INTRODUÇÃO
AO ESTUDO DAS CONSEQÜÊNCIAS DA
PROIBIÇÃO DA GNOSE PELA IGREJA CATÓLICA
Lucy
Terezinha Tonietto
Conceito
de Gnose
Gnose
é o substantivo do vergo gignósko, significa conhecer.
Gnose é conhecimento. No grego clássico e no grego
popular, koiné, seu significado é semelhante ao
da palavra epistéme. Em filosofia, epistéme significa
"conhecimento científico" em oposição
a "opinião", enquanto gnôsis significa
conhecimento em oposição a "ignorância",
chamada de ágnoia.
A
gnose é um conhecimento que brota do coração
de forma misteriosa e intuitiva. É a busca do conhecimento,
não o conhecimento intelectual, mas aquele conhecimento
que dá sentido à vida humana, que a torna plena
de significado porque permite o encontro do homem com sua essência.
O
objeto do conhecimento da Gnose é Deus, ou tudo o que deriva
dele. Toda gnose parte da crença firme na existência
de um Deus absolutamente transcendente, existência que não
necessita ser demonstrada. "Conhecer" significa ser
e atuar, na medida do possível ao ser humano, no âmbito
do divino. Por isso, "conhecer" implica na salvação
de todo o mal em que possa estar imerso o homem que venha a possuir
esse "conhecimento".
Gnose
era ao mesmo um conceito religioso e psicológico. A partir
desta visão, o significado da vida aparece como uma transformação
e uma visão interior, um processo ligado ao que hoje se
conhece como psicologia profunda.
O
desejo e as tentativas de conseguir amor e felicidade são
a saudade inesgotável do Pleroma, da plenitude do Ser,
que é o verdadeiro lar da alma.
O
desejo desse "conhecimento" é uma nostalgia das
origens e procede do anelo humano de alcançar a unidade,
do desejo de fusão do homem com o Ser, do qual acredita
ter sido originado.
A
Gnose é o comportamento religioso, que traduz esta profunda
e dolorosa sensação que sentem os homens e mulheres
pelas separação dos pólos humano e divino.
É, no fundo, uma tentativa de compreensão das relações
entre o homem e a divindade.
Para
Jung, muitos gnósticos nada mais eram do que psicólogos.
"A gnose é, indubitavelmente, um conhecimento psicológico,
cujos conteúdos provêm do inconsciente. Ela chegou
às suas percepções através de uma
concentração da atenção sobre o chamado
"fator subjetivo" que consiste, empiricamente, na ação
demonstrável do inconsciente sobre a consciência.
Assim se explica o surpreendente paralelismo da simbologia gnóstica
com os resultados a que chegou a psicologia profunda."
Fontes
do gnosticismo antigo
FONTES
DIRETAS
São
os escritos gnósticos que chegara à atualidade diretamente
dos autores gnósticos.
O
Núcleo Principal das Fontes Diretas: Biblioteca de Nag
Hammadi. Foi encontrada dentro de uma urna de argila em 1945 pelos
irmãos Califa e Muhamad Ali al Salmman, a 11 km da cidade
de Nag hammadi, na montanha Jabal al-Tarif, que tem mais de 150
cavernas. Sofreu uma série de aventuras.
Esta
biblioteca compõe-se de 53 textos, encadernados em couro,
em 13 livros de papiro, procedentes de várias fontes: revelações
de profetas da gnose anteriores ao cristianismo; escritos gnósticos
contendo alguns elementos cristãos; escritos do cristianismo
gnóstico; tratados relativos à alquimia.
Jung,
através de informações um amigo, um historiador
holandês, Gilles Quispel, comprou um dos livros, que havia
sido contrabandeado e estava à venda nos Estados Unidos,
que veio a ser The Jung Codex.
Há
controvérsias quanto às datas: traduções
feitas em torno do séculos II e IV de manuscritos ainda
mais antigos.
FONTES
INDIRETAS
São
os escritos de autoridades eclesiásticas com o objetivo
de refutar as obras gnósticas.
Dentre
os autores destacam-se :
Irineu
de Lyon, Hipólito de Roma, Epifânio de Salamina.
Estes autores nem sempre foram fiéis às fontes que
citavam, alguns trazem resumos fidedignos.
Características
Gerais da Antiga Gnose
Quando
o cristianismo chegou, foi aceito sem reservas, com fé
total. Mas, ao acolher a nova doutrina as pessoas não abandonaram
suas antigas crenças e mesclaram a doutrina que chegava
aos antigos rituais. Desta maneira, ao invés das pessoas
se converterem à nova religião, o que ocorreu na
prática foi o cristianismo converter-se à antiga
religião. As palavras do Evangelho misturaram-se aos antigos
rituais.
Nos
séculos I e II d.C., as novas idéias, surgidas desta
fusão do cristianismo com antigas religiões, expandiram-se
por todo o Oriente Médio, pela Grécia até
a Gália. E em cada região que se fixavam iam se
amalgamando aos costumes locais, fazendo surgir novas correntes
marcadas pelos principais mestres e pelos locais onde chegavam.
Das
diversas ramificações destacam-se:
os
docetas, que tinham como representantes principais Dociteu e Saturnino.
Negavam a realidade carnal de Jesus Cristo e por isso não
aceitavam seu Nascimento, Paixão e Ressurreição.
Consideravam -no um "corpo sutil";
os ebionitas, liderados por Ebion, acreditavam que Jesus havia
nascido de forma natural de José e Maria e só depois,
na hora do batismo, fora adotado por Deus;
os ofitas, para eles a serpente representava o princípio
espiritual e acreditavam ter sido a serpente a primeira a se rebelar
contra o demiurgo e a propor a liberação do homem
através da gnose, a serpente era considerada boa, era o
princípio da gnose;
os barbelognósticos, (palavra que significa barba-eló,
"o Deus em quatro") afirmavam que o pensamento da divindade
contém em si a própria explicação:
pensamento, pré-conhecimento, incorruptibilidade e vida
eternas;
os marcionistas, que precederam o maniqueísmo, liderados
pelo padre cristão Marcião, contrapôs o Antigo
Testamento ao novo Testamento, como o faria também Lutero,
mais tarde;
o maniqueísmo, fundado por Manes, no século III,
baseava-se no dualismo, e o Supremo era rodeado por inúmeros
Eões. Satanás era o agente da disputa que ocorria
tanto nos planos superiores quanto nos planos inferiores. Dessa
disputa surge o mundo visível. A redenção
se daria na volta dos elementos luminosos presos no Cosmos à
sua origem;
os sethianos;
os sethianos ofitas.
As idéias principais são:
A
Divindade Suprema - Todos os sistemas gnósticos partem
do pressuposto da existência de Deus. Deus está no
"princípio e na origem de tudo. Ele não necessita
de nada, mas isto não impede que ele esteja acompanhado
de um "ser que é como que a outra cara de si mesmo",
o seu cônjuge, sua Consciência, seu Pensamento, sua
Paz, seu Silêncio, etc.
Em
alguns sistemas aparece como o Eão Sabedoria ou Pneuma
(vocábulo feminino, em hebraico), também chamada
Ruah, (palavra hebraica feminina), que significa Espírito,
e desempenha um papel importante na geração do Cosmos.
Sofia, ou Sabedoria, criou o visível com a ajuda dos quatro
elementos.
Assim
aparece uma Trindade nos sistemas gnósticos.
Pleroma
- O Deus Uno, em determinado momento, através de emanação,
projeção ou geração, projeta-se no
exterior, desdobrando-se, "gerando" uma série
de entidades divinas, os Eões.
Os Eões são, portanto, entidades divinas procedentes
do Uno, e são o inteligível ou o perceptível
do Uno. Essas emanações, ou gerações
intradivinas, originadas do Uno-Transcendente, constituem o Pleroma*
, ou Plenitude da Divindade.
Na formação do Pleroma há que se distinguir
dois momentos: em um primeiro estágio é formada
a substância ou ser dos Eões, em um segundo momento
é formada a gnose ou conhecimento.
O
Transcendente dá a esses Eões, formados substancialmente,
o conhecimento de si mesmos só num momento posterior. É
quando passam a ser divinos. Esta duplicidade de momentos mostra
que a gnose é pura graça, e que só a gnose,
outorga a um ser, por mais divino que seja, a sua plenitude substancial.
A
queda pleromática - Dentro do Pleroma acontece uma falha.
Esta "falha" irá explicar o nascimento do cosmos
e a origem do mal.
Entre
os dois momentos do Pleroma, quando ocorre a formação
dos Eões, segundo a substância e segundo o conhecimento,
ocorre esta falha. Um dos entes divinos, a Sabedoria (ou Logos),
quer chegar ao conhecimento do Uno antes do tempo. Isto seria
um desejo correto, justo se acontecesse no momento certo, de acordo
com a vontade do Transcendente, mas, como acontece antes da hora,
passa a ser uma paixão.
Porém
esta paixão, este desejo prematuro pelo conhecimento pleno
do Uno, continua sendo efetivo, apesar de imperfeito, pois é
o desejo de uma entidade divina. Ainda assim esta paixão
provoca a queda do Eão e por isto este Eão será
expulso do Pleroma.
Este
lapso de tempo em que o Eão Sabedoria fica fora do Pleroma
tem uma dupla dimensão conceitual: teológica e cosmológica.
Teologicamente
representa o nascimento do pecado, da deficiência, do Mal,
que exigirá a necessidade de um Salvador. Com o Salvador
se inicia, dentro do Pleroma, um processo de salvação,
que mais tarde se repetirá neste mundo. Cosmologicamente,
este "pecado" do Eão Sabedoria significará
o princípio da matéria, do universo todo. É
da paixão deste Eão que surgirá a substância
informe e espessa da qual irá brotar todo o universo material.
O
Eão caído se arrepende de seu pecado e para que
o Pleroma não fique incompleto, para que a Totalidade divina
não seja abalada por isto, o Uno, através do Eão
Salvador, resgata o Eão Sabedoria. Separa-o da substância
informe e espessa que resultou da sua paixão e que deu
origem ao universo e o faz retornar ao Pleroma.
Desta
forma, tem origem um duplo Eão pecador: a) um superior
que se arrependeu e que volta ao Pleroma e passa a ser denominado
Sabedoria Superior; b) outro que permanece fora do Pleroma, filho
da Sabedoria Superior e passa a ser denominado Achamot ou Echamot.
A
Sabedoria também ficará dividida em duas partes:
a superior, redimida, reintegrada ao Pleroma; e a inferior, que
ficará fora do Pleroma e impedida pelo Limite de retornar.
Será o agente divino no exterior e posteriormente, vai
dar origem a matéria.
O
Transcendente então gera mais um Eão, denominado
"Limite", que tem a função de separar.
Separa os Eões do nível superior e do nível
inferior, o universo material. O "Limite" entre o Pleroma
e o universo, que será o modelo da cruz redentora no gnosticismo
cristão, que redimirá o homem e separará
os não gnósticos, que serão condenados.
Princípios
fundamentais da Teologia Gnóstica
Os
princípios gnósticos (do gnosticismo ocidental)
têm seu fundamento filosófico em Platão.*
Para Platão, as idéias, independentemente das coisas
e do intelecto humano, são as causas temporais para os
objetos sensíveis. As idéias ou formas são
entidades incorpóreas e invisíveis, reais, eternas
e sempre idênticas a si mesmas, escapando à ação
corrosiva do tempo, que torna os objetos físicos perecíveis.
Para
Platão, porém, os primeiros Princípios, o
mundo das idéias, têm a função de objeto
do conhecimento. Valem para explicar a realidade física
tanto da esfera superior como do mundo. Mais tarde, os sucessores
de Platão, baseando-se no Uno, como princípio transcendente,
alteraram estas bases do platonismo antigo. Os princípios
que eram, para Platão, objetos ou meios de conhecimento
passarem a ser considerados uma entidade real, dignos de veneração,
que poderiam produzir outros seres por meio de geração
ou de emanação. O Uno passou a ser objeto real que
poderia produzir outros seres através da emanação
ou geração.
Para
Piñero e Montserrat, estes dois momentos, a passagem de
objeto a sujeito e a possibilidade da geração/emanação,
ocorrem em todas as vertentes do platonismo e leva a profundas
divergências. Alguns grupos gnósticos prescindem
do Uno e consideram dois princípios: o Intelecto e a Alma
divinos, o que significa uma concepção diádica.
Outros grupos mantêm a existência do Uno, porém
afirmam que o Uno gera o Intelecto e a Alma como entidades independentes.
O Princípios primeiros formariam, sob este ponto de vista,
uma tríade, Uno, Intelecto e Alma. E ambos os sistemas
consideram uma divisão da Alma em duas subentidades: uma
Alma superior e uma Alma inferior ou Alma do mundo.
Considerando-se
esta divisão da Alma em Superior e Alma do Mundo, percebe-se
que a concepção diádica do princípio
Intelecto e Alma; (que prescinde o Uno), parece, superficialmente,
triádica: Intelecto, Alma superior e Alma inferior.
Portanto,
alguns grupos gnósticos baseiam seu sistema em dois Princípios,
(aparentemente três); outros baseiam em três Princípios.
Os
que consideram os três Princípios (Uno, Intelecto,
Alma do Mundo) insistem que o Primeiro, o Uno, é o Sumo
Transcendente, além do ser e do inteligível. Defendem
um processo de descida dos Princípios superiores aos inferiores
através da emanação ou geração.
O segundo Princípio é o Intelecto e contém
em si todos os inteligíveis. O terceiro é a Alma/Espírito,
que pode ser concebido como dois subprincípios, uma Alma
Inteligível e uma Alma do Mundo.
Este
sistema triádico aproxima os gnósticos cristãos
à Trindade do Novo Testamento. O Deus Supremo, primeiro
Princípio, corresponde ao Deus Pai. O segundo Princípio,
o Intelecto, corresponde ao Filho, é o Logos, que se faz
homem em Jesus. Desse Filho procede a centelha divina, que se
encontra nos homens espirituais. O terceiro Princípio corresponde
ao Espírito Santo. Em seu desdobramento inferior é
o Princípio divino no tempo, a Alma do Mundo.
Os
gnósticos afirmavam que os judeus conheceram o terceiro
Princípio em seu produto inferior, que é o Demiurgo
e apenas através da revelação da Bíblia
hebréia. Afirmavam também que os cristãos
normais não vão além do segundo Princípio,
somente os gnósticos, os espirituais, chegariam ao primeiro
Princípio.
Para
os seguidores do esquema diádico, a metafísica dos
princípios é: o "Deus Supremo" é
um Intelecto que é bom, o equivalente ao segundo Princípio
dos sistemas triádicos acrescido do Bem. O "Segundo
Deus" ou princípio do Cosmos, equivale ao terceiro
Princípio dos sistemas triádicos ou Alma da Mundo.
Este "Segundo Deus" se desdobra em dois subprincípios
um inteligível e outro sensível.
À
ramificação triádica da tradição
platônica pertencem os neopitagóricos, os valentinianos,
os basilidianos e Plotino. Ao ramo diádico pertencem Filón,
Numenio, Albino e Poimandres e, entre os gnósticos: os
sethianos e Justino Gnóstico. Os teólogos da ortodoxia
cristã antes do concílio de Nicéia* são
teologicamente trinitários, porém filosoficamente
diádicos. Pode-se reconhecer, também, nas diversas
escolas ou correntes influências de outras tradições
filosóficas, em particular do estoicismo.
Para
os sethianos, os Princípios (Intelecto/Alma do Mundo) não
são concebidos como substâncias. Há uma multiplicidade
de graus ou estratos de emanação descendente da
divindade:
Primeiro
estrato: Formando pelo Uno.
Segundo
estrato - Os Eões Superiores Femininos - O sujeito deste
estrato recebe o nome de Barbeló. Barbeló se "ergue"
diante do Espírito Transcendente e é definido como
sua Imagem e seu Pensamento. Ela recebe os nomes de Inteligência,
Providência, Incorruptível, Vida Eterna e Verdade.
Barbeló vai desempenhar a função de Princípio
dos estratos inferiores e Princípio do Universo.
Terceiro
estrato - Os Eões Superiores Masculinos - O sujeito deste
estrato recebe o nome de Unigênito e Filho. Os Eões
do segundo e terceiro estratos formam o Pleroma Superior que virá
a ter o momento de queda ou "deficiência".
Quarto
estrato - Os Eões do Pleroma Inferior - estes Eões
foram engendrados pelo Deus que foi engendrado, o Cristo.
Quinto.
estrato - o Eão Sabedoria - A função da Sabedoria
(Sophia) ou Pistis) é a criação do universo,
é a "mãe do universo". Sabedoria é
"a que olhou para baixo". Esta descida da Sabedoria
é concebida como "inocente".
Há
dois motivos para a queda da Sabedoria: primeiro, produz uma obra
sem o consentimento do Pai e, segundo, o faz separada de seu consorte.
O resultado desta ação é um trabalho imperfeito,
o arconte demiúrgico ou uma sombra que, através
da matéria, produz o arconte demiúrgico. Em função
desta obra, a Sabedoria é denominada material (gr. Hylikós).
A
Sabedoria busca a luz que a havia porém não pode
alcançá-la por causa do impedimento do Limite. Por
não poder ultrapassá-lo, por continuar misturada
à sua paixão e, ao permanecer abandonada fora do
Pleroma, a Sabedoria cai em todo tipo de paixões, multiformes
e variadas. Destas paixões (também divinas), nasce
a primeira matéria, primordial e inteligível, não
sensível, tem origem o Demiurgo. As demais coisas nasceram
de seu temor e de sua tristeza. Das lágrimas da Sabedoria
vieram as substâncias úmidas; de seu riso, a sabedoria
luminosa; de sua tristeza e de seu estupor, os elementos corporais
do mundo.
Esta
matéria primordial não é o mundo corpóreo,
porém o substrato a partir do qual se plasmará o
mundo corpóreo. O mundo visível será criado,
posteriormente, pela Sabedoria de modo indireto, graças
ao Demiurgo.
O
Demiurgo - A criação do mundo físico é
atribuída ao Arconte Demiurgo.
Esta
figura intermediária entre o universo material e o Transcendente
serve para afastá-lo do universo de modo que o Ser Supremo
fique livre de ter criado diretamente o material porém,
o universo, em última instância, foi originado do
último termo da divindade, já que o Demiurgo pertence
ao âmbito do divino. Com a existência da matéria
permaneceram confirmados também a Deficiência, a
oposição ao Transcendente e, em último caso,
o Mal.
Os
gnósticos se dividem quanto à substância da
qual é formado o Demiurgo. Para a maioria, possui somente
a substância psíquica, para outros, tem dentro de
si uma centelha divina que procede da substância de sua
mãe, ainda que logo a perca ao criar o homem.
O
demiurgo engendra ou produz auxiliares para a obra da criação.
Estes auxiliares, os arcontes inferiores, correspondem a dois
modelos: o planetário e o zodiacal.
O
modelo planetário puro consta de sete arcontes, um para
cada círculo planetário. O modelo zodiacal puro
consta de doze membros. Há também um modelo misto,
zodiacal e planetário.
A
criação demiúrgica - A função
do Demiurgo é operar a matéria inteligível,
preexistente a ele, por meio de uma forma recebidas do alto Isto
significa plasmar o mundo, pelo desejo indireto do Transcendente,
a partir da substância primitiva e incorpórea gerada
pela sua mãe Sabedoria. Porém, executa esta tarefa
sem saber exatamente o que fazer, pois o faz por mímesis
e por ordem do Pleroma, sem disso ter consciência.
Com
a criação já concluída pelo Demiurgo,
aparecem três substâncias que desempenham papel muito
importante na soteriologia:
A
substância espiritual, "pneumática" ou
divina (que se acha dentro do Pleroma) e, fora dele, na Sabedoria
que também é um ente divino e, posteriormente, no
espírito ou parte superior do ser humano.
A
substância "psíquica"; engendrada pela
Sabedoria inferior; é própria do Demiurgo e de alguns
níveis intermediários entre a matéria e o
espírito, por exemplo, no princípio vital, ou alma
do homem.
Em
terceiro lugar, a substância puramente material, ou hílica,
representada pela matéria toda do cosmos.
O
mito cosmológico gnóstico significa que o Uno não
intervém de modo direto na criação do mundo.
Está demasiado distante para atuar "pessoalmente",
pois a matéria é uma entidade degradada, que ocupa
um posto muito baixo na escala do ser. O princípio imediato
da criação do cosmos é o Intelecto divino
no qual se acham as idéias, modelos ou princípios
que serviram para criar o cosmos.
Desta
cosmologia se deduz algumas conseqüências importantes
para a antropologia, a ética e a soteriologia:
Ao
final das contas. tudo procede de uma única fonte, o sumo
Transcendente por emanação-degradação;
existe uma separação entre o mundo superior/espiritual
(o Pleroma) e o mundo inferior/ material (o kénoma, ou
vazio);
a matéria é degradação, a última
escala do ser, ainda que proceda de Deus, é fruto de uma
deficiência, de uma falta do ser divino;
o mal está incluso na deficiência, na paixão
da Sabedoria. O universo, criado pelo demiurgo, é mau.
O corpo do homem é a prisão do espírito;
Antropologia - a criação do ser humano é
efetuada também pelo Demiurgo, assistido pelos anjos. Na
maioria dos sistemas gnósticos, a criação
do homem acontece porque o Transcendente, ou um dos Eões
superiores, em determinado momento, envia aos anjos do Demiurgo,
ou a este diretamente, a forma ou imagem do Homem Celeste ou primordial.
Um dos Eões do Pleroma, o Salvador, ou o Pleroma completo,
se reflete nas águas inferiores e desencadeia o processo
de criação.
A
humanidade não é toda igual. Há três
classes: uma puramente material:
os
hílicos (do gr. Hýle, matéria), que não
recebem centelha divina; uma que recebe do Demiurgo o hálito
de sua própria e única substância,
a psíquica ou anímica,
e uma terceira classe, que recebe a insuflação psíquica
e a espiritual ou pneumática.
Os pagãos, ou materiais, ou hílicos, eram destinados
à aniquilação. Os judeus e cristãos
eram os psíquicos, viviam a fé e estavam submetidos
às regras morais, poderiam salvar-se. Os verdadeiramente
espirituais eram os únicos que possuíam o conhecimento,
a gnose. Os gnósticos observavam as leis morais por amor,
não por imposição e se salvariam de fato,
não somente pela conduta.
Deste
mito, gerado em torno do Gênesis, fica o seguinte:
o
ser humano, completo, é composto de três partes,
a material, o corpo; a anímica ou vital, responsável
pelo movimento e pelas funções vitais; e a espiritual,
divina, independente da matéria, aprisionada no corpo.
Esta é uma centelha do divino que desceu até a matéria.
O processo pelo qual a centelha divina está aprisionada
ao corpo explica a situação atual do ser humano.
Porém, o verdadeiro é o espírito, a centelha,
que não é deste mundo, mas da divindade.
Há uma distinção entre alma e corpo e também
entre alma superior (o espírito: objeto da salvação)
e a alma inferior, ou simplesmente alma.
CONTROVÉRSIAS
ENTRE A IGREJA CATÓLICA E OS GNÓSTICOS
No
início da Era Cristã havia grande diversidade de
pensamentos. Nos primórdios, quando não havia Igreja
constituída, todos os Evangelhos eram aceitos e nenhum
era considerado mais ou menos verdadeiro. Com o passar do tempo,
as opiniões foram se firmando cada vez mais, o desentendimento
levou a uma cisão mais radical e os evangelhos cristãos
foram o instrumento da separação das idéias.
Os
Evangelhos foram classificados em:
canônicos
- os que passaram a compor o Novo Testamento;
pitorescos e romanescos sobre a vida de Jesus, foram deixados
de lado e;
uma terceira categoria dos que foram considerados heréticos,
por trazerem idéias muito diferentes das idéias
aceitas pelos cristãos ortodoxos. Foram mandados destruir
e foram proibidos. Dentre estes, encontra-se a literatura gnóstica.
A palavra heresia, do grego haíresis, hairen significa
escolha. O cristianismo deu a essa palavra uma conotação
pejorativa de "a doutrina que está fora da Igreja",
isto é, contrária aos princípios da fé
cristã, aquele que se afasta da verdadeira fé. Herege
pode ser qualquer pessoa cuja visão alguém não
goste ou denuncie. "No fundo, heresia nada mais é
do que divergência de opinião."
As
heresias dos primeiros séculos da era cristã se
referem a reflexões filosóficas e teológicas
em torno de dogmas cristãos, principalmente as que dizem
respeito à Ressurreição de Cristo, à
Trindade e à natureza humana de divina de Cristo.
Hoje,
com base nos textos da Biblioteca de Nag Hammadi e nos textos
do Novo Testamento, levanta-se a hipótese de que, junto
com o aspecto teológico, o centro de interesse do pensamento
da época, havia uma acirrada disputa política, de
poder e de dominação.
A
Igreja, em torno do ano 220 d.C., criou uma estrutura organizacional
dividida em hierarquias bem definidas: bispos padres e diáconos,
e passou a ditar as normas da "fé verdadeira".
A base desta estrutura hierárquica foram: 1o.) as afirmações
de que Cristo delegou poderes a Pedro de representá-lo
na terra, 2o.) que os primeiros a verem Cristo ressuscitado foram
os Onze Apóstolos,* e 3o.) que a ressurreição
foi um fato físico, que aconteceu em carne e osso. Todos
os pontos de vista que não estivessem de acordo com o dos
componentes desta estrutura hierárquica passaram a ser
considerados heréticos.
O
aval mais significativo para a disputa da Igreja vem do Evangelho
de São Mateus que Em Mateus 16:18-19 lê-se: E eu,
eu te digo: ‘Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei
a minha Igreja, e a Potência da morte não terá
força contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus;
tudo o que ligares na terra será ligado nos céus,
e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.’
Pedro, por esta afirmação, recebeu de Jesus, a única
autoridade que era reconhecida por todos, a liderança do
movimento.
Porém,
a leitura do Evangelho de São Marcos, 10:42-45, mostra
um Jesus contrário à idéia de autoridade.
Marcos conta que Jesus responde aos apóstolos indignados
com Tiago e João quando estes lhe haviam pedido para assentar-se
respectivamente à sua direita e esquerda na glória:
Como sabeis, os que são considerados chefes das nações
as mantêm sob seu poder, e os grandes, sob seu domínio.
Não deve ser assim entre vós. Pelo contrário,
se alguém quer ser grande dentre vós, seja vosso
servo, e se alguém quer ser o primeiro entre vós,
seja o escravo de todos. Pois o Filho do Homem não veio
para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate pela
multidão. Estas palavras de Jesus denotam que ele não
tinha a preocupação em criar uma organização
com autoridade e poder na terra, ou no céu.
Como
conseqüência de Jesus ter nomeado Pedro o substituto
de sua autoridade incontestável, somente ele e seus legítimos
sucessores, dali para frente, teriam credibilidade para manter
as rédeas da organização que se formava.
Esta não poderia ser questionada ou contrariada. Tudo o
que ela "ligasse ou desligasse" na terra seria "ligado
ou desligado" também no céu.
Os
gnósticos contestavam os ortodoxos afirmando que enquanto
eles (os ortodoxos) confiavam apenas nos ensinamentos públicos
que Cristo oferecia aos "muitos", os gnósticos
ofereciam também os ensinamentos secretos conhecidos de
alguns poucos.
A
teoria de que toda a autoridade provém da experiência
de certos apóstolos com o Cristo ressuscitado, "experiência
agora definitivamente encerrada" - tem tremendas implicações
na estrutura política da comunidade.
O
terceiro item da base da estrutura hierárquica, a ressurreição
como fato físico, que aconteceu em carne e osso, tem uma
função política importante, legitima a autoridade
dos sucessores do Apóstolo Pedro. "Do século
II em diante, essa doutrina serviu para validar a sucessão
apostólica dos bispos, que é o fundamento da autoridade
papal até os dias de hoje. Os cristãos gnósticos
que interpretam a ressurreição de outras maneiras
teriam assim menos direito à autoridade; e, quando afirmam
prioridade sobre os ortodoxos, são denunciados como hereges."
Tertuliano,
um bispo historiador, define a posição ortodoxa:
"O que ressuscita é essa carne, regada de sangue,
sustentada por ossos, entremeada de nervos, entrelaçada
de veias; uma carne que nasceu e que morre, indubitavelmente humana",
e acrescenta: "É preciso crer porque é absurdo".
No
entanto, para os gnósticos, a ressurreição
poderia ser interpretada de diversas maneiras. A primeira delas
seria a possibilidade de vivenciar a experiência de Cristo
dentro de cada indivíduo, em qualquer momento do presente
ou futuro e não um fato que aconteceu e não mais
se repetirá. A ressurreição, para os gnósticos,
não era um acontecimento do passado. Ela simbolizava a
maneira que a presença de Cristo poderia ser vivenciada
a qualquer momento. Alguns gnósticos consideravam a idéia
da ressurreição da carne, numa interpretação
literal, "extremamente repulsiva, repugnante e impossível"
e para outros, essa interpretação da ressurreição
era considerada "a fé dos tolos". Acreditavam
que isto se devia à falta de compreensão do significado
de uma verdade espiritual, que era uma confusão com um
fato real. Para eles, o não ter convivido com Cristo podia
transformar-se em vantagem pois a pessoa, impossibilitada de encontrá-lo
fisicamente, poderia experienciá-lo internamente, da mesma
maneira que Paulo encontrou Cristo no caminho de Damasco: uma
vivência interior. "O que importa não é
ver literalmente, mas sim a visão espiritual."
Outra
interpretação dos gnósticos era que as aparições
de Cristo, após a sua morte, seriam visões recebidas
em êxtase ou em sonhos ou em momentos de iluminação
espiritual. E as visões, para os gnósticos, não
eram consideradas fantasias ou alucinações mas sim
a maneira pela qual a "intuição espiritual
revela a natureza da realidade".
Pagels
conta que uma carta encontrada em Nag Hammadi, de autor desconhecido,
Tratado Sobre a Ressurreição, escrita ao discípulo
de nome Rheginos, diz: "Não suponha que a ressurreição
seja uma aparição. Não é uma aparição,
e sim algo real. Deveríamos, ao invés sustentar
que o mundo é uma aparição e não a
ressurreição." Prossegue em outro trecho da
carta: "A existência humana comum é morte espiritual,
mas a ressurreição é o momento de iluminação.
É a revelação do que verdadeiramente existe,
e uma migração em algo novo. Aquele que compreender
torna-se espiritualmente vivo. Podemos ressuscitar dentre os mortos.
Será você mera corrupção? Examine-se
a si mesmo, e verá que já ressuscitou"
Outro
texto de Nag Hammadi, O Evangelho de Felipe, ensina: "Aqueles
que afirmam que primeiro haverão de morrer para depois
ressuscitar incorrem em erro. Seria preciso, receber a ressurreição
enquanto vivem. É necessário ressuscitar nesta carne,
pois tudo existe nela".
Pagels
declara em Os Evangelhos Gnósticos que Irineu afirma que
a prova da validade dos evangelhos é o fato de terem sido
escritos pelos próprios discípulos e seguidores
de Jesus que testemunharam o que escreveram. Hoje alguns estudiosos
da Bíblia contestam esta afirmação. Da mesma
forma, os autores gnósticos atribuíam os seus escritos
secretos a diversos discípulos. Alguns podem até
ter recebido parte do material de antigas tradições,
mas alguns admitem que obtinham a gnose através de sua
própria experiência.
Pela
maneira que os cristãos gnósticos interpretavam
a ressurreição, essa autoridade seria esvaziada
e quando faziam tal interpretação, eram acusados
de hereges. Há que se salientar que os gnósticos
tinham consciência do aspecto político da questão.
Conseqüências
para a Cultura Ocidental
O
homem aqui, deus lá. A fraqueza e o nada aqui, lá
o poder eternamente criador. Aqui, nada além de trevas
e gélida umidade. Lá completamente sol.
JUNG,
C.G. Septem Sermones ad Mortuos : VII Sermão
As
conseqüências políticas da prevalência
das idéias defendidas pelos pontífices da Igreja
foram: os líderes da Igreja até hoje pertencem a
um quadro restrito com autoridade incontestável; em virtude
de somente os apóstolos terem permissão para ordenar
seus sucessores, as lideranças conseqüentemente só
puderam partir destes legítimos delegados de tal maneira
que não houve quebra na cadeia sucessória. A Igreja
conseguiu atravessar dois mil anos de história com poder
político, com a prevalência de seus princípios
e idéias.
Como
resultado da prevalência de suas idéias, do Cristo
material, ressuscitado em "carne e osso", preocupado
com a sua representação na terra, que após
a ressurreição se mostrou a alguns poucos especiais,
houve o desligamento da possibilidade da revivescência do
percurso de Cristo, como pensavam os gnósticos que fosse
possível. Houve uma completa reformulação
do modo de pensar do mundo ocidental.
A
conseqüência foi a divisão do planeta em duas
maneiras de pensar radicalmente diferentes.
O
pensamento Oriental vincula intimamente filosofia e religião
que influenciam a vida intelectual, social e cultural. O objetivo
principal das filosofias orientais é a experiência
direta da realidade.
Segundo
Northrop, a base do Pensamento Oriental é o conceito por
intuição. enquanto a base do Pensamento Ocidental
é o conceito por postulação.
CONCEITOS
POR INTUIÇÃO
O
significado do conceito por intuição provém
do que é imediatamente percebido, sem a contribuição
da razão. O significado completo é dado pela "coisa".
É um conceito sem qualquer recurso aos postulados da razão.
CONCEITOS
POR POSTULAÇÃO
No
conceito por postulação, o significado é
dado em função das propriedades ou relações
atribuídas a este significado pelos postulados da teoria
dedutiva. Fora destas relações de postulados, o
significado é um signo sem sentido. A cor, no conceito
por postulação, é percebida enquanto comprimento
de onda na teoria eletromagnética.
A
unidade do homem é algo que Jung retomou recentemente.
Até o século passado não era cogitada. A
idéia de um Deus pessoal era inadmissível. A fragmentação
psíquica, resultante da falta de relação
com o Deus interior, leva o inconsciente à relação
compensatória destrutiva e avassaladora com o consciente,
típica da unilateralidade. Rejeitar um lado da psique é
soltar os demônios, é permitir que este lado tome
tanto o indivíduo quanto a humanidade de assalto. É
permitir crises que levam à beira de catástrofes:
armas nucleares, desequilíbrio ecológico, regimes
autoritários, purificação da raça
ariana, guerras... O homem busca no trabalho - o alcaholic é
festejado; na bebida - utilizada desde a adolescência; no
consumo - a sociedade globalizada é a sociedade mais evoluída
-; dar vazão à necessidade da experiência
religiosa. A vida perde seu significado. A unilateralidade da
cultura cristã, com sua rígida interpretação
do monoteísmo, levou muitas pessoas a, decepcionadas, afastarem-se
definitivamente do seu Deus, interior ou exterior, e a serem arrastadas
para a frustração. Jung escreve:
O
ocidente é cristão em todos os sentidos, apesar
de tudo. O "anima naturaliter Christiana" de Tertuliano
vale para todo o Ocidente, não somente no sentido religioso,
como ele pensava, mas também no sentido psicológico.
A graça provém de uma outra fonte; de qualquer modo,
ela vem de fora. Qualquer outra perspectiva é pura heresia.
Assim compreende-se perfeitamente que a alma humana tenha complexos
de inferioridade. Quem ousa pensar em uma relação
entre a alma e a idéia de Deus é logo acusado de
psicologismo ou suspeito de misticismo doentio. O Oriente, pelo
contrário, tolera compassivamente estes graus espirituais
‘inferiores’ em que o homem se ocupa com o pecado
devido à sua ignorância cega a respeito do carma,
ou atormenta a sua imaginação com uma crença
em deuses absolutos, os quais, se ele olhar um pouco mais profundamente,
perceberá que não passam de véus ilusórios
tecidos pelo seu próprio espírito.
O
pensamento ocidental reduz o espírito universal ao nível
do conhecimento, da consciência individual. Abandona um
mundo que "pulsava com o nosso sangue e respirava com o nosso
sopro" e em troca, fica com os fatos concretos. No Oriente,
o espírito continua a ser universal.
A
meu ver, teremos aprendido alguma coisa com o Oriente no dia em
que entendermos que nossa alma possui em si riquezas suficientes
que nos dispensam de fecundá-la com elementos tomados de
fora, e em que nos sentirmos capazes de desenvolver-nos por nossos
próprios meios, com ou sem a graça de Deus. Mas
não podemos entregar-nos a esta tarefa ambiciosa, sem antes
aprender a agir sem arrogância espiritual e sem uma segurança
blasfema.
O
homem oriental é introvertido, o conhecimento é
para ele mais uma manifestação psicológica
do que o resultado de experimentos e observações.
Para o homem ocidental, ao contrário, a extroversão
é algo inferior. No Oriente, o espírito continua
a ser universal e impessoal, não existe conflito entre
ciência e religião. Nas palavras de Jung:
De
modo análogo, o homem ocidental é cristão,
independentemente da religião à qual pertença.
Para ele, a criatura humana é algo infinitamente pequeno,
um quase nada. Acrescenta-se a isso o fato de que, como diz Kierkegaard,
‘o homem está sempre em falta perante Deus’.
O homem procura conciliar os favores da grande potência
mediante o temor, a penitência, as promessas, a submissão,
auto-humilhação, as boas obras e os louvores. A
grande potência não é o homem, mas um ‘totaliter
aliter’, o totalmente outro, absolutamente perfeito e exterior,
a única realidade existente. Se modificarmos um pouco a
fórmula e em lugar de Deus colocarmos outra grandeza, como,
por exemplo, o mundo, o dinheiro, teremos o quadro completo do
homem ocidental zeloso, temente a Deus, piedoso, humilde, empreendedor,
cobiçoso, ávido de acumular apaixonada e rapidamente
toda a espécie de bens deste mundo tais como riqueza, saúdo,
conhecimentos, domínio técnico, prosperidade pública,
bem estar, poder político, conquistas, etc. Quais são
os grandes propulsores de nossa época? Justamente as tentativas
de nos apoderarmos do dinheiro ou dos bens dos outros e de defendermos
o que é nosso. "
Até
há bem pouco tempo, somente o pensamento científico
era valorizado. Os primeiros filósofos foram saudados pelo
"milagre grego", a passagem do pensamento místico
para o racional e filosófico.
Augusto
Comte explica o desenvolvimento do ser humano pelo abandono do
pensamento mítico e religioso e a adoção
do pensamento positivo, lógico, mensurável e controlável.
Opõe o mito à razão e coloca o mito num patamar
inferior, significando que a humanidade vem percorrendo um trajeto
evolutivo, do pensamento mítico, irracional para o lógico,
da razão.
É
Nietzsche quem diz a palavra final:
"Os
gregos não viam os deuses homéricos acima de si,
como senhores, e não se viam abaixo deles, como servos,
ao modo dos judeus. Viam como apenas a imagem em espelho dos exemplares
de sua própria casta que melhor vingaram, portanto um ideal,
não um contrário de sua própria essência.
Há o sentimento de parentesco recíproco, subsiste
um interesse de lado a lado, uma espécie de simaquia. O
homem pensa nobremente de si quando dá a si mesmo tais
deuses e se coloca em uma relação como é
a da nobreza inferior para com a superior enquanto os povos itálicos
têm uma boa religião de camponês, com constante
inquietação contra potências más e
caprichosas e espíritos torturantes. Onde os deuses olímpicos
se retiravam, ali a vida grega era também mais sombria
e inquieta. O Cristianismo, por sua vez, esmagou e alquebrou completamente
o homem, e o mergulhou como que em um profundo lamaçal
de uma piedade divina, de tal modo que o surpreendido, aturdido
pela graça, lança um grito de embevecimento e por
um instante acreditava carregar o céu inteiro em si. Sobre
esse doentio excesso do sentimento, sobre a profunda corrupção
de cabeça e coração necessária para
isso, atuam todas as invenções psicológicas
do cristianismo: ele quer aniquilar, alquebrar, aturdir, inebriar,
ele só não quer uma coisa: a medida, e por isso
é, no sentido mais profundo, bárbaro, asiático,
sem nobreza, não-grego."
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