MEDITAÇÃO
E IMAGINAÇÃO
Sonia
Regina Lyra
Ao
buscar um tema para a configuração desta página,
ocorreu-me que a questão "meditação"
tem surgido com frequência através da maioria dos
pacientes em terapia, que a buscam (à meditação)
como parte das possibilidades alternativas de contato e aprofundamento
consigo mesmos , através de técnicas as mais diversas,
sendo que o próprio termo nem sempre é compreendido
em seu sentido mais profundo.
Pensei
em transcrever aqui , um pouco daquilo que foi pesquisado e experienciado
pelo próprio JUNG , iniciando por abordar o tema através
de um dos textos do volume XII, Psicologia e Alquimia e , quem
sabe , mais adiante ,abordando alguns aspectos de "O Segredo
da Flor de Ouro" um manual clássico de meditação
budista e taoísta escrito na China ( LÜ TUNG-PIN)
, comentado por C.G.JUNG e R. Wilhelm texto este que parece ser
portador de um sentido diverso em várias partes ,devido
à alterações sofridas na tradução
do original chinês ( estas alterações podem
ser encontradas em "Il Segreto del Fiore D’Oro"
por Thomas Cleary – Ubaldini Editore – Roma).
"Jung
diz : o Lexicon Alchemiae (Dicionário de Alquimia) de Ruland,
datado de 1612, define a "meditatio" nos seguintes termos:
"A palavra ‘meditatio’ é usada quando
ocorre um diálogo interior com alguém invisível
que tanto pode ser Deus, quando invocado, como a própria
pessoa ou seu anjo benigno".
Este
"diálogo interior" é familiar ao psicólogo
– por constituir uma parte essencial da técnica do
diálogo com o inconsciente. (Falaremos disso mais adiante).
A definição de Ruland prova sem dúvida alguma
que os alquimistas , ao falarem em "meditari", não
se referem a uma simples reflexão, mas a um diálogo
interior e portanto a uma relação viva com a voz
do "outro" em nós que responde, isto é,
com o inconsciente.
O
conceito de meditação no "dictum"(dito)
hermético, diz: "E como todas as coisas vêm
do Uno, através da meditação do Uno",
deve ser entendido na acepção alquímica de
um diálogo criativo mediante o qual as coisas passam de
um estado potencial inconsciente para um estado manifesto. Assim
pois lê-se num tratado de Philalethes (Introitus apertus
em: Mus.herm. p. 693) : "O maravilhoso é que a nossa
pedra , apesar de já ser perfeita e capaz de transmitir
a tintura perfeita, humilha-se de novo voluntariamente e medita
uma nova volatilidade, sem nenhuma manipulação".
Veremos logo o que se entende por volatilidade meditada, quando
ele diz: "Ela ( a pedra) liquefar-se-á voluntariamente...
e a uma ordem de Deus será dotada de espírito ,
o qual erguerá vôo , levando consigo a pedra."
"Meditar" significa portanto que através de um
diálogo com Deus haverá mais espírito fluindo
para a pedra; isto quer dizer que esta se espiritualiza , volatiliza
e se sublima cada vez mais .
Khunrath
(Hyleal.Chaos, p.274) escreve mais ou menos o mesmo: "Assim
pois estuda/ medita/ sua / trabalha/ cozinha... abrir-se-á
então para ti uma torrente salutar, a qual nasce do coração
do filho do grande mundo", uma água "que nos
é dada pelo próprio filho do grande mundo e que
jorra de seu corpo e coração, tornando-se uma verdadeira
Aqua Vitae natural.... Da mesma forma, a "meditatio caelestium
bonorum"(meditação dos bens celestes) mencionada
deve ser entendida no sentido de uma relação dialética
e viva com certas dominantes do inconsciente.( pgs.286/287/288)
Naturalmente
que, dado a complexidade do assunto ( Meditação
e Imaginação) , poderíamos desenvolver aqui,
uma centena de páginas informativas, comparando inclusive
as pesquisas de Jung com as de outros autores. Mas me ocorre que
o próprio "método junguiano" de tratar
um assunto como este , parece ser o da "amplificatio",
ou seja (paragr. 403- pg.300) segundo Jung : "O método
da alquimia, do ponto de vista psicológico, é o
da amplificação ilimitada. A "amplificatio"é
recomendada sempre que se trate de uma vivência obscura,
cuja vaga insinuação deva ser multiplicada e ampliada
através de um contexto psicológico a fim de tornar-se
compreensível.
Por
isso na psicologia complexa aplicamos a "amplificatio"na
interpretação dos sonhos. O sonho é uma insinuação
demasiado vaga para o entendimento, devendo portanto ser enriquecido
com o material associativo e analógico e reforçado
até tornar-se inteligível. Essa "amplificatio"constitui
a segunda parte do "opus", sendo concebida como "theoria"pelo
alquimista..... ( "theoria no sentido verdadeiro de "visio")...."
Percebo
que as associações do próprio Jung vão
seguindo uma espécie de "alinhavamento" nos ditos
de Filósofos e Alquimistas , que vão construindo
um texto de complexidades cada vez mais amplas e páro pra
me perguntar... não será melhor voltar ao início,
na tentativa de encontrar um sentido pro sentido já dado????
Me explico. JUNG diz que esse "diálogo interior"
é familiar ao psicólogo – por constituir uma
parte essencial da técnica do diálogo com o inconsciente.
Mas hoje me ocorre perguntar se, nós modernos, ainda buscamos
o sentido originário destas três palavras básicas
: diálogo, interior, inconsciente ( seguidas de tantas
outras) . Aparentemente , expressões velhas conhecidas
nossas e repetidas no dia a dia, mas será que ainda nos
provocam algum tipo de reflexão??? Na tradução
em português que tenho em mãos (1991) fala-se na
sequência : (veja a frase completa no texto acima) ... "diálogo
criativo mediante o qual as coisas passam de um estado potencial
inconsciente para um estado manifesto"... de que "coisas"
está-se tratando aqui??? Logo em seguida , vai ser citado
o texto em que surge : "nossa pedra" ... bem, penso
: mas será que para entender esse "diálogo
interior" tenho que buscar a compreensão analógica
destes símbolos? Já coloco a questão no plural
pois vão ser citadas outras designações tais
como: "tintura, humilha-se de novo, nova volatilidade, nenhuma
manipulação" etc... Em seguida ele parece querer
explicar o que se entende por "volatilidade meditada"
mas não encontrei no próximo texto maior clareza
(leia-se a sequencia no texto acima).Penso que podemos refletir
alguns aspectos de : diálogo, interior, inconsciente....
DIÁLOGO:
vem do grego = discurso ou pensamento. Toda existência humana
é, em certo sentido, dialógica ou dialogal, mesmo
previamente ao uso da palavra. A própria relação
objectal que o recém-nascido estabelece com o rosto da
mãe já é uma forma de diálogo. Todo
o processo de crescimento espiritual é um esforço
por atingir níveis cada vez mais profundos e cada vez mais
perfeitos de diálogo...
Segundo
Martin Buber (l878-l965) o diálogo é uma forma superior
de encontro , definindo-o como "mutualidade da ação
interior". Por isso o movimento dialógico fundamental
consiste em "voltar-se para outrem". M. Buber opõe
à atitude dialéctica e à atitude egológica
o que chama dialógica: o exercício da vida espiritual
em diálogo com um tu pessoal e concreto, o qual pode revestir
as mais diversas formas, nomeadamente o silêncio. No sentido
que Heidegger atribui a esta compreensão, o diálogo
supõe a superação do individualismo-egoísmo
e a superação da vontade de sistema. O diálogo
como atitude existencial supõe a vontade de compreender
o outro tal como a de, pelo outro, nos compreendermos a nós
próprios.....
Também
as diversas ciências humanas – de que a corrente psicológica
da gênese recíproca é um caso exemplar –
apontam ao homem e aos homens esta via dialogal, a qual é
um apelo à superação e à transcendência.
A
partir desta pequena introdução à etimologia
da palavra (que naturalmente é extensa) talvez possamos
dar seguimento com a palavra : interior.
INTERIOR:
A busca pela compreensão de uma "pequena síntese"
desta palavra é o que Jung chama de uma "longissima
via", que não é uma reta, mas uma linha que
serpenteia, unindo os opostos à maneira do caduceu ...
Nesta via ocorrem as experiências que se consideram de "difícil
acesso".. Neste caso Jung está falando (parágr.3
à 7) Vol. XI –Psicologia e Alquimia – de que
a Arte requer o homem inteiro! Assim , como proceder ??? buscando
o interior do homem? Ou o homem interior? E qual o papel do exterior
do homem ou do homem exterior? Como ver a unidade , em sua aparente
oposição?????
Tentando
pegar o "fio da meada" que venha , passo a passo nos
guiando de forma que não nos percamos neste "labirinto"
de uma infinidade de conteúdos, textos ou, sucumbir ao
feitiço das "dez mil coisas" que parece próprio
do homem ocidental , opto por , ao falar de INTERIOR , falar do
"homem interior" que segundo Jung (parágr.7)
poderia significar: "A exigência da "imitatio
Christi", isto é , a exigência de seguir seu
modelo, tornando-nos semelhantes a ele, deveria conduzir o homem
interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação.
Mas o fiel, de mentalidade superficial e formalística,
transforma esse modelo num objeto externo de culto; a veneração
desse objeto o impede de atingir as profundezas da alma, a fim
de transformá-la naquela totalidade que corresponde ao
modelo." "Cristo, enquanto modelo, carregou os pecados
do mundo. Ora, quando o modelo permanece totalmente exterior,
o mesmo se dá com os pecados do indivíduo, o qual
se torna mais fragmentário que nunca; o equívoco
superficial em que incorre lhe abre o caminho fácil de
jogar literalmente sobre Cristo seus pecados, a fim de escapar
a uma responsabilidade mais profunda, e isto contradiz o espírito
do cristianismo.... No caso do valor supremo (Cristo) e o maior
desvalor ( o pecado) permanecerem do lado de fora, a alma ficará
esvaziada; faltar-lhe-á o mais alto e o mais baixo... (Um
pouco mais de Meister Eckhart não faria mal a ninguém)!"
Como
podemos começar a intuir, nisso que Jung está chamando
de "lado de fora" parece estar a alma extraviada, e
o nome técnico desse extravio é PROJEÇÃO.
"Numa forma exterior de religião, em que toda a ênfase
repousa na figura externa (tratando-se neste caso, de uma projeção
mais ou menos completa) , o arquétipo (tipo, modelo) é
idêntico às representações externas,
mas permanece inconsciente enquanto fator anímico. Quando
um conteúdo inconsciente é quase totalmente substituído
por uma imagem projetada, isso determina sua exclusão de
qualquer influência e participação no tocante
à consciência . Sua própria vida é
com isso profundamente prejudicada uma vez que é impedido
de exercer sua função natural de formação
de consciência; mais ainda , ele permanece inalterado em
sua forma originária, pois no inconsciente nada se transforma...
Pode acontecer que um cristão, mesmo acreditando em todas
as imagens sagradas, permaneça indiferenciado e imutável
no mais íntimo de sua alma, porque seu Deus se encontra
completamente "fora" e não é experimentado
em sua alma. Seus motivos e interesses decisivos e determinantes
bem como seus impulsos não provêm da esfera do cristianismo,
mas de uma alma inconsciente e indiferenciada que é, como
sempre pagã e arcaica... Os grandes acontecimentos do mundo,
planejados e realizados pelo homem, não são inspirados
pelo cristianismo, mas por um paganismo indisfarçável.
Tal fato se origina de uma alma que permaneceu arcaica, não
tendo sido tocada nem de longe pelo cristianismo... A cultura
cristã mostrou-se assustadoramente vazia: nada mais que
um verniz externo, porquanto o homem interior permaneceu intocado,
alheio à transformação. Sua alma não
corresponde às crenças exteriores. O Cristo em sua
alma não acompanhou o desenvolvimento exterior. Sim, exteriormente,
tudo está aí, na imagem e na palavra, na Igreja
e na Bíblia, mas o mesmo não se dá , dentro.
No interior reinam os deuses arcaicos , como nunca...."(parágr.14)
Será
este "interior" um "lugar" ou um "modo
de ser"????? Como "reinam os deuses arcaicos" ?
a partir de quais "modos de ser", podemos percebê-los
? como seria dialogar com eles? Seria isto o que os alquimistas
citados por Jung , querem dizer com Meditação? E
qual o papel da Imaginação? Em que consiste o que
Jung denominou por inconsciente????
INCONSCIENTE:
Jung diz: "Confrontar-se com o inconsciente é algo
de muito diverso: trata-se de liberar os processos inconscientes
que irrompem na consciência sob a forma de fantasias. Pode-se
então interpretá-las...vivê-las plenamente
e também compreendê-las, uma vez que a compreensão
intelectual pertence à totalidade da experiência...
A libido nunca pode ser apreendida, senão numa forma determinada,
isto é, ela é idêntica às imagens da
fantasia. Só podemos libertar a libido do inconsciente,
permitindo que aflorem as imagens da fantasia que lhe correspondem.
É por isso que , em tais casos, devemos dar ao inconsciente
a ocasião de trazer suas fantasias à superfície."(parágrs.
342 ss. Do Volume VII – Estudos sobre Psicologia Analítica).
Será
que poderíamos entender o "trazer suas fantasias à
superfície" como "olhar para elas", talvez
inicialmente como o exemplo citado acima, de um "diálogo
silencioso"- (do bebê que olha o rosto materno)-? tentando
captar o conteúdo manifesto da fantasia ( assim como fazemos
com um sonho)?Mas como fazer isso? Jung diz : "Ao ser invadido
por uma depressão , não devia tentar distrair-se
através de um trabalho ou algo semelhante, mas sim aceitá-la
, dando-lhe por assim dizer a palavra. Isto é o oposto
de abandonar-se a um capricho, atitude tão característica
da neurose; não se trata aqui de uma fraqueza, como quando
o indivíduo se abandona sem freio a um estado de ânimo.
Pelo contrário , este é um trabalho difícil,
que consiste em conservar toda a objetividade, apesar do domínio
do capricho, fazendo deste último seu objeto, e deste modo
impedindo-o de converter-se em sujeito dominante. O indivíduo
deve dar a palavra a seu próprio estado de ânimo;
seu capricho dir-lhe-á que aspecto tem e através
de que analogia fantástica pode exprimir-se". Permitindo
que seu estado de ânimo se exprima através de uma
imagem, consegue-se que pelo menos uma pequena parcela da libido,
isto é, da energia criadora eidética se converta
num conteúdo da consciência , subtraindo-a assim
ao inconsciente. Porém, "olhar a fantasia" é
ainda muito insuficiente, porque para ser vivida de um modo completo
a fantasia exige, não só a visão passiva,
mas a participação ativa do sujeito. Mas como considerar
"real" o que é "apenas uma fantasia"
e tomá-la a sério? Jung diz: "Algo atua por
detrás do véu das imagens fantásticas, quer
lhe atribuamos um nome bom ou mau."(parágr.353) "A
fantasia é uma expressão, uma aparência de
algo desconhecido, mas real. Jung prossegue:"A contínua
conscientização das fantasias ( sem o que, permaneceriam
inconscientes), com a participação ativa dos acontecimentos
que se desenrolam no plano fantástico, tem várias
conseqüências, como pude observar num grande número
de casos. Em primeiro lugar, há uma ampliação
da consciência, pois inúmeros conteúdos inconscientes
são trazidos à consciência . Em segundo lugar,
há uma diminuição gradual da influência
dominante do inconsciente; em terceiro lugar, verifica-se uma
transformação da personalidade... a qual representa
uma transformação da atitude geral...cuja meta é
alcançar o ponto central da personalidade." (parágr.365)
Talvez
possamos constatar através destas colocações
, não "o que é o inconsciente" mas uma
parte significativa de seu modo de atuar , isto é, aos
estados de possessão de diversos graus, que vão
desde os estados de ânimo e "idéias" até
as psicoses. "Todos esses estados se caracterizam por um
fator desconhecido, por algo que toma posse da psique num grau
maior ou menor , prolongando sua existência nociva ou repugnante
contra todos os esforços de compreensão, razão
e energia e proclamando desse modo o poder do inconsciente sobre
a consciência: o poder soberano da possessão."(parágr.
370) "Se tais conteúdos permanecerem inconscientes,
o indivíduo fica inconscientemente misturado a outros indivíduos,
isto é, não se diferencia, não se individua.
Poder-se-ia perguntar aqui por que é tão desejável
que um homem se individue. Eu acrescentaria que não só
é desejável como também é absolutamente
necessário que o seja. Caso contrário, sua fusão
com os outros o levaria a situações e ações
que se opõem àquilo que se é realmente. Dessa
forma, o homem não pode sentir-se unido consigo mesmo,
nem poderá aceitar uma responsabilidade. Sentir-se-á
numa condição degradada, carente de liberdade e
de ética. A desunião consigo mesmo é a condição
neurótica por excelência, que se torna insuportável
para o indivíduo e da qual ele quer livrar-se. Mas esta
liberdade só ocorre quando ele se torna capaz de agir em
conformidade com o Ser que ele é... Quando alguém
pode dizer, verdadeiramente , acerca de seus estados interiores
e de seus atos: "Assim sou, e assim atuo", então
terá alcançado essa unidade consigo mesmo, ainda
que dolorosamente; pode assumir a responsabilidade de seus atos
contra toda resistência. Reconheçamos que nada é
tão difícil quanto suportar-se a si mesmo."(parágr.
373)
Em
Mysterium Coniunctionis vol. XIV/I, parágr. 183, Jung adentra
a questão de que para interpretar sonhos precisa-se de
alguns conhecimentos de pressupostos pessoais do sonhador; e para
a compreensão das parábolas alquímicas devemos
conhecer os pressupostos da alquimia.
No
primeiro caso, amplificamos com a história da vida pessoal,
no segundo com os enunciados dos textos alquímicos. Por
exemplo - texto: "se souberes irrigar esta terra árida
com a água apropriada, dilatarás (ou afrouxarás)
os poros da terra", - interpretação: "quando
sentires como estagnação e ermo estéril a
tua falta de fantasia, de idéias súbitas, de vivacidade
interior, e te puseres a contemplar isso com grande interesse
(= o tornares prenhe) que em ti desperta tanto o alarme por perceberes
a morte interior, como também o clamor do deserto, então
fica sabendo que poderá acontecer algo contigo, pois o
vazio interior oculta uma plenitude tão grande como ele,
contanto que apenas permitas que ela possa penetrar em ti. ..."isso
significa que quando a atenção se volta para o inconsciente,
então o inconsciente também libera os seus conteúdos,
os quais por seu turno, à semelhança de uma fonte
de água viva, fecundam a consciência. Tanto a consciência
quanto o inconsciente constituem uma terra árida, enquanto
estiverem separadas entre si estas duas metades da vida psíquica.
Em
outras palavras, "O ponto de vista do homem interior está
ameaçado na mesma medida em que domina o do exterior. Ele
(o homem interior) é tão reduzido que ninguém
sentiria falta dele , se ele não fosse a conditio sine
qua non da paz interior e da felicidade".(parágr.189)
e na nota de rodapé Jung cita a seguinte passagem para
explicitar : "Na variedade não encontrarás
o UNO; antes de tudo deve teu olhar estar voltado para dentro;
e se ainda puderes esquecer-te de ti e te perder, então
em breve sentirás Deus em ti, o verdadeiro UNO". (Gerhard
Tersteegen: Geistliches Blumengärtlein inniger Seelen, 1729).
Os
textos alquímicos prosseguem orientando o buscador em direção
de si mesmo o que seria equivalente ao "Volgere interiormente
la luce e mantenersi al centro" (cap. III – Il segreto
del fiore d’oro) ... "questa energia, una volta raffinata
attraverso il fuoco, diventa indistruttibile ed eterna, per cui
è chiamata ‘la pillola d’oro"(outro nome
dado à flor de ouro).
Neste
momento gostaria que nos ativéssemos um instante neste
: "raffinata attraverso il fuoco"... , sendo o fogo
um dos temas centrais de toda alquimia bem como de todo processo
de individuação; lembrando que o fogo da aflição
e do conflito quando suportado e compreendido de modo adequado
vai conduzindo como que a um refinamento cada vez mais sutil da
compreensão e da "opus"...
Diz
Jung: "A dificuldade e a aflição encontradas
no início da obra coincidem outra vez com a ‘nigredo’,
tal como as ‘pavorosas trevas do nosso espírito’mencionadas
na Aurora Consurgens; e estas, por sua vez, devem ser o mesmo
que a ‘afflictio animae’o sofrimento da alma mencionado
por Morienus. O termo "amor perfectissimus" com o qual
ele caracteriza a atitude do adepto exprime uma devoção
extrema para com a obra. Se essa "seria meditatio"(séria
meditação) não for apenas mero palavrório
– suposição esta que não temos razão
alguma para levantar – então podemos imaginar que
os antigos adeptos se dedicavam à obra com uma concentração
incomum e com um verdadeiro fervor religioso...."
Assim
pois , esta página inicial, ficará em aberto com
a finalidade de , se possível, ir sendo amplificada aos
poucos, juntamente com a participação dos interessados,
através de textos, questionamentos, etc....e ao mesmo tempo,
sem nenhuma pretensão de ter dado qualquer resposta definitiva
ou única ao tema proposto...