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HOSPITAL UM CENTRO DE DOR , SOFRIMENTO E RECUPERAÇÃO

Suzana Lyra Strapasson

Nada como viver a experiência de uma noite num hospital para podermos olhar o quão fundamental é, buscarmos um sentido mais profundo para a vida. Podemos sentir essa busca de forma intensa diante da dor e do sofrimento enraizados no corpo e na alma de quem está num leito de hospital.
Muitas são as perguntas feitas por todos: Por que existe tanto sofrimento neste mundo? Por que Deus permite que pessoas virtuosas sofram uma dor tão intensa? Como atenuar essa dor? E como responder a essas questões? Sabemos que qualquer dor acaba obscurecendo nossa racionalidade, nos consome, distorcendo nossa maneira de olhar o mundo, pois, as emoções são paradoxais em si mesmas. São naturais em si mesmas e mesmo assim nos fazem ver as coisas de um ângulo antinatural.
A ala de uma enfermaria poderia ser análoga ao purgatório dos cristãos. Pacientes enfermos tentam purgar a dor do corpo, do desalento, da solidão, da alma. Clamam por Deus, pela Virgem Maria, por Jesus Cristo, e muitos questionam a própria existência de Deus, ou pelo menos a sua eficiência. Deparam-se com sentimentos de amor, ódio, culpa, autopiedade, a remissão dos pecados, as reminiscências de seu passado. Tudo brota ali no corpo e na alma do ser.
Da janela via-se o caldeirão do hospital, fervendo, liberando odores que geravam ânsia numa paciente que fizera cirurgia de estômago, e seu corpo padecia ainda mais na dor, como se quisesse vomitar a falta de sentido e respirar a vida novamente. Vida – Morte – ressurreição. Grandes paredes de concreto corroídas pelo tempo, lugares escuros em que a luz enfraquecida não ilumina. O silêncio é quebrado pelos gritos de dor e pedido de alívio. Vemos pacientes entregues aos cuidados de pessoas irritadiças, mal cuidadas em seu ser, que também vivem a ausência de sentido, de amor, de caridade, da humildade, gente que vive a privação de si mesmas.Cadê o sentido?
No pátio uma criança acenava para a mãe que da janela da enfermaria, por sobre uma telinha de proteção gritava: “Amo você querida, quando mamãe ficar boa volta para casa”. Essa mãe tinha 25 anos e ainda não sabia o queria da vida. Cadê o sentido? Outra paciente dizia: “Prefiro comer só feijão e arroz todo dia, não precisava de mais nada se tivesse saúde”. E lá estão mães que deixaram seus filhos pequenos entregues à sorte para poder cuidar de seus maridos, pais, parentes, que sofreram acidentes com o fogo, nas àguas, no ar ou ainda mesmo na terra pela imprudência ou quem sabe pelo destino.
Eis a bomba de Hiroxima – que explode bem perto de nós, dentro de nós, quando ouvimos ou dizemos: “dói demais” vindo dos corredores da existência humana. A bomba que Vinícius de Moraes canta como a rosa de Hiroxima nos versos: “Pensem nas crianças, mudas telepáticas; pensem nas meninas cegas inexatas; pensem nas mulheres rotas alteradas; pensem nas feridas, como rosas cálidas; Mas oh, não se esqueçam da rosa, da rosa de Hiroxima; A rosa hereditária, a rosa radioativa; estúpida e inválida; a rosa da cirrose; a anti-rosa atômica; sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada...”.
Muito pode ser dito em relação à dor, mas nenhuma explicação é suficiente ou definitiva. Tateamos respostas quando sofremos, pois a dor nos conduz para um nível particular de consciência, devemos desafiar nossas próprias intenções nas épocas de sofrimento, olhar para a maneira como encaramos a vida. Só quando tomamos consciência de uma realidade espiritual alem de uma realidade física, que vemos que a dor é apenas um componente dela. Sem a possibilidade de que possamos esmorecer temporariamente, não haveria liberdade na vida e, por conseguinte, sentido algum. Só quando saímos da unilateralidade começamos a transformar a dor em uma experiência significativa. Não digo que a dor em si mesma é boa, claro que devemos expressa-la e fazer o possível para alivia-la, mas precisamos reconhecer que ela também faz parte do mistério da vida. A dor é uma experiência solitária. Nesse momento se faz necessário se elevar acima do ego e reconhecer a força absoluta que é muito maior que você mesmo. Vivemos em um mundo imperfeito e buscamos a perfeição, buscamos a liberdade das limitações que confinam nosso espírito.
Segundo Jung “somente a presença viva dos arquétipos eternos pode conferir à alma aquela dignidade que torna provável e moralmente possível ao homem permanecer junto de sua alma( ...) Somente então se tornará claro para ele que o conflito pertence a ele e que a cisão interior constitui sua riqueza repleta de sofrimento, da qual a gente não se desfaz atacando os outros(...)com isso reconhece ele o valor de sua alma(...) Mas, quando o homem perde seus próprios valores, então ele se torna um salteador faminto”.(Misterium coniunctionis vol II, pg 115/pr 175). Sabemos que é no indivíduo que está o medicamento incorrupto, e que um dos caminhos de acesso é redescobrir o lado sombrio da personalidade, os desejos e motivos de menor valor, as fantasias infantis e ressentimentos, traços de temperamento, bem como os aspectos positivos que permanecem escondidos de nós mesmos. Nos deparamos então, depois de longa jornada neste processo de reconhecimento, com a quintessência”: A VERDADE , que é a virtude suprema e uma fortaleza inexpugnável.

Texto desenvolvido pela psicóloga Suzana Lyra Strapasson - CRP 08/06273

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