Symbolon
Artigos
 ..inicial | editorial | quem somos | artigos | monografias | bibliografia | resenhas

COMENTÁRIOS SOBRE VIVÊNCIAS DE CONSULTÓRIO, FORA DO CONSULTÓRIO

Elizabeth Almeida do Amaral

É assim que tem sido . . .
Comentários sobre vivências de consultório, fora do consultório.

Sentada no fundo do quintal com uma paciente ( quintal da casa dela ), seus dois cachorros muito pertinho, aliás, junto, tão junto que podia sentir seus cheiros. Um deles inclusive estava bem doente.
Tinha uma respiração estranha, meio asmática e os pêlos, já lhe faltava aos montes.
O cheiro falava mais alto do que as queixas dela, uma senhora gorda, de setenta anos, que tinha estado internada no Nossa Senhora da Luz ( Hospital Psiquiátrico, não um SPA ) para emagrecer, e que, quando voltou para casa todos os seus pertences tinham sido encaixotados e sua “tábua de por na cama para melhorar da coluna” já estava lá fora! Parece que eles achavam (os familiares) que eu não iria retornar mais ( sic). E os soluços que entrecortavam sua fala quando dizia que ninguém tinha ido visitá-la sequer uma vez, se confundiam com a tosse e o cheiro que falava ainda mais alto do que o tal cachorro, coitado, pelo aspecto, pior que a dona. Mas agora ela estava decidida a viver para si. Até já tem uma psicóloga que vem em casa só para ela. Enfim Deus a ouvira! Sua depressão por momentos dera lugar a uma possibilidade de ser feliz. Uma nova chance. Uma possibilidade mesmo. Pôde sentir isso. Quem sabe, descobrir um sentido para aquilo tudo que ela estava passando.
Deixo a casa, a mulher e os cachorros, e em alguns minutos, estou entrando pelo portão de um lar de idosos, para meu próximo atendimento. Lá está ela. Assim que ponho meus pés na casa já posso vê-la. Porta aberta, escancarada, pois afinal ela não sai da cama e precisa acompanhar de lá o que for possível do movimento ao redor. Quando me vê, sorri, talvez respondendo ao meu sorriso, talvez sorrindo primeiro para mim, afinal, não sei quem começou antes. Pode ter sido recíproco, portanto, simultâneo. Fico feliz quando a vejo, gosto dela. “Pois é doutora, que bom que a senhora vem. É o único momento que eu tenho privacidade, durmo neste quarto com mais três e nem quando vem meus parentes não fico sozinha! Com a senhora posso falar de tudo que sinto e não preciso esconder as dores, ao contrário, sou muito chorona e me sinto a vontade para isso com a senhora.”
54 anos, paraplegia, osteoporose avançada, artrite reumatóide, os quatro membros com atrofia, sem condição de movimentos, não há distensão dos membros, não consegue alongá-los. Estão encolhidos. Na fisioterapia sofre dores fortíssimas, mesmo medicada com dosagens elevadas de remédio para dor . As dores no corpo são permanentes. Presa ao leito há 4 anos. Necessita de cuidados permanentes: virá-la na cama, alimentação, trocar fraldas.
Após 6 meses de psicoterapia, acompanhada de fisioterapia, começa a sentar-se duas vezes por semana por uma hora e vai até a sala da televisão em cadeira de rodas. Fica pouquíssimo tempo, mas esta conquista tem sido progressiva e já está havendo um processo de preparação para um tão sonhado banho, que não lhe é permitido desfrutar desde que se acamou a 4 anos.
O soltar suas emoções, falar de seus medos, suas dúvidas e inseguranças, tem lhe permitido se soltar físicamente e seus membros começam lentamente a se deixar alongar. “Quem tem me dado forças é Deus, ele conversa comigo e agora me mandou a senhora”.
Então “Fica com Deus” e lá vamos para a casa da dona Neusinha.
A empregada abre o portão. É a primeira vez que estou vindo. Sou vista como algo especial, como uma visita especial. Sento-me na sala de frente para a D.Neusinha. Ela não vem me receber. Tem dificuldade para deambular. Com 135 quilos, sofreu uma fratura de fêmur e tem muito medo de cair novamente, e também não é fácil caminhar, as pernas e pés são muito inchados, dói a coluna, tem hernia de disco! O peso roubou-lhe a agilidade, o diabetes a coragem. A obesidade? A auto estima.
Da cozinha a empregada acena para mim com a mão na altura da orelha, girando seu indicador como quem diz. Ela é louca!, Maluca, sei lá! Aquele gesto que a gente usava de brincadeira quando era criança para dizer “tá maluca”!
Tive que recusar várias vezes as ofertas de bolos, sucos, cafezinhos, etc... Dona Neusinha, eu estou aqui a trabalho! Não é uma visita social ! Não costumo comer quando estou trabalhando !!! E a porta da sala deve permanecer fechada enquanto estou aqui. O assunto é sigiloso. É um trabalho entre nós duas apenas. É como quando se faz um bolo. Não se pode deixar a porta do forno aberta, senão não assa direito. Abrir a porta do forno antes da hora, embatuma, etc.etc...etc...
E o neto que mora em Brasília que resolve querer dar conselhos à psicóloga por telefone! Ele, seu neto querido é quem sabe como devo cuidar da vovó. No meio da sessão, entra a filha da D.Neusinha com o telefone na mão: Ele quer falar com a senhora!
É preciso educar toda a família!!!!
No dia seguinte visito aquela paciente que mora mais longe. Num condomínio de classe média, entro e sou recebida pelo marido da paciente que tem 70 anos e sofreu um AVC há um ano. Vem se recuperando de uma afasia, após ter se submetido a uma cirurgia cerebral.
Difícil a comunicação verbal, a fala está prejudicada, então o marido fica junto pois pode funcionar como intérprete, afinal ele “adivinha” o que ela quer dizer! Acho que consigo fazê-los entender da necessidade da privacidade para este tipo de trabalho e então na semana seguinte nos colocam num jardim de inverno todo envidraçado, onde ficamos as duas como se estivessemos numa vitrine em que o marido e a empregada nos vão apreciando de vários ângulos enquanto desempenham suas funções na casa, de preferência ao redor do tal aquário. Confesso que a exposição me incomodou e lentamente foram aflorando todos os núcleos persecutórios que poderiam estar latentes em mim. Na sessão seguinte, o marido permaneceu na sala ao lado o tempo todo, hora lendo, hora fazendo ligações telefônicas, mas sempre atento caso a esposa precisasse da ajuda de um intérprete. E é claro que de acordo com a cumplicidade já estabelecida entre eles, acabou precisando!
Faço minha viagem de volta e vou parar na casa de uma cliente que possui um diagnóstico de “Paraplegia espástica hereditária”. Quando comecei o trabalho analítico com esta senhora ela se encontrava em depressão, chorava muito porque não via solução para seu problema. Já havia cuidado do pai e da mãe doentes, seus irmãos estavam também apresentando sintomas da mesma doença e ela cheia de limitações passava seus dias na cama, sem poder andar, e seus membros superiores se atrofiavam cada vez mais. Tinha muito medo de acabar como eles. Já não abria mais as mãos. Os dedos dos pés se curvavam para baixo e a impediam sequer de ficar em pé. A possibilidade de perceber-se fora da simbiose familiar, trazendo a atenção e o cuidado para si mesma, aliado ao trabalho da fisioterapia, veio permitir uma liberação das articulações que se encontravam rigidamente paralisadas. O movimento externo com a fisioterapia e o movimento interno com a análise, tem lhe proporcionado avanços de tal ordem que foi solicitado, uma revisão em seu diagnóstico, pois o inicial não teria permitido esta transformação. Era um diagnóstico fechado de paralisia progressiva, bem diferente de como tem se conduzido agora. Hoje ela tinha uma notícia nova para me dar “Dei três voltas pela casa, com o andador e sem ninguém me apoiando !” E desde o segundo mês de terapia, vem assinando ela mesma as suas fichas de controle de visitas!
É assim que tem sido . . .
Tenho estado entre paredes que ouviram muitas queixas e pedidos de misericórdia divinas e tenho ouvido muito isso : Deus me ouviu finalmente e mandou a senhora, ou mandou vocês ( a equipe de profissionais que os atende )”.
Estas tem sido as paredes de meu setting terapêutico. Indo por aí, construindo temenos.
Cada dia é um, cada vez é de um jeito diferente! Nunca sei o que vou encontrar, como vou encontrar, como será esse setting. Tenho aprendido a construí-lo a cada atendimento e principalmente com um foco completamente interior. De alma para alma.
Estranho é que a princípio, sinto uma certa resistência a trabalhar desta forma, sempre, a cada novo atendimento. Mas assim que finalizo o atendimento sinto vontade de voltar. O vínculo está feito. E novamente na semana seguinte o consultório se mobiliza e vai outra vez ao encontro das almas. Assim como um vendedor ambulante, de casa em casa. Sempre me lembro daquela obra de Gabriel García Márquez – Cem Anos de Solidão, onde os alquimistas chegavam com suas malas cheias de poções, um circo de acrobatas, músicos e ginastas. Me sinto um pouco assim como aqueles alquimistas. Cozendo almas, estórias, risos, lágrimas, cheiro e suor. Penetrando em retortas a girar e girar .
E é assim que tem sido . . .


.......................
 ... c.g.jung | conversas | biblioteca | informativo | agenda | links | fale conosco