CIDADE
DOS SONHOS (Mulholland Drive)
A PRIMOROSA HOMENAGEM DE DAVID LYNCH A ALFRED HITCHCOCK
Hermenegildo
Anjos
O
QUE SE PASSOU...
Diane
Selwyn (a já definitiva atriz inglesa da atualidade Naomi
Watts) é uma atriz que perdeu o teste para protagonista
de um importante filme hollywoodiano para sua amiga Camila Rodhes
(a estreante e estonteante Laura Elena Harring). Esta última,
tornando-se uma estrela, passa a conseguir pontas em seus filmes
para a amiga Diane que, tudo indica, apaixona-se perdidamente
por Camila nutrindo pela mesma um misto mórbido de amor
e inveja.
Diane
assiste as gravações do atual filme estrelado por
Camila e percebe que há um envolvimento entre a mesma e
o diretor.
Camila
convida Diane para uma festa na casa do diretor. Para tanto, manda
uma limousine pegá-la em casa. Para surpresa de Diane,
a limousine estaciona numa curva da Mulholland Dr, antes de chegar
ao seu destino e, da beira da estrada, surge Camila que a convida
a sair do carro e acompanhá-la para a festa através
de um atalho. Durante a festa, Camila e seu diretor anunciam apaixonadamente
seus planos de casamento para profundo desgosto de Diane que já
estava se sentindo humilhada diante da mãe do diretor que
senta à sua frente e lhe enche de perguntas. Nessa conversa,
Diane comenta que tinha uma tia em Hollywood, já falecida,
que trabalhava na “área do cinema”. Nota-se,
nessa festa, a presença de pessoas que se tornarão
personagens do sonho de Diane (a mãe do diretor, uma moça
que fala algo ao ouvido de Camila e que Diane imagina as duas
se beijando, um homem com chapéu de Cowboy, entre outros
personagens).
Diane
contrata um assassino de aluguel para matar Camila e o contrato
é feito numa lanchonete onde o assassino lhe diz que quando
o serviço estiver consumado ela, Diane, encontrará
uma chave azul que ele lhe mostra em seu chaveiro (aí na
lanchonete também aparecem elementos que serão utilizados
no sonho como por exemplo o crachá da garçonete
escrito “Bety” que será o nome onírico
de Diane, além da própria garçonete, da lanchonete
e de 2 homens que ela vê transitando na mesma). Ao sair
da lanchonete, pelos fundos da mesma, Diane se depara com um mendigo
que manipula uma pequena caixa de madeira azul (tanto o mendigo
quanto a caixa aparecerão em seu sonho).
O
SONHO PRINCIPAL...
O
sonho principal é formado por dois afluentes que dizem
respeito aos movimentos das duas protagonistas. Tais movimentos
se encontram e se entrecruzam.
1º
- Uma moça anônima (personificada na imagem de Camila)
encontra-se no banco de trás de uma limousine que é
conduzida através da Mulholland Dr. O carro pára
numa curva e os 2 sujeitos que estão na frente voltam-se
para trás e apontam uma arma para a garota, ao que tudo
indica, para assassiná-la. Neste instante, um carro em
intensa velocidade, cheio de jovens em farra, vem descendo a rua
na direção contrária e choca-se violentamente
contra a limousine. Os 2 sujeitos morrem e a garota sobrevive,
seguindo cambaleante até a cidade (Hollywood). Chegando
lá, depara-se com um pequeno condomínio onde mora
uma senhora que, nesse momento, está fechando a casa para
viajar. Enquanto a senhora transita entre o carro e a casa, conduzindo
as malas, a garota entra furtivamente na casa e esconde-se, adormecendo
sob a mesa – neste momento ela tem 2 sonhos.
PRIMEIRO
SONHO DO SONHO: Dois sujeitos numa das mesas de uma lanchonete
(a mesma lanchonete e mesa onde Diane contratou o matador –
os dois sujeitos, desse sonho, tinham sido vistos por ela na referida
lanchonete). Eles conversam e um deles, com face apavorada, conta
que tem um sonho repetitivo que se passa exatamente naquele lugar.
Diz que nos fundos dali há um homem que sabe de tudo (ou
coisa assim) e que ele morre de medo de encontrar o tal homem.
O outro que ouve diz, meio impaciente, que então ele tinha
vindo ali para isso, o que o deixa em pânico, mas, a partir
do incentivo do amigo, eles seguem para os fundos da lanchonete.
Numa curva, o contador do sonho depara-se subitamente com o rosto
em close de um sinistro mendigo e cai instantaneamente morto no
chão.
SEGUNDO
SONHO DO SONHO: Uma série de articulações
mafiosas obrigam um diretor de cinema Adam Kesher (o mesmo que,
na vida real, dirige o filme de Camila) a escolher uma determinada
atriz protegida da máfia para o papel principal de seu
filme. Isso o deixa altamente revoltado. Em seguida, ele vai se
deparando com uma série de perseguições,
coações e perdas (entre elas a perda da própria
mulher para o limpador de piscinas – conteúdo onírico
este retirado de uma conversa do próprio diretor durante
a festa onde ele diz, em tom de anedota, que na separação
com a esposa ela teria ficado com o limpador de piscinas). Finalmente
ele é convencido, por uma figura muito estranha, um cowboy
(novamente resquícios diurnos), numa cena memorável
de interpretação e humor refinado do excelente Justin
Theroux.
2º
- Bety (Diane), vinda do Canadá, chega em Hollywood para
um teste de atriz de cinema conseguido por sua tia, supostamente
alguém com alguma influência no meio. Sua chegada,
acompanhada de um casal de velhinhos, sugere que ela travou contato
com os mesmos durante o vôo e estes desejam-lhe boa sorte
ao se despedirem dela no aeroporto, mas estranhamente exibem um
sorriso sinistro depois que a deixam. Bety chega ao condomínio
da casa de sua tia (que, na verdade, é uma réplica
bastante sofisticada do seu próprio condomínio)
e é recebida por Coco, (personificada pela mãe do
diretor que estava na festa) a senhoria que lhe mostra a casa
da tia e lhe entrega as chaves. Bety entra e fica maravilhada
com a casa (na verdade, com uma decoração completamente
hitchcockiana, aliás, o figurino e o penteado de Bety são
também indisfarçavelmente hitichokianos). Então,
encontra a moça do acidente nua no banheiro e leva um susto.
Aí há uma seqüência de cenas onde a moça,
que encontra-se completamente amnésica, resolve assumir
o nome de Rita (inspirada por uma atriz – Rita Hayworth
– num cartaz na parede do banheiro) e elas estabelecem uma
rápida cumplicidade que dribla as desconfianças
de Coco. Bety ajuda Rita a deitar-se na cama após o banho
e esta volta a sonhar:
TERCEIRO
SONHO DO SONHO: Dois rapazes conversam numa espécie de
escritório. Um deles (personificado pelo assassino de aluguel)
quer obter um livrinho preto e mata o outro para isso. Ao tentar
simular a cena de um suicídio, colocando a arma na mão
do morto, ocorre um estúpido acidente onde o gatilho dispara
e atinge uma mulher que estava na sala ao lado. Aí é
uma seqüência de desastres onde ele acaba matando a
mulher e o zelador do prédio culminando em disparar o alarme
do edifício e ele tendo que fugir pela escada de incêndio.
Em seguida, ele aparece procurando por uma moça morena
– tudo indica que seja a moça do acidente desaparecida
(Rita).
Bety
resolve ajudar Rita a recuperar sua memória e começa
todo um processo de investigação das duas acerca
de um suposto acidente ocorrido na Mulholland Dr., pois este é
o único nome que Rita recorda ter visto numa placa. Elas
esvaziam a bolsa de Rita na procura de identificação
e só encontram vários pacotes de cédulas
(outra alusão aos filmes de Hitchcock) e uma pequena caixa
quadrada azul (a mesma que Diane tinha visto com o mendigo). Em
seguida, Bety e Rita vão à rua e confirmam que houve
o tal acidente. Depois, as duas já estão numa lanchonete
(a mesma de sempre) onde a garçonete (a que serviu Diane
e o assassino de aluguel) agora exibe um outro nome no crachá:
Diane. Neste instante, Rita recorda outro nome: Diane Selwyn.
Elas procuram na lista telefônica e localizam o nome, mas,
ao ligarem, entra um recado de secretária eletrônica
numa voz feminina desconhecida. Interessante notar aqui que quando
Bety vai fazer a ligação ela diz: “é
estranho ligar para si-mesma!” Estabelece-se daí
em diante uma animada amizade entre elas e Rita ajuda Bety a decorar
seu texto para o teste de atriz que ela terá no dia seguinte.
Bety faz seu teste (esse é o primeiro clímax do
sonho onde Diane exibe todo o seu imaginado talento). Na seqüência,
Bety é levada a um setting de filmagem onde assiste a um
teste para a protagonista do filme do tal diretor que parece ser
o grande nome de direção em Hollywood naquele momento
(nesse momento, ocorre uma curiosa interpenetração
do sonho principal com o “segundo sonho do sonho”,
ou seja, um cruzamento entre o sonho de Diane e o sonho de Rita
no próprio sonho de Diane e o ponto de intersecção
é justamente a figura do diretor). O diretor então
é obrigado a escolher uma atriz indicada pela máfia
chamada Camila Rodhes (personificada pela moça que Diane
julgou ter beijado sensualmente Camila na festa). Nesta cena,
há um instante em que os olhares de Bety e do diretor se
cruzam sugerindo um amor à primeira vista entre os dois.
As
duas agora amigas seguem a pista do endereço de Diane Selwyn
encontrado na lista telefônica e chegam até o condomínio
onde supostamente mora a pessoa de nome Diane (que, nesse momento,
elas desconfiam tratar-se da verdadeira identidade de Rita). Na
seqüência de cenas, envolvendo uma vizinha de Diane
que havia trocado de casa com a mesma, as duas investigadoras
deparam-se com uma moça loira morta na cama com um tiro
na boca (na verdade, a própria Diane, em sua própria
casa e em seu próprio quarto). Esse é o segundo
clímax do filme. As duas saem apavoradas e voltam para
a casa da tia de Bety.
Bety
providencia para Rita uma hitchcockiana peruca loira a título
de disfarce e, à noite, acaba acontecendo uma quente cena
erótica de cama entre as duas que parecem completamente
apaixonadas uma pela outra (o terceiro clímax). Às
2:00 da madruga, Rita acorda de uma espécie de sonho ou
transe e pede a Bety para acompanhá-la a uma feliniana
casa de espetáculos chamada “Silêncio”.
As duas saem no meio da noite em busca da tal referência.
Encontram, entram, sentam e começa o espetáculo
onde o mestre de cerimônias diz todo o tempo que “não
há orquestra” enquanto são exibidos números
musicais onde o público pensa que o instrumento ou a voz
estão soando, mas na verdade são uma espécie
de dublagem o tempo todo (cabe ressaltar aqui o impressionante
– mas falso – número vocal de uma surrealista
diva chamada Rebeca Del Rio, o quarto clímax do filme).
Bety fica apavorada e profundamente emocionada durante o show,
parece que, a partir desse momento do sonho, algo sinistro começa
a ser finalmente lembrado – talvez a sua verdadeira identidade
(Diane) e a sua ação homicida. Ao terminar o espetáculo,
elas encontram uma bolsa sobre a poltrona vizinha de onde estavam
sentadas. Dentro da bolsa, uma chave azul. Retornam rapidamente
para casa e, ao chegar na cena do quarto, a figura de Bety estranhamente
desaparece e Rita, apavorada, pega a caixa azul abrindo-a com
a chave encontrada no teatro. O sonho assim termina e Diane acorda
em sua cama sob o insistente som da campanhia (a mesma cama onde,
no sonho, a moça loira desfigurada encontrava-se morta).
O
QUE ACABA ACONTECENDO...
Diane
acorda de seu fantástico e tenebroso sonho e vai atender
a porta onde está sua vizinha que havia trocado de casa
com ela (provavelmente uma manobra de Diane para fugir das prováveis
investigações policiais acerca do assassinato de
Camila Rodhes). A vizinha diz que “aqueles dois sujeitos”
estiveram na casa dela procurando por Diane novamente (certamente
policiais). A vizinha pega algumas coisas suas que restaram na
casa e sai. Diane vai preparar um café e começa
a ter alucinações com a imagem de Camila que acaba
por aparecer nua no sofá enquanto Diane tenta estabelecer
um contato sexual à força com ela. A alucinação
some e Diane, transtornada, bebe seu café sentada ao sofá
e observando, sobre o centro de mesa, a chave azul, sinal do seu
crime. De repente, outra alucinação. Diane está
efetivamente enlouquecendo. Agora ela vê os casal de velhinhos
que, no sonho, estava com Bety no aeroporto. Nessa forma alucinatória
eles aparecem inicialmente como miniaturas que passam por sob
a porta e entra na casa assumindo em seguida o tamanho normal
e perseguindo diabolicamente Diane que foge aterrorizada para
o quarto. Em completo desespero, ela se deita pegando instantaneamente
um revólver na mesa de cabeceira e dando um tiro na própria
boca.
*
* *
Essa
talvez seja apenas uma das possíveis “estorinhas”
que se possa montar a partir deste filme. Acredito que hajam outras
formas de compreendê-lo, até porque, como ocorre
com o sonho propriamente dito, as interpretações
possíveis são inúmeras e igualmente válidas,
mesmo que contraditórias. Na minha opinião, este
filme é uma grande obra prima do cinema indicadora da genialidade
de seu autor (quem sabe seja a sua grande obra?). Tal genialidade,
ao meu ver, implica em diversos aspectos, mas a grandiosidade
aparece particularmente quando o cineasta desconstrói radicalmente
toda forma linear e narrativa do nosso pensamento usual, deixando-nos
completamente confusos, sem qualquer compreensão racional
e, ao mesmo tempo, ele nos prende a atenção do início
ao fim, mantendo-nos até contrariadamente de olhos fixos
no filme. Isso parece acontecer pela maestria hitchcockiana tão
viva na maioria das cenas, assim como pelo refinado apuramento
estético que é dado a cada imagem. Uma excelente
obra de arte, sem dúvida. Observem que praticamente todo
o filme, tanto nas supostas cenas reais assim como nas hipotéticas
cenas oníricas, é permeado pelas cores verde e/ou
vermelha, algo bastante fantástico, sugerindo talvez que
o sonho e a chamada realidade sejam, no fundo, a mesma coisa.
Esse é outro aspecto da genialidade da obra, sua provável
grande profundidade psicológica na medida em que nos incita
várias questões reflexivas de peso como, por exemplo:
sonho vira verdade?; a verdade é sonho?; a arte é
sonho?; sonho é arte?; a vida imita a arte?; a vida é
sonho?; etc...
Hermenegildo Anjos
herme@uol.com.br
Salvador,dezembro de 2004