CASACOS
DE PELE, JUNG E OS AMBIENTALISTAS
Mário
Roberto Ferraro
Universidade
Estadual de Goiás.
(Mestrando em Recursos Florestais, na Esalq/Usp.)
Em recente pesquisa sobre a vida de São Sebastião,
num site italiano, que contém uma vasta iconografia sobre
o mesmo, deparei com um quadro em óleo sobre tela que me
deixou encantado e ao mesmo tempo perplexo. Trata-se de um passarinho
morto à flechada em seu ninho .
A
pergunta que me ocorreu é por que um quadro como este é
capaz de emocionar a tanta gente.
Na
minha meninice, eu e minha classe de oitava série fomos
visitar um abatedouro de frangos na Fazenda Holambra, no interior
de São Paulo, e na época fiquei emocionado no sentido
inverso ao que o quadro de Turchiaro me provoca. Fiquei fascinado
com fato daquela matança ser higiênica, praticamente
sem contato manual, rápida e muito eficiente, pois fazia
em minutos, o que em casa, na zona rural era um trabalho demorado
e - sem trocadilho - penoso, mas que não despertava a menor
– novamente sem trocadilho - pena (compaixão). Na
verdade era uma linha de “desmontagem” de frangos
nos moldes das linhas de montagem fabris (fordista), os frangos
chegavam em caixotes direto dos caminhões e eram pendurados
vivos pelos pés em ganchos que se movimentavam em direção
a um compartimento fechado de onde saiam mortos e depenados do
outro lado como que num passe de mágica. E nem se via vestígio
das penas! E, eles continuavam nos ganchos, onde em seguida eles
eram abertos e as suas vísceras retiradas e jogadas separadamente
em caixotes plásticos e, ainda nos ganchos, eram lavados
por um esguicho potente e depois embalados para consumo. Essas
imagens me ocorreram quando vi o quadro descrito no parágrafo
anterior. Por que não senti e continuo não sentindo
a mesma pena dos frangos, bois e outros animais abatidos para
nosso alimento? Se for preciso matar um frango para comer eu mato
sem constrangimento. Sacrificar um cachorro doente, matar pássaros
e outros animais selvagens também. Só não
o faço por motivos de consciência que se desenvolveram
através da razão, que acabaram por refrear o instinto
e a vontade. Mas o quadro de Turchiaro têm um efeito devastador
sobre mim. Por quê? Estarei ficando um sentimentalóide?
Recentemente, outra imagem voltou a me incomodar, a foto da cantora
britânica Sophie Ellis Bextor, muito popular no Reino Unido,
segurando um uma raposa morta e escalpelada, com a legenda: "Aqui
está o resto de seu casaco de pele” . Chocante! O
propósito da foto era uma campanha da ONG People for the
Ethical Treatment of Animals (Peta) contra o uso de casaco de
peles de animais, campanha que fora detonada pela decisão
da super modelo brasileira Giselle Bündchen assinar contrato
com a empresa americana Blackglama para desfilar com casacos dessa
marca.
Na
busca de uma explicação mais convincente para o
impacto causado por essas imagens percorremos uma literatura nada
ortodoxa. Recorremos à psicanálise de orientação
junguiana.
Essas fotos ativam em nós um arquétipo , o arquétipo
da vítima. Vítima, porém todos somos, nem
que seja vítima da morte que chegará mais cedo ou
mais tarde. A palavra vítima “evoca a negatividade
associada às mais escuras e dolorosas experiências:
o sofrimento, a injustiça, a impotência e a morte”(...).
Evoca ainda o medo e a insegurança terríveis da
causalidade mais arbitrária, ou o medo de ter sido o escolhido,
“destinado” a uma dor intolerável” (Cowan
: 1994, p.217.). Nos EUA, as vítimas são tratadas
como perdedores: são consideradas culpadas pela própria
vitimização, que é sentida como punição
ou como falta de disposição para a luta. Aliás
o xingamento mais ofensivo naquele país talvez seja perdedor
(loser).
As vítimas se distinguem em duas categorias que na verdade
se intercruzam: a vítima secular e a vítima sagrada.
A vítima secular sofre no tempo e no espaço: são
as vítimas do câncer, da AIDS, de acidentes de carro,
de estupro. As vítimas sagradas, por sua vez carregam esse
sofrimento dentro de si, como um arquétipo inconsciente,
e por que inconsciente, projetado no ambiente, o que a torna cada
vez mais vitimada e mais susceptível a se tornar uma vítima
secular. Para toda vítima existe um agressor, que se apresenta
com um poder imenso, “o poder de infligir sofrimento e dor,
de negar a justiça, causar a morte. O Primeiro lamento
de sofrimento da vítima é “por que eu”?”
(Cowan: 1994, p.217). Mas para se pensar a situação
da vítima, algo somente poderá ser feito se se ativar
o arquétipo da vítima sagrada e dar um sentido para
ele, uma vez que a situação de vítima parece
ser irreversível. Então a possibilidade que se apresenta
para se suportar o sofrimento, é dar um sentido interior
para ele. É tomar o sacrifício em suas mãos.
Tornar-se um agente do sacrifício. Sacrificar-se em nome
de uma causa nobre, pois certos deuses não são dignos
de receber os sacrifícios a eles ofertados e, então,
eles ficam sem efeito.
Em nível do sagrado, a vítima é algo bem
mais complexo. “Vítima vem do latim victima, que
significa animal de sacrifício e refere-se a qualquer criatura
viva que é morta e oferecida a um deus ou poder divino.
O termo “sacrifício” vem do latim sacer , de
onde deriva o termo sacro, que significa aquilo que é sagrado,
destacado, “dedicado ao sacrifício”, dedicado
a um deus ou a algum propósito religioso” (Cowam:
1994, p.220). Sacer também pode significar “maldito”
, “multa”, “penalidade”. No nível
psíquico a vítima costuma aparecer também
como amaldiçoada cujo exemplo mais notável é
o bode expiatório.
A imagem da vítima se apresenta de maneira contraditória.
Em sua secularidade ela pode se apresentar como feia, temível,
secretamente desprezada ou como vítima sagrada, ser linda
e desejável.
“O modo como a vítima percebe conscientemente seu
próprio sofrimento pode dar sentido à vitimização
pessoal: ela não só é sacrificada como se
torna capaz de efetuar, de realizar, um sacrifício. A vitimização
é, então, tanto uma condição de um
relacionamento significativo com um deus, quanto uma condição
de um sofrimento sem sentido.” (Cowam: 1994, p.220).
“Os âmbitos sacro e secular não são
mutuamente exclusivos. Esses termos são meros artefatos
que nos ajudam a diferenciar aspectos da experiência. A
tarefa psicológica da vítima é percebê-los
na sua comunhão, tornar sacro o secular, criar um sacrifício
valioso a partir do próprio sofrimento: honrar o padecimento,
valorizar o vulnerável, cultivar a compaixão pela
própria alma ferida” (Cowam: 1994, p.220).Em seguida
a autora apresenta como agir terapeuticamente com a vítima,
assunto em que não vamos nos deter porque foge aos objetivos
desse trabalho.
Uma vez caracterizado, ainda que de maneira insipiente, o arquétipo
da vítima podemos voltar as nossas imagens. Por que algumas
imagens, como aquelas que nós apresentamos, têm o
poder de mobilizar emocionalmente?
A resposta vem com a própria autora. “Algumas imagens
de vítima têm o poder de nos mobilizar emocionalmente
porque incorporam as características essenciais da vítima
arquetípica. A imagem de Jesus, alquebrado e ensangüentado
na cruz, é um exemplo completo e ímpar da vítima
sagrada, encarnando a santidade, a inocência, a perseguição
e o sofrimento injustos, e o sacrifício voluntário.
Na qualidade de exemplo coletivo, os judeus têm sido historicamente
forçados a desempenhar o papel de vítima com tal
assiduidade que o próprio nome deste povo passou a ser
sinônimo de “vítima”. Imagens fotográficas
de prisioneiros esqueléticos nos campos de concentração
nos proporcionam uma visão austera da vitimização
arquetípica, razão pela qual os judeus passaram
a referir-se ao genocídio nazista como holocausto, que
significa literalmente “oferenda pelo fogo”. Mais
recentemente, vemos fotografias de coelhos cegos, de gatos mortos
a gás, de elefantes mortos sem suas presas – animais
vitimados que, embora sendo seres dotados de sensibilidade, não
podem sacrificar-se de bom grado em benefício da humanidade
( e que sem dúvida não o fariam caso isso lhes fosse
solicitado). Essas imagens têm a força da inocência
da vítima (Jesus), da magnitude do sofrimento (o holocausto)
e da extrema impotência da condição de vítima
(os animais)” (Cowam: 1994, p.223 - 224).
Então podemos dizer que as imagens por nós apresentadas,
o quadro de Turchiaro (Like a Saint Sebastian) e a foto da raposa
escalpelada, nos chocam por que tocam numa realidade psíquica
profunda e inconsciente, o arquétipo da vítima que
todos nós temos (exceto os psicopatas, que não têm
senso de culpa), em grau maior ou menor de percepção
consciente. Essas imagens de animais sacrificados nos remetem
à imagem do Cristo crucificado, o exemplo de sacrifício
mais comovente de nossa cultura, que de forma, consciente ou não,
está internalizado no homem ocidental. Essa imagem do Cristo
na cruz internalizada em nossa consciência nos provoca compaixão,
que inclusive pode ser a compaixão por nós mesmo.
Compaixão que pode nos mobilizar para a ação
em múltiplos sentidos: Para cuidar de nossos próprios
ferimentos e sofrimentos, compaixão que pode nos mobilizar
a lutar pelos nossos semelhantes, vitimas impotentes diante de
injustiças, crueldades e perseguições e também
nos mobilizar em defesa da natureza, dos animais e plantas totalmente
impotentes para cuidarem de si, vítimas de todas as crueldades
em nome da ganância, do luxo e de outras futilidades.
Esse talvez seja o motivo que faz com que a matança de
frangos no abatedouro não pareça chocante. Ela não
é fútil pois atende a um propósito nobre:
esses animais são sacrificados por nós e para nós,
para a nossa sobrevivência sendo por tanto um sacríficio
pleno se sentido, embora lamentado pelos vegetarianos. E também
não choca pelo fato de ser invisível, pois para
o ser humano que compra um frango no supermercado é quase
impossível imaginar o sofrimento do animal diante da morte.
Aliás essa tem sido a estratégia de todas as guerras
pós guerra do Vietnã, não permitir que as
imagens das vítimas, que evocam todas as características
por nós citadas, sejam veiculadas na mídia para
não despertar compaixão, e, consequentemente, o
fortalecimento de movimentos pacifistas. Aliás a denominação
de “Guerra Cirúrgica” soa como um paradoxo:
se invoca um procedimento de cura, de eliminação
do sofrimento – a cirurgia – para se fazer exatamente
o contrário, para matar, isto é para provocar o
sofrimento máximo. A idéia é a de que os
ataques tenham precisão cirúrgica para produzirem
o mínimo de vitimas possíveis, não por preocupações
humanitárias com o inimigo, mas para não despertar
solidariedades inconvenientes. Curiosamente, a CNN, rede de tv
americana cobriu a Guerra do Golfo, de 1991 a convite de Saddan
Hossein, porque ele percebeu a importância política
de denunciar as atrocidades da guerra na casa do inimigo. Na invasão
do Iraque pelos Estados Unidos, os invasores optaram por permitir
uma cobertura controlada por eles mesmos e talvez tenham nos poupado
de imagens que poderiam comprometer ingleses e americanos. Interessante
também notar a divulgação que tiveram os
atentados de 11 de Setembro: ela despertou em grande parte dos
americanos o arquétipo da vítima, sentimento esse
usado para angariar o apoio da sociedade para a invasões
do Afeganistão e do Iraque.
Outro aspecto a ser considerado é a analogia entre um passarinho
traspassado por uma flecha, uma pomba talvez, e São Sebastião.
A única coisa em comum, em nível do real é
a flecha, mas é essa mesma flecha cravada nos corpos de
ambos, que evoca o sacrifício, a dor, a perseguição
injusta, a inocência, o sofrimento e a impotência
comum a ambos e comum também ao arquétipo da vítima.
A iconografia sobre São Sebastião é extensa
e tem inspirado artistas desde a Idade Média. Enquanto
houver injustiças e perseguições haverá
o culto a São Sebastião. E ambos, o quadro de Turchiaro
e São Sebastião, despertam nossa compaixão.
Quanto à raposa escalpelada, o impacto é grande
devido à futilidade de seu sacrifício. Para manter
o luxo de uma minoria de alto poder aquisitivo, alimentar suas
vaidades com o uso casacos de pele como símbolo de ostentação
de riquezas e de poder, se sacrificam os animais. A ONG Peta acerta
em cheio ao tornar visível aquilo que ocorre distante de
nossas vistas, e que nem sequer imaginamos ocorrer, que é
crueldade contra esses animais, que são impotentes para
se defender. Talvez essa exposição chocante desperte
nos seres humanos o arquétipo da vítima, que sensibilizados
com a crueldade, com a injustiça da matança, saiam
em sua defesa. Concluindo com Cowan: “essas imagens poderosas
talvez nos convoquem a criar um relacionamento com as mesmas,
no qual podemos evocar a nossa compaixão e o nosso amor
(p.224). Também, o relacionamento com essas imagens pode
tornar-se um poderoso instrumento para educadores e formadores
de opinião em geral e mais especificamente para educadores
ambientais atuarem em defesa da natureza.
Bibliografia
COWAN, Lyn, “A vítima” in: DOWNING, Christine
Espelhos do Self: imagens arquetípicas que moldam sua vida.
São Paulo: Cultrix. 1994 p. 216-225.
HAAL, James A. Jung e a Interpretação dos sonhos.
São Paulo. Cultrix: 1992, 4ªed. 160p.