MERLIN
ANTHROPOS: DIVINDADE, PROFECIA, ENCANTAMENTO
Rafael
T. Teixeira
Por
trás de um véu, de uma onírica máscara
de ausentadas sombras, grandes sonhos ocultam uma mitológica
entidade na floresta insana da nossa alma. Vemos Merlin, o poderoso
mago da experiência mítica a respirar seus contemplativos
passos para dentro da mente e do coração de cada
ser.
Testemunhando
a sombra do infinito, como um estranho e indefinido murmúrio
a nos contar, ele (o proclamativo espírito da sabedoria
interior), ajuda-nos a penetrar na obscura atmosfera aonde os
mitos são as enigmáticas e profundas buscas para
dentro de nós mesmos: as desconhecidas jornadas no mar
noturno da inconsciência onde o mistério da imanência,
a verdade oculta e o mar do júbilo inalcansável
deixa sempre a tênue fragância de um rastro atrás
de imagens.
È
nessa pérfida e obscura atmosfera que o mito se insere,
dentro das volumosas brumas da escuridão, o olhar do homem
fenomênico, a súbita aparição da alma
oculta na regência ensandecida da inquietude da penumbra,
as densas marés do sono inconsciente e o cálido
sopro das paragens do desejo que a tudo envolve.
O
Mito
Merlin,
a alma que a tudo escuta (o espírito que ardentemente atenta),
tem uma história envolta em suas próprias trevas:
O mito conta que, há muito tempo, os diabos tramavam um
plano para levar os homens de volta ao inferno. Revoltados com
a vida de penitências constantemente ressaltada pelos profetas
da comunidade, planejaram então enviar a terra um vidente
do inferno para anular a obra de Cristo.
Nos
caminhos tenebrosos do silêncio, um dos diabos é
eleito e destinado a gerar o antagonista de Deus. Logo em seguida,
uma jovem devota é escolhida e predestinada a ser a mãe
do filho do diabo.
Tendo
se esquecido de "sempre dormir com a luz acesa" como
rezava os conselhos de um padre confessor, a moça cai em
tentação e, numa noite em que banha pelos campos
um luar profundo, uma mágica e estranha atmosfera, ela
concebe o filho do demônio.
Imediatamente
posta em desespero pelo "súbito" esquecimento,
ela confessa tudo para o padre, de nome Blaise, que lhe sentencia
a prisão perpétua; e, após uma prematura
gestação, ainda sob as frias paredes de uma cela,
o garoto Merlin nasce.
Logo,
com apenas um ano de idade, começa a falar e profetizar
seus dotes xamânicos, tendo recebido uma dupla herança
(da virgem mãe o dom de prever o futuro e do pai demônio
o entendimento de todo o passado, enxergando assim muito mais
longe do que qualquer homem já nascido).
O
pequeno e incrível infante, de belas e mágicas palavras,
diz então a sua mãe que ele logo a abandonaria,
sendo requisitado por pessoas estranhas que haviam prometido levar
seu sangue longe da luz terrena - Merlin faz então a sua
mãe uma importante revelação: trata-se da
história de José de Aritmatéia, do Santo
Graal e do seu próprio nascimento, dizendo que para sempre
seria misterioso e que guardaria à eternidade a sua estranha
essência.
Na
mesma época, existia na Bretanha um rei inescrupuloso,
de nome Vortigen, que que havia subido criminosamente ao trono
após depor seu irmão do poder. Este soberano, de
natureza vil e tempestuosa, sonhava erigir uma poderosa torre
para testemunhar sua posição, e, no entanto, sempre
que tentava levanta-la, ela sempre acabava ruindo, sem que ninguém
encontrasse o motivo. Insatisfeito com as dificuldades encontradas,
ele recebe como anuncio de profetas de seu reino que deveria misturar
o sangue de uma criança sem pai a argamassa do castelo,
quebrando assim o encantamento das pedras que se soltavam.
Com
a condição de não ser morto, Merlin, a bastarda
criança escolhida para o sacrifício, indica o porquê
da torre estar sempre a ruir: é que sob as bases do castelo,
havia um rio subterrâneo ao qual habitavam dois dragões,
um branco e outro vermelho, que se moviam ante a pressão
das pedras (o rei Vortigen mandou cavar e, como Merlin havia predito,
lá estavam os dragões, que começaram imediatamente
a se combaterem, resultando no extermínio do vermelho).
Merlin
profetizara que o dragão branco simbolizava o predomínio
da figura do irmão deposto de Vortigen, Uther, que em pouco
o mataria e reinaria absoluto (o que de fato acontece, fazendo
com que Merlin seja eleito conselheiro permanente do reino de
Uther, sob a condição de poder desaparecer, de tempos
em tempos, sem que ninguém lhe questionasse).
Inicia-se
um reinado de grandes acontecimentos, Merlin fala a partir daí
da importância da exaltação de Cristo e da
necessidade de se construir uma mesa em nome do "poder benévolo
do criador" (Merlin fala também do Graal e diz que
a mesa deveria ser ocupada por cinquenta designados cavaleiros,
restando sempre vazio um dos assentos: o mago anuncia que este
só seria ocupado quando do tempo do sucessor de Uther,
por um cavaleiro ainda não nascido que teria antes que
encontrar o Graal).
Merlin
se despede da Távola e diz que pretende ficar distante,
porque: "os que aqui estão reunidos devem acreditar
no que vêem acontecer e não quero que pensem que
participei dos acontecimentos". Ele então se retira
para as castas da floresta e adormece em meio as selvas numinosas
com seu constante trabalho de reflexão e aprofundamento
espiritual.
Mas
quando Uther, que havia se apaixonado pela bela Igraine, esposa
do duque de Tintaguel, recorre a ajuda secreta do mago, este utiliza
de sua mágica para transformar Uther na figura do marido
ausente numa batalha, nascendo assim Arthur: Merlin exige que
o garoto lhe seja entregue como recompensa. Feito isto, ele imediatamente
o leva para ser criado entre camponeses, que o instruem junto
a Key, da mesma idade de Arthur.
Após
alguns anos, em que o rei Uther falece sem deixar herdeiros, Merlin
reaparece, profetizando que surgiria dentro de um breve período
de espera uma espada encravada numa bigorna em um grande bloco
de pedra diante de uma igreja (uma inscrição dizia
que aquele que conseguisse retirar a pedra seria o novo rei).
Muitos
cavaleiros tentam, mas é o humilde e jovem Arthur quem
retira a espada, sendo então submetido a grandes provas
e reinando absoluto por muitos e muitos anos.
Quanto
a Merlin, a medida em que os anos passam, torna-se um grande profeta,
um enigmático vidente das estrelas que, cada vez mais desacreditado
da bruta natureza humana, vai-se distanciando e desaparecendo
ao coração da floresta, triste com a insanidade
dos homens imersos em suas estúpidas e inabaláveis
convicções.
Cada
vez mais desaparecido em sua vida animal, entre os feixos corpulentos
das árvores mortas e as úmidas entranhas da selva
abscondita de sua alma, seus olhos espreitam indagadores em meio
as crescentes sombras. Merlin precisa agora ser evocado com cantos
e músicas celestes, chamado por sua irmã Ganieda
para retornar ao mundo dos homens, impassível em sua longínqua
existência e completamente à deriva nas matas enfermas
seu rosto esconderem seu sono (após algum tempo, ele lê
nas estrelas que sua antiga mulher, Gvendolena, está prestes
a se casar novamente. Merlin aparece então montado em um
veado e mata o noivo da mulher, caindo num rio e sendo capturado
por homens que circundam o local).
Prisioneiro
dos serviçais da irmã, ele sente saudades da mata
e perde toda a alegria de viver, não restando a irmã
nada a fazer que não libertá-lo - feito que, em
gratidão, faz com que ele a deixa construir uma casa de
vidro na floresta, com setenta janelas e portas, onde ele pode
serenar aprofundando-se em suas intensas observações
astronômicas.
Oculto
dos homens, Merlin passa os tempos a "pesquisar os astros
e a cantar acontecimentos futuros", vivendo em sua distante
e invisível mansão de vidro juntamente com três
fiéis: o seu aluno bardo Taliesin, a sua irmã Ganieda,
que tanto o cuidara, e um ex-doente mental curado pela fonte que
brotou junto a casa de Merlin quando ele enlouqueceu devido a
guerra entre escotos e britânicos.
Merlin
então desaparece para todo o sempre, enfeitiçado
pelo poder da bela fada Niniane, que o encantara com a magia de
seu próprio amor - não mais podendo retornar ao
mundo dos homens e se tornando um entidade oculta, que vez ou
outra fala a algum herói que o clama intensamente em meio
aos sombrios bosques de carvalhos aonde seu coração
ainda pulsa, ardentemente.
Merlin
da Casa Encantada: O Palácio de Cristal por Trás
das Nuvens de Esmeralda
Como
o mágico da floresta, o ser que avista e prediz os encadeamentos
futuros, Merlin também profetiza a beleza do passado e
a possibilidade da existência do futuro - sabendo e reconhecendo
o que as pessoas ocultam, seus olhos míticos dançam
e penetram dentro da mente e do coração dos homens
por meio de sonhos e misteriosos rituais.
É
sob a ordem de Merlin que são trazidas da Irlanda as grandes
pedras de Stonehenge, como um monumento aos mortos da batalha
de Salisbury (ele as ergueu com seu imenso poder sobrenatural
e erigiu-as em redor dos túmulos dos soldados mortos atestando
a soberania do poder do espírito em detrimento da força
física).
Assim,
de uma forma muito estranha, ele evoca a figura do ser que existe
por detrás, sobrevivendo a margem da inconsciência
humana num reino onde sua figura se entrelaça com as chamas
da existência, com a escura magnitude das perenes selvas
da alma e das cadeias mágicas do véu do entendimento,
das falácias do coração e da mente ocultas
do homem que não quer se conhecer.
Sua
fala mansa e irônica, seu possuído e mefistotélico
rosto transmitem o próprio paradoxo de sua condição,
em meio a imagem onírica de um ser que em muito se aproxima
das camadas mais baixas e regressivas do psiquismo humano ao encontro
da natureza animal, da impropriedade do ser frente ao sagrado
manto do olhar divino e sobrenatural.
Paralelamente,
sua figura emana estranha relação com a Távola
Redonda, sendo muito mais consciente do que Arthur e seus cavaleiros,
ele aparece como uma figura que de maneira muito próxima
ao Graal produz a confrontação psíquica,
a consciência projetada que põe em descoberto as
falhas e os crimes das pessoas. Por ser relacionado com o anticristo,
aparece como um ser meio humano meio animal, que habita as profundezas
e propõe o encontro com os misteriosos bosques da nossa
própria natureza, revelando aqui e ali os pontos falhos
do caminho e as estreitas e sinuosas trilhas pelas fendas do muro
da existência.
Como
personificação do arquétipo do velho sábio,
Merlin é o ser oculto que traz a tona os desaparecidos
sonhos, as fórmulas secretas que por meios sempre desconhecidos
colocam o problema dos antagonismos inconscientes, da sabedoria
interna ressentida aos íngremes e inconstantes desfiladeiros
da matéria. Por deter o poder do inconsciente, reconhecendo
a verdadeira loucura de sua alma primitiva e solitária,
ele vive retirado nas florestas, em estreito contato com as sombrias
formas do além, repassando seus cotidianos conhecimentos
e suas soturnas manifestações: Merlin promana o
deus da metamorfose e da transformação (Hermes-Mercúrio),
o ente pagão da natureza e a plenitude do poder sagrado
a fechar o simbolismo cristão.
Perfeita
encarnação do homem primordial, Merlin pode ser
enquadrado como o "o espírito da verdade que está
oculta aos homens insinceros", o "espírito cósmico
mutável", tornado terreno em sua manifestação
material: como mago e profeta sideral, é o "homem
físico mais tarde tornado espírito que fala de um
tumba"; um diabo, Messias e anticristo que compactua e mostra
o caminho a ser seguido.
De
uma forma mágica e impronunciada (é assim que Merlin
sempre aparece), ele surge como o "conteúdo oculto
do próprio Graal", o vórtice da verdade inerente
que rejeita a submissão a teatralidade dos homens - surge
também como o "eremita vestido de branco", e
"uma mulher secreta que sai da água com um vestido
vermelho cheio de estrelas".
Como
atributo simbólico da iluminação-revelação
eternas, como deus da plumagem transformática, Merlin é
o mistério do Graal e do indivíduo, uma encarnação
da vontade de Deus que não pode ser conhecida coletivamente
ou concretizada unilateralmente. Em seu aspecto dual, é
a natureza informe abnegada pelo indivíduo, potencialmente
reconhecida e reverenciada no coração do homem único.
Desaparecendo
sombriamente, restando apenas "uma pedra da qual fala o seu
espírito", ele é o promulgador de Deus e o
continuador da obra redentora do salvador, a esquecida palavra
que, ainda hoje, nas mais densas florestas psíquicas de
nossa mente, pulsa e sobrevive; entre rosnando, grassnando e cantando,
as intempéries dos sonhos à luz de nossas vidas...