O
MITO DE ATALANTA
Marly
Assi Hatoum
INTRODUÇÃO
Música,
Alquimia e Psicologia em Atalanta Fugiens de Michael Maier
"Os
verdadeiros anjos estão cantando (como declaram as Sagradas
Escrituras); os céus estão cantando, como Pitágoras
confirma; e eles proclamam a glória de Deus, como reporta
o salmista, as musas e Apolo estão cantando ;os pássaros,
os carneiros e os gansos estão cantando em seus instrumentos
musicais do mesmo modo de nós, também, cantamos
e tocamos música, e não o fazemos sem razão".
Atalanta
Fugiens, discurso 6, p.35.
Nestas
palavras de Maier podemos ouvir não apenas o convite para
tocar e cantar sua música, mas também o desafio
para contemplar a música como um todo, em os seus aspectos:
celestial ou divino, cósmico, psíquico ou humano
e instrumental. Escondida aqui esta a verdadeira essência
de percepção musical tal como se dava na antigüidade
e na idade Média; isto sublinha (marca) tudo o que Maier
disse sobre musica e tudo o que ele procura expressar na arquitetura
musical de suas fugas.
Portanto,
este ensaio trabalha primeiramente com o significado da música
como um todo e com o pensamento musical da Antigüidade e
da Idade Média. Em segundo lugar, discute as fugas e suas
implantações alquímicas. Finalmente , a 3ª
parte trabalha com os aspectos psicológicos do Atalanta
Fugiens.
I
– O significado da música
A
música é a manifestação de um tipo
muito complexo. Inclui e combina uma ampla variedade de forças
em oposição e seus mais profundos efeitos resultam
do fecundo interjogo dinâmico de seus pólos opostos.
A musica como uma manifestação pré - racional,
como uma expressão de sentimentos e poderes da alma, permite,
independentemente de palavras e conceitos, acesso aos caminhos
da psique a seus campos pré verbais, não verbais
e emocionais.
A
música como um fenômeno racional está relacionada
à matemática, ordenada de acordo com o número,
a medida e o peso, tem habilidade de estruturar e ordenar.
A
música como habilidade manual está mais intimamente
conectada com a matéria e pode ajudar a estabelecer um
relacionamento saudável com a tangível, compreensível,
audível, visível, e perceptível realidade
da existência, isto é, com a matéria.
A
música como uma potência que se relaciona à
percepção intuitiva de potencialidade inerentes
às coisas pode também abrir novos aspectos de existência
a prover acesso a áreas de mais profunda percepção
e vasta experiência do mundo e seu fundamento transcendental.
A
música enquanto mediadora de relacionamentos humanos é
um meio de comunicação de primeira ordem. Pode auxiliar
na remoção dos distúrbios das relações
e permitir que um relacionamento entre pessoas torne-se mais afável,
mais significativo e mais fértil. Ao mesmo tempo , a música
pode ir por outro caminho, induzindo auto-conhecimento, concentração
e contemplação. A música é, portanto,
uma realidade viva da mais extensa e complementar natureza, tanto
relacionada com a extroversão quanto à introversão.
Ela
diz respeito tanto ao racional como ao emocional, ao mudo como
ao verbal, à contemplação intuitiva como
à compreensão através dos sentidos, tanto
à regiões ctônicas da terra como àquelas
espirituais olímpicas e ao expansivo dionisíaco
como ao contemplativo apolíneo.
A
música está intimamente conectada tanto à
teoria quanto à prática, às ciências
naturais tanto quanto às ciências espirituais. Se
fizermos uma analogia com a maneira moderna de pensar da física
moderna, podemos considerar a música tanto sob aspectos
macrofísicos como microfísicos. Eventos do nível
macrofísico patentemente obedecem a lei da causalidade
e chegam inevitavelmente a resultados definidos. Estruturas microfísicas,
no entanto, (i.e. um átomo indivisível) não
são governadas por qualquer determinação
causal. Tomadas em sua simplicidade permanecem indeterminadas
e só podem ser compreendidas por leis estatísticas.
Aplicado à música, isto significa que a música
é predizível, pré-calculável e permite
a si mesma ser determinada de acordo com o princípio de
causa e efeito. Similarmente, como manifestação
microfísica, a música é uma incalculável,
uma atualidade acausal similar a um átomo indivisível
na moderna física quântica. Isto significa, em relação
à música como meio terapêutico em esferas
psíquicas internas ou externas, primeiramente que a lei
da causa e efeito tem aqui apensa uma limitada aplicação,
e em segundo lugar que as leis derivadas de dados estatísticos
não levam incondicionalmente a qualquer afirmação
sobre as reações de um indivíduo. Em vista
disso, pesquisa e terapia são confrontadas com limites
que devem ser respeitados com toda prudência.
É
destes aspectos antiéticos da música que vêm
sua grande variedade, mas também os seus perigos, através
da decadência e destruição do equilíbrio
harmonioso.
A
música enquanto um reino dinâmico e ativo, ordenado
de acordo com o número, medida e peso, pode organizar uma
condição psíquica caótica e levá-la
a uma nova forma de vida orgânica. Pode também dissolver
estruturas de pressão na psique, liberar energias psíquicas
condensadas de seus canais bloqueados a dar à psique uma
nova vida. A música pode liberar e pode cegar, obstruir.
Pode levar o desorientado que se abateu a encontrar-se ao mundo
e o que se perdeu no externo devolve a calma e a concentração;
também à uma nova experiência do self.
A
música pode fazer uma pessoa demasiadamente fechada em
si mesma e incapaz de relacionamento e comunicação
com outros, buscar participação novamente. A música
é efetiva em ambas as direções. Sempre, desde
os tempos mais antigos, a música vem sendo pensada (vista)
como tendo um efeito de harmonização e cura e de
construção e educação.
Compreendida
em sua totalidade, a música tem a função
de realização compensatória, ajuste complementar,
estimulação, promoção do desenvolvimento.
Nos tempos primitivos, por estas características, foi equacionada
com a a harmonia. A tarefa e o objetivo da música enquanto
harmonia é uma produtiva equalização de poderes,
um equilíbrio nas áreas psíquicas e extra-psíquicas,
as quais freqüentemente, como irmãos hostis, estão
em conflito umas com as outras. Ela tem esta tarefa em comum com
as artes curativas, visto que, de acordo com os antigos ensinamentos,
os médicos deveriam controlar a alta arte de tomar os elementos
hostis do corpo, amigáveis entre si e amorosamente agradáveis
(Platão; O Banquete, 186d)
Em
vista de todos estes conceitos envolvidos da música, é
compreensível que a música como um poder catártico
e harmonizador foi considerada por médicos da Antigüidade
como pertencente à ciência médica. Aqui o
interesse por um trabalho harmoniosos junto aos humores e energias
do corpo cobre uma importante área. Porquanto esforços
terapêuticos em formas somáticas, psicossomáticas
ou psíquicas para harmonizar energias dissociadas, representa
um profundo interior musical. [E assim, desde a Antigüidade
e harmonia entre corpo, alma e espírito é considerada
condição preliminar para a vida e a saúde
e os distúrbios nesta harmonia como causa de doença
e morte. Um dito da Idade Média expressa isto assim: "Harmonia
durante vivit homo, rupta vero eius proportionne moritur",
ie. "enquanto dure a harmonia, a pessoa vive, mas quando
sua proporção é perturbada, ela morre"].
(Adão de Fulda, séc. XIV, citado em MGG, vol. 5,
col. 1600).
O
subconsciente do homem moderno também olha para trás,
para a antiga experiência terapêutica da humanidade
quando usa a música em sonhos, enquanto significado harmonioso,
equalizador, equilibrador para indicar e ajudar a eliminar perturbações
destrutivas. A música freqüentemente aparece aqui
como uma forma de agente terapêutico no domínio interior
da alma. Este profundamente arraigado tema da música em
sonhos é o campo especial de pesquisas do autor e será
discutido em outro lugar.
Música
A
palavra música tem sua origem etimológica na palavra
grega "mousikè" e significa em geral o todo das
belas-artes, a arte do som musical, poesia e a arte da dança.
Num sentido mais estreito (resumido), significa a arte do som
musical como cantar, tocar e fazer música.
Desde
os tempos antigos a música vem sendo pensada como sendo
de origem divina, de fato como tendo sua origem no próprio
Deus.
Entre
as nove musas, filhas de Zeus, as deusas das belas-artes e das
ciências, a musa Polyhymnia é adorada como deusa
do canto e Euterpe como deusa da música instrumental. Apolo,
o deus da luz e da sabedoria, o curador e o deus-sol é,
ao mesmo tempo, deus do canto e da música. Dionísio,
o deus das forças de crescimento nas plantas, do vinho
e da embriagues, é adorado como o protetor das aulos-players.
E Pan, deus dos pastores, dos caçadores e dos pequenos
animais é adorado como inventor do syrinx. O último
par representa simbolicamente as forças da terra, aplicadas
para trazer o desenvolvimento fecundo e para criar o som musical
a partir da terra. A figura mítica do cantor semidivino
Orfeu, o grande músico e amante, o qual viajou em vida
pela terra da morte, tem representado desde os tempos remotos
o poder da musica para liberação, independência
e derrota da morte. No antigo Egito, Osiris foi adorado como deus
da musica e poesia. Na mitologia hindu, o deus criador, Prajapati,
é tido como o originador na musica. O deus da vida, Vishnu,
é também tomado como um dos originadores da música.
De acordo com alguns ensinamentos indianos, houve um som primeiro
do qual tanto os céus quando a terra vieram à existência.
Os indianos chamam esta força musical primeira de Sabda
– ou Som-Brahma, que como som-energia permeia e ordena todo
o universo.
Para
Michael Maier, a musica também tem sua raiz no próprio
Deus, no Logos criativo, no mundo sonoro, vida e luz do inicio,
pelo qual todas as coisas foram feitas e para o qual todas as
coisas voltarão (cf. John 1). Em suas "fugas"
este principio eterno, que esta escondido entre todas as coisas
criadas, como uma divina centelha dourada de luz, está
simbolicamente presente na melodia gregoriana "Christie Eleison".
Diremos mais a respeito posteriormente.
A
música, isto é, musica sonora que podemos ouvir,
tem sido considerada desde tempos muito antigo como consistindo
de duas partes: os ensinamentos teóricos da musica e a
musica pratica. Música prática (muisikè praktikè)
inclui canto, música instrumental e os conceitos básicos
da pratica musical da melodia, ritmo e medida. Música teórica
(mousikè theorètikè) incluem ambos os ensinamentos
de ética e filosofia e aqueles sobre os sons, seus símbolos
e sua ordenação melódica rítmica e
métrica. Como um estudo das bases da musica, a musica teórica
diz respeito sobretudo à sistematização dos
sons, como um modelo de ordem e relacionamento cósmico
e humano. A palavra teoria vem do grego theoria e significa literalmente,
visão ou consideração. Assim musica teórica
é uma consideração das proporções
numéricas que formam as bases dos sons audíveis.
No antigo instrumento musical chamado monocórdio, os sons
eram medidos pela proporcional redução do comprimento
da corda. As medidas e proporções que podiam ser
encontradas desta forma eram consideradas na Antigüidade
e na Idade Média como principio primeiros do cosmos, como
o principio da existência de todo o mundo que se manifesta
num padrão numérico que se pode não apenas
compreender conceitualmente, mas também ouvir.
Ambos
os tipos de musica, a teórica e a pratica tem lugar juntas
e complementam-se uma a outra, formando a assim chamada "Ars
musica", a alta arte da musica, que na Idade Media pertencia
às Sete Artes Liberais (compreendendo o Quadrivium Aritmética,
Geométrica, Musica e Astronomia – e o trivium –
Gramática, Dialética e Retórica) que constituíam
a educação erudita da época. Musica teórica
e musica pratica formam a unidade total "Ars musica",
constituindo-se em opostos, complementando uma a outr a para tornar
uma unidade simples. Há varias analogias para este todo
unificado consistindo de dois pólos opostos, tais como
energias masculinas e femininas, teoria e pratica, ciência
e fé, espirito e matéria, consciente e inconsciente,
etc.
Na
apresentação de Maier da "Quadratura"do
Circulo" (Emblema 21), a analogia geométrica disto
é o pequeno circulo interior desenhado em torno dos opostos
polares de homem e mulher. Mas mesmo além do significado
que tem "Ars musica", a musica tem representado para
todos os povos, desde a Antigüidade, através da Idade
Média e até a nossa época atual, uma expressão
de realidades que fazem para além de palavras e conceitos,
transcendendo-os e pertencendo ao divino e cósmico, tanto
quanto às regiões psíquica e orgânicas
da criação.
Um
importante teórico da musica do Sec. XIV. Jacob de Liege,
deu expressão a isso quando disse: "A musica tomada
como um todo cobre de fato tudo: Deus e suas criaturas, as forças
espirituais e corpóreas, as coisas do céu e do homem,
as ciências e as teóricas e praticas". (Speculum
Musicae, livro 1, p.11 Bragard). Para este modo de pensar, Criador
e criatura, corpo e espirito, celeste e terreno, teoria e pratica,
aparecem como pólos que se completam um ao outro, ambos
formando parte essencial do grande todo. Aqui a musica é
entendida como um todo completo, cujas diferentes características
manifestam-se em quatro formas principais:
Musica
celeste ou divina (musica coelestis vel divina)
Musica das esferas (Musica mundana)
Musica da alma humana e da humanidade, ordem psicossomática
e harmonia (musica humana).
Musica Instrumental e vocal (Musica instrumentalis)
Aqui "Musica Coelestis vel divina"significa a Musica
dos Céus ou Musica
Divina,
vista como instrumento da prece sem fim de Deus, do ininterrupto
canto da prece do universo e seus anjos à magnificência
do Criador. Musica dos Céus (paradisíaca) e principalmente
relacionada à forças transcendentais e divinas,
a "divina res", em particular aos anjos ou inteligência
como movedores (ordenadores) das esferas.
O
mundo-som das esferas que são controladas por estas forças
divinas é chamado Musica mundana, ou Musica das Esferas.
Esta é a harmonia cósmica, a qual é relacionada
à ordem harmônica do mundo no mais amplo sentido.
Este aspecto cósmico da musica é tomado para representar
aquela força harmônica para a ordem, a qual vive
dentro de todos os seres e, que este estreitamento conectado ao
universo harmonicamente proporciona um todo.
A
3ª região de musica, musica humana, é a região
de expressão das forças harmônicas para a
unidade na alma humana e no corpo humano e da ordem harmônica
entre corpo e alma como equilíbrio psicossomático
e harmonia.
A
4ª região da musica, musica instrumentalis, compreende
a ordem no espaço terreno dos materiais orgânicos
e inorgânicos e contem a musica vocal e instrumental. É
o aspecto orgânico da musica, o qual é feito com
instrumentos e a expressão audível e sonora de todos
os seres vivos na existência terrena.
Esta
maneira de pensar sobre musica abarca a totalidade da criação
incluindo suas profundas regiões, num mundo total ordenado
de acordo com a medida, o numero e o peso. Deste ponto de vista
da musica não existe divisão no sentido de separação
ou dissociação das 4 regiões, a celestial/divina,
a cósmica/mundana, a psíquica/humana e orgânica/instrumental.
Ao invés disto, 4 áreas completas, justapostas e
complementares uma em relação a outra. São
como os degraus da Escada de jacó que conectam Céu
e Terra.
Natureza,
filosofia, alquimia e psicologia oferecem muitas analogias a estas
4 regiões, por exemplos os 4 elementos: fogo, água,
ar e terra; os 4 temperamentos: sangüíneo, colérico,
fleumático e melancólico, os 4 estágios principais
do processo alquimico:
1º
- o estágio caótico da escuridão, a Nigrego
ou negrume;
2º
- o estágio do clareamento, a Albedo ou embranquecimento;
3º
- o estágio do nascimento da luz, o Citrinitas, ou amarelecimento;
4º
- o estágio do levantar do sol, a Rubedo, ou avermelhamento
luminoso do puro ouro.
A
mesma analogia é também encontrada nas 4 principais
fases do processo psíquico do desenvolvimento interno,
o processo de individuação:
A
fase caótica da escuridão psíquica, dissociação
e total inconsciência;
O estagio catastico de clareamento – esclarecimento;
A fase da educação, educação adicional
e auto educação, que segue a fase do inicio da percepção
e compreensão;
A fase de mudança e transformação com o encontro
da própria tarefa individual e o reconhecimento da inter-relação
religiosa fundamental entre o Homem e Deus.
Uma analogia adicional é a idéia cabalística
dos 4 grandes mundos entre o Céu e a Terra que se justapõem
e se complementam uns aos outros. Estes quatro mundos (o mundo
de Deus, o mundo das Idéias, o mundo das Formas e o mundo
da Matéria) tem suas analogias no sustentáculo médio
em quatro estágios da arvores sefirotica nos antigos ensinamentos
judeus e também tem suas analogias nos passos da Escada
de Jacó, a qual é às vezes representada nos
ensinamentos cabalísticos como tendo quatro grandes degraus
principais. De acordo com esta doutrina, os passos da Escada de
Jacó são quatro mundos colocados um sobre o outro,
os quais não estão separados de acordo com a maneira
que consideramos espaço e tempo, mas permeiam um ao outro
aqui e agora. O mundo de Deus se justapõe ao mundo das
Idéias, o mundo das Idéias se justapõe ao
mundo das Formas e este torna e justa por-se ao mundo da Matéria
(ª Peter, "Zohar Studien").
Retornando
agora à atitude medieval para com a música, há
certas analogias entre as 4 regiões da musica e os 4 degraus
da escada celestial. O passo mais alto, que representa o mundo
de Deus, corresponde à "Musica coelestis vel divina",
à musica mundana, enquanto música cósmica
e harmonia. O próximo degrau abaixo, o terceiro, que representa
o mundo das formas, corresponde à musica humana ou musica
psicossomática ou a harmonia no Homem. E o último
passo ou degrau da escada, que representa o mundo da matéria,
de idéias e formas encorporada, corresponde à Musica
instrumentalis e o equilíbrio harmonioso nas esferas terrenas,
onde estão escondidas as centelhas douradas da Divindade.
Assim
a representação musical e a visão dos tempos
primitivos são como os passos da escada de Jacó,
justapondo-se, permeado e ao mesmo tempo complementando uma a
outra, de modo a construir um todo em que todas as partes trabalham
juntas. Apenas a influência conjunta das quatro regiões
pode nos dar a musica verdadeira ou harmonia. Cada região
isolada só pode ser compreendida como uma parte de um todo
maior.
Na
apresentação de Michael Maier da ":Quadratura
do Circulo"no emblema 21, a analogia geométrica para
esta unidade da quaternidade é o quadrado desenhado com
4 tangentes em torno do circulo interior. Na apresentação
de Maier das 4 esferas de fogo no emblema 17, encontramos uma
analogia adicional a esta profunda visão. Esta idéia
é de novo dissimulada (ocultada) no emblema 19, com os
4 irmãos tão intimamente juntos, tão fortemente
unidos por laços naturais, que se um for morto, todos morrerão
imediatamente.
Assim
o vigorosamente simbolico pensamento musical da Antigüidade
e da Idade Media entendeu a musica, à parte de e para alem
da musica audível, enquanto representando a unificação
básica do universo e da alma, do macrocosmo e microcosmo.
Esta visão cósmica e metafísica da musica
torna sua origem do conhecimento da harmonia básica do
universo, cuja representação terrestre percebemos
acusticamente. Daí se pode compreender a estreita ligação
entre Musica e Harmonia, consideradas equivalentes desde a Antigüidade
até a Idade Média e ainda em nossa época.
Harmonia
Na
mitologia grega, a harmonia era honrada como a deusa que promovia
a conjunção das forças opostas. Ela é
filha do deus da guerra, Ares, e da deusa do amor, Afrodite, e
representa a força harmonizadora da ordem no mundo, a qual
trabalha num nível pessoal. Ao mesmo tempo é honrada
como a mãe das Musas, como protetora e patrona (patronesse)
das ciências e belas-artes. Esta idéia de harmonia
das forças, no sentido de uma arte de equilíbrio,
duas forças polarizadas opostas em um todo dinâmico
ordenado tem também um importante papel nas mitologias
de outras terras,
Etimologicamente
a palavra harmonia relaciona-se a uma das raízes conceituais
da língua grega. A silaba "har"ou "ar"
significa a unificação dos opostos num todo, Os
verbos derivados tomam este sentido em 3 formas:
Num
sentido mais material, num sentido ideal e num sentido cósmico,
metafísico.
A
palavra "ararisko" significa conectar, acoplar junto,
unir num sentido material. A palavra äresko"significa
acalmar (aliviar), mitigar e unificar num sentido ideal. A palavra
"harmozo"significa pertencer junto num sentido mais
transcendental e cósmico. Ao mesmo tempo também
significa sintonizar um instrumento ou tocar uma canção.
Correspondentemente,
temos um triplo conceito de harmonia:
Harmonia
tou kosmou
Harmonia tes psyches
Harmonia en organois
A primeira definição de harmonia, "Harmonia
tou kosmou", tem o mesmo
Significado
da Musica mundana, que já mencionamos e que significa a
harmonia cósmica, a ordem harmônica no espaço,
a harmonia das esferas. A idéia tinha grande importância
na Idade Média e na Antigüidade e pode ser seguida
até o sec. XVIII, tanto em escritos relativos à
musica filosofia, quanto na literatura alquimica e teológica.
A
Segunda definição, "Harmonia tes psyches",
está relacionada à ordem harmônica nos seres
humanos entre corpo e alma. Eqüivale à "Musica
humana"enquanto harmonia psíquica e psicossomática.
Tem a ver com a unificação das forças opostas
presentes na alma humana e seu caminhar juntas para um todo harmonicamente
ordenado e equilibrado e um ordem balanceada entre corpo e alma.
O conceito de "Musica humana"conforme descrito por Boethius
(480-524 d.C.) tem o mesmo significado: "Nada une as partes
do homem, seu corpo e alma, como o faz a musica, a qual é
uma conjunção do racional e irracional."(Quid
est aliud, quod ipsius hominis inter se partes animae corporisque
jungat, quan musica, quae ex rationabili irrationabilique conjucta
est"; De Institutione Musica, Book, ch.2)
O
que estamos exatamente discutindo é encontrado sempre e
de novo contos de fada, nos mitos, nas sagas e lendas. Assim uma
lenda da Idade Média conta que antes da confusão
lingüistica de Babel, a conversação entre os
homens se dava principalmente sem palavras, numa forma puramente
musical. Em seus pensamentos e aspirações estavam
tão sintonizados entre si que não necessitavam de
linguagem falada. Mas esta união foi tão longe que
eles se colocaram o simples objetivo de rechaçar Deus e
tornar o homem um Deus, com uma torre alcançando os Céus;
então Deus barrou seus esforços colocando-os sob
o jugo da linguagem. Apenas através da exata abertura dada
pela palavra falada, apenas através deste sentido de necessidade
foi possível fazer-se compreendido. Isto causou grande
confusão. Uma pessoa já não podia entender
a outra; o original intercâmbio direto (imediato) estava
perdido. Uma lembrança deste tempo anterior ao caos de
Babel permanece na musica. No entanto, a musica terrena é
ainda apenas um pálido eco da musica universal, da qual
os ouvidos terrenos raramente conseguem ouvir algo, pois perderam
a habilidade de ouvir claramente, a qual estava presente no Paraíso,
no inicio.
A
terceira definição de harmonia, "Harmonia en
organois"ou Musica instrumentalis, concerne à região
da musica audível, a musica sonante. É o nome de
toda música praticada pelo homem, tanto vocal quanto instrumental
e significa o equilíbrio harmonioso das forças opostas
nestas regiões que podem ser sentidas ou tocadas, que tem
a ver com a realidade material e a sensação. A palavra
grega örganon"significa instrumento, ferramenta, instrumento
musical. Esta palavra está intimamente relacionada com
a palavra-raiz ërgazomai", que significa ser ativo,
cultivar a terra, com o sentido de prepará-la para que
torne a semente da qual amadurecem os frutos. Assim, "Harmonia
en organois"significa ao mesmo tempo um harmoniosa coexistência
do homem e da terra e o surgimento (nascimento) do som, a produção
do fruto vindo da matéria no mais amplo sentido da termo.
No
fim todos estes três conceitos de musica e harmonia caminham
juntos. O homem enquanto um todo completo pertence a todas estas
regiões, tanto a terrena/orgânica/instrumental, quanto
a da alma e do cósmico/divino. Ele é penetrado por
estas regiões, as quais unem-se nele para formar um todo.
Da completa harmonia dessas forças tem-se a completa, a
individualidade. Na tríplice concepção de
"Musica mundana" ou "Harmonia tou kosmou",
"Musica mundana ou Harmonia tes psyches" e "Musica
instrumentalis ou Harmonia en organois" esta antiga forma
musical holistica do pensamento encontrou uma expressão
compreensiva.
Há
numerosas analogias a este conceito tríplice da musica
e harmonia, sendo os mais essenciais:
A
Sagrada trindade: Pai, Filho e Espirito Santo
A "Tria Prima": Corpo, Alma e Espirito e a trindade
Alquimica: Mercúrio, Enxofre e Sal (Atalanta, Hipomenes
e a Maça Dourada)
Os três estágios do processo alquimico: primeiramente
o Nigredo, o estagio do caos e da escuridão; segundo, o
Albedo, o estágio da branqueamento, a fase catártica
do esclarecimento e iluminação; terceiro o Rubedo,
a vermelhidão do puro ouro.
Aqui a já mencionada Cinitras (o amarelecimento) está
junto à Rubedo (a vermelhidão do ouro), formando
a terceira fase do processo alquimico. Esta alteração
no arranjo das fases de três para quatro, ou vice-versa,
pode ser explicada pelo significado simbólico da Quaternidade
e da Trindade, ambos de grande importância para o processo
alquimico. Num universo compreendido cosmologicamente, no qual
um principio criativo encarna-se gradualmente, através
de diferentes mundos, indo do mundo divino, através do
mundo das idéias e do mundo das formas, para baixo, até
o mundo material, o quarto mundo como mundo material é
mais baixo (inferior) do mundo da existência ainda não
materializada. O numero quatro marca a margem e o portal entre
o mundo inteligível e o mundo sensivel-material. É
o quarto que torna possível à energia encorporar-se
a tomar forma. O quatro é, assim, a consumação
e complementação do três, mas ao mesmo tempo
o três é a essência do quatro. Um dito alquimico
expõe: "Todas as coisas vêm à vida através
do três, mas elas vivem (ou gozam) suas vidas no quatro".
Assim
a trindade da harmonia cósmica, psíquica e orgânica
designa o protótipo atemporal da musica da mesma forma
que triade alquimica de Mercúrio, Enxofre e Sal representa
princípios arcaicos muito profundos.
Na
apresentação de M. Maier da "Quadratura do
Circulo" no emblema 21, o três é geometricamente
representado pelo triângulo que circunscreve o quadrado.
Todos
os aspectos da musica e da harmonia aqui mencionados finalmente
caminham juntos, misturam-se e entrelaçam-se intimamente.
O
MITO DE ATALANTA
"No
começo da história da humanidade, os homens, como
as crianças, gostavam de historias".
Incapazes
de lutar contra as forças da natureza, enfrentavam as ,maiores
dificuldades e desconfortos. À toda sua volta, forças
incontrolaveis agiam quase sempre provocando catástrofes
terríveis.
Essas
mesmas forças, às vezes, impressionavam o homem,
obrigando-o a pensar em em assuntos que até então
nem lhe haviam passado pela cabeça. Na tentativa de decifrar
os enigmas que via, o homem começou a procurar as causas
que provocavam esses horrores ou alegrias que lhe aconteciam pela
vida afora.
Entretanto,
nem sempre conseguia encontrar explicações para
todos os fenômenos. Por isso, sua imaginação
começou a funcionar.
Essa
imaginação fértil acabou levando-o a criar
incríveis histórias, cheias de beleza, riqueza em
sentimentos, mas pontilhadas com marcas de profunda tristeza que
refletiam a vida árdua que a humanidade levava.
Assim,
nasceu o mito e por conseguinte a Mitologia.
Como
os mitos são coloridos com fatos imaginários, chegam
mesmo a parecer historias de fada, mas não são.
Atrás de narrativas fantásticas, sempre existe algo
real. Na Mitologia está a vida de povos antigos, porem
mostrada de modomque eles eram capazes de ver ou de explicar.
Na Mitologia mais que tudo, podemos compreender a visão
que eles tinham da natureza, da vida e do próprio mundo.
Por esse motivo, na verdade, a Mitologia dos povos antigos é
também a religião deles. Foi na Grécia que
nasceram os mais belos mitos dos povos da Antigüidade.
Esses
mitos estão impregnados pelo clima ameno do interior da
Grécia, pelo amor à vida e por tudo que é
belo.
Os
gregos admiravam os heróis desses mitos e adoravam as criaturas
criadas por sua imaginação: os deuses do Olimpo.
O resultado dessa maneira de viver foi fantástico; assim,
os deuses imortais que apenas existiam na mente dos mortais acabaram
desaparecendo, no lugar deles ficaram trabalhos imortais criados
pelo homem, isto é, a Mitologia Grega.
O
Mito que eu vou relatar é o de ATALANTA. Feminino, fugidio,
inicialmente não integrado.
O
tema central do Mito, a união dos opostos e posteriormente,
uma transformação.
O
MITO DE ATALANTA
Logo
depois de seu nascimento, Atalanta, a heróica donzela que
tanta fama conquistaria na caça ao javali de Cálidon,
foi abandonada numa floresta por seu pai, que desejava descendentes
masculinos. Nas montanhas, uma ursa, (cuja cria tinha sido morta)
encontrou o bebê chorando e levou-a à sua caverna,
onde a alimentou com seu próprio leite. Certa vez, quando
uns caçadores passavam por aque;a região, encontraram
a criança, levaram-na consigo e a criaram. Atalanta cresceu
nas frescas montanhas recobertas de florestas da Arcádia.
Era forte e ágil como uma gazela. O ar fresco e o sol haviam-lhe
bronzeado o rosto e o corpo, mas a sua beleza era igual à
de uma ninfa da floresta, ou à da virginal deusa Ártemis.
Assim ela vivia pura e orgulhosa na solidão das montanhas,
desprezando a mão de um marido. Seu maior prazer era caçar,
a pé e armada com a lança.
Atalanta
é uma imagem da fuga do feminino, inicialmente ainda não
integrada. Ela se inscreve nesta linhagem de mulheres virgens
que não querem se unir ao Masculino.
O
meu trabalho é baseado no mito grego da bela caçadora
de pés ligeiros, Atalanta, que podia correr mais rápido
que o vento leste. Atalanta não estava muito interessada
em casar-se. Em todo caso, ela somente desejava casar-se com um
homem que fosse igual a ela. Portanto, decidiu desposar apenas
aquele que vencesse numa corrida. Com suas FLECHAS ela matava
todo pretendente que fosse incapaz de correr mais rápido
do que ela.
Eventualmente
foi vencida por Hipômenes, um descendente de Poseidon, que
a superou com a juda de três maças de ouro que foram
dadas pela deusa Afrodite. O tema central deste mito é
a união dos opostos, e posteriormente uma transformação.
O mito conta como a mocidade de Hipômenes, lançou
as preciosas maçãs de ouro, uma após a outra,
a frente dos pés de Atalanta na corrida. Três vezes
ela retardou o passo para apanhar essas tentadoras frutas dotadas
de um irresistível encanto amoroso, e finalmente enquanto
juntava a 3ª maça ela é superada por Hipômenes.
Então possuída pelo amor, ela se rende voluntariamente.
Dentre as várias figuras que se constelam na alma, a principal
do mito de Atalanta é a Imagem de uma Fuga do Feminino
em relação ao Masculino, inicialmente ainda não-integrado,
do feminino fugidio. O objetivo expresso dela é manter-se
virgem: heroina, guerreira, na etimologia popular pelo seu nome
se explicaria ou por Ter permanecido virgem por muitos anos ou
porque fora exposta no Monte Parténion, cujo significado
é "jovem", "virgem". Do grego TÁLANTA,
que significa a "sofredora", a "mulher que suporta"!
Ela se inscreve nesta linhagem de mulheres virgens que não
querem se unir ao masculino. Dedica a sua vida à deusa
Ártemis, e era na caça aos animais que a destemida
caçadora se realizava. Observa-se nesta guerreira uma força
muito grande, porém, na verdade era só aparente.
Seu método era preciso: deixava seus adversários
saírem na frente com vantagem, depois ela voava como uma
flecha vencendo os seus pretendentes. Todos até aqui foram
fatalmente feridos até o final das corridas. Ficou tão
famosa que fora a primeira mulher a ser convidada à caça
ao javali de Cálidon; fato inédito até aqui.
Adquiriu mais fama ainda pois dói ela própria que
conseguiu abater o animal. O mito de Atalanta, até este
momento, nos faz pensar nas mulheres auto-centradas (a lança
simbolizando isso), onde o Eros da relação, ao invés
de estar centrado no amor era perfurado pelo poder da relação.
Este é um padrão comum do feminino e em nossos consultórios
existem muitas Atalantas.
Da
forma como ela fora criada, mais para uma moleca entre florestas
e montanhas do que propriamente para ser uma deusa, ela andava
só desta forma: armada com uma lança e enfrentando
corridas com pretendentes. Seu desejo é permanecer na solidão
das florestas, imersa no mundo da Natureza. Até porque
um Oráculo predisse: "Caso você se case, você
se transformará num animal". Uma outra profecia a
tinha advertido: "Mesmo que voc6e fuja de um esposo, mesmo
assim você não escapará dele!". Como
haviam muitos pretendentes, quem ditava as normas da corrida era
ela; tinha vários truques para vence-los, um deles era
permitir que saíssem na sua frente com certa vantagem.
Em seguida, ela saia tal como uma flechas, conseguindo alcança-los
e abatendo-os fatalmente. Podemos pensar aqui em uma não
diferenciação. Ela é puella e quer manter-se
assim por algum tempo, sem a consciência de sua sexualidade;
é neste mundo das disputas que ela não se sente
rejeitada.
As
figuras masculinas que Reco e Hileu, foram mortos pela fiel servidora
de Ártemis, por terem tentando violentá-la.
Ao
estudar o ‘Mito de Atalanta’, o alquimista Michael
Maier associa Atalanta ao espirito mercurial, fugidio. Para ela,
permanecer neste mundo era o ideal; um mundo pré-humano
ou supra-humano, um mundo da incorruptibilidade, onde tudo permancece
igual a si-mesmo. Platão faz referencia a este mundo como
o da pré-criação. No mito é o amor
que irá romper com isso e Afrodite, que não admite
rebeldes ao amor, ajuda Hipômenes. Ele sabiamente orou para
ela e pediu ajuda para que pudesse vencê-la, tarefa muito
difícil até aquele momento. Afrodite lhe entrega
os "Pomos de ouro"e com este truque ele consegue a transformação:
a) ocorre morte da virgem, e b) o nascimento da mulher a caminho
de sua completude. Neste estágio ocorre o encontro: a união
dos opostos e a transformação; do uno no duplo;
do velho no novo; do feminino no masculino. Aqui os conteúdos
desta alma, já estão integrados, e nesta conquista
o brilho de ouro que a fascina (as maças douradas) faz
com que Hipômenes sutilmente a alcance, mais e mais, vencendo
a corrida. Atalanta sede ao amor; ela sede ao encontro com o Eros
verdadeiro. No Opus Alquimicum, na tentativa de alcançar
o auto-conhecimento é importante observarmos 3 coisas como
fundamentais: 1º - o amor do paciente pelo reconhecimento
de si-mesmo; 2º - o Eros terapêutico do analista; mas,
acima de tudo, a presença da graça divina, até
porque de acordo com a antiga experiência alquimica, o Opus
apenas tem sucesso "Deo concedente"; com a presença
e com a permissão de Deus.
Jung
nos fala do "Principium Vitae": aquilo que é
verdadeiro para um indivíduo, é verdadeiro para
todos; algo mais elevado que domina a matéria. É
a estrutura sobre a qual a matéria é constituída.
A interpretação alquimica utiliza os símbolos
de sua própria linguagem como chaves para descobrir o sentido
oculto dos mitos, drama de constantes transformações
da alma e do destino da criação.
Hipômenes
quando aparece fixa o Mercúrio e ao copularem no templo
de Cibele, Atalanta já é uma mulher. Ela já
está na terra representando a vinculação
da carne, dos impulsos mais básicos à matéria;
a vivência regressiva do espiritual. Árvore da vida
na Natureza, já existe uma conscientização;
nasce um filho desta união, Partenopeu, e rompe-se o invólucro
com o qual Atalanta se esconde da vida. Ela já esta na
terra, mas não só aparentemente forte, e sim tal
como a imagem de Cristo na cruz, fixado, nas mãos e no
peito. Atalanta vive. Na analise Junguiana, a idéia é,
portanto, utilizar esta energia a serviço da psique, em
busca mesmo de uma síntese! Opera-se aqui, uma União
dos Opostos, tal como uma energia combinada de Yin e Yang, e consequentemente,
uma "TRANSFORMAÇÃO".
Observação:
Quando
ocorre a Transformação num casal de leões,
nós podemos entender como uma passagem de uma sexualidade
infantil, para uma mais amadurecida.
Ela sai desta IMAGEM DE UM FEMININO FUGIDIO, para a da MULHER.
Estão todos como que contidos no vasto circulo da antiga
equação. Musica=harmonia. Esta totalidade musical-harmonica
que contem em si mesma uma grande variedade de fenômenos,
tem sua analogias na idéia alquimico-filosófica
da unidade do universo, na qual a psique e toda a multiplicidade
criada torna à sua origem; também na idéia
de unidade do macrocosmo e do microcosmo, e na imagem muito antiga
do Livro de Deus que conta todos os segredo da Natureza e de todas
as coisas criadas.
O
principio alquimico de que o Um primordial contem o todo e de
que todos os fenômenos, visíveis e invisíveis,
são finalmente aspectos diferentes deste principio unificador
é consendado na sentença:" Hen to pan, or Unin
enin est totum". Isto significa: O um é o todo e o
todo é o um. Deste Um primevo surge tudo o que há
nos Céus, na Terra e sob a Terra; e tudo flui de volta
novamente para este Um primordial.
Na
representação da "Quadratura do Circulo"de
Maier, a analogia geométrica a isto é o grande círculo
desenhado em torno do triângulo com o quadrado e o circulo
interno com as energias polares de homem e mulher.
Maier
tinha em mente este abarcamento do todo, significando harmonia,
quando deu à musica um papel tão amplo em seu trabalho.
ANALOGIAS
PSICOLÓGICAS
O
processo alquimico em si diz respeito a uma união entre
um enfoque filosófico, contemplativo e uma investigação
pratica, química, sobre as possibilidade transmutacionais
da matéria. O aspecto empírico da alquimia concerne
a um esforço incansável em transformar a matéria
pesada e rude em algo novo, um concentrado nobre através
de dissolução, purificação, refinamento,
destilação e, finalmente, transmutação.
A mais alta meta é a transformação do negro
saturnino (CHUMBO) no vermelho brilhante do puro ouro. Este "desejo"
deve ser compreendido ao mesmo tempo[o como profundamente filosófico
e contemplativo.
Na
retorta, o processo de transformação do grafite
(black lead) num liquido prateado refinado e então, pela
adição de cobre e ouro, num amarelo ou vermelho
solar brilhante; presumivelmente nunca resultado em puro ouro.
Um alquimista prático de nosso tempo disse a outro: "Estou
convencido de que o alquimista estaria pronto para transformar
chumbo em ouro se ele fosse suficientemente puro em sua vida como
um todo. Mas ele não é puro o suficiente nesse sentido
muito profundo. E, portante, ele deve trabalhar em direção
a este objetivo a cada dia, pratica e espiritualmente. Se alcançar
este objetivo ele não precisará mais do processo
de transmutação".
O
processo como tal era suficientemente fascinante e convidada a
considera-lo, experimenta-lo como o espelho e a imagem de um processo
similar de purificação, limpeza, transmutação
e iluminação no domínio da Alma e do Espirito.
Dia
e noite, alvorecer e anoitecer, nascimento e morte, são
tomados pelo alquimista como duplos aspectos diferentes do poder
criativo original, sem fim e sem começo e que sempre de
novo transforma morte em vida. Este poder criativo, que atua oculto
em todos os níveis do ser como principio atemporal da vida,
com a grande potência alquimica do universo, transforma,
quando opera (atua) no interior da natureza, a semente que permanece
na escuridão da terra, no trigo que o homem colhe e transforma
em farinha e pão.
A
potência alquimica no organismo transforma o pão
em carne e sangue. O alquimista de novo transforma as substancias
na retorta em ainda mais preciosas concentrações.
Ele repete os eventos macrocósmicos no domínio microcósmico
e por meio disso combina arte e natureza numa unidade.
`Da
mesma forma que o lavrador ara a terra, assim também o
alquimista em seu laboratório prepara a matéria
do escuro chumbo para receber o ouro-semente. Ao mesmo tempo,
prepara sua alma em prece e meditação para receber
o divino germe espiritual, com o objetivo de auxiliar a nascer
e para um novo desenvolvimento do fruto espiritual futuro (próximo),
chamado o "Filho Filosófico". Os vários
ensinamentos de sabedoria mundial chamam a isto de "o nascimento
do homem interior", "o nascimento do sol à meia-noite",
"o acendimento-iluminação da jóia na
flor de Lótus" e, mais que tudo, "o nascimento
de Deus no coração do ser humano".
Enfim
o verdadeiro alquimista estava afeito a um desejo espiritual,
correspondendo muito intimamente ao processo de transmutação
na retorta; estava afeito à pesquisa e encontro da "Pedra
dos Sábios", o "lápis philosophorum",
ao encontro de um ouro psico-espiritual interno, à busca
da masi alta sabedoria sobre a qual foi dito: "Ela é
a expressão do poder de Deus e a pura emanação
da glória do Todo Poderoso... É um reflexo da luz
eterna, um espelho imaculado do trabalho de Deus... Posto que
é uma (una), ela pode fazer todas as coisas e enquanto
permanecendo em si mesma, renova todas as coisas; em cada geração
se transforma em almas sagradas e as faz amigos de Deus e profetas".
(Sabedoria 7, 25-27/"Wisdom", na Bíblia).
Portanto
Michael Maier dá um lugar especial à sabedoria e
a coloca na figura de uma mulher, juntamente com a Árvore
da Vida (combinada com uma fuga e um discurso), no ponto médio
de seu tratado (Emblema 26).
Tudo
é baseado na Sabedoria, pois ela personifica a "cognitionem
chymiae cum praxi", isto é, "toda a ciência
da alquimia e a experiência prática correlata".
Em suas mãos ela fez duas bandeirolas com os textos de
"Sabedoria de Salomão": "Saúde e
vida longa estão em sua mão direita. Glória
e riqueza sem fim em sua mão esquerda". O discurso
anexo contém muitas citações das Sagradas
Escrituras e indica desse modo a origem religiosa sobre a qual
se baseia o trabalho. Sem sabedoria, assim diz Maier, a humanidade
vive morta. Ele escreve: "É a Sabedoria que opera
em todas as coisas e penetra em tudo. À direita ela alcança
o Oriente, à esquerda o Ocidente e ela abraça toda
a terra. Quem a ama, ama a vida e aqueles que a buscam cedo serão
preenchidos de alegria" (Sirach 4-12);Os que estão
junto dela são imortais e em sua amizade é puro
deleite, pois em sua companhias não há amargura
e na vida com ela não há dor, mas prazer e alegria".
(Sabedoria 8-16); "Ela é uma árvore da vida
para aqueles que se agarram a ela; aqueles que a têm firmemente:
são chamados felizes" (Provérbios 3-18).
A
fuga relacionada tem como tema "O fruto da Sabedoria humana
é a Árvore da Vida". O cânone está
colocado em dupla oitava, o que simboliza na sabedoria alquimica,
a Pedra da Sabedoria ou o Filho Filosófico e indica o novo
nascimento espiritual. Isto significa o renascimento do homem
interior oculto a partir do Espirito da Sabedoria. Assim o verdadeiro
alquimista está profundamente ocupado (ligado) com a libertação
da centelha da divina Sabedoria, aprisionada na escuridão
da matéria, libertando-a numa nova vida.
Portanto,
a alquimia, para M. Maier é uma ciência sagrada;
uma arte acessível apenas ao Sábio. Ela claramente
se dissocia do charlatanismo alquimico, uma fraude que persegue
apenas o ganho material. Para ele, os processos no caso alquimico
são ao mesmo tempo reflexos e analogias de vários
processos de transformação material e espiritual
no universo, através do qual o homem se habilita a obter
discernimento em relação aos mais profundos mistérios
da Criação.
Da
mesma forma que os esforços do alquimista genuíno
dizem respeito a ajudar o nascimento e posterior desenvolvimento
do Filho Filosófico, assim também no trabalho psicoterápico:
educação e auto-educação, as mais
nobres buscas esforços estão dirigidas à
personalidade ainda não manifestada, que é a maior
e futura unidade. C.G. jung foi o primeiro pesquisador da psique
do sec. XX a descobrir várias analogias entre as diferentes
fases do processo alquimico e os estágios de desenvolvimento
por que passa a psique humana, de novo no curso do seu desenvolvimento.
Desde
o inicio da nossa era, 4 fases principais foram diferenciadas
no processo químico de transmutação.
O
estágio de Nigredo, como o caótico, desordenado,
a condição bruta da
matéria, tanto presente primitivamente quanto produzida
através da divisão de elementos;
O
estágio de purificação e embranquecimento,
o Albedo, como a fase catártica da limpeza e purificação;
O estágio do amarelecimento ou Citrinitas, como fase de
transição do clarear de Albedo para o romper do
amarelo;
O estágio do Envermelhecimento, Rubedo ou Rubefáctio,
como o surgimento do puro ouro vermelho. ( Algumas vexes os estágios
de Citrinitas e Rubedo são considerados como um único
estágio, e desta maneira a seqüência das fases
se dá em 3 passos: de Nighredo através de Albedo
para o Rubedo).
Estas fases correspondem muito proximamente aos estágios
de transformação que a psique humana repetidamente
atravessa durante o curso de seu desenvolvimento:
Correspondendo
ao Nigredo alquimico, pode existir no domínio da alma uma
condição de escuridão psíquica, confusão
caótica, inconsciência e uma dissociação
de energias. Assim a 1ª e principal fase do desenvolvimento
espiritual diz respeito principalmente ao auto-conhecimento, ao
reconhecimento de si próprio, do curso da própria
vida em sua atual existência, fraquezas e forças,
erros, enganos, imperfeições e necessidades.
Esta é a fase de discernimento em relação
à sombra pessoal, usualmente
Mais
ou menos inconsciente. Expressa-se, entre outras formas, através
da projeção de nossas falhas sobre os outros e,
como diz o provérbio: "Guias Cegos, que coais mosquitos
e engoles o camelo!". (Mateus 23-24). A sombra individual
contém a soma de todos os conteúdos inconscientes
e suprimidos da psique e porque há nela algo de inferior,
primitivo e desprazeiroso, procura-se um afastamento dela ao invés
de uma aceitação desses aspectos obscuros, negros
do lado interior retardado em seu desenvolvimento, liberando a
centelha dourada do conhecimento interior nela, e trazendo-as
à luz da consciência. A área sombria e escura
subconsciente da psique, freqüentemente se encontra em grande
contraste em relação a luz, o lado consciente das
pessoas, com sua fachada quase sempre muito polida e ajustada
encobrindo o caos subjacente.
O
primeiro estagio de reconhecimento de si próprio, reconhecimento
do próprio lado escuro e a dor psíquica resultante,
é seguido pelo 2º estágio (correspondente ao
estágio alquimico da Albedo): a fase catártica de
arranjo e clarificação. A esta 2ª fase de desenvolvimento
pertence também o confronto com o lado interno contra-sexual,
com o lado feminino no homem (Anima) e lado masculino na mulher
(Animus). O reconhecimento, desenvolvimento e integração
do elemento psíquico contra-sexual é tão
importante para o homem quanto para a mulher. O lado feminino
não desenvolvido no homem deixa-o mal-humorado, irritadiço,
suscetível, insatisfeito, depressivo. Por um lado ele é
efeminado, por outro suas reações são ,muito
rudes. Mas então, o desenvolvimento do lado feminino do
homem de modo saudável cria uma verdadeira (genuína)
habilidade para o amor na área psico-espiritual tanto quanto
na área biológica, e isto se manifesta em sua forma
mais elevada, como o poder de sabedoria da alma.
É análogo na mulher. Quando o lado masculino da
mulher permanece não-
desenvolvido,
ela se comporta: com uma intolerável obstinação,
contensiosidade, severidade desagradável e rudeza. Quando
seu lado masculino é libertado da supressão é
completamente desenvolvido e integrado, então há
um positivo efeito como iniciativa, coragem, profundidade espiritual
e voracidade.
Este
processo psicológico do desenvolvimento dos lados contra
sexuais internos como requisito para o desenvolvimento no caminho
da auto descoberta tem sua analogia alquimica na figura do "Rebix"ou
hermafrodita (Emblemas 33 e 38).
Após
este 2º estágio de arranjo e classificação
dos diferentes processos
e conexões psíquicas, segue-se como terceiro estágio
(análogo à fase alquímica de Citrinitas),
o estágio de educação e auto-educação.
Aqui o conhecimento obtido é transladado para a vida ativa.
Isto
leva diretamente ao 4º dos principais estágios do
desenvolvimento, correspondente ao alquimico Rubedo, que traz
o alvorecer, o nascimento do sol no qual a pessoa que passa pelo
processo muda para uma personalidade madura, consciente de suas
responsabilidades e ciente de ter experienciado a mais profunda
conexão da existência. Este é o estágio
no qual apenas –através da graça – pode
ser experimentado o nascimento, o homem espiritual que transcende
a natureza, uma renovação da personalidade, encontrando
o ponte médio entre os pólos, e o centro virtual
de todo o ser. Este momento do nascimento da personalidade maior
é conhecido como esclarecimento ou iluminação
e poderosamente também chamado "O Fogo Central"ou
"O Reino de Deus dentro de nós".
Assim, no sempre renovado curso do processo em seus diferentes
estágios pode se vir a experimentar em todo lgar –
nos escuro interior da matéria, bem como nas escurasm profundezas
subconscientes da alma – estão ocultas as "centelhas
de ouro"da presença divina, aguardando serem liberadas.
Mas este processo de desenvolvimento psíquico de modo algum
avança por linhas retas. A dinâmica se seu curso,
como o processo alquimico, pode bem ser comparada a fuga de Atalanta
da perseguição de Hipômeres, e o fim desta
fuga trazido pelos Pomos de Ouro do amor! Pois da mesma forma
que Atalanta foge, assim, com grande astúcia, os prevalecentes
(decisivos) conteúdos psíquicos inconscientes suprimidos,
fogem das garras do consciente. Isto é assim em todos os
estágios do processo de desenvolvimento psíquico,
e é sempre o mesmo em todos os níveis intermediários.
Este
curso cuja estrutura constantemente se repete ainda que
Conteúdos
dinâmicos sejam continuamente mudados e novos, pode bem
ser comparado ao trabalho de Maier, no qual a estrutura em fuga
permanece a mesma em todas as 50 composições, enquanto
as fugas individuais oferecem sempre novos temas e formação
das vozes. Cada fuga, em si, pode ser considerada como uma "imagem
musical da totalidade da psique", e das móveis energias
polares aí contidas. Pois como Atalanta e Hipômenes,
assim as energias opostas operando na alma fogem umas das outras
e lutam entre si. Apenas para mencionar algumas, há a principal
oposição entre consciente e inconsciente, poderes
masculino e feminino, ou as diferentes e possíveis atitudes
de extroversão expansiva e contemplativa introversão,
as extremamente contrarias, funções, do pensamento
e sentimento, do insight intuitivo e sensação realística.
Se o resultado não é o distúrbio do equilíbrio
psíquico, então tudo isto, agindo tão diferentemente,
deve finalmente construir um todo e alcançar o equilíbrio.
Mais
que tudo, todos estes poderes da alma, que fogem uns dos outros,
e lutam entre si, requerem sua União, da mesma maneira
que Atalanta e Hipômenes necessitam "três Pomos
Dourados" da "Deusa do Amor": Considerando no processo
psíquico, isto significa que para o sucesso do trabalho
e prevenção da constante fuga do homem de si mesmo
e do seu próprio auto-reconhecimento, três coisa
são necessárias:
A
amor do paciente pelo reconhecimento de si mesmo, e pelo trabalho
cosigo mesmo:
O Eros terapêutico do analista, e
Sobretudo, e em tudo, a presença da graça divina,
que de acordo com a antiga experiência alquimica, o Opus
apenas tem sucesso "Deo concedente", isto é,
com a presença e permissão de Deus.
O psico-terapeuta que leva a sério o seu trabalho, e não
superestima seu papel de assistente, também ganha esta
experiência. Mantendo-se diariamente na fornalha do Criador",
ele trabalha, enfrenta problemas, tem paciência, espera
e "faz o seu melhor; mas sendo honesto consigo mesmo, sabe
que o sucesso do trabalho não é mérito seu.
E sabe também que ele, pessoalmente, em solidariedade a
seu paciente, tem que trabalhar continuamente em seu próprio
desenvolvimento ulterior que sempre procede de novo através
dos estágios de confissão, purificação,
auto-educação e final, transmutação,
transformação.
Assim,
o processo do desenvolvimento psíquico, como o processo
alquimico de transmutação, está ligado ao
eterno processo da vida: crescimento, (desenvolvimento), morte
e renascimento. Uma das mais intimas (próximas) analogias
a isto é o evento musical, como expressão de vida
através de um som igualmente nascido, extinguido e renovado.
Simplesmente através do toque, e passagem de um tom e o
novo nascimento do seguinte, surge uma linha musical, ou alguma
forma de seqüência sonora.
Esta
é a maneira pela qual as palavras de São Gerônimo,
devem ser entendidas quando ele descreve o Logus criativo da luz
e da vida, do inicio como "summus musicus": como o maior
músico do universo, através de cuja morte é
sempre novamente transformado em vida: "Christus sumus musicus".
Também a serem entendidas neste sentido são as palavras
de Michael Maier, antes do seu 50º aniversário, coloca
abaixo de seu próprio retrato no inicio das 50 fugas e
emblemas para o seu ponto Atalanta Fugiens", e que representam
uma espécie de síntese (concentração)
de sua filosofia. Estas palavras são: "Haec mihi restant.
Posse bene in Christo vivere, posse mori", que significa:
"Esta permanecerá minha tarefa: ser apto a viver bem
e morrer bem em Cristo." Para Maier, Cristo não é
de forma alguma uma metáfora vazia. Para ele, este nome
contem todo o poder criativo que, nascido do único eterno
Deus, continuamente auxiliando a efetuar novos nascimentos em
todos os lugares e através de muitas mortes. Por este nome
significa: A palavra Divina, o Logus da origem primeva, engastado
(embutido) no Divino, luz criativa, som e vida, da qual tudo provém
e para a qual tudo retorna e que opera em todo lugar em que, oculto
ou revelado, visível e invisível, e nomeado com
muitos e variados nomes, pulse o imortal, a energia de Vida desafiando
a morte, acima de tudo, o Amor.