AS
MULHERES EM CHICO OU AS MULHERES DO CHICO?
Isabel
Ferreira Rosa Labriola
Um
dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre
falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a
pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não
queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito
tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e
começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança
toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.”
(VALSINHA - Vinicius de Moraes - Chico Buarque 1970)
É da preciosidade dos encontros e desencontros homem-mulher,
presentes na obra musical de Chico Buarque de Holanda, que pretende
se ocupar a minha fala. Mais precisamente, dos deslocamentos possíveis
do feminino e do masculino presentes em nossa cultura, e na obra
de Chico Buarque, que resultam em formas variadas e determinadas
do vir a ser “mulher”. Então, e já esclarecendo
o título, pretendo localizar sim as mulheres na obra do
Chico mas quero também ousar afirmar que ele constrói
as possibilidades de emergência de um certo tipo de mulher,
que eu chamaria de “as mulheres do Chico”.
Que me perdoe o Chico e as suas verdadeiras mulheres mas vou lidar
aqui com a subjetividade de amores públicos e confessos
de uma legião de fãs fiéis que mantêm
projetado nele um romance transformador, e do qual já assumo
fazer parte. Quero inclusive sugerir que de alguma forma, nós
todas, mulheres aqui presentes, interessadas nos símbolos
da cultura brasileira, somos ou podemos ser “mulheres do
Chico”. De um Chico - figura coletiva de homem capaz de
despertar uma nova consciência feminina, arquétipo
de um masculino - herói cultural ou figura de um ânimus
criativo, intérprete do amor e de Eros.
A razão desta fala se prende às minhas hipóteses,
enquanto analista e mulher, de que a individuação
das mulheres depende da conquista de uma equação
criativa: um novo e singular encontro entre masculino e feminino,
que ultrapasse as disposições tradicionais presentes
na nossa cultura. E de que figuras míticas de ânimus,
como a do Chico, estimulam eroticamente essa possibilidade de
encontro. Assim, pretendo também compartilhar de algumas
reflexões sobre as mulheres que somos ou podemos ser ou
em que retratos do masculino e do feminino nos espelhamos.
“Oh
pedaço de mim, Oh metade amputada de mim, Leva o vulto
teu, Que a saudade dói machucada...”
Na
poesia desta música parece estar o protótipo e a
síntese de toda obra do Chico;- a busca do homem e da mulher
da sua contra-parte feminina ou masculina, um diálogo constante
entre anima e animus. Em toda sua obra, esse romance lírico
é revelado nas tramas dos encontros e desencontros de amor,
em alegóricos personagens da nossa cultura intra e intersubjetiva.
Como um fotógrafo das almas ele vai revelando retratos,
cenas interiores que compõem nossas buscas por uma unidade
primordial, com a intensidade colorida dos nossos sentimentos
mais verdadeiros, com o som e o movimento dos encontros e desencontros
malemolentes, trágicos, mágicos, profanos e divinos
entre o eu e o outro. O eu e o outro lado de mim ou o eu e outras
partes de mim, o masculino e o feminino em suas várias
faces e composições.
”O
que é que eu posso contra o encanto desse amor que eu nego
tanto, evito tanto e que no entanto volta sempre a enfeitiçar,
com seus mesmos tristes velhos fatos, que num álbum de
retratos eu teimo em colecionar..”
Para
isso, como um Orfeu e sua lira, ele tem a ousadia lícita
de descer até o reino dos infernos atrás da sua
contra-parte amada e refazer, com os enlevos de um Eros musical,
a potência do amor perdido. Como um animus sedutor, Chico
vai entoando canções de amor e de dor, acompanhando
os movimentos da nossa alma, encantando-a com seu desejo de encontro;
língua que canta, que lambe as feridas e que beija e acabamos
cedendo “enfim à tentação das nossas
bocas cruas e mergulhamos no poço escuro de nós”...
Como um Deus presente na intimidade das pequenas coisas, vai iluminando
registros de pequenas cenas carregadas de significado:
“Esperando,
parada, pregada na pedra do porto, com seu único e velho
vestido cada dia mais curto...”; “Os letreiros a te
colorir, embaraçam a minha visão. Eu te vi suspirar
de aflição e sair da sessão, frouxa de rir”...;
“A moça feia debruçou na janela pensando que
a banda tocava pra ela”...; “E me agarrei nos seus
cabelos, nos teus pêlos, teu pijama, nos teus pés
aos pés da cama. Sem carinho e sem coberta, no tapete atrás
da porta”...”Logo vou esquentar seu prato, dou um
beijo em seu retrato e abro meus braços pra você”...”Então
ela se fez bonita como há muito tempo não queria
ousar, com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto
esperar”...( Songbook )
São
imagens de almas em construção, subtextos de emoções,
traços de memórias afetivas, marcas simbólicas
de paixões encerradas dentro de nós. E como um “Deus
das pequenas coisas” ele vai abrindo, com sua poesia e com
sua música, um atalho até o tesouro de nossos sentimentos
e sensações mais verdadeiros, seduzindo-nos pelo
reconhecimento dos nossos sinais comuns, numa sintonia simbólica
que ancora nosso desejo de realização pelo encontro.
Certamente, é respondendo ao chamado interno da sua própria
ânima, do seu eu lírico feminino, que Chico Buarque
projeta sobre nós a erotização do encontro
homem-mulher. Não teme dar voz a um feminino que também
pede reconhecimento das suas expressões. Assim, coloca-se
no lugar da mulher, experimenta a alma - mulher e por isso é
capaz de criar falas para os seus desejos. Por isso, penso que
ele sabe, como poucos, o que quer uma mulher.
Pergunta do século, “afinal, o que quer a mulher
?”, que continua a fazer parte da nossa cultura, subjugada
por um espírito masculino dissociado das imanações
do feminino.
Diante da pergunta masculina “o que quer a mulher?”
se construiu e se constrói ainda hoje impressões,
filosofias, teorias científicas como a psicanálise,
além de fantasias e imagens diversas, charges, piadas e
preconceitos, que trazem embutidos um desconhecimento sobre a
mulher, sobre uma identidade do feminino, dificultando inclusive
a conquista de uma identidade para nós mulheres.
Podemos encontrar nas canções do Chico as personagens
femininas que compõem variadas concepções
sobre a mulher presentes na nossa cultura, da santa à puta,
de um feminino submisso e passivo a um feminino masculino e ativo.
A importância da obra do Chico, para além da sua
beleza plástica e sonora, está nas tonalidades interpretativas
que ele compõe para se relacionar com as variações
do feminino, sugerindo sempre a autoridade de uma identidade para
cada mulher.
Antes de localizarmos entretanto, essas figuras em Chico, penso
que vale a pena, um rápido passeio por mitos do feminino
presentes na cultura em que vivemos, porque são parte de
uma consciência coletiva que “pensa” a mulher
e acaba por determinar suas possibilidades de realização.
Vejamos. Além de uma moral vitoriana e burguesa que destinava
às mulheres o casamento e a maternidade como únicas
formas de expressão, e que ainda se mantêm como potentes
expressões do feminino, temos em Freud as contribuições
mais polêmicas sobre o feminino e a mulher.
Foram as mulheres que, submetidas a uma condição
de inferioridade, de desvalorização e de dependência
de uma lógica masculina, fundaram a psicanálise
com Freud, oferecendo-lhe os sintomas da sua negação.
Foi a dissociação histérica do feminino que
fez com que ele “ouvisse” para além de uma
consciência autorizada e experimentasse a objetividade do
inconsciente. De acordo com Hillman (1984:224), “Freud estabeleceu
uma linha divisória entre a antiga superstição
denominada possessão e a moderna superstição
denominada histeria.”...”A inferioridade feminina
adquire uma nova veste quando a histeria se torna assunto secular
e científico. A bruxa torna-se então a pobre paciente
- que não é mais maligna, porém enferma.”
A partir de Freud ganhamos a possibilidade e o estatuto de sermos
também histéricas. E para muitos, até hoje,
além da maternidade, a histeria é tida como a única
manifestação do feminino. “Ser mulher”
então, também com Freud, é pertencer a categoria
do patológico e do inferior a ser submetido pela cultura.
A psicanálise e sua teoria da sexualidade manteve no corpo
e na diferença genital entre os sexos a valoração
dos destinos individuais de homens e mulheres. Na cultura psicanalítica
o órgão genital masculino tem as representações
de fálico/ativo/sádico e o genital feminino de castrado/passivo/masoquista.
O masculino fica com a posição de sujeito do desejo
e o feminino com a de objeto do desejo do outro. De acordo com
Freud, nós mulheres, enquanto sujeitos castrados, sem “falo”,
passamos a atuar histericamente uma “inveja do pênis”.
Para nos discriminarmos disso é necessário sabermos
que não basta portar um pênis para ter um falo. Aliás,
uma grande sacada que ouvi de um analista-homem, que sabe muito
de mulher foi: “O único falo impossível a
uma mulher é aquele que, no homem, só tem valor
de “falo” se a mulher assim o reconhecer.”
De qualquer forma, ficamos capturados numa trama cultural simbólica,
fundada por um discurso masculino, num padrão patriarcal
dissociado, onde a “identidade de mulher” e a “identidade
de homem” são composições distintas
e antagônicas. E, embora homens e mulheres sejam vários,
diversificados quanto às posições feminina
(passiva) ou masculina (ativa) que ocupem na cultura, uma ordem
coletiva fálica e discriminadora nos designa lugares, posições,
deveres e traços identificatórios.
Então “ser uma mulher”, implica em localizar,
dentro de um discurso masculino que constrói a feminilidade,
alternativas para “que mulher se pode ser”. Numa posição
passiva do feminino, as opções oferecidas em geral
situam-se entre “mãe” (ou “santa”)
e “histérica”(ou “puta”). Em geral
caminhamos entre personagens da adolescente ingênua e romântica
(Perséfone), da esposa virtuosa (Hera) ou da amante apaixonada
(Afrodite).
Para Rousseau (in Kehl,1999:216), “a feminilidade é
um conjunto de atributos que a mulher precisa oferecer ao homem
para sustentar, nele, a virilidade. Assim, a masculinidade precisa
ser sustentada pelo trabalho ativo de produção da
passividade feminina.” É claro que a essa condição
desigual e masoquista se rebelaram as feministas na década
de 60. Só que ao tentar demonstrar que a mulher é
também sujeito livre e de desejos, utilizaram - se dos
mesmos recursos de um “falo” masculino para subjugar
e negar a feminilidade. E passaram do masoquismo à virilização.
Com a modernidade e a inserção das mulheres ao campo
da produção e do trabalho, atributos e destinos
tidos como masculinos também passaram a fazer parte da
identificação das mulheres. Assim, aos ideais culturais
de submissão feminina agregaram-se os de autonomia de todo
sujeito moderno; aos ideais de domesticidade os de liberdade;
a idéia de uma vida predestinada ao casamento e à
maternidade contrapôs-se a idéia, também moderna,
de que cada sujeito deve escrever seu próprio destino,
de acordo com sua própria vontade.
Assim, “ser uma mulher” implica em ter de discriminar
registros históricos que serviram para reforçar
padrões ambivalentes e ainda desconsiderados do feminino
que foram se adensando na cultura. “Ser mulher” traz
como parte do destino individual a necessidade, ainda, da individuação
do gênero. Se faz necessário localizar uma individualidade
do feminino ainda não claramente inscrita numa ordem coletiva.
A psicanalista Maria Rita Kehl (1999: 134) chama atenção
para o fato de que em nossa cultura “só existe “O
Homem” como categoria universal abstrata, “A Mulher”
não existe. A posse do orgão masculino funda uma
“identidade” entre todos os homens, sintetizada pelo
significante fálico. E ainda: “O único significante
que agrupa inquestionavelmente todas as mulheres sob a mesma barra
é o que indica a “Mãe”. A mulher não
existe, mas existe a Mãe, esta figura temida e poderosa.
Só que a mãe, no Inconsciente, não é
exatamente uma mulher.”
Então, o projeto de individuação para as
mulheres implica em encontrar um discurso singular que possa expressar
“a mulher” que se é; o que implica em buscar
ser uma “outra”, que não necessariamente a
mãe ou a histérica.
Nosso desafio é encontrarmos, cada uma, um eixo singular
de desejo e gozo entre o masculino e o feminino; acharmos um ajuste
individual e cultural para sermos o mais possível sujeito
do nosso destino, sendo “também” mulher.
Para nós analistas, essa é uma tarefa que se apresenta
constantemente nos sintomas de nossas clientes mulheres: sentimentos
de isolamento, de frustração das expectativas amorosas
depois do casamento, de dificuldades de expressar emoções
e conflitos, a luta por manter alguma auto-estima quando os filhos
crescem (ou quando não se tem filhos), a inibição
diante dos homens e ao mesmo tempo a hostilidade abafada em relação
a eles, as fantasias e anseios por uma felicidade vaga e sempre
fora de alcance, são aspectos freqüentes nos relatos
de vida de mulheres. Recontextualizar as equações
psíquicas entre figuras do masculino e do feminino e desnaturalizar
o que foi construído pela cultura é pois necessário,
se quisermos ter mobilidade na clínica das neuroses.
Mas agora, voltemos ao Chico. Precisei desse espaço de
cogitações culturais porque me ajudarão a
deixar mais claro minhas suposições a cerca das
mulheres do Chico, ou das possibilidades que sua arte abre para
sairmos desse desamparo subjetivo, dessa estagnação
psíquica de uma libido feminina. E então sugerir,
como ele em sua música Paratodos: “Nessas tortuosas
trilhas, a viola me redime. Creia ilustre cavalheiro, contra fel,
moléstia, crime,” use a música brasileira,
e (eu acrescentaria) experimente o Chico.
Eu estava dizendo que ele sabe “o que quer a mulher”
porque reconhece seus desejos e isto porque é capaz da
experiência do encontro da sua própria contra-parte
feminina, como se soubesse que ser homem e ser mulher são
possibilidades imanentes de um todo ao mesmo tempo masculino e
feminino. Busca novos nexos, fluxos, figuras melódicas
presentes na fluidez de uma outra ordem, na lógica dos
sentimentos. Vai atrás de possibilidades ainda não
exploradas, com a virilidade ativa de um homem, mas com a doçura
sentimental e receptiva da mulher.
“Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz,
e pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz. E você
era a princesa que eu quis coroar e era tão linda de se
admirar que andava nua pelo meu país.”
Na sua arte poética e musical o sentido de nós mesmos
é buscado alquimicamente, via fantasia e imaginação.
Assim como Jung, ele retira a fantasia e a imaginação
da patologia histérica e devolve à fantasia sua
potência de dom, de talento, de cultivo da alma. Como Jung,
ele nos oferece a alquimia da coniunctio entre masculino e feminino
como um dado, uma imagem primordial sempre presente. Não
como uma meta a ser alcançada pela cultura, como estivemos
vendo até agora, mas como uma realidade arquetípica,
uma possibilidade apriorística, a ser cuidada e mantida.
Na sua concepção dionísiaca do amor, masculino
e feminino compõem a figura do andrógino, uma totalidade,
uma conjunção criativa de opostos. Então,
na obra do Chico o encontro de amor é um dado, o que se
pranteia é a separação, o desencontro: “
Ah, foi que nem um temporal, foi um vaso de cristal que rompeu
dentro de mim “....E continuando, numa leitura alquímica,
na mesma música: “Ou quem sabe os ventos, pondo fogo
numa embarcação, os quatro elementos, num momento
de paixão”...
Por isso, sua música acompanha arquétipos da intimidade,
como um “Deus das pequenas coisas”, vagueia na fluidez
das imagens mentais, no eco de antigas palavras, na sintonia de
novos sons, recupera memórias poéticas impressas
em cenas que encantaram nossa alma e é capaz de erotizá-la
de novo para novos encontros. Vai atrás da conjunção,
da paixão, dos amantes, anima e animus, o rei e a rainha.
Em suas músicas somos sempre musas, deusas, a consorte
escolhida; somos parte de uma história de caso real, mas
nossa história de amor não é profana, é
sempre sagrada, somos projeções femininas da sua
anima: “Sim, me leva para sempre, Beatriz. Me ensina a não
andar com os pés no chão. Para sempre é sempre
por um triz.”
É nesta compreensão arquetípica dos eventos
e fatos que parece estar a importância terapêutica
das músicas do Chico. O convite é para a experiência
musical que nos conecta em uma nova ordem que contém possibilidades
imanentes de transformação: “estava à
toa na vida, o meu amor me chamou, pra ver a banda passar cantando
coisas de amor. A minha gente sofrida despediu-se da dor pra ver
a banda passar cantando coisas de amor. O homem sério que
contava dinheiro parou, o faroleiro que contava vantagem parou,
a namorada que contava as estrelas parou para ver, ouvir e dar
passagem...”
Ele faz um furo no muro da linguagem, um desmanchamento nos discursos
prontos da cultura, e pela via da imaginação vai
recriando diálogos com nossa alma, que pode estar lá
“esperando parada, pregada na pedra do porto, com seu único
e velho vestido cada dia mais curto” ou “sem carinho
e sem coberta, no tapete atrás da porta”.
Através dos letreiros da linguagem a nos colorir, ele é
capaz de nos ver “suspirar de aflição e sair
da sessão frouxa de rir “; e sabe criar as imagens
que colorem nossos sentimentos: “Deixa em paz meu coração,
que ele é um pote até aqui de mágoa, e qualquer
desatenção, faça não, pode ser a gota
d’agua.”
Manda recados para um masculino estereotipado da cultura: “O
delegado é bamba na delegacia, mas nunca fez samba e nunca
viu Maria.”
Esse intérprete do amor-cortês oferece poemas musicais
a nos atrair: “Não chore ainda não, que eu
tenho um violão, e nós vamos cantar. Felicidade
aqui pode passar e ouvir, e se ela for de samba, há de
querer ficar...” e se oferece como um ânimus - companheiro,
herói da delicadeza, diferente do herói masculino
da cultura, um ânimus que busca novas formas de encontro:
“Descansa em meu pobre peito, que jamais enfrenta o mar,
mas que tem abraço estreito, morena, com jeito de lhe agradar.
Vem ouvir lindas histórias, que por seu amor sonhei. Vem
saber quantas vitórias, morena, por mares que só
eu sei.”
Não teme revelar-se homem de sentimentos, de amores e fracassos;
mostra sua castração simbólica; a mulher
é a sua contra-parte, que se perdida, precisa de ser resgatada:”
Oh pedaço de mim, Oh metade amputada de mim, leva o que
há de ti, que a saudade dói latejada, é assim
como uma fisgada, no membro que já perdi.” ou ainda
“A Rita levou meu sorriso, no sorriso dela, meu assunto....Levou
os meus planos, meus pobres enganos, os meus vinte anos, o meu
coração..”ou “Madalena foi pro mar,
e eu fiquei a ver navios...”; E não se envergonha
de clamar: “Bárbara, Bárbara, nunca é
tarde, nunca é demais. Onde estou, onde estás, meu
amor, vem me buscar...”
Num estudo sobre a alma brasileira, Gustavo Barcellos (2000:04)
nos apresentou a idéia de um “logos do coração”
para falar da função sentimento presente na música
popular brasileira. Para isso, nos lembrou que o escritor Sérgio
Buarque de Holanda, pai do Chico, apresenta o brasileiro como
o “homem cordial”, pois que possui uma “ética
de fundo emotivo”, o que, acrescenta Gustavo, melhor se
expressa por um “pensamento do coração”.
Certamente isso se aplica ao Chico e se revela em suas canções.
Este “homem cordial” nos oferece pensamentos para
o coração, ativando em nós uma vontade de
encontro, de diálogo, de intimidade. Com isso promove uma
dinamização e expansão do nosso espaço
interior, restabelecendo na troca com o outro nossa fortaleza
narcísica.
Toda a sua obra musical parece ser um ritual devocional a Eros,
deus do amor. “Qualquer canção de amor, é
uma canção de amor, não faz brotar amor,
e amantes. Porém, se essa canção, nos toca
o coração, o amor brota melhor e antes.”
Retira uma libido sensual aprisionada no corpo, pois sabe, como
nossa grande poeta Adélia Prado, que “erótica
é a alma”, presente nos gestos, nos afetos, nas coisas
simples, cotidianas e imediatas e vai dando a tudo uma consciência
poética. “aquela aliança você pode empenhar
ou derreter...” “devolva o Neruda que você me
tomou e nunca leu...” se lembra da jaqueira, a fruta no
capim, o sonho que você contou pra mim...”.
Podemos ver a obra musical do Chico também a partir das
figuras do feminino, arquetípicamente impressas na cultura,
que ele atualiza com uma consciência crítica instigante.
Nos apresenta múltiplos retratos, processos simultâneos,
paralelos ou compensatórios da nossa psique feminina. Da
condição de submissão e servilidade total
do feminino em “Mulheres de Atenas” que “vivem
por seus maridos, orgulho e raça de Atenas...elas não
têm gosto ou vontade, nem defeito nem qualidade, têm
medo apenas”; até um feminino lírico, como
em Beatriz: “Olha, será que é uma estrela,
será que é mentira, será que é comédia,
será que é divina, a vida da atriz...” .
Para o Chico podemos ocupar o lugar da inocência ou do pecado,
da castração ou da onipotência, da sexualidade
desenfreada e ameaçadora ou de uma vocação
“natural” ao pudor e à castidade, depende da
composição da conjunção a dois. Como
homem que sabe do seu próprio desejo, ele nos permite constituir,
como nos convier, a relação com a feminilidade.
Caminhando pelas suas imagens de mulher, fazemos exercícios
projetivos de atualização e refinamento das configurações
do feminino, o que nos permite também visualizar acertos
e ajustes que temos com as configurações do masculino.
E então podemos localizar qual a natureza da operação
psíquica que está por trás do fascínio
que nos mantém cativos na relação com o outro.
Em que cena está o nosso retrato. Via Chico, um ânimus
renovador e instigante nos desafia neste confronto interior: “Mesmo
que você feche os ouvidos e as janelas do vestido, minha
musa vai cair em tentação, mesmo porque estou falando
grego com sua imaginação. Mesmo que você fuja
de mim por labirintos e alçapões, saiba que os poetas
como os cegos podem ver na escuridão...”
Chico nos remete a momentos nucleares únicos onde ritualizamos
e atualizamos juntos, homem e mulher, sínteses possíveis
e sempre fugidias entre o feminino e o masculino. : “Vem,
meu menino vadio, vem, sem mentir pra você, vem, mas vem
sem fantasia, que da noite pro dia, você não vai
crescer...; Quem é você, adivinha se gosta de mim,...hoje
eu sou da maneira que você quiser...; ou nas diferenças
de vivência do Cotidiano: - Todo dia ela faz tudo sempre
igual, me sacode às seis horas da manhã,...e em
contrapartida: “Todo dia ele faz diferente, não sei
se ele volta da rua, não sei se me traz um presente, não
sei se ele fica na sua...”
Nas suas músicas encontramos também experiências
de busca de equilíbrio de emoções concentradas
em sínteses perdidas: “Ah, se já perdemos
a noção da hora, se juntos já jogamos tudo
fora, me conta agora como hei de partir...Como, se na desordem
do armário embutido, meu paletó enlaça o
teu vestido, e o meu sapato ainda pisa no teu...e aqui, como bem
apontou Adélia Menezes (2000:33) “os sentidos opostos
de enlaçar/pisar iconizam as possibilidades virtuais de
uma relação de casal”. E ainda na belíssima
canção “Todo Sentimento” onde o amor
é colocado dentro dos limites possíveis de saúde
de uma relação a dois, com as possibilidades de
reparação: “Prometo te querer, até
o amor cair, doente, Prefiro então partir, a tempo de poder,
a gente se desvencilhar da gente. Depois de te perder, te encontro
com certeza, Talvez num tempo da delicadeza, onde não diremos
nada, Nada aconteceu, Apenas seguirei, como encantado, ao lado
teu...”
Como eu quis demonstrar desde o início, a obra musical
de Chico Buarque de Hollanda pode servir como ativador de um processo
de deslocamentos e condensações constantes dos arquétipos
do feminino e do masculino e do arquétipo do coniunctio
presente em nossa realidade objetiva e subjetiva. Suas músicas
são capazes de desencadear movimentos psíquicos
coletivos, às vezes ainda inconscientes, ativados via exercício
da imaginação e da disciplina da fantasia. Em meio
a agradáveis sonoridades uma ordem interna, conectada à
delicadeza de sentimentos encobertos, é estimulada e o
encontro da mulher com um masculino-amante, companheiro de alteridade
se faz possível como uma nova forma de individuação.
Há o ativamento de uma conjugalidade interior, que restaura
uma dignidade feminina e inaugura com novos significados a necessidade
de buscas originais de se tornar mulher. Ativados por sua imaginação,
a Terezinha em nós abandona as vivências infantis,
incestuosas e masoquistas do feminino e assume uma sexualidade
adulta, se entregando para a parceria de prazer de ser mulher
ao lado do homem.
Por isso, penso que a individuação das mulheres
fica propiciada quando atrelada a essa estética musical,
pois nessas sínteses entre a arte e o pensamento parece
repousar um equilíbrio formal e emocional que faz emergir
novos estilos de existência. Neste sentido, somos mulheres
do Chico, quando sua arte poética e musical nos reconecta
com o nosso desejo anímico interior e suas múltiplas
possibilidades de expressão no reino do masculino e do
feminino, o que resulta na maturidade de uma sexualidade adulta
nas relações e nas soluções. Somos
então mulheres modernas, capazes da delicadeza e da maturidade
de uma feminilidade composta. O resultado provisório e
constante dos ajustes entre feminino e masculino, porque estamos
sempre permeáveis a um novo olhar e um novo encontro com
nossas virtualidades criativas. Somos então, mulheres da
individuação, capazes de nos equilibrar com elegância
nessa saia justa e nesse salto alto.
Então
ele se fez bonita como há muito tempo não queria
ousar...
É
num novo olhar que repousa uma nova mulher.
Isabel
F. R. Labriola
XIV Moitará – SBPA, novembro de 2000
Referências Bibliográficas:
HILLMAN, J. “O Mito da Análise”, 1984, São
Paulo, Ed. Paz e Terra.
BARCELLOS, G. “Chega de Saudade do Brasil: Uma Visão
Arquetípica da
Bossa-Nova”, 2000, Rio de Janeiro, II Congresso Latino-Americano
de
Psicologia Junguiana.
KEHL, M. R. “Deslocamentos do Feminino”, 1999, São
Paulo, Imago Editora.
MENESES, A . B. “Figuras do Feminino na Canção
de Chico Buarque”, 2000,
São Paulo, Ateliê Editorial.
ISABEL FERREIRA DA ROSA LABRIOLA, psicóloga, analista membro
da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica SBPA-SP
e da International Association for Analytical Psychology IAAP-Zurich.
Atende adolescentes e adultos em psicoterapia e análise
individual. Utiliza-se também da técnica de Sandplay.
Tem grupos de estudos de Psicologia Analítica e grupos
de discussão de mulheres. Dá supervisão clínica
para o trabalho analítico individualmente e em grupos.