ASPECTOS
PSICOLÓGICOS DA OBESIDADE MÓRBIDA
Simone Marchesini
Falar
em "aspectos psicológicos" de uma dada moléstia
não tem relação alguma com o estabelecimento
de um "perfil psicológico", mesmo porque, o perfil
é apenas uma parcela do indivíduo em questão.
Todavia, ao considerarmos o indivíduo obeso mórbido
que nos procura para a resolução de sua doença,
não podemos nos furtar de observar nas entrevistas de candidatos
à cirurgia bariátrica, semelhanças em questões
reflexivas ligadas ao sofrimento de ser obeso.
A obesidade mórbida é assim descrita devido às
complicações físicas, e porque também
não incluir as psíquicas, decorrentes do excesso
elevado de peso. De acordo com o Índice de Quetelet, é
obeso mórbido o indivíduo que tiver 40 ou mais na
pontuação que nos fornece a massa corporal em Kg/m2.
Existem casos de indivíduos em que o IMC é inferior
a 40, mas que já apresentam complicações
que reduzem tempo e/ou qualidade de vida. Quase a totalidade dos
pacientes que buscam a cirurgia bariátrica traz seqüelas
psicológicas e orgânicas decorrentes do uso de anorexígenos,
numa busca circular de emagrecimento. Depressões são
desencadeadas, processos ansiosos se intensificam, compulsões
alimentares se manifestam e até mesmo o transtorno do pânico
marca presença.
O psiquiatra José Carlos Appolinário, Doutor em
Psiquiatria pela UFRJ, faz um levantamento de estudos comparados
e conclui que não se pode afirmar que os obesos tenham
problemas emocionais graves como determinantes da obesidade. Estatisticamente,
obesos e não obesos não apresentam diferenças
quanto à morbidade psiquiátrica.
Numa outra perspectiva porém, nos perguntamos sobre esse
corpo que se enche exageradamente, aumentando sua forma em dimensões
inimagináveis e se não haveria ai um vazio de outra
ordem, que não o do estômago. E se o vazio não
é deste órgão, porque reduzí-lo ?
Como conseguir acompanhar essa imagem de crescimento literal que
faz com que uma mulher percorra desde a marca dos 60 até
os 200 kg? E como compreender que apenas pelo limite também
imposto literal e concretamente, a psique desses indivíduos
obesos mórbidos, tenham a contenção necessária
para abrir mão de seu recurso de equilíbrio: o comer
desenfreado que não conhece a saciedade?
A cirurgia cumpre seu papel: possibilita que o controle da ingestão
alimentar mude de sede; da vontade egóica para o volume
do estômago. De algum modo, a energia psíquica dispendida
no estabelecimento do limite do ato alimentar, fica à disposição
da psique, podendo tomar forma construtiva ou destrutiva. O conflito
em relação ao comer se desfaz. Quebra-se o ciclo
( vontade de comer, ansiedade, ato alimentar, culpa, ganho de
peso, arrependimento, perda progressiva da auto-estima, isolamento,
depressão ) e a energia fica livre para outro alvo. Mas
que alvo?
Dos 72 pacientes avaliados até abril/99, apenas 11 permaneceram
em psicoterapia. Uma parcela pequena se põe para operar
uma transformação além do corpo. As informações
médicas, contudo, nos relatam uma grande porcentagem de
indivíduos que se refere a um aumento na qualidade de vida
pelo resgate da auto-estima.
Em decorrência da restrição do volume alimentar
ingerido e do impedimento da absorção dos alimentos,
o indivíduo emagrece sem muitos esforços mentais
e sem o sentimento de privação. O vazio se preenche
com pouca quantidade de comida e as restricões típicas
de dietas hipocalóricas são abandonadas. A ansiedade
ligada à possibilidade de recuperar o peso perdido se desfaz
mediante a experiência concreta da medida radical que é
a cirurgia. A experiência do limite imposto pelo corpo dá
à alma um sabor de liberdade.
Mas a vida não se totaliza pela forma que um corpo adquire
ou pelo conceito que cada um tem de si enquanto Kg/m. As questões
humanas permanecem, ou até têm a possibilidade de
surgir em busca de resolução depois que o "bode
expiatório" sai de cena.
Temos duas categorias de obesos mórbidos: os sempre obesos
e aqueles que já se experimentaram como magros. Para aqueles
que não conhecem um corpo de dimensões menores,
a construção de uma nova identidade física
com o auxílio de uma psicoterapia se faz indispensável.
Os que já vestiram manequins bem menores que os atuais,
falam de uma insatisfação com o corpo presente e
uma busca incessante na tentativa de recuperar o corpo que lhes
dava identidade. Os pacientes jovens ( entre 16 e 25 anos ) têm
encontro marcado com a sexualidade encoberta e mal definida pela
gordura. Os já estabelecidos em relações
familiares, experimentam mudanças no sistema familiar e
em seus modelos relacionais.
Jung expressou muito bem a unidade psicossomática do ser
humano e suas palavras têm justificado a continuidade do
trabalho psicológico junto à equipe de profissionais
cuja intervenção se dá de forma concreta
sobre o corpo:
"
Um funcionamento inadequado da psique pode causar tremendos prejuízos
ao corpo, da mesma forma que, inversamente um sofrimento corporal
pode afetar a psique, pois a psique e o corpo não estão
separados, mas são animados por uma mesma vida. Assim sendo,
é rara a doença corporal que não revele complicações
psíquicas, mesmo quando não seja psiquicamente causada."
A resolução da obesidade enquanto doença
crônica que diminui a qualidade de vida de um indivíduo,
pode também ser vista como uma possibilidade de recomeço,
e de abertura para uma nova dimensão existencial.
Das 54 mulheres e 18 homens ( abril/99 ) que nos foram encaminhados
para avaliação, obtivemos os seguintes fatores etiológicos
atribuídos pelos próprios pacientes:
Compulsão
Alimentar: 35
Ansiedade: 33
Depressão: 26
Obesidade infantil: 19
Prazer em comer: 16
Genética: 7
Puberdade/adolescência: 6
Raiva: 3
TPM: 2
Fome: 1
1 caso: "Como para chamar a atenção e me vingar."
2 caso: "Minha obesidade é meu freio sexual."
O entrevistado de maior peso foi um homem de 38 anos que se referia
ao limite sexual imposto pelo corpo obeso. Seu peso na cirurgia
era de 178 Kg, mas seu histórico de peso já havia
atingido a marca dos 260Kg. O maior diferencial entre pesos mínimo
e máximo foi o de uma paciente do sexo feminino de 34 anos:
151Kg ( mín:61-máx:222 ). A causa por ela atribuída
ao ganho de peso foi a fome.
Tomando como início uma questão acerca da natureza
dessa fome, percebemos que a literatura sobre obesidade não
está longe de acertar quando nos diz que no obeso, não
há a percepção discriminada das necessidades
corporais: fome, sede, sono, frio, ansiedade, tristeza, dor, todos
recebem como alívio a comida. A voracidade traz à
baila um núcleo de insatisfação e a dificuldade
em experimentar limites. Em todos os indivíduos entrevistados
( abril/99 ) o corpo aparece como inimigo. Ele é o depósito
de tudo que há de mau e sombrio. Mas o que detectamos é
um excessivo controle no plano racional, uma cabeça enorme
que só poderia repercutir num corpo grandioso. Ao comer
compulsivamente o controle sai de cena, a cabeça tem condições
de relaxar via dissociação e o espírito só
volta à matéria quando a "orgia alimentar "tem
fim por um desconforto gástrico que evoca a consciência
do ato de comer.
Corpo é matéria e Mater é mãe. É
condizente pensar na boca como veículo de construção
das noções de Eu e Não-Eu. Ingerir, digerir
e eliminar fazem parte do trajeto alimentar, bem como as noções
de cheio e vazio a ele pertencem. A mãe é o primeiro
alimento; ela rege o período pré-verbal em que a
linguagem do corpo estabelece as relações. De algum
modo, os obesos estão amarrados neste período de
desenvolvimento, o que os faz permanecer infantis na alma mesmo
que em corpos exageradamente crescidos.
A dissociação descrita por indivíduos que
se reconhecem como compulsivos alimentares evoca a imagem de nossa
festa tipicamente matriarcal: o carnaval. Nela, a euforia do prazer
da carne é vivida para depois haver a experiência
das "cinzas". O Rei Momo e a ala das baianas são
imagens que ilustram bem o valor do corpo e do alimento. Em termos
sociais sabemos bem da função de consolo que o nosso
carnaval representa para o povo brasileiro. Há todo um
movimento de compensação desde a inversão
do reinado ( o magro pelo gordo, o rico pelo pobre, o negro pelo
branco ) até a quebra de regras e uso de substâncias
que relaxam uma cultura que cultua o ego.
Também pela boca entram os "comprimidos para emagrecer",
drogas socialmente valorizadas e vendidas sem grandes critérios
ou controle. Tanto as drogas anorexígenas quanto a cirurgia
bariátrica, de certo modo mantêm os indivíduos
passivos em relação ao processo de resolução
de sua obesidade, mas as chamadas "boletas", comprometem
declaradamente a evolução da vida. Dos 72 pacientes
com os quais foi feito um contato ao mínimo, 28 fizeram
ou fazem uso de psicofármacos; apenas 2 nunca haviam feito
uso de medicações inibidoram de apetite; 3 relataram
tentativa de suicídio com internamento em clínica
psiquiátrica.
Se por uma vertente podemos ver a carapaça de banha como
determinante de um isolamento defensivo que encobre sentimentos
de fraqueza e fragilidade, por outra podemos perceber nas dimensões
exageradas do corpo um desejo de poder e de conquista de espaço
que se materializa. O evitamento social pela hipersensibilidade
à rejeição e as atitudes do tipo "tudo
ou nada" que em si já predispõem a frustrações,
encontram na comida um prazer imediato e de fácil acesso
que exerce a função de tranqüilizante moralmente
aceito.
É
de regra que, como parte da sociedade preconceituosa, o próprio
obeso se considere intimamente um ser humano de categoria inferior.
Suas expectativas de perfeição o condenam aos sentimentos
de impotência e incapacidade quanto à resolução
de seu problema. Pertinentes a esses conceitos que fazem de si
próprios, sua auto-estima apresenta-se reduzida e por vezes,
sobrevém uma agressividade intensa que faz do morder e
mastigar constantes seu ato de expressão. Via de regra
porém, os obesos não procuram psicoterapia para
buscar um sentido em seu ato alimentar desenfreado e sua relação
distorcida com o corpo, pois em sua grande maioria consideram
o emocional secundário à obesidade.
Dos transtornos psiquiátricos descritos pelo DSM-IV, é
maior a freqüência do TCP ( transtorno de compulsão
periódica ), cuja descrição traz os seguintes
critérios:
ataques
de hiperfagia num período de tempo limitado sem comportamentos
compensatórios ( exercícios físicos exagerados;
aut0-indução de vômitos; abuso de laxantes
e diuréticos )
sentimento de falta de controle sobre o comportamento alimentar
presença de 3 ou mais dos seguintes critérios:
comer rapidamente
comer até sentir-se incomodamente repleto
comer grandes quantidades de alimento sem fome
comer sozinho
sentir repulsa por si mesmo
depressão
culpa
angústia em relação à compulsão
2 episódios compulsivos semanais por um período
mínimo de 6 meses
Em casos em que o paciente no pós-cirúrgico evolui
com sintomas que indicam a preponderância de humor deprimido
e irritabilidade, são usados recursos medicamentosos até
que haja uma adaptação à nova realidade.
Esses recursos se fazem necessários principalmente pela
falta de engajamento desses pacientes operados a um processo de
psicoterapia que os envolva intimamente com suas próprias
insatisfações. Há sempre a tendência
de permanecerem passivos, na esperança de serem emagrecidos
sem ônus algum.
A cirurgia bariátrica tem então, como objetivo,
libertar o indivíduo de uma doença fatal e comprometedora
de sua qualidade existencial, abrindo o campo para que haja tempo
para o confronto com questões mais intrínsecas que
estarão sempre se fazendo presentes, e não necessariamente
ligadas à obesidade, mas vinculadas à condição
de ser humano.
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