BATISMO:
UMA INICIAÇÃO À FUNÇÃO TRANSCENDENTE
Maria
Cristina N. de Carvalho
RESUMO
Através
de correlações entre a análise simbólica
dos ritos de passagem e do batismo cristão, o presente
trabalho pretende demonstrar que a iniciação religiosa
pode representar uma expressão da Função
Transcendente, que é conceito central na Psicologia Analítica.
Perante
as grandes crises individuais e sociais, e na expectativa de dominar
aquilo que ainda não obedece ao controle da intelectualidade,
o homem incrementa sua compulsão para conquistar novas
descobertas científicas, ou então procura ansiosamente
que o grande leque de seitas religiosas hoje disponíveis
lhe dê respostas. De qualquer forma, a procura é
fora de si mesmo.
Além
disso, temos a crise das práticas religiosas atuais que
também têm-se tornado racionalizadas e enfraquecidas,
não incorporando mais os demônios que outrora as
comunidades primitivas projetavam no "mundo invisível".
Os ritos de passagem perderam seu aspecto ritual, só tendo
significado para o indivíduo os atos concretos que os compõem.
Na verdade, o ser humano afastou-se radicalmente de suas raízes
psíquicas, o que o levou a "perder sua alma".
Vive psicologicamente de forma fragmentada onde o pensamento lógico
predominante não abre espaço para o simbólico.
Parece
haver necessidade de um reencontro do homem com sua alma, para
que então se defronte com alguns sentidos que advirão
da esfera espiritual. Este processo pode ser propiciado se ao
indivíduo for oferecida uma iniciação religiosa
íntegra, consciente e que realmente expresse todo o seu
sentido simbólico que é reflexo de milhares de anos
de história da relação do homem com o mistério.
Dessa forma, o batismo cristão pode ser uma possibilidade.
O
presente trabalho pretende analisar sob a perspectiva da Psicologia
Analítica de C.G. Jung, de que forma o batismo pode-se
relacionar ao desenvolvimento da psique, objetivando uma maior
integração da mesma, através da recuperação
do conhecimento simbólico. Para isso faz-se necessário
discutir o que são ritos de passagem sob o ponto de vista
antropológico e psicológico apontando o papel do
símbolo nos mesmos. O batismo cristão, como rito
iniciático deve ser analisado de forma a estabelecer correlações
simbólicas de cada etapa do ritual, o que propicia a aproximação
deste com o conceito de função transcendente –
que, de acordo com a Psicologia Analítica promoveria maior
integração da psique do indivíduo.
Independentemente
da análise temporal-espacial de uma sociedade observa-se
a repetição da demarcação de momentos
de passagem ou transformação na vida do sujeito
como algo necessário de ser significado de forma simbólica.
Estas passagens quase invariavelmente são acompanhadas
de um ritual cerimonioso, ou ao menos por uma pequena celebração,
sendo que o essencial parece ser o reconhecimento desta mudança
de uma situação para outra. Pressupõe-se
portanto, uma estrutura básica fundamental dos ritos de
passagem, que consiste na separação de uma condição
anterior e a agregação à nova situação.
Este novo "status" adquirido pelo iniciado, torna a
questão do significado coletivo fundamental. Na verdade,
o mito precede ao rito. Com base na imaginação de
cada indivíduo os aspectos coletivos do mito se constelam
na individualidade de cada um.
Dessa
forma pode-se afirmar que os ritos de passagens remetem a marcas
de transição que ocorrem em todas as culturas, sugerindo
a ligação de conteúdos coletivos (inconscientes)
à vida de um indivíduo (consciência). Para
que isso ocorra, tem se que são processos eminentemente
simbólicos e que apontam para uma nova agregação,
isto é, uma amplificação da consciência.
Por todas estas características, os ritos de passagem tornaram-se
alvo de grande interesse para C.G. Jung, uma vez que sua teoria,
aborda o homem sob o prisma simbólico e pressupõe
embasamento semelhante aos descritos para estes ritos.
O
batismo cristão como processo iniciático que congrega
todos os fundamentos de um rito de passagem, é uma manifestação
eminentemente simbólica. Se realizarmos uma amplificação
de cada etapa do processo deste ritual na busca de seu sentido
arquetípico, muito colaborar-se-á para a compreensão
e reflexão sobre a prática da iniciação
cristã nos dias de hoje. A proposta básica do batismo
é a união do homem com a comunidade e consigo mesmo.
Na verdade, as formas de expressão do batismo são
secundárias em relação aos temas arquetípicos
a que conduzem. Sendo assim, os fatos comuns da vida diária
que se repetem eternamente, remetem a arquétipos poderosos
que podem ser reconhecidos através da análise simbólica
de dada situação. Dos símbolos emana energia
vital e poder divino através da união do conhecido
ao desconhecido, portanto é preciso conhecer os símbolos
do batismo, para que se religue o que se encontrava separado.
E
é para este fim, de união de opostos que Jung propõe
o conceito de "função transcendente",
que define da seguinte forma. "Por "função
transcendente" não se deve entender algo de misterioso
e por assim dizer supra-sensível ou metafísico,
mas uma função que por sua natureza pode-se comparar
com uma função matemática de igual denominação,
e é uma função de números reais e
imaginários. A função psicológica
e "transcendente" resulta da união dos conteúdos
conscientes e inconscientes" (JUNG, 1981, Vol. VIII p. 69).
Aqui
Jung demonstra sua característica de trazer seus conceitos
psicológicos para o campo empírico, denotando o
caráter de naturalidade e de inevitabilidade para a função
transcendente, uma vez que a existência de oposições
psíquicas é certamente observável e natural
na condição humana. Centralizando-nos na oposição
consciente e inconsciente, parece que a tendência do homem,
dependendo de seu momento histórico ou origem cultural
é polarizar seu funcionamento psíquico num dos extremos.
Obviamente que este fato tem ganhos sobre certos aspectos tanto
para o próprio indivíduo como para a comunidade,
mas é obvia a grande perda decorrente da não integração
de opostos que, justamente contém o aspecto criativo, de
transformação e de perspectivas de maior amplitude
psicológica.
Parece
ficar claro até aqui o papel do símbolo na estrutura
do conceito função transcendente, pois é
exatamente por ele que há a possibilidade de se transcender
os opostos. Em muitos momentos de sua obra, Jung demonstra que
as experiências religiosas têm o papel com frequência
de recuperar a energia advinda desta tensão entre opostos,
através dos símbolos religiosos, embora seus próprios
pressupostos criem muitas vezes nova tensão com a sociedade
intelectual e científica atual.
Lembrando
que a iniciação cristã tem seu primeiro momento
no batismo e que será confirmada na primeira eucaristia
e na crisma, denota-se a importância desta iniciação
religiosa que terá papel fundamental no desenvolvimento
da psique.
Chega-se
aqui ao objetivo de realizar articulações entre
o batismo cristão e a função transcendente.
Se esta representa um elo de ligação entre oposições,
e isto se dá basicamente através do símbolo,
o batismo como um rito de passagem essencialmente simbólico
é rico em oposições. A entrada no mistério
cristão remete a dualidade morte e vida, trevas e luz,
dentre outras e dessa forma apresenta-se como uma das possibilidade
da função transcendente se expressar.
Ao
"re-ligar" o indivíduo ao mito eterno, o batismo
possibilita a união do homem ao todo, de uma forma simbólica.
Como ser, que é gerado nas águas férteis
da Criação, é dessas águas que o homem
retira seu potencial criativo e transformador. Desde que participe
conscientemente deste processo, são poucos os riscos de
que o indivíduo se dilua nessas mesmas águas que
também têm poder destrutivo e desintegrador, quando
desconhecidas. Assim, o homem não abandona sua natureza
divina, e sim permite que a mesma se expresse através dos
símbolos, de forma construtiva em sua vida.
Com
o desenvolvimento das ciências exatas a abordagem simbólica
perdeu espaço na humanidade. Com ela, foi-se também
a importância que os homens devem dar aos ritos, como se
não houvesse necessidade de "marcas" para as
transformações... As mudanças no mundo são
intensas e extensas, com muitas "marcas registradas",
mas ao voltarmos o nosso foco para a intimidade do homem, encontramos
um ser debatendo-se consigo mesmo, porque se desconhece... Um
homem que olha para fora de si, carente de algo ou alguém
que lhe indique caminhos para onde quer chegar (isto quando sabe
onde quer chegar...). Mas ele desconhece que ao buscar esta solução
mágica num Deus, numa idolatria, numa prática política,
que estão sempre fora dele, está deixando de vislumbrar
possibilidades de direcionamento que a magia dos símbolos
talvez lhe forneçam... Desde que volte-se para seu interior,
redescubra a sua origem que é sagrada, poderá através
dos símbolos encontrar significados para sua existência.
Para isso, a experiência religiosa faz-se útil, independentemente
da forma como é simbolizada por crenças específicas.
Assim,
Jung lamenta e preocupa-se com o abandono dos ritos que o homem
gradativamente tem realizado. Pois além do afastamento
de suas raízes históricas, o ser humano não
dispõe de muitas outras opções para a canalização
do inconsciente, e de uma experiência saudável com
o numinoso. Para a Psicologia Analítica, os mistérios
dos processos iniciáticos aos poucos fazem o indivíduo
perceber as dimensões de sua existência, pois as
adentrar-se no mundo sagrado ele deve assumir a responsabilidade
de "ser humano".
Jung
aponta como causa de toda essa situação não
só o domínio do racionalismo e realismo, mas também
porque os representantes das religiões perderam sua eficiência
junto ao mundo científico: os intelectuais não percebem
a utilidade de uma abordagem simbólica das situações
vividas, assim como os responsáveis pela propagação
religiosa não elaboram justificativas coerentes ao nosso
tempo.
Concluindo,
parece que o simples chamado dos indivíduos à conversão
não é mais suficiente. Faz-se necessário
a criação de novos fundamentos para a "verdade
simbólica" que incluam não só os aspectos
sentimentais mas também racionais, para que, como no batismo,
se propicie uma ligação do homem natural ao homem
espiritual.
*
Resumo da monografia apresentada no Curso de Especialização
em Psicologia Analítica, 1998, PUC – Pr.
** Psicóloga Clínica,
Docente na PUC – Pr. desde 1983,
Especialista em Antropologia Cultural UFPR,
Especialista em Psicologia Analítica PUC – Pr.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
JUNG,
C.G. – Dinâmica do Inconsciente. Vol. VIII. Petrópolis,
Ed. Vozes, 1981