FORMAÇÃO
ANALÍTICA
(Baseada na orientação de CARL GUSTAV JUNG)
Sonia
Regina Lyra
Foi
dito em um de nossos seminários para formação
de analistas que não devemos tratar de espiritualidade
no consultório pois o objeto de nosso estudo é a
alma e não o espírito.
Do que estamos falando?
“A fala sobre a importância da formação
se torna cada vez mais insistente. Exigimos uma recolocação
da questão da formação.
Entendemos por recolocar a questão uma espécie de
renovação e inovação radical do que
se fez até agora. Falamos assim na necessidade de mudar
as estruturas antigas, as formas e os métodos de formação,
dar uma formação mais adequada para as necessidades,
os anelos e as exigências do mundo de hoje.
Mas, as exigências de renovação e inovação
são tantas e tão variadas que extrapolam toda e
qualquer possibilidade de discussão séria; os nossos
questionamentos se transformam numa espécie de agitação,
arrolamento de opiniões, misturadas com queixas e reclamações,
reuniões sem rumo, sem concentração temática,
sem a possibilidade real e finita que possa levar a uma ação,
a uma solução real. E aos poucos nos resignamos,
pensando que a formação hoje é muito complicada,
uma tarefa impossível, por causa de tantas dificuldades,
provenientes da sociedade de hoje, em que tudo flutua por ser
tempo de transição.
Mas se observarmos atentamente os nossos questionamentos, percebemos
que colocamos mil diferentes problemas, assuntos e propostas,
mas jamais examinamos o modo de colocar a questão. Perguntamos
por isso: será que não é necessário,
antes de tudo, recolocar o modo de questionar a formação
hoje?
Questionar é buscar. Quando uma busca perde o rumo e se
agita em diferentes colocações disparatadas, é
uma busca que não mais está assentada na raiz do
seu questionar. Toda busca é busca se for finita. Então,
é necessário se assentar de novo numa busca mais
bem determinada, mais próxima de si mesma. Para percebermos
o que é busca mais finita, mais determinada e próxima
de nós mesmos, precisamos voltar a ser bem concretos e
cotidianos, bem materiais e físicos, sem se espraiar em
representações “universalistas” e gerais,
como é o caso quando falamos: mundo de hoje, séc.
XX, América Latina, mundo tecnológico, junguianismos
etc. Próximo, finito, bem determinado é a Formação
na qual estamos inseridos, a casa, o cargo que exercemos, a faculdade,
as pessoas com as quais estamos nos relacionando em tais situações
e problemas, em tais limites de tempo. É importante se
conscientizar que se trata de um fazer todo próprio, à
cuja seriedade não é permitido se espraiar, se avoar
pelo mundo a fora, numa visão geral, universalizante, panorâmica,
conferencisticamente, sem se colocar duramente no cotidiano físico
material da situação, aqui, agora, dentro dessa
Formação, dessa casa, dessa etapa da formação,
desse modo pessoal e individual de viver e fazer cada momento
do formar-se.
De repente sentimos na carne a necessidade de nos concentrar,
de apertar realmente o cinto do nosso fazer e do nosso pensar
sóbrio, de ajuntar todas as nossas forças disponíveis
para aplicá-las num trabalho árduo de conquista,
conquista de um saber muito mais real, concreto, verdadeiro desse
fazer todo próprio chamado formação. Sentimos
com responsabilidade a premente necessidade de deixar de lado
as agitações precipitadas, a fala vazia, enfeitada,
retórica, estético-romântica ou até
demagógica, deixar de lado tentativas chutadas, sintomas
esses de uma busca mal colocada. Se a formação é
um fazer todo próprio, é necessário saber
bem que exigências ela tem a partir dela mesma.
Recolocar a questão da formação acaba, assim,
se transformando numa coisa bem humilde, real e concreta, numa
obrigação sóbria e necessária de examinarmos
no duro, se realmente estamos fazendo o que devemos fazer finita
e concretamente na nossa formação, conforme seu
próprio modo de ser. Sem esse embasamento real a formação
é vã, por melhores que sejam as intenções,
as idéias e os recursos pedagógicos. Talvez de tanto
falar nas necessidades atuais, nas exigências prementes
de hoje, estejamos nos alienando da humilde necessidade terra
à terra de fazer o que devemos fazer no cotidiano da formação.
NA FORMAÇÃO É NECESSÁRIO EVITAR UM
QUESTIONAMENTO VAZIO DE IDENTIDADE QUE REDUZ O ESSENCIAL, ELEMENTAR
E BÁSICO A MIL DIFERENTES PONTOS DE VISTA DE INTERPRETAÇÕES
SUBJETIVAS.
O
que mais dá trabalho é a objeção:
como entender o essencial da formação hoje se há
tantas interpretações acerca da essência,
hoje?
O que é pois a formação analítica
hoje, diante de tantas exigências novas, novos apelos da
humanidade em transformação, novas psicologias,
novas fronteiras; quando a psicologia se espraia tentando seguir
a modernidade, em mil abordagens diferentes?
É necessário, cada vez de novo, checar essa objeção.
Se, porém, evitarmos esse tipo de questionamento debilitante,
esta objeção pode ser ouvida num sentido de busca
real e bem responsável. Mas se assim o fizermos, então
haveremos de constatar uma coisa bem real e de muita urgência:
haveremos de constatar que, na época em que se exige uma
renovação e soluções alternativas,
na época em que somos expostos a novas conquistas, novos
apelos, novos horizontes, o que se faz necessário antes
de tudo é ir até as raízes no fundo de nossa
própria identidade, para ali e dali renovar, realizar a
dinâmica criadora das nossas e das novas possibilidades.
Com outras palavras, como condição da possibilidade,
como pré-requisito e como garantia da renovação,
devemos ir às fontes de nossa inspiração,
devemos aprofundar a verdadeira pertença à terra,
à base da inspiração de nossa identidade
como analistas.
A
IMPORTÂNCIA DECISIVA DO ELEMENTAR NA FORMAÇÃO.
Toda
e qualquer formação eficiente gasta um longo tempo
e muita energia na aprendizagem e na assimilação
do elementar, fundamento e base de todas as elaborações
posteriores, mais complexas, sofisticadas, exigentes e especiais.
Quanto maiores as exigências de uma profissão, quanto
mais difíceis e perigosas suas tarefas, tanto mais se preparam
os candidatos no domínio do que é elementar e básico,
com muitos exercícios artificialmente simulados, com muito
rigor e repetição, para que aquilo que sempre de
novo entra em todas as ações e atividades como o
seu elemento comum, o profissional, tenha relativa facilidade
por tê-lo assimilado de tal modo que o elementar se tenha
tornado a parte integrante do seu próprio ser. Nenhum profissional
considera tempo perdido essa demora caprichosa e bem trabalhada
do elementar. Pois quanto melhor, mais firme, mais trabalhado
o fundamento, tanto mais rápida, mais segura e eficiente
a assimilação de todo o resto.
E cada profissão que sabe o que quer e o que faz, tem bem
claro quais os exercícios, quais as coisas consideradas
indispensáveis por serem elementares e essenciais. O elementar
só cresce e se afirma nesse processo gradual de aprendizagem.
O elementar é sempre uma dinâmica de constituição
de uma determinada ação, mas não coincide
com esta ou aquela ação. E no entanto, está
em cada uma, cada vez de outro modo, mas sempre como o mesmo,
por mais diferentes que sejam entre si. É necessário
ter um tato próprio para captar essa realidade elementar.
Seria pois, de grande importância para a formação
conseguir um consenso acerca do que é elementar na formação
para ser um analista.
VIDA
“ESPIRITUAL” E O “OBJETO” DE NOSSO TRABALHO:
A “ALMA”:
“Sempre
de novo temos dificuldade diante da palavra espírito, espiritual,
espiritualidade. Por estas palavras, usualmente entendemos uma
porção de coisas diferentes. Vamos tentar diferenciá-las.
O ser humano tem duas maneiras de entender o universo, ligadas
às suas duas possibilidades de conhecer: os sentidos e
o intelecto. Pelos cinco sentidos capta o mundo sensível.
O que supera os cinco sentidos o capta pelo intelecto: é
o mundo inteligível ou suprasensível e o chamou
de espiritual.
Usualmente, portanto, entendemos a palavra espiritual como sendo:
a- Os entes não materiais: anjos, inteligência, Deus...
isto é, todas as energias sutis e mais poderosas que as
naturais.
b- As coisas e valores culturais: arte, cultura, literatura, etc
c- Valores éticos humanistas . honestidade, honradez, justiça,
etc. Com o tempo o “mundo cristão” foi tragado
para dentro desta compreensão de espiritual, pelo que em
geral se pensa que o cristianismo entende por espiritual este
ponto “c”; buscar isso, porém, é próprio
de todas as religiões.
A partir dessa compreensão de espiritual distinguimos entre
fazer “coisas materiais” e fazer “coisas espirituais”.
Um mecânico que entende bem de mecânica, concerta
carros, cobra e ganha bastante, pensa em ampliar a oficina, esse
mecânico faz coisas “materiais”, no fundo é
materialista, não entende de coisas espirituais. Um professor
de literatura, que é muito estudado, ensina na faculdade,
lê livros de filosofia no tempo livre, participa de congressos,
este faz coisas “espirituais”, é espiritualista
e entende de coisas espirituais.
Partindo dessa concepção usual a maior parte das
pessoas como mães de família, operários que
trabalham o dia todo para sobreviver, não poderia ter vida
espiritual; o analfabeto também não poderia ter
acesso a ela.
Os pontos a, b e c, coincidem com o conhecimento do mundo suprasensível
pelo intelecto. A partir desta compreensão de espiritual,
porém, se tem dificuldade de entender um texto cristão
fazendo surgir a suspeita se de fato o “mundo cristão”
entende “espiritual” desse jeito.
d- Na dimensão cristã a palavra espiritual tem pura
e simplesmente o sentido de Seguimento de Nosso Senhor Jesus Cristo,
o relacionamento próprio que surge do encontro com Ele.
Portanto na espiritualidade cristã, quando dizemos espírito,
espiritualidade, vida espiritual, entendemos o viver a partir
do Evangelho; o Evangelho é uma realidade que ultrapassa
as nossas duas possibilidades de conhecimento, é “inacessível”
a partir de nós mesmos; Deus, porém, fez questão
de revelá-lo. Assim tudo o que aprendemos no âmbito
da comunidade de fé cristã, não vem de nossas
experiências intelectuais, mas da dimensão de Deus.
A esse inacessível, a tradição cultural eclesial
ocidental chamou de sobre-natural, em oposição ao
natural (mundo sensível e mundo inteligível) conhecível
a partir dos sentidos e do intelecto.
Como se vê, na nossa cultura ocidental as compreensões
da fé e as da filosofia estão misturadas; o que
entendemos usualmente por espiritual não tem origem na
“cultura” cristã; portanto temos que deixar
de lado esse modo de pensar, se quisermos entender o que é
Vida Epiritual na Vida Religiosa”. (pgs. 2 e 3 da apostila,
Compilação de Espiritualidade Franciscana, frei
H.Harada).
VIDA
‘INTERIOR’
Costumamos
chamar a Vida Espiritual também de Vida Interior. Temos
dificuldade de dizer o que é vida Interior, pois sabemos
e não sabemos ao mesmo tempo o que é. É mais
fácil enumerar coisas que se fazem na assim chamada Vida
Interior; orações, devoções, retiros,
leitura espiritual, confissão, as demais coisas da “religião”
e algumas outras que permitimos enfocar na abordagem da “alma”.
Há bons cristão que gostam e não sentem estranheza
diante dessas coisas. Há porém, também bons
cristãos e engajados, que não se sentem bem, diante
desta maneira de entender a Vida Interior. É que nós,
os cristãos de hoje, estranhamos um tanto esse modo de
ser. Certamente se respeita a convicção e o modo
de ser de cada um; certamente se conhece, entre os próprios
familiares e amigos, pessoas de bem que vivem esse modo de entender
a vida Interior autenticamente. Mas tudo isso soa demasiadamente
piedoso, devocionista, privativo, algo muito pessoal sim, mas
íntimo-subjetivo, particularista, aquela coisa de “salva
tua alma”, aquelas coisas de interior do homem, individualista,
particularista, um tanto ensimesmado.
Portanto, sem negar a autenticidade e seriedade às pessoas
que tem esse modo de viver a Vida Interior, sem negar que, na
sua experiência e na sua doação para com uma
tal vida espiritual, as pessoas possam vir a ser homens de muito
engajamento, a concepção que assim entende a Vida
Cristã como Vida Interior, nos soa hoje demasiadamente
pietista e espiritualista.
Hoje, exigimos uma espiritualidade mais objetiva, social, comunitária,
universal. Por isso, em vez de espiritualidade, em vez de Vida
Interior, preferimos usar a palavra Mística.
Esta situação de perplexidade diante da Vida Interior,
que sempre de novo compreende o Espírito e o Espiritual
não nele mesmo, mas já a partir da ambiguidade de
uma divisão dualista “interior-exterior”, “individual-social”,
“subjetivo-objetivo”, é um emblema da nossa
consciência moderna, digno de ser questionado, pois esse
tipo de classificação e divisão da realidade
é muito vago, impreciso e simplório. Camufla a ausência
de um exame mais responsável da pressuposição
prejacente e silenciada na raiz de uma tal divisão e classificação.
O oposto do interior é o social e o comunitário?
É o exterior? Por que o interior é subjetivo? Se
subjetivo, o oposto é objetivo? O que significa realmente
subjetivo e objetivo?
Se há o interior, há também o exterior. Interior
é dentro, exterior é fora. Mas o binômio dentro-fora
por si mesmo ainda não diz nada, a não ser que se
dê a coordenada da sua significação: numa
caixa de papelão fechada, se sabe concretamente onde está
o dentro e o fora; dentro e fora, interior e exterior se referem
ao espaço físico; o espaço físico
é a coordenada, dentro da qual dentro e fora recebem a
sua significação concreta. Mas quando digo que o
pensamento está dentro de mim, não sei bem o que
a palavra “dentro” significa, pois por mais que eu
fure a mim mesmo para dentro no meu corpo espacial físico
nunca encontro o dentro, onde se acha o pensamento. Este exemplo
mostra que o “interior” da Vida Interior não
tem nada a ver com dentro e fora no sentido físico espacial.
Por isso, quando se diz: “Você está todo trancado
dentro de você mesmo nesse seu cultivo particular da vida
interior; isto é egoísta; é necessário
sair de si e ir para fora se doar aos seus irmãos”
não se está falando de sair no sentido físico-espacial,
mas de dois modos diferentes de ser humano, de duas atitudes,
dois comportamentos humanos, ambos, tanto a atitude egoísta
como a atitude social, acontecendo não fisico-espacialmente,
mas como atitudes, como atos, como feitos humanos “espirituais”.
Isto mostra que vida interior e vida exterior indicam modos de
ser, atitudes e comportamentos da existência humana. Se
não distinguir bem essas significações diferentes
e sobrepor a compreensão físico-espacial com a “espiritual”
numa só, o pensar fica bitolado de tal maneira ingênua
e grosseiramente, a ponto de dizer que quem fica trancado num
laboratório, entregue à intensa pesquisa para descobrir
a cura do câncer, é privativo, individualista, particularista,
ao passo que quem anda zanzando pelo mundo a fora, em contato
com o público, fazendo propaganda de shampoo é social
e comunitário.
Portanto, antes de mais nada, é necessário se perguntar,
o que a espiritualidade quer dizer, quando chama a Vida Religiosa
de cultivo da Vida Interior. Que atitude, que modo de ser, que
comportamento é esse, quando a boa tradição
da espiritualidade cristã chama a Vida Religiosa de Vida
Interior? Porque JUNG enfocou o instinto religioso como o mais
essencial, aquele para além do instinto sexual e os recalques
da teoria freudiana?
Porque JUNG nos alerta que “enquanto a religião restringir-se
à fé e à forma exterior, e a função
religiosa não for uma experiência da própria
alma, nada de essencial poderá ocorrer”? (p.25 vol
XII)
Porque nossa formação mais essencial é tornarmo-nos
aquilo que buscamos? E qual é nossa busca afinal? Porque
JUNG diz: “Todavia, quando demonstro que a alma possui uma
função religiosa natural, e quando reafirmo que
a tarefa mais nobre de toda a educação (do adulto)
é a de transpor para a consciência o arquétipo
da imagem de Deus, suas irradiações e seus efeitos,
são justamente os teólogos que me atacam e me acusam
de “psicologismo”?
Quando JUNG enfrenta essas questões diante dos teólogos
não está nos alertando para com grande cuidado não
cairmos nas mesmas ciladas de falta de compreensão quando
nós modernos hoje, queremos evitar de tratar do “espiritual”
no consultório? O que estamos dizendo?
Será que não temos que LER conscienciosamente o
básico e elementar de JUNG em nossa FORMAÇÃO
DE ANALISTAS que diz:
“Se os valores supremos não estivessem depositados
na alma, tal como mostra a experiência, sem eliminar o espírito
de contrafação, que também está nela
presente, a psicologia não me interessaria absolutamente,
pois nesse caso a ALMA não passaria de um miserável
vapor”. E JUNG prossegue: “Já fui acusado de
“deificar a ALMA”. Isto é falso, não
fui eu, mas o próprio Deus quem a deificou! Não
fui eu que atribuí uma função religiosa à
alma; simplesmente apresentei os fatos que provam ser a alma “naturaliter
religiosa”, isto é, dotada de uma função
religiosa; função esta que não inventei,
nem coloquei arbitrariamente nela, mas que ela produz por si mesma,
sem ser influenciada por qualquer idéia ou sugestão”.
(p.25 vol XII).
Tratávamos da questão de designar o mundo espiritual
de INTERIOR, e ser este o “mundo” do qual tratamos,
quando tratamos a ALMA.
INTERIOR, aqui, significa essencial, aquilo que constitui o âmago,
a força e a realidade radical. Interior é o que
não é superficial, acidental ou esporádico,
mas o que está assentado naquilo que uma coisa deve ser
para ser ela mesma.
Nessa maneira de ver, a linguagem da Idade Média não
falava tanto de interior ou exterior do homem, mas sim de homem
interior (ou exterior). É algo semelhante ao dizer “homem
profundo” ou “homem superficial”, o “homem
assentado” ou o “homem avoado”. Nesse sentido,
cultivar a vida interior não significa ensimesmar-se num
assunto particular, privativo e subjetivo, mas sim trabalhar para
que o homem se torne profundo e assentado fundamentalmente naquilo
que constitui o seu vigor radical e essencial.
Isto significa: a vida interior não é espiritual
no sentido de um humanismo espiritualista como a entendem os espiritualistas
e os humanistas, sejam eles de que tipo forem. Não é
também um aperfeiçoamento de harmonização
nas perfeições e virtudes humanas, por mais nobres
e sublimes que seja. Vida interior é simplesmente, diretamente
a vida no seguimento de Jesus Cristo, em se tratando de vida cristã
(cujo mito, ainda é o nosso “mito”). Se no
seguimento de Jesus Cristo devo limpar a casa, esse limpar ele
mesmo é vida interior; se devo meditar dia e noite para
alcançar uma clarividência, esse meditar nele mesmo
é vida interior. Mas se no Seguimento de Jesus Cristo,
devo interromper a meditação um segundo antes de
obter a iluminação e ficar sem ela, essa interrupção
ela mesma já é vida interior; se devo me engajar
numa ação social e levo um tiro, esse levar um tiro
nele mesmo é vida interior. Mas, limpar a casa, meditar
dia e noite, interromper a meditação, levar um tiro,
neles mesmos como tais, ainda não são seguimento
de Jesus Cristo, portanto não é vida interior. Eles
o são, somente se são seguimento de Jesus Cristo.
Nossa FORMAÇÃO portanto, exige que ultrapassemos
o dualismo homem-exterior, homem-interior, “cuja exigência
é a “imitatio Christi”, isto é, a exigência
de seguir seu modelo, tornando-nos semelhantes a ele, o que deveria
conduzir o homem interior ao seu pleno desenvolvimento e exaltação”.p.20,
volXII.
Nossa FORMAÇÃO como ANALISTAS, exige INDIVIDUAÇÃO!
Individuação é o nosso elementar, básico,
essencial. Traduzir para a experiência ou traduzir a experiência
desse ENCONTRO de ALMA e ESPÍRITO, essa é a conjunção.
Não podemos mais separá-los dentro de nós,
nem dentro de nossos consultórios ou da experiência
de nossos pacientes. Pois como diz JUNG: “Como quer que
imaginemos a relação entre Deus e a alma, uma coisa
é certa: é impossível considerar a alma como
“nada mais do que”. Pelo contrário, ela possui
a dignidade de um ser que tem o dom da relação consciente
com a divindade. Esta correspondência formulada psicologicamente,
é o arquétipo da imagem de Deus.”. p.23, vol
XII.
Todo
o texto foi desenvolvido com base nas apostilas de Espiritualidade
Franciscana, por frei Hermógenes Harada e em Psicologia
e Alquimia por C.G.JUNG.
Sonia Regina Lyra
CRP – 08/0745
Analista Junguiana em Formação pela AJB.
Curitiba, 22 de julho de 2004.