Symbolon
Artigos
 ..inicial | editorial | quem somos | artigos | monografias | bibliografia | resenhas

O CORPO SIMBÓLICO E AS NEUROCIÊNCIAS

Daniele Montechi dos Santos Rosa

É inegável o quanto as ciências mais exatas se desenvolveram neste século. Entre elas as Neurociências que estudam principalmente as áreas da neurobiologia, biocognição e ciências cognitivas. O cérebro humano está sendo cada vez mais desvendado, doenças ligadas a ele, antes sem nenhuma perspectiva, agora podem ter um prognóstico bastante preciso.

Creio que qualquer psicólogo que se interesse pelo ser humano como um todo, deva ter pelo menos uma noção do que já se sabe em termos de cérebro, seu funcionamento e áreas de influência. Casos meramente biológicos, fisiológicos, podem ser confundidos com perspectivas mais psicológicas, onde comportamentos de caráter compulsivos, por exemplo, podem ser associados a repressões inconscientes, traumas e outras abordagens psicologizantes, quando na verdade podem advir de um efeito colateral de um medicamento ou mesmo de um mau funcionamento cerebral verificável.

Este avanço no conhecimento é muito importante, mas me causa um pouco de medo quando vejo estas descobertas encaradas como a explicação única para tudo o que acontece com o ser humano. O homem é tão complexo que é difícil termos uma visão dele total. Geralmente, principalmente quando se trata de ciências, temos um recorte da realidade no que se refere ao ser humano: o vemos da perspectiva biológica, ou genética, ou psicológica, ou social, ou antropológica.

Verifica-se hoje uma tendência muito grande para uma mudança de paradigma da ciência, embora ainda sejamos bastante influenciados por uma ciência racional positivista. Esta mudança se tornou bem visível com a física através do avanço da física quântica e a ampliação que esta trouxe em relação à física mecanicista para a explicação da realidade da matéria.

A medicina hoje sofre também este conflito: por um lado médicos que tendam a todo custo erradicar as doenças através de seus conhecimentos, onde o corpo é mais tratado como uma máquina onde tudo deve estar funcionando bem. Para isso é necessário alimentar bem esta máquina, movimentá-la para não enferrujar e uma série de cuidados que caracterizam o comportamento do homem moderno, e ao mesmo tempo eliminar tudo que é ruim ou pode vir a ser.

Por outro lado podemos perceber que está havendo uma maior preocupação (pelo menos em alguns casos) com uma relação mais humana no atendimento, entre médico – paciente. Também abordagens mais holísticas que englobam o físico com questões psicológicas, tentando olhar o ser humano de uma maneira mais global.

Neste sentido, no campo do estudo da matéria e de energias não tão visíveis, mas sutis, que fazem parte de nosso meio e de nós mesmos, também existe enormes avanços. Não só abordagens mais antigas, como as abordagens orientais (onde o avanço ocorreu por outro caminho que não pelo lado da racionalidade) foram resgatadas, como áreas como a da psicologia, medicina alternativa, ampliaram estes aspectos, trazendo-os para nosso mundo ocidental e estudando-os de maneira bastante séria.

Gostaria neste sentido de falar mais especificamente do corpo simbólico, onírico ou sutil. Há vários estudos nesta área que apresentam belíssimos casos tratados com esta abordagem. Sendo o ser humano complexo, como já foi dito, pecam os neurocientistas se não tiverem a mente aberta para esta abordagem e pecam os psicólogos também se não tiverem conhecimento dela.

Mesmo as doenças mais “meramente” biológicas ou fisiológicas requerem uma abordagem mais ampla em seu tratamento, pois manifestam-se neste ser humano completo que mencionamos acima. Muitas vezes os tratamentos pecam por negligenciarem o âmbito da significação do que está ocorrendo no contexto de vida da pessoa.

O que se passa no corpo não é algo meramente mecânico, onde basta tomar isto ou aquilo, ou tirar fora com uma cirurgia para que tudo esteja resolvido. Bem sabemos os inúmeros casos de pessoas que não melhoram com tudo aparentemente a seu favor, e outras que praticamente renascem de estados tidos como sem perspectiva nenhuma de sobrevivência. O que explica estes casos que fogem do conhecimento da medicina, das neurociências ?

É de alma que estamos falando. E a alma tem muitas formas de manifestar-se. Através de sonhos, fantasias, eventos sincronísticos e também através do corpo, de sintomas. Arnold Mindell coloca o corpo onírico como o encontro da alma (psique) com a matéria (1).

Tomas Moore em seu livro Cuide de Sua Alma (2) trabalha muito bem esta questão de olharmos para a alma que interage com nosso corpo e o quanto a linguagem da alma não condiz com a maneira que nosso mundo moderno está acostumado a tratar do corpo. Segundo ele:

“A medicina moderna, por outro lado, está totalmente voltada para a cura e não se interessa pela arte intrínseca do corpo. Ela deseja erradicar todas as anomalias antes de ter uma chance de interpretar seu significado. Ela transforma o corpo numa abstração química e anatômica, fazendo com que ele e sua expressão se ocultem por trás de gráficos, tabelas, números e diagramas estruturais. Imagine uma abordagem médica mais sintonizada com a arte, uma abordagem que se interessa pelas possiblidades simbólicas e poéticas de uma doença ou órgão problemático”(2)

O autor retrata muito bem a linguagem da alma que se dá na forma de poesia, de imagens, de sintomas. A abordagem da alma não retrata interpretações unívocas, mas múltiplas possibilidades de significações. O símbolo entra aqui como a abordagem preponderante que possibilita reflexão, e possibilidade de re-significação da vida de uma pessoa. “Etimologicamente, símbolo significa duas coisas ‘postas juntas’, enquanto sintoma significa coisas que ‘caem juntas’) . Mais adiante coloca: ‘O sintoma é isto: corpo e vida postos juntos, como que por acaso”(2).

Arnold Mindell em seu livro O Corpo Onírico (1) retrata muito bem a junção do corpo com a psique. Em vários relatos de casos nos é mostrado o quanto ao trabalhar com o corpo (em termos de movimentos e sensações) e as imagens provenientes deste trabalho, promovendo uma integração de conteúdos presentes, efeitos bastante significativos ocorrem sem qualquer outro auxílio.

Mindell também faz um histórico das várias abordagens feitas com o corpo onírico desde a ioga, xamanismo, e a abordagem junguiana. Ele realmente se inspira na teoria de Jung para desenvolver o seu trabalho, pois Jung enfatizou muito no desenvolvimento de sua teoria o trabalho com a alma e suas manifestações, a importância da imagem, da imaginação, os arquétipos enquanto moldadores do comportamento humano, inclusive de posturas e movimentos corporais.

Dentro do enfoque da abordagem junguiana, ao estudar o corpo onírico através dos contos de fadas, Mindell se depara com Mercúrio como o Deus do corpo:

“Amplificando-se a natureza de Mercúrio como o auxílio da alquimia, da ioga e da meditação, nota-se que o deus do inconsciente também é o deus do corpo, simbolizando energia psíquica e física não controladas...Tanto faz se trabalhamos com visões, sonhos, sincronicidades, espasmos do corpo, doenças, porque, na verdade, estamos lidando com uma mesma mercurialidade do corpo onírico. O trabalho com o corpo e a análise de sonhos tem uma característica comum: ambos procuram determinar onde está Mercúrio, observar suas ações nas fantasias e nos sinais corporais, e meditar sobre sua natureza associando e amplificando suas ações até que se transformem em substância imortal, isto é, na individuação do verdadeiro ser humano”(1)

Esta riqueza de linguagem e da abordagem é o que gostaria de salientar no que as várias abordagens do ser humano, a neurociência e o corpo onírico podem contribuir entre si. Neste sentido também as neurociências, que procuram ser exatas o máximo possível, possuem um linguajar simbólico que retratam toda a natureza de conceitos de uma época.

Elizabeth Zimmermann também desenvolveu um trabalho que denominou de Dança Meditativa. Através da dança, do contato da pessoa com o corpo, das imagens, ela abre um espaço para a ampliação da consciência individual e um propício caminho ao processo de individuação. “Cura” de sintomas podem ser consequências disto. Como ela mesma coloca “qualquer coisa está relacionada com um espaço simbólico” (3)

O que estas abordagens do corpo onírico resgatam é também o convívio com o inesperado e o desconhecido, algo que as ciências e a medicina de um modo geral tentam eliminar a qualquer custo. Como coloca Mindell “Bohr generalizou o princípio de incerteza da física para a biologia”. A incerteza, o desconhecido e o imprevisível farão sempre parte de nossa realidade. Fugir disto é inevitavelmente causar sintomas.

O que também fica bastante claro nestes trabalhos é que o conceito de cura se relativiza. A cura é conseqüência de algo muito maior. Muitas vezes uma doença exige uma mudança radical da vida de uma pessoa, e só através desta mudança, à nível de comportamento, pensamentos, sentimentos é que a pessoa se “cura”. “Cura é uma meta secundária, que acompanha a auto-realização”(1).

Neste sentido é que gostaria de enfatizar mais uma vez as possíveis trocas do que se sabe do corpo onírico e do conhecimento já acumulado das neurociências. Não podemos esquecer que as duas abordagens são recortes da realidade. As neurociências pura e simplesmente, negligenciando a alma, torna-se sem vida, transformando seu objeto de estudo em um máquina. O corpo onírico pura e simplesmente pode ficar etéril demais , fugindo das realidades de nossa vida cotidiana espaço-temporal. Sua objetivação no corpo e na vida é uma maneira de podermos integrar e aprofundar aspectos de nossa totalidade.

Referências Bibliográficas

(1) Mindell, Arnold. O Corpo Onírico. São Paulo: Summus, 1989.

(2) Moore, Thomas. Cuide de sua Alma.

(3) Zimmermann, Elizabeth. Integração de processos interiores no desenvolvimento da personalidade: um estudo clínico de psicologia analítica a partir de um trabalho em grupo com dança meditativa e desenho livre . Tese de Mestrado – Universidade Estadual de Campinas, 1992.


.......................
 ... c.g.jung | conversas | biblioteca | informativo | agenda | links | fale conosco