FORDHAM
E NEUMANN
Renate
Brigitte Vicente
Michael
Forham (1905 – 1995), é um dos expoentes na contribuição
do estudo de crianças na psicologia analítica. Faz
uma leitura epistemológica da obra de Jung. Pertence a
escola inglesa, cujo foco é o estudo longitudinal e baseia
seu trabalho na observação clínica de crianças,
descobrindo símbolos do Self nos sonhos e nas fantasias
das crianças pequenas.
Propõe
uma integração da psicologia analítica com
a análise kleiniana. Reconhece e concorda com Jung na importância
da vivência e na necessidade da amplificação
da solidão para tirar o indivíduo em processo de
psicose ou neurose do isolamento em que a vivência destes
processos o lança. Se Jung considera o Self tanto como
a totalidade da psique como o organizador desta, Fordham adota
este último conceito como orientador de suas proposições.
Considera o Self como sendo num primeiro momento psicossomático,
“arquétipo originário da infância”
ou como também o chama de self primal original. A criança
vai ser conhecida pelos objetos do Self ou Self Objetos, sendo
o primeiro deles a mãe.
A
mãe tem importância como captadora das necessidades
da criança e desta forma permitir à criança
reconhecer seu Self, o qual desta forma pode deintegrar-se. O
Self quer ser conhecido e a mãe vai a este encontro para
tentar conseguir fazer sentido para esta criança, atendendo
as necessidades da criança na hora certa, possibilitando
desta forma o desenvolvimento do ego através do reconhecimento
do Self.
Explicando
de outra forma, o Self originário, que é uma totalidade
primária, necessita deintegrar-se (diferente de desintegrar-se),
isto é, subdividir-se, transformando-se em núcleos
egóicos que serão reunidos em um único ego
mediante a ação integrativa do Self. O processo
de individuação se manifesta portanto logo a partir
do nascimento, através das representações
do Self.
Este
é o objetivo da primeira metade da vida enquanto que a
segunda metade da vida requer o abandono do primado do ego a favor
do Self. Desta maneira Fordham contribui para a criação
de uma análise verdadeiramente infantil superando o dito
de Jung para quem em caso de psicopatologia da criança,
os pais deveriam ser tratados em primeiro plano e ela só
em segundo plano.
A
criança adquire nesta perspectiva um papel mais ativo na
sua própria formação. Um exemplo desta postura
inovadora é sua concepção do autismo infantil
como um distúrbio do Self o qual apresentaria nestes casos
uma defesa fundamental, tornando-se incapaz de se deixar conhecer.
Nesta
posição mais ativa vemos a criança se identificando
e interagindo com a mãe, podendo projetar partes da sua
individualidade e que mais tarde, conforme o favorecimento de
boas condições, ela pode introjetá-las de
volta para si. Aqui encontramos claramente o paralelo com a obra
de Melanie Klein para o qual ilustramos com a seguinte tabela:
JUNG
-
Arquétipos
-
Importância do símbolo para o desenvolvimento da
vida pessoal e cultural.
-
A urgência para o conhecimento e vida espiritual.
-
A implacabilidade do inconsciente.
-
As duas mães : nutridora e terrível.
-
Batalha com e o triunfo sobre a mãe.
-
A uniciadade simbólica.
-
Coniunctio: possibilidade de relação entre dois
egos.
-
Participação mística.
-
Projeção
MELANIE
KLEIN
-
Fantasias inconscientes.
-
Símbolos com base para o desenvolvimento da mente.
-
Instinto epistemologico: novo medo de aprender.
-
Posição esquizo-paranóide.
-
Seio bom e seio mau.
-
Defesa maníaca.
-
O seio – pênis.
-
Cena primal: repete a cena primeira com a mãe.
-
Identificação projetiva.
-
Posição depressiva
São
ainda idênticos nas concepções de um mundo
interno e no conceito de realidade psíquico.
Erich
Neumann (1905 –1060) nasceu em Berlim, estudou com Jung
e posteriormente transferiu-se para Tel Aviv onde criou uma das
primeiras associações de psicologia analítica
de Israel, com uma seção dedicada exclusivamente
à infância.
Sua
obra, na qual destacam-se principalmente o Origens e história
da consciência e seu livro inacabado A Criança, baseia-se
na mitologia pretendendo através desta fazer uma releitura
da evolução da criança real. Diferente de
Fordham, suas teses não contém material de análise
infantil mas desenvolvem-se por inferências da sua experiência
clínica com adultos, pelo que recebe inúmeras criticas
por sua visão adultomorfa e idealizante da figura infantil.
Recorrendo à mitologia, procura encontrar os traços
de uma memória psíquica coletiva.
Para
ele, tanto na psicologia como na biologia a ontogênese recapitula
a filogênese, ou seja, as fases de desenvolvimento do indivíduo
repetem as da humanidade, as quais são representadas pelos
mitos. A própria relação da criança
com sua mãe pode ser entendida como um paralelo da relação
do mundo com o matriarcado e com o patriarcado.
Para
Neumann a infância estaria dividida em três fases
principais. A primeira fase seria a Urobórica, caracterizada
por um pré-ego, ou seja, uma possibilidade, não
há desconforto nem tensão, é um estado paradisíaco,
há uma unidade Eu-Tu, é o símbolo da situação
uterina e característico do narcisismo primário.
O arquétipo da mãe é dominante e o desenvolvimento
depende da relação mãe-filho. A criança
vive com a mãe uma unidade dual, uma espécie de
participation mystique, onde não há distinção
entre uma e outro, nem diferenciação entre Ego e
Self. Vale lembrar aqui a intenção de Neumann de
unir supostas influências culturais à infância
pois para ele a dependencia da criança desta mãe,
esta imersão no arquétipo que são forças
impessoais e não se originam nem da criança nem
da mãe mas são sociais e misticamente coletivos,
as quais controlam mãe e criança. Para ele nem mãe
nem criança têm muita consciência ou escolha
de como se comportar, e as influências arquetípicas
impessoais superam a mãe “pessoal” e o bebê,
ou seja as relações pessoais são desprezadas.
Parece no entanto que aqui ele incorre num erro de interpretação
do sentido que Jung dava a este pessoal
Esta
fase também chamada de período embrionário
tem duas fases: a primeira a intrauterina que se estende po toda
a gravidez até o segundo mês de vida e a segunda
fase, a pós uterina que se estende do segundo mês
ao primeiro ano de vida. A criança experimenta o mundo
através da mãe a qual é o self da criança
sendo este um self corporal.
Pouco
a pouco, por melhor que seja esta relação entre
os dois, ocorrerá a frustração e a grande
mãe boa se torna a mãe má, devoradora. Dissolve-se
a união dual mãe-criança ocorrendo o nascimento
do Eu iniciando-se a estruturação do eixo ego-self.
A criança já interiorizou a experiência do
self materno. Esta segunda fase é chamada de matriarcado
e se estende até um ano até uma ano e meio de vida.
Pouco a pouco a mãe vai sendo reconhecida como um sujeito,
surge a relação Eu- tu, polarização
do mundo dos opostos, é o “nascimento verdadeiro”
da criança pois esta começa a reagir ao mundo e
e confronta seu ego com o Tu, o self se desloca gradualmente para
a criança, deixando de ser apenas um self corporal. Esta
fase é dividida entre o estágio mágico fálico
do ego e o estágio mágico guerreiro do ego.
A
partir de então, e com a progressiva consciência
adquirida pela criança através da confrontação
do ego com o mundo, a criança entra na terceira fase, a
do patriarcado, dividida em estágio solar- guerreiro do
ego e estágio solar – racional do ego. Esta fase
se estende até o quinto ou sexto ano de vida.
Neumann
foi e é alvo de muitas críticas, tanto pela sua
forma pouco realista e pouco prática de entender a criança,
como pelas suas críticas à psicanálise e
outras concepções da própria psicologia analítica
que ele usou ou entendeu de uma forma muito particular. No entanto
foi um homem de visão e seus estudos muito contribuiram
para o preenchimento desta lacuna na psicologia analítica
sobre a abordagem da criança. Neumann sustenta haver em
uma criança, elementos que determinam seu crescimento e
refuta por esta razão a idéia que que a criança
é somente uma extensão do pai e da mãe. Hillman
é concordante destaposição, o que fica claro
inclusive nesta citação:
“O
maior dos seguidores de Platão, Plotino, resume o mito
em poucas linhas: Nascer, entrar neste corpo específico,
estes pais específicos, e num lugar como esse, e o que
chamamos de circunstâncias externas...formam uma unidade
e estão por assim dizer entretecidos. Cada uma de nossas
almas é guiada por um daimon a este corpo e a este lugar
específico, a estes país e a estas circunstâncias,
pala Necessidade – e nenhum de nós tem idéia
disso porque essa lembrança foi erradicada na planície
do esquecimento.”(HILLMAN, J. O Código do Ser, p.58)
Bibliografia
HILLMAN,
J. O Código do Ser. Rio de Janeiro, Objetiva, 1997.
Revista
de Psicologia Analítica, n0. 26
CAROTENUTO,
ª Tratatto de Psicologia Analítica. Vol 2. GANBINO,
M. L. A Psicoterapia Infantil. Torino, UTET, 1992.