ATITUDES
TÍPICAS E CULTURA
Correlações entre Jung e Schiller
Juliano
Maluf Amui
Carl
Gustav Jung nasceu, em 1875, e tornou-se psiquiatra e grande estudioso
da psique humana. Sua teoria, denominada psicologia analítica,
divulgada através de livros, artigos e palestras proferidas
está organizada atualmente em uma série de livros
denominados obras coletadas, sendo esta muito difundida e analisada
atualmente por estudiosos de todo o mundo.
Toda teoria sofre a influência da cultura e da erudição
de seu autor. Por isto, para a compreensão de uma obra,
torna-se necessário compreender as raízes filosóficas
do autor, que na realidade formam seu modo particular de compreender
e vivenciar o mundo. Nada é escrito e pensado por acaso.
Há sempre um rumo de pensamentos que devem ser trilhados
para se conceber uma nova realidade. Uma das grandes influências
que Jung teve para conceber o seu ponto de vista foi o romantismo.
Desde sua adolescência, Jung manteve um intenso contato
com a realidade do romantismo. Basta lembrar que, em meio às
suas dúvidas e críticas juvenis acerca da religiosidade,
Jung leu o Fausto, de Goethe, o qual exerceu enorme influência
em seu modo de pensar.
“Entretanto
outros homens como eu deveriam ter procurado a verdade em outros
lugares e outras épocas; homens que pensavam razoavelmente,
sem tentar enganar-se a si mesmos, nem aos outros, e que não
fugiam à dolorosa verdade do mundo. Foi nesta época
que minha mãe, (...) me disse de repente, sem qualquer
preâmbulo: ‘Você precisa ler um dia o Fausto,
de Goethe.’ Tínhamos em casa uma bela edição
de Goethe. Li Fausto, que foi um bálsamo milagroso para
minha alma. Disse a mim mesmo: enfim, eis um homem que leva o
Diabo a sério e que efetua com ele um pacto de sangue.”
(JUNG, 1997, p.63).
Observando
sua obra, percebe-se uma influência subjetiva que o romantismo
lhe proporciona, ou seja, um modo particularmente romântico
de Jung conceber e escrever sobre o mundo. De outro lado, numa
realidade mais objetiva, há em sua obra uma quantidade
infindável de citações de inúmeros
autores do romantismo.
Em seu livro Tipos Psicológicos, publicado em 1921, Jung
firma um forte e conciso diálogo com a obra A educação
estética do homem, de Friedrich Schiller.
Para situar o leitor, Friedrich Schiller (1759 / 1805), foi um
grande e influente poeta e dramaturgo, e ao mesmo tempo, desenvolveu
em sua vida, de forma criativa e expressiva, uma filosofia própria,
chamada genericamente de filosofia pós – kantiana,
uma vez que a grande pretensão de Schiller em sua principal
obra, denominada A Educação Estética do Homem,
era a de procurar solucionar a problemática relacionada
à filosofia estética Kantiana.
“Com
efeito, eu jamais teria tido a coragem de tentar solucionar o
problema deixado pela estética kantiana, se a própria
filosofia de Kant não me proporcionasse os meios para isto.
Essa filosofia fecunda, que com tanta freqüência tem
de repetir que ela apenas demole e nada constrói, fornece
as pedras fundamentais sólidas para erigir também
um sistema da estética, e o fato de que não lhe
tenha proporcionado também este mérito eu só
posso explicar uma idéia premeditada de seu autor. Longe
de considerar-me aquele a quem isso esteja reservado, quero apenas
experimentar até onde me leva a trilha descoberta. Se não
me levar à meta, ainda assim não está de
todo perdida a viagem pela qual se busca a verdade.” (SCHILLER,
1995. P. 14).
Assim
como Goethe, Schiller é considerado como um dos filósofos
mais importantes da primeira fase do romantismo alemão.
Porém, seu pensamento está mais precisamente situado
num limiar entre o classicismo de Weimar e o romantismo, concebido
por Schlegel e Novalis.
Carl Gustav Jung vê nos pensamentos do filósofo uma
importante contribuição para a compreensão
da dinâmica tipológica, uma vez que, segundo Jung,
Schiller é o primeiro a tentar distinguir e analisar, de
forma completa e detalhada, as atitudes típicas.
Atitude é um conceito que foi proposto inicialmente por
Mueller e Schumann. Mas Jung, ao utilizar tal termo, o concebe
à forma de Ebbinghaus, que a compreende como ação
que traz o habitual para dentro do rendimento individual, ou seja,
atitude é uma disposição da psique de agir
e reagir de determinada forma, em certa direção.
Concebendo as atitudes como disposições determinadas,
habituais, pode-se então denominá-las de atitudes
típicas.
Mas, se as atitudes definem uma direção, elas podem
ser vistas como ações que, ao escolher uma forma
determinada, acaba por excluir as outras existentes. É
por isto que toda atitude promove de certa forma um movimento
unilateral.
Schiller, em seu livro A educação estética
do homem, expõe que o ser humano na antigüidade (ele
enfatiza a civilização grega), permanecia na sua
forma inata, natural, e, portanto, indiferenciada quanto às
suas funções e atitudes. O homem antigo podia se
manifestar conforme a sua natureza, sem ser identificado, discriminado,
ou superestimado por determinadas funções diferenciadas.
O homem não era considerado como um, mas compreendido em
conjunto, como coletividade.
O ser humano atual, no entanto, é inferior, unilateral
e incompleto, concebendo a individualidade como realidade. A nossa
época acaba então por privilegiar determinadas funções
e atitudes, mediante a atrofia de outras, ocasionando uma “desagregação
da harmoniosa colaboração das forças espirituais
na vida instintiva” (JUNG, CW VI , §. 100).
Neste ponto (carta VI da A Educação estética
do homem), Schiller postula então que a cultura seria a
possível origem desta diferença entre os povos antigos
e os atuais.
“Foi
a própria cultura que abriu essa ferida na humanidade moderna.
Tão logo a experiência ampliada e o pensamento mais
preciso tornaram necessária uma separação
mais nítida das ciências, assim como, por outro lado,
o mecanismo mais intrincado dos Estados tornou necessária
uma delimitação mais rigorosa dos estamentos e dos
negócios, rompeu-se a unidade interior da natureza humana
e uma luta funesta separou as duas forças harmoniosas.”
(Schiller, 1995, pág. 40/41).
Jung
concordou com Schiller, na sua afirmação de que
as diferenciações das atitudes típicas seriam
motivadas pela cultura, e ainda complementou dizendo que a igreja,
representada pelo cristianismo, também exerceu enorme influência
para esta diferenciação, ocorrida no ocidente.
Porém, Jung não concordou com o ponto de vista schilleriano
de que as civilizações antigas, devido à
sua realidade mais centrada na natureza e na arte e, portanto,
indiferenciada quanto às atitudes típicas, são
superiores, enquanto as civilizações atuais, mais
centradas na erudição e no conhecimento, e, portanto,
diferenciadas, são inferiores.
Na realidade, Jung fez uma crítica a este pensamento, explicitando
que ambas as épocas são regidas por culturas, e
que possuem as suas imperfeições. Schiller desconsiderou
as imperfeições da civilização grega,
mantendo-se numa imagem idealista da época, enquanto criticou
a realidade atual, colocando-a como inferior.
Considerando então o pensamento de Jung, uma cultura estaria
mais centrada num ideal extrovertido, ou seja, numa relação
mais estreita com o objeto, enquanto a outra num ideal introvertido,
com a sua relação principal organizada em prol do
sujeito.
Outro ponto levantado por Jung é que a diferenciação
das funções não é resultado de uma
vontade consciente e maliciosa, mas sim, “como em toda parte
na natureza, surgiu da necessidade”. (JUNG, CW VI, §
104).
Observando a dinâmica das as culturas antigas, nota-se que
devido à “exigência das classes superiores,
promoveu o desenvolvimento individual, suprimindo totalmente a
grande maioria do povo comum.” (JUNG, CW VI, § 105).
Ou seja, para que existisse a individualidade de algumas pessoas,
massacrava-se a realidade de tantas outras. E isto pode ser facilmente
observável, uma vez que quando estudamos estas culturas,
existem muitas poucas personalidades a que possamos nos remeter.
As pessoas simplesmente eram, e mais nada. Esta informação
ultrapassa a ingênua imagem idealista normalmente utilizada
por autores do romantismo.
Hoje, no entanto, o ser humano tem a possibilidade de ser o que
a sociedade prega, ou seja, o homem atual é uma representação
fidedigna do que o social espera dele. Com isto, a individualidade
se perde, sendo assim substituída por uma regra de sobrevivência,
a adaptação. O ser humano é, pois, uma incessante
busca de adaptação à sua sociedade.
Mas esta idéia seria ideal e plenamente desejada, caso
não esbarrasse no ponto da individualidade. As coisas seriam
realmente mais fáceis se o ser humano pudesse de certa
forma escolher, segundo as suas necessidades o que lhe é
pertinente para a sua adaptação ao social. Porém,
simples nascemos sendo, portando toda a potencialidade necessária
para o desenvolvimento de nossa individualidade, e, agindo conforme
a nossa “vontade”, ou melhor, conforme a vontade do
social, anulamos determinadas funções nossas que
nos possibilitam ser enquanto individualidade, valorizando apenas
uma parte de nós, uma função nossa, num ato
pleno de unilateralidade. Por isso, “Persiste, hoje, um
grande abismo entre o que alguém é e o que apresenta
ser, isto é, o que ele é como indivíduo e
o que representa como ser coletivo.” (JUNG, CW VI, §
108).
Cabe ressaltar que o que julgamos ser o nosso “não
eu”, ou seja, a parte da nossa individualidade não
assumida e rejeitada, continua existindo, porém de forma
não desenvolvida, e, portanto, autônoma, uma vez
que não é reconhecida pelo sujeito.
Jung afirma então que “Existe em nós essas
duas necessidades: a cultura e a natureza, e que não podemos
ser apenas nós mesmos, devemos estar relacionados também
aos outros. Por isso, há de se encontrar um caminho que
não seja um compromisso puramente racional; deve ser um
estado ou processo plenamente compatível com o ser vivo...”
(JUNG, CW VI, § 132).
Mas, qual seria a ponte a ser usada para ligar tais realidades
que são como que opostas, já que a natureza implica
em coletividade e a cultura em individualidade? Como lidar com
a diferenciação das funções psíquicas,
ocasionadas pela cultura?
Como resposta a isto, Schiller coloca a beleza e a arte, como
objeto do impulso lúdico, para que a sociedade atual, cultural,
faça ponte à realidade da natureza. Em suas palavras:
“Pode
o homem ser destinado a negligenciar a si mesmo em vista de outro
fim qualquer? Deveria a natureza, através de seus fins,
roubar-nos uma perfeição que a razão, através
dos seus, nos prescreve? É falso, portanto, afirmar que
a formação das formas isoladas torna necessário
o sacrifício de sua sociedade; e mesmo que a lei da natureza
se empenhe por isso, tem de depender de nós restabelecer
em nossa natureza, através de uma arte mais elevada, essa
totalidade que foi destruída pelo artifício.”
Conforme Jung, a termo beleza muito utilizado no pensamento de
Schiller é mais do que simples beleza, mas algo numinoso
para o filósofo, ou até um “ideal religioso”.
Isto leva Jung a perceber então que a beleza para Schiller,
assim como outros termos utilizados por outros autores, para caracterizar
esta realidade compensatória e complementadora, são
na realidade símbolos que expressam a junção
de opostos, ou seja, conteúdos inconscientes que trazem
à consciência o que lhe falta para atingir a completude.
Por isto, Jung observa que esta unidade pode ser conquistada pelo
indivíduo através dos símbolos oriundos do
inconsciente, vivenciando através destes símbolos,
de forma não racional, o conflito do dilaceramento imposto
pelo social e pela própria natureza.
“O
inconsciente poderia ser aquela instância psíquica
em que tudo o que é separado e oposto na consciência
conflui em grupamentos e conformações e que, ao
serem elevados como tais à luz da consciência, apresentam
uma natureza que revela partes integrantes tanto de um quanto
de outro lado, sem pertencer a este ou aquele, mas assumindo uma
posição intermediária autônoma.”
(JUNG. CW VI. § 172).
Com
isto, conclui-se que, a diferenciação das atitudes
típicas foi ocasionada pela cultura, mas como forma de
necessidade, não de malícia ou de vontade. O homem,
porém fica incompleto, pois desenvolve algumas funções
e atrofia outras, em prol de um ideal social. Esta unilateralidade,
porém, pode ser sanada, através da vivência
consciente, das atividades do inconsciente, sob a forma de símbolos.
Referências
Bibliográficas
JUNG,
C.G. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro:
Editora Nova Fronteira, 1963.
JUNG, C.G. As idéias de Schiller sobre o problema dos tipos.
In: _____ Tipos psicológicos. Petrópolis –
RJ: Editora Vozes, 1991.
SCHILLER, Friedrich. A educação estética
do homem. São Paulo: Editora Iluminuras, 1995.