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O ARQUÉTIPO DO CAIPIRA E O ANALISTA DO 3º MUNDO

Isabel Ferreira Rosa Labriola

Tenho como proposta neste encontro fazer algumas reflexões sobre a expressão do arquétipo do caipira na dimensão da nossa identidade de latino-americanos e de países considerados de 3o. mundo, uma vez que diante de uma cultura européia e norte-americana, considerada de 1o. mundo, somos considerados uns caipiras. A referência entretanto, não contempla toda a potência contida no arquétipo do caipira, se o considerarmos como uma expressão do homem natural ou de uma prima matéria humana, mas aos esteriótipos de uma cultura caipira, com sua persona rústica diante do progresso de uma cultura industrial.
Desde nosso mito de origem e colonização ficamos submetidos a uma condição de inferioridade que continua sendo atuada e mantida historicamente para garantir diferenças econômicas, sociais e políticas. Somos, aos olhos e ações 1o. mundo, “os subdesenvolvidos”, “os ignorantes ou incultos”, “os improdutivos”, “os coitados”, “os tolos”, “os atrasados”, “uns caipiras pitorescos”. Somos os países pobres, os depositários da função inferior da América.
Acontece que acolhemos em nós essa desigualdade. Nosso ideal estético de identidade está projetado em “arquétipos 1o. mundo” ou do colonizador e assim tendemos a rejeitar nossos valores naturais, nossa emergência original caipira.
Prisioneiros de uma cena de origem, na troca do espelhinho pelo ouro, continuamos fascinados pelo objeto brilhante do conquistador, nos espelhamos nele e acreditamos ser esse o ouro cultural. Desviamo-nos alienados da exploração das riquezas da nossa própria terra; além do que o nosso ouro costuma estar misturado ao barro e lama da nossa história, turvando nosso olhar quanto as suas possibilidades de valor.
Sabemos que a nossa identidade pessoal é permeada pelos movimentos culturais da nossa psique coletiva. Estamos imersos nos padrões arquetípicos oferecidos pela nossa cultura de País e submetidos às suas tendências. A psique é uma totalidade política, movida pela dinâmica de um jogo de forças de energias múltiplas que buscam a potência de se realizar. Portanto, temos de pensar nosso trabalho teórico e psicoterapêutico dentro de um contexto político e situá-lo como parte da subjetividade do social. Trabalhamos com as interpenetrações simbólicas
contidas nesta psique coletiva. Conforme Jung, a psique mergulha suas raízes num inconsciente coletivo, na sociedade e na história.
Nesta perspectiva, a questão que se coloca para nós, terapeutas junguianos de 3o. mundo, é qual pode ser a qualidade da nossa contribuição social como profissionais da psique? Considerando a desigualdade como uma constante
gestada culturalmente, temos diante de nós a dor pelo sentimento de degradação da identidade, coletiva e pessoal.
Isabel F.R.Labriola
Como cuidar de uma psique que busca o princípio da equivalência como uma constante e que tenta uma compensação de equilíbrio que ultrapassa o campo pessoal e traz em sua gênese as feridas do coletivo? Esta é uma questão que nos atinge como cidadãos latino-americanos e nos desafia enquanto analistas de 3o. mundo, que lidamos com “subjetividades 3o. mundo”.
Quais são e como se apresentam os sintomas 3o. mundo em nós, e em nosso encontro analítico? E como eles circunscrevem na psique pessoal um campo de forças determinado pela política desse coletivo que desafia, delimita e dificulta os caminhos da individuação. A necessidade de adaptação externa a uma realidade de país pobre ou a uma cultura, em princípio desprestigiada internacionalmente, desvia nosso ego vaidoso da tarefa de estabelecer uma identidade cultural com esta realidade. Combina muito pouco com o equilíbrio idealizado que buscamos para a conquista da nossa individualidade. Temos o desprestígio como equação de identidade, o que não fascina a psique pela rota do coletivo na busca da individuação. É em cima desta polêmica psíquica, da busca da individuação numa cultura onde a individualidade se contrapõe à identidade coletiva, que precisamos desenvolver nossas reflexões.
Enquanto povo brasileiro possuimos, ou somos submetidos a um ancestral complexo de inferioridade. Temos uma depressão existencial e histórica de ser 3o. mundo. Adotamos os valores culturais europeus e norte-americanos como superiores e desejáveis e os adaptamos a nossa cultura. Caminhamos entre uma identidade desejada e uma já culturalmente dada, o que faz nos perder entre uma ética pessoal e uma lógica moral coletiva. Lançamos mão de personas de poder que dissimulam carências, mas naufragamos entre complexos de inferioridade e de superioridade. Carregamos a dor da humilhação social pela ferida da desigualdade. Somos acometidos de uma ansiedade cultural congênita.
Nossa relação com o inconsciente social intensifica nossos núcleos pessoais fragilizados e tornamo-nos por vezes deprimidos, obsessivos ou paranóicos, nostálgicos ou visionários. Criamos como defesa uma “ecologia interna” adaptativa, ajeitamos nosso comportamento em lógicas provisórias, deformamos nossa cultura original e agregamos a ela a ideologia da política social do momento. Que em geral, é uma repetição alienada da dinâmica patriarcal sombria do colonizador.
Tentamos algumas saídas. Uma delas é acomodarmo-nos numa concepção fatalista de mundo, que constitui uma boa defesa contra as grandes perdas e o sentimento de privação.
Às vezes desenvolvemos um conformismo irônico ou cético frente às possibilidades de reflexão e de saídas, o que parece ser resultado de um ego guerreiro frustrado nos seus últimos embates utópicos. Um ego crítico, mas que
perdeu o eros da caminhada; muito de acordo com os tempos pós-utópicos, com muros invisíveis e realidades sombrias não restauradas.
Outras vezes entramos em idealizações da pátria, numa saída romântica que idealiza um Self grandioso, gigante adormecido, mas acabamos como um ego anão subdesenvolvido, porque nos colocamos na posição de filhos ingênuos de credibilidades político-parentais imanentes.

Isabel F. R. Labriola
Não aguentamos por muito tempo essa ordem patriarcal, civilizatória e colonizadora, cheia de razões e medidas, que só afirma nosso desvalor e rouba de nós uma alegria também congênita, fruto de uma ordem matriarcal originária e exuberante. Então, na nossa “ecologia interna” criamos e recriamos saídas individuais provisórias, ajeitando-as conforme as demandas do momento. Criamos o jeito.
Damos sempre um ” jeitinho” de administrar as frustrações e as impossibilidades do bem viver. Se o caminho da realização pessoal está difícil, inventamos desvios, atalhos e paralelas.
Desenvolvemos um pragmatismo tupiniquim. Inventamos um jeito de as coisas darem certo, sendo que “dar certo” equivale a “resolver o meu problema”, ainda que provisoriamente. Podemos considerar o “jeito” como o fenômeno cultural mais característico do povo brasileiro. Atesta nossa vivacidade e flexibilidade. É a nossa peça de resistência tupiniquim. Para além de uma consciência coletiva universal e globalizada, afirmamos nossa diferença e individualidade criando estilo próprio;- o “jeitinho brasileiro”. Que tem servido como o conquistador de uma identidade internacional gloriosa, através do futebol, do samba e do carnaval como sínteses da cultura brasileira.
O futebol e o carnaval são também importantes fenômenos terapêuticos. “Lavamos a nossa alma” com as vitórias do futebol, driblamos as crises e as depressões de identidade jogando um bolão com nossos adversários, no talento de um jogo de cintura existencial, e portanto imbatível. Atualizamos também nossas figuras psíquicas com os personagens do carnaval, quando projetamos num teatro estético-lúdico singular a representação de toda uma fenomenologia brasileira, em que a inversão de papéis e a experimentação das diferenças abre possibilidades para exercícios da individualidade.
Sob o domínio de um espírito Puer, o jeito revela o talento para lidar com o novo, localizar brechas e oportunidades. A idéia é de se desviar das leis e das normas adversas de uma cultura Senex, mas o jeito acaba por referendar a necessidade da existência da lei. Assim, “da mesma forma que se não existisse a lei não existiria o jeito, o jeito existe para dar razão à existência da lei” (Rega,2000:79). Desta forma, o mesmo “jeitinho” que afirma a força criativa da imaginação da psique brasileira, reafirma também o princípio de uma ordem colonizadora pelos riscos da perda de limite e da barbárie.
De fato, “dar um jeitinho” pode se tornar a afirmação de uma autoridade licenciosa sobre o outro. É também pervertermos o respeito ao limite em favor próprio. É praticarmos uma regra de exceção que singulariza nossa necessidade e individualidade, mas pode corromper nossa dignidade se nos habituarmos às transgressões como constantes meios para se chegar aos fins. Podemos cair na
insensatez da falta de limites por falta de um controle egóico, individual e social e nos inflacionarmos numa utopia perversa.
Mas é nossa realidade sofrida de povo, nossa história política de país que nunca considerou as práticas sociais como questões relevantes e a falta de crença na força de expressão política da identidade nacional que alimenta a utopia de saídas individuais. Assim, o brasileiro desconfia de qualquer lei e segurança que venha do

Isabel F. R. Labriola
Estado e se lança nos jogos de risco, de possibilidades, na aventura de ganhar e perder, mesmo que com isso se arrisque nas rotas marginais e sombrias.
É importante lembrarmos sempre que todos esses fatos sociais são fatos psíquicos. Estamos circunscrevendo uma individuação coletiva que influencia e até determina as individuações pessoais. Estamos tentando acompanhar a criação de equações simbólicas e seus códigos de significados psicológicos na dimensão social.
Estamos atrás das estratégias usadas pelo ego para se adequar ao mesmo tempo a uma ética pessoal e coletiva. Estamos tentando localizar o sofrimento e as fixações e armadilhas psíquicas que impedem uma conexão mais saudável com o nosso eu província para a realização da sua totalidade. Estamos tentando criar leituras Junguianas possíveis para potencializar nosso trabalho de terapeutas destas psiques brasileiras, ou de 3o. mundo.
Com isso fazemos também um exercício de construção da nossa identidade de analistas junguianos brasileiros ou latino-americanos e criamos uma cultura própria a nossa realidade. Sabemos do valor e da eficiência das teorias científicas européias e norte-americanas para o nosso trabalho de psicoterapeutas, aprendemos com eles, mas às vezes as importamos com respeito submisso, sem adaptá-las a realidade das nossas feridas psíquicas. Acabamos como alunos servis de estrelas longínquas, aprendemos todas as formas da sua linguagem para bem nos relacionarmos com eles e aceitamos que não nos compreenda na nossa língua materna, eixo da nossa identidade. Adaptamo-nos ao seu domínio e vacilamos em ocupar um espaço profissional conquistado pelo nosso talento e esforço genuínos. Titubeamos em mostrar a face autêntica, caipira, por preconceito adquirido de não sermos suficientes, e com isso reforçamos os vícios da dominação sobre nós, numa complementação sombria de papéis. Ficamos então na posição de filhos crédulos e dependentes de uma cultura parental “superior”. Continuamos na troca “ingênua” do brilho projetivo do espelhinho pelo ouro.
De acordo com Stephen Kanitz (2000:170) “Copiamos coisas prontas, traduzimos tudo, preferimos citar a pensar, ridicularizamos inclusive os observadores genuinamente brasileiros. Inteligentes no Brasil são os eruditos da cultura alheia.”
Também enquanto terapeutas, patinamos no tema da degradação do sentimento de identidade. Numa compensação a nossa identidade ferida, reeditamos a ideologia colonizadora, repressiva ou caritativa em nossos consultórios. Em geral, nos agarramos as razões iluministas da ciência, que nos dê uma persona de “intelectuais primeiro mundo”, destacados entre nossos conterrâneos provincianos. Queremos um ego que sabe o Self, e portanto é capaz de controlá-lo, ou ainda editá-lo. Atuamos um poder por um suposto saber. Ficamos no lugar dos bacanas, da elite pequeno burguesa, do colonizador, do próprio Self.
Sem dar-nos conta do lugar ideológico que ocupamos, o espaço terapêutico pode se manter impregnado pela dissociação polarizada dos papéis na relação terapeuta-cliente, para além da estratégia clínica da projeção restauradora.
Sem dar-nos conta, podemos estar mantendo uma degradação benevolente, fundamentada numa cultura cristã caritativa que se utiliza das profissões de ajuda como veículos de sua ideologia e continuamos a ritualizar desigualdades, através de uma solidariedade simpática tradicional.
Isabel R. Labriola
Enquanto povo, temos a vantagem de termos desenvolvido uma grande capacidade imaginativa e criativa, o que deve facilitar acesso aos caminhos da psique, como sugere Jung. Desta forma, “o jeito” pode ser uma aventura Bandeirante abrindo picadas em florestas de possibilidades ainda inexploradas, se acompanhado como um legítimo recurso do Self individual.
Como vimos, em meio ao desprestígio de uma identidade coletiva as saídas tornam-se individuais. Há uma busca por diferenciação do social e uma crença devotada por realizar um destino individual, que desperta a coragem e a honra do ego ferido. Não há um envolvimento fascinante num Self coletivo, mas há um grande compromisso com um Self individual. Então, somos um povo permeável à realização de individuações desvinculadas do coletivo, ou, que tendem a alienar-se dos compromissos político-sociais. Nesta perspectiva, penso que o nosso trabalho Junguiano de análise pode oferecer uma compreensão que amplie os registros do Self coletivo nos destinos individuais, ancorando e resignificando os sofrimentos narcísicos do ego, ao apontar para a conquista das individuações pessoais via discriminação das identidades coletivas, o que ao final concorrerá para implementar as transformações sociais e a conquista de individuações coletivas.
Desafiados a desenvolver nossa individuação profissional, temos que contar também com as indiscriminações do coletivo ou com os recursos da nossa própria cultura. Isso implica em superarmos os paradoxos das personas que utilizamos, em graus variados de consciência. Em fazermos exercícios discriminatórios constantes diante dos patrulhamentos psicológicos e culturais que sofremos, inclusive na nossa formação. Pede um compromisso ético para com uma individuação pessoal e coletiva, porque individuação no 3o. mundo implica em ser livre e solidário com os outros.
Nesta perspectiva, temos que acreditar nas possibilidades imanentes da nossa própria psique coletiva, com uma diversidade e multiplicidade culturais exuberantes. E em nosso potente recurso técnico da elaboração simbólica. Então, convém investir na potência da ferida coletiva também em nós. Uma potência original, uma alma brasileira, latino-americana, ainda seduzida num jogo de manutenção de progressos que não são os seus, mas capaz de produzir emergências singulares dentro de sua própria lógica.
Talvez possamos superar o fascínio de uma vitimização histórica, um complexo adormecido num inconsciente coletivo, que se alimenta de um prazer corrompido de ser objeto de gozo do outro, do pai-descobridor/colonizador. Talvez estejamos encantados nesta maldição, _ estamos ocupados demais em manter ou desmascarar esse contrato sombrio, e com isso temos nos mantido aquém de um desenvolvimento possível. Se assim for, temos nos mantido numa resistência neurótica colonial improdutiva.
Penso que temos que nos aventurar a descobrir o Brasil de um outro jeito. Os portugueses e europeus já o descobriram e desbravaram; nós ainda não. Há de haver outras energias fluentes esquecidas, ou pouco consideradas, na história. Uma delas é a do caipira. De acordo com Antonio Cândido (1989:36) “o caipira é o produto da fusão de origem da cultura portuguesa e aborígene....e ao mesmo tempo agente muito ativo de um grande processo de diferenciação cultural própria”. Do ponto de
vista psíquico, podemos considerar a cultura caipira como uma energia instintiva original, que busca realizar uma diferenciação cultural própria à partir das forças imanentes do coletivo. Desta forma, temos em potência no arquétipo do caipira a experiencia arquetípica da individuação. Ele nos reconecta com o nascimento de um “antrophos” brasileiro.
Podemos pois afirmar que nele repousa uma individuação brasileira, diferente da que se desenvolveu seguindo os passos e o desejo do colonizador, atrás de um progresso industrial ou internacional. E portanto, mantém-se como reserva ecológica da nossa psique.
Além do que, como já refleti em outro encontro (Labriola,1999), encontramos no caipira uma “atitude propícia” de interação e troca com a natureza, bastante próxima da atitude terapêutica desejável, pois ele mantém uma sabedoria anímica instintiva e uma crença devocional apropriada às manifestações irracionais de uma totalidade psíquica.
Olhando pois desta outra perspectiva, podemos recuperar a potência de sermos caipiras. Trazemos em nós uma função inferior que é uma reserva ecológica potente para a manutenção de um equilíbrio psíquico de mundo. Então, talvez devamos alimentar-nos melhor das nossas singularidades brasileiras e latino-americanas. Elas potencializam em nós uma dignidade original e são essenciais para a conquista de identidades sintônicas que caminham para a individuação.
Além do que, convém considerarmos o ouro original de cada cultura, pois só assim poderemos adquirir uma disposição nova de troca. Entre o espelhinho e o ouro convém discriminarmos melhor o brilho verdadeiro e possível das individualidades na história, evitando as armadilhas e os espelhamentos narcísicos de poder e de dominação que ainda colonizam as nossas relações pessoais e coletivas.

ISABEL F. R. LABRIOLA
Psicóloga Membro Analista da SBPA-SP
Junho-2000 - Rio de Janeiro

Referências Bibliográficas

CANDIDO, Antonio (1998).Os Parceiros do Rio Bonito, 8. Ed. São Paulo, Duas
Cidades.
KANITZ, Stephen (2000). Senso de Observação. Revista Veja, São Paulo, ano
33(20):170.
LABRIOLA, Isabel (1999). Do Analista-Caipira ao Caipira-Analista in XIII Moitará
“República do Pica-Pau Amarelo, Arquétipos da Cultura Caipira“- Campos do
Jordão - SBPA SP.
REGA, Lourenço S. (2000). Dando um Jeito no Jeitinho. São Paulo, Mundo Cristão.

ISABEL FERREIRA DA ROSA LABRIOLA
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