DAS
BRUXAS À PSICOLOGIA
Clara
Rossana Ferraro de Sá
Ou poderia ser das Trevas à Luz ?
Que
tal inverter, voltar no tempo e buscar a luz anterior às
trevas?
O
mundo mágico, recanto das fadas ?
Iluminar
o pequeno.
Encantar-se.
E
a alma rejubila
Pingos
de essência divina.
Sinta!
É
amor.
Perceba!
Está
dentro de você.
Existe,
a
um só tempo
além
de nós.
Nos
Devaneios da Vontade, Bachelar nos diz que o feérico por
essência,ultrapassa qualquer intuição: desloca
sem cessar a admiração. O feérico,potência
das fadas, nos insere no mistério do ser, na unidade do
ser.
A
beleza pronta a piscar e realizar um mundo mágico.
O
Cosmos contido na varinha de condão.
O
encantamento.
A
magia não seria isso, o reencontro com a alegria de ser,
de simplesmente existir?
A
imaginação borbulhando sonhos de reencantamento
do mundo?
Sonhos
de unidade, visão transcendente de inteireza, potência
e amor, outrora representados pela Grande Mãe.
No
Egito, os Mistérios de Ísis, eram celebrados a partir
de um ritual matutino e a cada hora uma celebração
que só terminava na vigésima Quarta hora com a revelação
dos mistérios quando as estrelas brilhavam no céu.
A Grande Deusa era invocada e os segredos da vida revigorados,
cultuados.
Na
Antiga Grécia as crianças de 5 a 15 anos frequentavam
o Gymnasiun para cantar,dançar e ouvir os mitos. A educação
era para o ser. Primeiro a vida, a alegria, o mistério.
Estava presente a imagem de Terpsícore,a musa que preside
a dança, aquela que rejubila nos coros, que obtém
satisfação plena do desejo, que tem prazer em divertir-se
e alegrar-se. A orientação do grupo era da responsabilidade
do Misterólogo, o iniciado nos mistérios.
O
que aconteceu com esta integração, como se deu o
distanciamento desta sensação de plenitude, unidade
e encanto?
O
que aconteceu na história da consciência humana?
Admirar,
contemplar, amar, compartilhar, ser, existir, são verbos
do arquétipo do feminino. Desgastados e quase esquecidos
pela humanidade enquanto realizou o desenvolvimento do masculino.
Uma necessidade que se cumpriu e agora pede o retorno da deusa,
desta força do feminino, para que se restaure a unidade
do ser, a vida e o sentido de viver. Faz-se necessário
o reencontro com a natureza, a harmonia consigo mesmo, a conexão
com a fonte de vida.
O
conflito entre os deuses patriarcais e a deusa mãe foi
se intensificando e os cultos à ela foram se dispersando
ou sendo assimilados distorcidamente. Dioniso,deus do êxtase
e do entusiasmo, do abandono aos poderes da natureza; Pã
, expressão do espírito da natureza selvagem ; Afrodite,
deusa do amor, da união sexual, mãe de Eros; tornaram-se
objetos da repressão cristã e reapareceram mesclados
na imagem do diabo. Suas funções psicológicas
submergiram nas profundezas do inconsciente. E a sensação
intrínseca de confiança em pertencer à Grande
Mãe Natureza deixou de existir reaparecendo séculos
após nos sintomas das histéricas de Freud . Corpo,
sexualidade e inconsciente/natureza emergem da escuridão
para serem reintegrados. E neste fim de milênio as depressões
que afligem a alma humana clamam pela busca de sentido, valor
principal do arquétipo maior. Mergulhada na morte, a alma
contesta os valores esquecidos, exige reflexão em redescobrir
os mistérios femininos ligados ao ciclo vida – morte
– vida e encaminha para a elaboração da morte
simbólica. Faz repensar a questão espiritual , o
ser criativo recriando-se, regenerando-se, curando-se dos excessos
de violência e agressividade a que a humanidade se submeteu
em prol do desenvolvimento da razão.
Nos
estudos feitos por Rose Marie Muraro podemos observar a relação
homem / natureza / cultura onde na cultura de coleta e de caça
aos pequenos animais não havia a necessidade da força
física para a sobrevivência e a mulher ocupava o
espaço central. Pelo poder de dar a vida, era um ser sagrado.
Nesta sociedade não havia desigualdade e o feminino e o
masculino governavam juntos.
A
supremacia masculina inicia-se na sociedade de caça aos
grandes animais. Porém a mulher continua sendo um ser sagrado.
Eles não conheciam a função masculina na
procriação.
Nestas
sociedades cooperativas não havia coerção,
ou centralização e sim rodízio de lideranças
e as relações homem/mulher eram fluidas, a perda
de contato com Eros , o princípio de ligação,
aquele que une, relaciona,faz o amálgama, ainda não
ocorrera. A agressividade que encontra em Eros seu eterno antagonista
só imperava em relação à sobrevivência.
Na
medida em que o Pátrio Poder se desenvolve e a lei do mais
forte se instala, o uso da agressão se impõe nas
relações humanas gerando competitividade, poder,
conquista, luta pela posse de um território, guerras. Surge
a questão da herança, institui-se o casamento. E
a posse sobre a mulher, sua sexualidade, prazer e direito à
própria vida se concretiza. Ao dominar a função
biológica reprodutora o homem passa a controlar a sexualidade
feminina. O poder cultural passa a desenvolver-se em oposição
ao poder biológico nato na mulher. A vulnerabilidade permeia
a função de parir, a mulher se inferioriza , torna-se
dependente e o homem trabalha e domina a natureza.
Nesta
escalada do poder a Igreja coloca no sexo o pecado supremo e o
poder fica imune à crítica. A Inquisição
tem a brilhante idéia de colocar o prazer ligado à
fé. A transgressão sexual enredada à transgressão
da fé. Normatizam a sexualidade e o prazer. A sensualidade,
a intuição, a magia e todas as qualidades relacionadas
à plenitude do ser caem na sombra.
Em
1484 foi escrito o Malleus Maleficarum, um código base
para o puritanismo. O corpo foi amaldiçoado. A culpa se
instalou no íntimo do ser, e passa a controlar a sexualidade
até a sua quase abstração.
O
conhecimento totalizante que integra inteligência e emoção,
corpo e alma, o conhecimento feminino em sua essência ou
o que restou dele esconde-se nas brumas. Milhares de mulheres
que detinham esse conhecimento foram queimadas vivas. Principalmente
as parteiras acusadas de matar os recém-nascidos para entregá-los
ao diabo.
Através
do julgamento e acusação de heresia a Igreja confiscou
bens e aumentou seu patrimônio. Instituiu a lei do celibato,
uma forma de preservar a riqueza adquirida em nome de Deus.
O
Mal, questão que sempre ocupou a humanidade, principalmente
os teólogos, está agora determinado. A Igreja parte
à procura do anti-cristo, anuncia o juízo final
que seria o fim do mal na terra. A divisão está
completa. Define-se o que pertence ao bem e ao exército
de Deus e o que pertence ao mal, ao exército do diabo.Os
demônios são ordenados hierarquicamente, dependendo
do bem intrínseco. Satã, significa adversário.
Diabolus,vem de dia,dois e de bolus,partes : pois que o diabo
mata em duas partes,corpo e alma. Do grego,diabolus significa
confinar na prisão, ou queda, já que ele caiu dos
céus. O verdadeiro diabo da fornicação, o
soberano daquela abominação é Asmodeus, que
significa a criatura do juízo e da punição
por que em virtude deste pecado uma terrível catástrofe
abateu-se sobre Sodoma. Belzebu é o demônio dos iníquos,das
almas dos pecadores que abandonaram a fé verdadeira em
Cristo.
Os
sete pecados capitais : orgulho, ira, inveja, preguiça,
luxúria, gula, avareza, precisam ser purgados para se chegar
ao Paraíso. O mundo dos instintos transforma-se no fogo
do Inferno. A relação com a Mãe Terra é
totalmente desvalorizada. Todos os tesouros estão no Céu.
A razão, a luz, o bem estão representados no lado
direito do corpo e acima da cintura. O umbigo, Ômphalus-
em grego significa centro do mundo; marca a divisão. Abaixo
não existe Deus, só o pecado e o mal.
"
Para a Igreja, o sofrimento e a aniquilação provisória
do corpo são menos temíveis do que o pecado e o
inferno. O homem nada pode contra a morte mas, com a ajuda de
Deus, lhe é possível evitar as penas eternas."
"A
morte é certa, só o tempo é incerto."
Uma
pedagogia religiosa é implantada para atingir o cristão
e conduzi-lo à penitência.
Através
de um inventário dos males, verificaram quem tinha medo
e do que tinham medo. Generalizaram estes medos e chegaram a seus
agentes : Satã, os turcos, os judeus, os heréticos
e a mulher, especialmente as feiticeiras.
Assim
o medo teológico substitui o medo visceral e espontâneo
próprio da angústia de viver e se descobrir humano.
Para
Kierkegaard (1844) "a angústia é símbolo
do destino humano, a expressão de sua inquietação
metafísica. A contra- partida da liberdade sendo então
a característica da condição humana e o peculiar
de um ser que se cria incessantemente."
Porém
o acúmulo de agressões que atingiu o Ocidente entre
1348 até o início do séc.XVII, incluindo
o terror à Peste Negra que aniquilou comunidades inteiras,
criou um abalo psíquico profundo e ameaçou desagragar
toda uma sociedade. Impotência, fobias, inadaptações,
desespero, negatividade, regressão do pensamento e da afetividade
e principalmente o temor a Satã, marcaram a história
deste Ocidente dividido e sem o contato com o feminino regenerador.
A
sabedoria da Psique, equilibrou paralelamente a totalidade, orientando
o homem para uma relação estreita com a matéria,
origem do Hermetismo e da Alquimia. E um saber interior é
gerado nas entranhas da matéria. Nasce o homem interior.
O espírito é procurado na matéria, na massa
difusa e através de várias operações
encontra o ouro alquímico, a pedra filosofal,que é
obtida na conjunção dos opostos, feminino e masculino
se unem novamente em um casamento místico.
Também
na Igreja inicia-se o reencontro com a matéria, com a natureza,
através do santo dos santos, São Francisco de Assis,
nosso santo ecológico. Na mesma época surge Giotto,
trazendo para a pintura os elementos da natureza e a perspectiva.
Inicia-se
a desrepressão do feminino no exato momento em que o poder
masculino domina a terra violentamente.
Na
beleza da simultaneidade , em plena idade média, nasce
um mito para nos guiar e trazer a resposta, a solução
para o conflito. É uma história de Arthur , recontada
por Robert Johnson em seu livro Feminilidade, Perdida e Reconquistada.
A questão central é a pergunta : o que realmente
quer uma mulher?
"
Arthur quando jovem foi apanhado caçando ilicitamente nas
florestas do reino vizinho, sendo aprisionado pelo rei. Ele podia
ter sido morto imediatamente, pois este era o castigo por transgredir
as leis de propriedade e de posse. Mas o rei vizinho, comovido
pela juventude e simpatia do rapaz, ofereceu-lhe a liberdade com
a condição de que encontrasse a resposta para uma
pergunta muito difícil no prazo de um ano. A pergunta:
Que realmente que a mulher? Isto atordoaria o mais sábio
dos homens e parecia insuperável para o jovem. Era melhor,
porém, ser enforcado, e assim Arthur voltou para casa e
se pôs a perguntar a todos que encontrava no caminho. Prostituta
e freira, princesa e rainha, sábio e bobo da corte, todos
foram inquiridos, mas ninguém conseguiu dar uma resposta
convincente. Cada um deles avisou, no entanto, que havia uma pessoa
que saberia a resposta, a velha bruxa. O custo seria muito alto,pois
era proverbial no reino que a velha bruxa cobrava preços
exorbitantes por seus serviços.
Chegou
o último dia do ano e Arthur finalmente viu-se obrigado
a consultar a velha. Ela concordou em fornecer a resposta satisfatória,
mas o preço deveria ser discutido primeiro. E o seu preço
era casar-se com Gawain, o cavaleiro mais nobre da Távola
Redonda e o amigo íntimo de Arthur. O jovem fitou a velha
bruxa horrorizado : ela era horrorosa, tinha um dente só,
cheirava tão mal que enojaria até um bode, emitia
sons obscenos e era corcunda. Enfim, a criatura mais detestável
que já vira. Arthur tremeu diante da perspectiva de pedir
a seu grande amigo que assumisse este terrível fardo por
ele. Mas Gawain, ao saber do trato, assegurou a Arthur que isto
não era pedir demais para salvar a vida de seu companheiro
e ainda preservar a Távola Redonda.
O
casamento foi anunciado e a velha bruxa revelou sua sabedoria
infernal : "Sabe o que realmente quer a mulher ? Ela quer
ser senhora de sua própria vida! Todos reconheceram na
hora a grande sabedoria feminina e o Rei Arthur estava salvo.
Ao ouvir a resposta, o soberano vizinho sem hesitar concedeu-lhe
a liberdade.
Mas
e o casamento? ! A corte toda presente, e ninguém estava
mais dividido entre o alívio e a tristeza que Arthur. Gawain
portou-se com cortesia, delicadeza e respeito. A velha bruxa exibia
o seu pior comportamento, devorava a comida do seu prato com as
mãos, emitia horrendos grunhidos e cheiros pavorosos. Até
então a corte de Arthur jamais se havia sujeitado a tamanha
tensão. A cortesia prevaleceu e o casamento se realizou.
Puxaremos
uma cortina de prudência sobre a noite de núpcias,
com exceção de um momento espantoso. Quando Gawain,
preparado para o leito nupcial, esperava sua noiva, ela apareceu
na forma da moça mais linda que um homem pudesse desejar!
Gawain estupefato perguntou o que tinha acontecido. A moça
respondeu que como Gawain a tinha tratado com gentileza, ela lhe
mostraria sua aparência horrenda durante a metade do tempo
e sua aparência graciosa na outra metade : qual delas ele
escolhia para o dia e qual para a noite? Que pergunta mais cruel
a ser colocada para um homem! Gawain fez os cálculos rapidamente.
Será que ele queria uma linda jovem para mostrar durante
o dia , quase todos os seus amigos a veriam, e uma bruxa horrenda
à noite na privacidade do seu quarto, ou queria uma bruxa
durante o dia e linda nos momentos íntimos? O nobre Gawain
respondeu que preferia que sua noiva escolhesse por si mesma.
Com isto, ela anunciou que seria a bela donzela para ele tanto
durante o dia como de noite, já que ele demonstrara respeito
por ela e concedera-lhe soberania sobre sua própria vida."
Carlos
Byington nos alerta que : "a repressão da mulher e
o ataque a ela como bruxa, devido à projeção
nela dos arquétipos da Grande Mãe e da Anima, necessitam
ser compreendidos junto com a histeria, que é uma quadro
patológico formado basicamente pela disfunção
dos arquétipos Matriarcal e de Alteridade. As características
desses arquétipos de intimidade, fertilidade, exuberância
do desejo, da imaginação, da clarividência
esotérica e da expressividade emocional, quando feridas
dão margem ao entrincheiramento desses arquétipos
numa luta de poder expressa pela magia destrutiva, pela dramatização
e sugestibilidade descontroladas, pela fantasia mentirosa, pela
agressividade vingativa desproporcional, pelo congelamento das
reações afetivas, pelas reações através
de sintomas físicos e pela falsidade voluntária."
Assim
o caldeirão da bruxa cozinha poções de vingança
por uma vida nãovivida, não integrada.
Na
origem, as poções feitas em caldeirões eram
benéficas. O caldeirão é símbolo de
fertilidade e prosperidade. Tanto ele, quanto o vaso alquímico
são variantes do mesmo talismã mágico, o
Santo Graal. Concedem a eterna juventude. A cocção
dentro de um caldeirão é a operação
mágica destinada a conceder a imortalidade àquele
que sofre a provação. A força mágica
reside na água. Para os celtas existiam três tipos
de caldeirão : o do deus druida Dagda, um caldeirão
de abundância e saciedade. O caldeirão da ressurreição
onde jogavam os mortos para renascerem no dia seguinte. E o sacrificial
onde os reis depostos se afogavam.
O
simbolismo do Graal é análogo ao da cornucópia,
além do poder de iluminar ( iluminação espiritual)
e fazer invencível, simboliza a plenitude interior que
os homens sempre buscaram. A exigência de interioridade
que poderá abrir a porta da Jerusalém Celeste na
qual resplandece o divino cálice.
"a
perfeição humana se conquista não a golpes
de lança como um tesouro material, mas por uma transformação
radical do espírito e do coração. "
E a imagem viva do Graal é Jesus Cristo., em sua mensagem
de Amor.
Usado
no culto à Grande Senhora da Lua, O Graal continha a água
do poço sagrado e num coro ritualístico as sacerdotizas
faziam refletir a luz da lua na limpidez da água e celebravam
a natureza, a vida e os ciclos eternos, o ir e o vir.
É
necessário um retorno ao Eros, à Quarta função
ausente na cultura ocidental, a função sentimento
com sua característica principal de valorar e dar sentido
à vida para que a mensagem de Cristo seja vivida entre
os homens.
O
mal precisa ser elevado à consciência, pessoal e
coletiva, para tornar-se fonte de criatividade.
A
feiticeira, que é a antítese da mulher idealizada,
símbolo das energias criadoras instintuais, não
domesticadas e não disciplinadas precisa ser ouvida. A
integração desta sombra tráz de volta a mulher
selvagem, que segue seu instinto de preservação,
que possui sua energia vital, sexual, que fareja o perigo, que
intui a cura e sabe o que a alma está pedindo, que sabe
aplacar o sofrimento e pode transmitir o dom da vida.
Esta
integridade faz a ponte para a transcendência. É
a mulher novamente apresentando-se como agente de mudança
para uma nova etapa no desenvolvimento da consciência humana.
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