrindo o feminino para uma religação
com sua base feminina vital mais profunda” (Galbach1995,p.85).
A definição de símbolo feita por Jung, “pode
ser resumida como referindo-se à melhor formulação
possível de um conteúdo psíquico relativamente
desconhecido que não pode ser compreendido pela consciência”
(citado em Samuel 1989,p.118)
Essa ampliação da consciência através
da integração de conteúdos inconscientes
não se trata de uma conscientização verbalizada
e racionalizada da vivência da maternidade, ao contrário
é algo que acontece em silêncio, para que haja discriminação
e percepção.
“Preocupando-se com o aspecto exterior de sua experiência
de maternidade a mulher, pode ter vários filhos, várias
gestações e mesmo assim, permanecer inconsciente
do significado mais profundo do evento que esta ocorrendo nela,
que um ato de criação esta ocorrendo através
dela (...), por outro lado também uma atitude racional
e materialista diante da vida pode apagar qualquer compreensão
de um significado mais profundo” .(Gallbach 1995, p.48 )
Gallbach citando Harding diz que é necessário que
a mulher realize algo mais que adaptar-se às necessidades
da criança , para experimentar o significado da maternidade
e tornar-se consciente de si mesma como mulher e como mãe:
“Num
plano mais subjetivo, o significado de gestar e dar à luz
uma criança é mais profundo que a criança
física. Ao entregar seu corpo e seu ser para deixar a vida
se criar e ser revivida através dela não se atendo
somente às limitações e desconfortos que
a gravidez trás, a mulher pode experimentar uma fase totalmente
nova de consciência. É como se a mãe mesma
fosse reproduzida através da experiência da maternidade
e assumisse uma imortalidade simbólica na qual a criança
física que ela dá à luz , pode ser um símbolo
de um novo Self, recriado através do ato pelo qual ela
realizou sua própria natureza. Ao nascimento de um filho
externo acompanha-se o nascimento de um filho interno”(
Gallbach 1985, p.49).
5.
Considerações Finais
A
mulher ao vivenciar a experiência da maternidade, encontra
no ambiente social um tabu no que diz respeito às sombras
que envolvem este processo. Reina ainda, um certo pudor na transmissão
oral da experiência , entre as próprias mulheres,
inclusive mães e filhas, no que tange ao esclarecimento
do aspecto sombrio deste processo.
Se o processo de maternidade é renovação,
nada mais natural que se encare o momento do nascimento de um
filho como, simultaneamente, morte-vida, dor-júbilo.
Para nascer a mãe, faz-se mister morrer a filha. Ora, morte
é dor, é perda. É sair do conforto do modelo
conhecido e dominado para o inusitado porque desconhecido.
Necessário, portanto, que a mulher considere as perdas
implicadas na mudança de identidade, as sombras que fazem
parte da vivência do processo, o caráter bivalente
do arquétipo materno, como parte integrante do aspecto
simbólico do ato da criação. Elaborando,
então, o significado mais profundo da experiência
da maternidade
Assim, o avanço no processo de individuação
feminino, pela via de ampliação da consciência
, através da harmonização.