ARTIGOS
- AS "CONFISSÕES" DE SANTO AGOSTINHO. UMA LEITURA
A PARTIR DA PSICOLOGIA ANALÍTICA E SUA VISÃO DE
PSICOLOGIA E RELIGIÃO.
Vitor
Pedro Calixto dos Santos
"Noli
foras ire, redi ad te ipsum
in interiore homine habitat veritas".
Santo Agostinho(i)
"Vocatus
atque non vocatus, Deus aderit".
Escrito por Jung na porta de entrada de sua casa(ii)
1
- PSICOLOGIA E RELIGIÃO
-
O fenômeno religioso
Para se fazer um estudo da relação existente entre
psicologia e religião é preciso antes de mais nada
aproximar-se do fenômeno religioso que se apresenta na atualidade
marcado por tal complexidade que só pode ser compreendida
a partir de uma visão interdisciplinar.
O fenômeno religioso apresenta-se hoje, no limiar do Terceiro
Milênio, como uma explosão de religiosidades e espiritualidades
provocando um novo interesse pela religião. Dada a complexidade
do fenômeno do sagrado e das religiões é preciso
estudá-lo segundo pontos de vista diversos a fim de se
ter uma imagem mais clara, diferenciada e realista do que está
acontecendo.1,2(1,2iii)
Hoje, o termo religião não se refere somente à
"relação do ser humano com a divindade e a
virtude pela qual tributa a Deus o culto e a adoração
que lhe são devidos" mas o fato religioso, enquanto
fenômeno humano que tem acompanhado o homem ao longo de
sua história e que constitui o objeto da história
das religiões e outras ciências atuais.
Assim, a religião sofre na modernidade e pós-modernidade
uma crítica em várias níveis:(iv)
1 - A crítica ilustrada - a partir da Iluminismo e a predominância
da razão.
2 - A crítica social - que tem em K.Marx o seu expoente
mais forte - a religião como ópio do povo
3 - A crítica antropológica - a religião
como obstáculo fundamental para que os homens alcancem
o seu ideal - I.Kant, L. Feurbach, F.Nietzsche na filosofia e
S.Freud na psicologia. Jung, mesmo com a visão distinta
de Freud, fará sua crítica à religião
neste nível.
O fato religioso precisa ser estudado ainda sob outros ângulos
como por exemplo: o diálogo inter e intra religioso, a
fenomenologia da religião, a sociologia da religião
e a filosofia da religião.
1.2
- Psicologia e religião
1.2.1
- Indicações históricas(v)
Coloca-se
como data do surgimento da psicologia da religião como
ciência o ano de 1882 quando G. Stanley Hall (1844-1924)
publicou um estudo sobre educação moral e religiosa
para crianças. No entanto é preciso remontar às
fontes desta ciência nas relações entre psicologia
e religião encontradas nas tradições religiosas
como é o caso das Confissões de Agostinho (354-430);
nos escritos dos filósofos como Jonathan Edwards (1703-1758).
F. Schleiermacher (1768-1834), S. Kierkegaard ( 1813-1855), A.Ritschl
(1822-1889), sendo que se pode chegar aos escritos socráticos
e platônicos. Merece ainda destaque D.Hume ( 1711-1776)
com a História natural da religião; L.Feuerbach
(1804-1872) e A essência do cristianismo (1841).
Temos várias tradições (escolas):
1 - Tradição Anglo-americana - Francis Galton, G.Albert
Coe, G.Stanley Hall, William James (1842-1910) e o seu conhecido
As variedades da experiência religiosa. Estudos predominantes
numa linha filosófica.
2 - Tradição Alemã - F.Schleiermacher com
o conhecido Sobre a religião (1799);W.Wundt (1832-1920)
com o Mito e Religião (1905-1909); S.Freud (1856-1939)
com Ações obsessivas e práticas religiosas
(1907) e Totem e tabu, Moisés e monoteísmo, O.Pfister
(1873-1956); A.Adler, E.Fromm, Viktor Frankl. Jung tem amplos
conhecimentos nesta tradição. Predomina a crítica
psicanalítica da religião.
3 - Tradição francesa - J.M.Charcot (1825-1893),
P.Janet (1859-1847), T.Ribot (1830-1916), H.Delacroix (1873-1937),
T.Flournoy (1854-1920) com Psicologia religiosa (1910). Predomina
a crítica da religião como psicopatologia.
4 - Tradição italiana - Sante De Sanctis (1862-1935),
Agostino Gemelli (1878-1959). Predomina a visão psicopedagógica
da religião.
1.2.2
- Finalidade e influências da Psicologia da religião
A
finalidade da Psicologia da religião é dentre as
várias definições " a investigação
das experiências, atitudes e expressões religiosas,
observando-as e analisando-as com a ajuda das diversas técnicas
às quais a toda a psicologia deve recorrer ( análise
codificada de documentos pessoais, questionários e escalas
de atitudes, testes projetivos, observações sistemáticas
de comportamento, entrevistas, escalas de análise semântica
e inclusive análise profunda mediante a aplicação
de métodos clínicos."(vi)
Encontramos vários ramos neste estudo: a psicologia religiosa
evolutiva, a psicologia pastoral, a psicologia da experiência
religiosa que não são somente nomes distintos da
mesma ciência mas apresentam finalidades diversificadas.
Vemos uma grande influências destes estudos nas mais variadas
áreas das ciências que estudam o fato religioso,
particularmente a teologia. No que toca à teologia há
influências na área da dogmática, da teologia
bíblica, da teologia espiritual, da teologia sacramental,
da história da Igreja, da teologia da vida religiosa.
2
- PSICOLOGIA ANALÍTICA E RELIGIÃO
2.1
- O problema religioso em C.G.Jung (1875-1961)
Desde
sua mais tenra infância, Jung sente-se marcado pelo problema
religioso proveniente de sua família já que seu
pai era pastor, bem como alguns de seus tios. Para ele este problema
apresenta-se polarizado, de um lado, na dimensão objetiva
da religião( dogmas, ritos, etc.) e de outro, na sua dimensão
subjetiva (experiência religiosa - mistério, fascínio,
etc.).(vii)
Esta dimensão religiosa vai acompanhá-lo por toda
a sua vida e marcará de forma definitiva sua obra: para
ele a problemática existencial formulou-se em imagens religiosas
( simbolismo).
É neste contexto simbólico-religioso que podemos
entender a sua visão da psique: os arquétipos, o
processo de individuação enquanto coniunctium oppositorum
( re-ligação), etc.
Toda esta visão de Jung assume grande significado no contexto
cultural em que vive seja do ponto de vista da psicoterapia seja
do ponto de vista da teologia acentuadamente racionalista em sua
interpretação da revelação. Jung vai
buscar nos humanistas do renascimento e, por conseqüência
em Platão e neoplatônicos uma alternativa para o
problema humano (religioso) do Ocidente.
Neste sentido, o seu caminho pode ser visto em três etapas:(viii)
1 - Primeiro momento - Jung está ligado à concepção
freudiana de religião ( sublimação da sexualidade
infantil)
2 - Segundo momento - marcado pela obra Símbolos da Transformação
(1911-12) - a distinção entre instintos e arquétipos,
sendo a religião colocação no mundo dos arquétipos.
3 - Terceiro momento - marcado pela obra Psicologia e religião
( 1938) - a partir da análise de séries de sonhos
de seus pacientes descobre neles uma característica comum
- o fascínio, o terror, o mistério diante do numinoso
(linguagem de R. Otto - O sagrado), que para Jung é imagem
arquetípica da divindade, do deus interior ( o Self). A
religião entendida como experiência religiosa pessoal
( contato com o Self) possui um autêntico valor psicológico
no processo de individuação.
2.2
- Influências posteriores
A
influência da visão junguiana da religião
não se restringe à história das religiões
ou à mitologia mas chega até a teologia e a hermenêutica
bíblica - é uma renovação da teologia
no seu todo.
Assim vemos sua influência em numerosos teólogos
protestantes como Hans Schaer, Paul Tillich; católicos
como Victor White, Teilhard de Chardin e ortodoxos como Paul Evdokimov.
Hoje percebe-se tal influxo a partir de uma farta bibliografia
envolvendo a teologia onde se destacam as obras de John Dourley
e de E.Edinger; a cristologia onde se destaca a obra de Hanna
Wolff, a Sagrada Escritura onde se destaca Eugen Drewermann; e
outras áreas como a mariologia, espiritualidade, teologia
moral, liturgia e teologia sacramentária.
3
- AS CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO
Tendo
considerado o fenômeno religioso e sua relação
com a psicologia, a visão de Jung sobre psicologia e religião
que possuem íntima relação no processo de
individuação passamos à leitura das Confissões
de Santo Agostinho.
Lembramos ainda que a escolha dos tópicos da psicologia
analítica parte da importância que eles possuem dentro
das Confissões, sendo que existem outros aspectos que poderiam
ser mencionados mas que aparecem menos no texto, e esta divisão
dos temas é meramente didática já que eles
se interpenetram como veremos a seguir.
3.1
- Santo Agostinho - dados biográficos
Nasceu
em 13 de novembro de 354 em Tagaste, Numídia, filho de
Patrício e Mônica, de quem recebeu a educação
cristã ainda que ele receberia o batismo somente na Páscoa
de 387.
Sua formação acadêmica deu-se em Tagaste,
depois Madaura, e Cartago onde em 371 passa a viver com uma mulher
e em 372 nasce o seu filho Adeodato. Em 373 depois de ler Hortensio
de Cícero desperta para a filosofia e se torna maniqueu.
Desenvolve o seu trabalho como professor em Tagaste e depois em
Cartago onde abre uma escola de retórica. Em 383 vai para
Roma em busca de fortuna, mas ali fica pouco tempo sendo que em
384 vai para Milão como professor de retórica. Em
385 sua mãe vai a Milão para encontrá-lo
e ficar com ele. Em Milão ele descobre a Sagrada Escritura
a partir de São Paulo, da pregação do bispo
Ambrósio e estuda os neoplatônicos a partir de Plotino.
Sua conversão se dá em 386 e ele renuncia à
segunda amante, à noiva e à escola e refugia-se
em Cassicíaco com sua mãe, seu filho e amigos. Na
Páscoa de 387 é batizado por Ambrósio junto
com seu filho e seu amigo Alípio. Logo após, estando
em Óstia, esperando a partida para a África, sua
mãe morre e ele fica em Roma, partindo para Cartago em
388. Em Cartago, vendo todos os seus bens e passa, com alguns
amigos a viver vida monástica e a combater o maniqueísmo.
Em 396 torna-se bispo coadjutor de Hipona e depois bispo de Hipona
com a morte do bispo Valério. Escreve as Confissões
em 397 e de 399 a 419 exerce intensa atividade como pastor e escritor
- escreve A Trindade neste período. Continua com o seu
ataque aos maniqueus, aos donatistas e pelagianistas. Entre 413-425
escreve A cidade de Deus.
Morreu em Hipona no dia 28 de agosto de 430, deixando mais de
75 obras.
3.2
- O que são as "Confissões"
Confissões
é a obra-prima e a mais conhecida de Agostinho. Escrita
dez anos depois de sua conversão, ela compõe-se
de 13 livros. Inicialmente estava composta somente dos nove primeiros
livros que são a sua autobiografia, depois foram acrescentados
mais alguns livros: o livro X no qual Agostinho faz uma análise
psicológica de seu estado de espírito no momento
em que escrevia e uma análise e comentário dos primeiro
versículos do livro do Gênesis ( livros XI-XIII).(ix)
3.3
- Análise a partir da psicologia analítica
3.3.1
- Imagem de Deus
O
tema da imagem tem uma grande importância na psicologia
junguiana sendo que é vista como imago termo usado para
diferenciar a realidade objetiva de uma pessoa ou coisa, da percepção
subjetiva de sua importância, sendo neste caso conseqüência
da experiência pessoal, combinada com as imagens arquetípicas
do inconsciente coletivo. E como tudo o que é inconsciente,
são experimentadas como uma projeção.
Jung considera ainda as imagens arquetípicas ou primordiais(
com relação a uma representação de
um arquétipo na consciência) e as imagens anímicas
que são representações em sonhos ou outra
manifestação do inconsciente , da personalidade
interior muitas vezes do animus ou da anima. Ainda com sentido
às imagens tem grande importância no trabalho de
conhecimento do inconsciente a imaginação ativa.
Nas Confissões são muito freqüentes as imagens
que Agostinho faz de Deus todas as vezes que o invoca mostrando
uma relação com o que vimos acima. Deus para ele
é conhecido à medida que o homem se autoconhece
e neste processo tem grande importância estas imagens que
aparecem no texto das Confissões, caracterizadas segundo
o momento em que ele estava vivendo.
3.3.2
- Tipologia junguiana
Falar
da tipologia é falar de um sistema de categorias que explicam
as diferenças entre as pessoas a partir de atitudes individuais
e de padrões de comportamento.
A tipologia junguiana apresenta-se como algo original em relação
aos modelos tipológicos anteriores e tem servido de modelo
para outras aplicações tipológicas posteriores.
Isto se deve ao fato de Jung considerar em sua tipologia o movimento
da energia e o modo pelo qual habitualmente nos orientamos em
nossa vida cotidiana. Esta sua visão distingue-se dos modelos
que ele encontrou na literatura, na mitologia, na filosofia e
na psicopatologia e que se baseavam nas observações
de comportamento temperamental ou fisiológico.
Partindo de métodos empíricos Jung chegou a classificar
os tipos em oito grupos diferentes: duas atitudes da personalidade
que são a introversão e extroversão e quatro
funções que são pensamento, sensação,
intuição e sentimento, as quais podem agir, cada
uma delas, de modo introvertido ou extrovertido.
Agostinho como tipo era pensamento introvertido e o sua conversão
só foi possível com uma transformação
psíquica, isto é, com conjunção dos
opostos, neste caso a função inferior que é
o sentimento e sua manifestação ao mundo pela extroversão.(x)
Ainda que Agostinho tivesse se aproximado da doutrina cristã
de modo intelectual existia uma barreira inconsciente que lhe
impedia de tornar-se cristão. Jung afirma que para aqueles
poucos homens superiores que verdadeiramente se esforçam
para seguir a Cristo, a conversão ao cristianismo consistia
em sacrificar sua função superior, neste caso de
Agostinho, o pensamento.(xi)
Neste sentido de sacrificar a função inferior, Jung
dá como exemplo Tertuliano e Orígenes. (xii)
Agostinho sacrifica, na sua conversão, o seu intelecto,
isto é, o seu orgulho e soberba e se descobre a si mesmo
e a Deus pelo caminho do sentimento, descobre que Deus a quem
buscava fora sempre estivera dentro dele. A subjetividade é
o lugar por excelência para conhecer a Deus, interior a
minha própria interioridade e superior ao máximo
que existe em mim.
Assim, a concepção de Deus para Agostinho é
de um Deus arquétipo, princípio e fundamento da
subjetividade humana, reconhecível, por isto mesmo, a partir
da própria interioridade do homem. Trata-se de um princípio
que conjuga a suma transcendência e imanência antropológica
radical.
Poderíamos resumir esta sua transformação
ou conjunção dos opostos como diz Jung falando de
sua renúncia ao magistério, sua vida monástica
de um lado, mas de outro lado, sua inúmeras obras marcadas
por esta visão psicológica da pessoa humana que
hoje é considerada por muitos autores como uma visão
das profundas para o seu tempo, pelo fato de ter sido chamado
o pai da teologia ocidental e pelo princípio teológico
que sintetiza a o encontro do homem com Deus, a transcendência
e a imanência : intelligo ut credam , credo ut intelligam
( entendo para crer e creio para entender) - o mistério
de Deus está no centro de seu pensamento e de seu sentimento.
3.3.3
- Complexos materno e paterno
O
conceito de complexo ocupa um lugar central na psicologia junguiana.
Para Jung o complexo é um grupo de idéias ou imagens
carregadas emocionalmente:(xiii)
Estes complexos se acumulam ao redor de determinados arquétipos
como "mãe", "pai" e por isto é
que se pode falar em complexo materno, complexo paterno, complexo
de poder, complexo parental ( quando envolve os pais), etc.
Os complexos em si mesmo, segundo a visão de Jung não
são negativos, podendo ser muitas vezes os seus efeitos.
O seu efeito negativo aparece normalmente como uma distorção
de uma ou outra das funções psicológicas
( sentimento, pensamento, intuição e sensação).
Neste sentido é que Jung fala que os complexos é
que nos possuem e que se o indivíduo não tem consciência
deles, age segundo eles e pode até identificar-se com eles,
o que é uma fonte de neuroses.
Quanto à presença do pai, Agostinho fala pouca coisa,
acentuando-se mais a sua ausência, mesmo quando presente
fisicamente - ele não se preocupava com o filho e tinha
para com Agostinho somente preocupações vãs.
Agostinho fala ainda de seu caráter violento e de suas
infidelidades conjugais.
No que se refere à presença da mãe, Agostinho
dedica muito mais tempo, sobretudo porque ela aparece como aquela
que lhe dá a educação cristã, que
se preocupa com sua conversão e com seu batismo até
o extremo. Ela vai a Milão para cuidar dele e lá
arruma um casamento que lhe fosse digno convencendo-o a despedir
sua concubina. Mostra o seu tipo centralizador em outros momentos
como em sua casa, na viagem a Milão, na sua vida cristã
em Milão, etc.
Pode-se notar que Agostinho sofreu as influências positivas
de seu pai que o queria num lugar de destaque e de sua mãe
com sua fé cristã inabalável. No entanto,
sofreu também as influências negativas de seu pai
de quem herdou sua natureza passional e a falta de uma presença
paterna mais atuante. No que diz respeito à sua mãe,
nota-se que ela com relação a ele uma atitude centralizadora
de tal modo que ele teve seus sentimentos bloqueados e não
pode estabelecer uma relação profunda com uma mulher.
Mesmo vivendo vários anos com uma concubina, por estar
preso á sua mãe não se decidiu a casar com
ela. Foi sua mãe que lhe escolheu uma noiva de sua classe
social e despediu a mãe de seu filho, se bem que, enquanto
esperava pela idade de sua noiva, ele arrumou outra mulher. Sua
mãe tinha um animus negativo e por isto se mostrava impositiva
ao colocar sua opinião a seu filho ao qual se apegou já
que não se saíra bem em seu casamento. Tão
forte era sua imposição que o bispo precisou adverti-la
a respeito.
Após sua conversão que acontece depois de uma ruptura
com sua mãe de quem ele foge, o seu sentimento, antes a
ela ligado, volta-se para Cristo e para a Igreja.
3.3.4
- Sonhos
Os
sonhos ocupam um lugar de destaque na visão e na prática
da psicologia analítica. Jung, inicialmente partindo de
Freud, mas depois dele distanciando-se vê nos sonhos uma
função do Si-mesmo. Eles refletem sua influência
e servem para compensar o estado consciente da pessoa, o que significa
que ele questiona a nossa auto-imagem consciente. Isto ocorre
quando o sonho traz para a consciência informações,
ênfases ignoradas ou abrandadas pelas atitudes conscientes.(xiv)
Também para Agostinho o estudo dos sonhos é um instrumento
importante para a compreensão da psique humana na relação
com Deus e o mundo espiritual. Isto se deve ao fato de Agostinho
possuir uma visão psicológica e epistemológica
baseada num sofisticado dualismo psicofísico em que são
considerados dois tipos de realidades essencialmente diversas:
uma puramente corpórea ou física e outra não-corpórea
ou mental cuja natureza provém do plano do espírito.
Por isto que sua visão psicológica da percepção
é considerada das mais profundas do mundo antigo e podemos
ver exemplos disto em Confissões. Para ele o homem é
dotado de olhos externos que recebem e intermediam as impressões
sensoriais, e de um olhar interior, que observa e lida com as
realidades mentais recolhidas e armazenadas que formam a memória.
Assim, por meio de visões, transes e sonhos entra-se em
contato com um acervo de lembranças inconscientes e conteúdos
autônomos, tendo-se acesso a um mundo chamado na época
de domínio do espírito e que Jung chamou de psique
objetiva. Nenhum ser humano tem poder ou controle sobre esse mundo,
os conteúdos dos sonhos e visões são tão
objetivos e colocados diante do olhar interno quanto o é
a experiência sensorial em relação aos olhos
exteriores.
Importante é o sonho de Mônica quando Agostinho rejeitava
os seus insistentes pedidos de conversão:
"Nesse sonho, viu-se de pé sobre uma régua
de madeira, e um jovem luminoso e alegre lhe foi sorridente ao
encontro, enquanto ela estava triste e amargurada. Perguntou-se
os motivos da tristeza e das lágrimas cotidianas, não
por curiosidade, mas para instruí-la, como acontece muitas
vezes. E respondendo ela que chorava a minha perdição,
ela a confortou, aconselhando-lhe que prestasse atenção
e visse que onde ela se encontrava aí estava também
eu. Ela olhou e me viu diante de si, de pé, na mesma régua.
Quando ela me contou o sonho, tentei dizer-lhe que ela não
devia perder a esperança de um dia vir a ser como eu. Mas
ela me respondeu imediatamente, sem hesitação: "Não,
não me foi dito: ' onde ele está, aí estarás
tu'. Mas sim: ' onde estás, aí estará também
ele".
Confesso-te, Senhor, tanto quanto posso me lembrar, e nunca o
escondi: mais do que o próprio sonho, abalou-me aquela
tua resposta, dada por intermédio da solicitude de minha
mãe. Ela não se perturbou diante de uma interpretação
sutil, porém falsa, e logo percebeu o que devia ser visto
e o que eu na verdade não tinha visto antes de ela contar.
Por esse sonho, foi anunciada com antecedência, a essa piedosa
mulher, para sua consolação na aflição
presente, uma alegria que só teria muito tempo depois."(xv)
3.3.5
- Processo de individuação
O
processo de individuação ocupa um lugar central
dentro da psicologia junguiana como o processo de diferenciação
psicológica que tem como finalidade o desenvolvimento da
personalidade individual.
A individuação é um processo que se dá
a partir do ideal arquetípico da totalidade e depende da
relação vital existente entre o ego e o inconsciente
,quando se dá o que Jung chama a função transcendente
e que tem papel decisivo no processo de individuação.(xvi)
Seu objetivo não é impor-se acima da psicologia
pessoal, chegar à perfeição, mas sim, levar
à uma consciência da unidade da realidade psicológica,
o que apresenta de um lado as forças e limitações
pessoais e por outro uma visão mais ampla da humanidade
e do mundo.
O processo de individuação quando acontece de forma
consciente leva à realização do self como
uma realidade psíquica maior que o ego, mas este processo
não se conclui de modo a se poder dizer que alguém
está completamente individuado, o seu valor encontra-se
exatamente naquilo que vai acontecendo durante o mesmo processo.
Como pudemos perceber pela análise já realizada
acima das Confissões de Agostinho o que vai acontecendo
em sua vida é este processo de individuação
até chegar à consciência mais profunda que
podia alcançar de si mesmo.
Textos que falam do despertar e da busca de realização:
"Desejando
amar, procurava um objeto para esse amor, e detestava a segurança,
as situações isentas de risco. Tinha dentro de mim
uma fome de alimento interior - fome de ti, ó meu Deus".(xvii)
"Como
se distribuem na mesma alma a força tão diferente
de amores tão variados? Como se pode amar nos outros aquilo
que se detesta e não se quer para si, sendo embora igualmente
homens?".(xvii)
"Voltei-me
então para a natureza da alma, mas a falsa opinião
que tinha sobre as coisas espirituais impedia-me de ver a verdade.[...]
Não conseguindo percebê-las na alma, julgava impossível
ver o meu espírito".(xix)
"Depois
de ter lido os livros dos platônicos, que me estimularam
a procurar a verdade incorpórea, aprendi a descobrir teus
atributos invisíveis através das coisas criadas,
e compreendi, à custa de derrotas, qual a verdade que eu,
imerso nas trevas, não tinha conseguido contemplar".(xx)
Um dos textos que conta o momento que antecede à sua conversão:
"Então,
em meio à grande luta interior que eu violentamente travava
no íntimo do coração contra mim mesmo, e
transtornado na alma e na fisionomia, corro para Alípio...[...]
...eu não falava como de costume, e minha fronte, minha
face, meus olhos, minha cor, o tom da voz, mais do que as palavras,
me denunciavam o estado de espírito.[...]. Para aí
fui ( para um jardim) levado pelo tumulto do coração,
onde ninguém podia interferir na luta violenta que travava
comigo mesmo, e cujo resultado nem eu mesmo conhecia, somente
tu. Eu enlouquecia para recuperar a razão, morria para
viver, e estava consciente do meu mal, sem saber do bem que viria
pouco depois.[...].Eu fremia de violenta indignação
contra mim mesmo, por não ceder à tua vontade e
à aliança contigo, meu Deus, pela qual todos os
meus ossos clamavam, elevando louvores aos céu".(xxi)
Um
texto a respeito do seu estado no momento em que escreve as Confissões:
"Mas
tu, médico de minha vida interior, mostra-me os frutos
deste meu trabalho. A confissão de minhas faltas passadas
- que perdoaste e esqueceste para me fazer feliz, transformando-me
a alma pela fé e pelo teu sacramento - leva, a quem lê
e ouve, a não se entregar ao desespero dizendo: não
posso. Que esta confissão desperte nele o amor pela tua
misericórdia e pela doçura da tua graça,
que fortalece todos os fracos e lhe permite tomar consciência
da própria fraqueza. Os bons têm prazer em ouvir
as faltas passadas de que agora estão livres, não
pelo fato de serem faltas, mas porque, tendo existido, já
não existem. Senhor, meu Deus, a quem todos os dias a minha
consciência se confessa, mais confiante na tua misericórdia
do que na sua inocência, mostra-me qual o fruto desta confissão,
feita também aos homens na tua presença, não
do que fui, mas do que sou agora. Compreendi e já recordei
o fruto da confissão do passado. Mas muitos, que me conheçam
quer não, desejariam saber o que sou agora, no próprio
momento em que escrevo minhas confissões. Já ouviram
falar de mim, mas seus ouvidos não me auscultam o coração,
onde, de fato sou verdadeiramente eu mesmo. Desejariam, pois,
ouvir-me confessar quem sou no meu íntimo, que o olhar,
os ouvidos, a intuição não podem atingir."(xxii)
"Portanto,
quando confessamos nossas misérias e reconhecemos tua misericórdia
para conosco, manifestamos o nosso amor por ti, a fim de que leves
a termo a nossa libertação que iniciaste, e deixando
de ser infelizes em nós, sejamos felizes em ti...".(xxiii)
"...fizeste-nos
para ti,
e inquieto está o nosso coração,
enquanto não repousar em ti."
Confissões
I,1
(i)Agostinho,
Liber de vera religione, XXIX, 72 - Não vá para
fora, volte-se para si mesmo, no interior do homem habita a verdade.
(ii)Chamado ou não chamado, Deus se fará presente
(iii)Como exemplo destas abordagens interdisciplinares podemos
citar algumas publicações resultantes de Congressos,
Semanas de estudos, Seminários, etc.: Cleto. Caliman, (Org.).
A sedução do sagrado. O fenômeno religioso
na virada do milênio. Petrópolis, RJ. Vozes.1998.
que apresenta os estudos da Semana de Estudos promovida entre
os dias 27 3 31 de outubro de 1997,pelo Instituto Santo Tomás
de Aquino-ISTA- Centro de Estudos Filosóficos e Teológicos
dos Religiosos de Belo Horizonte, MG.; Ênio José
da Costa Brito; Gilberto da Silva Gorgulho, (Org.). Religião
Ano 2000. São Paulo. CRE-PUC-SP. Edições
Loyola, 1998.que apresenta estudos dos professores do Programa
de Estudos Pós-Graduados em Ciências da Religião
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.
(iv)Cf. José Antonio Gimbernat,. Religion ( Critica de
la) in Cassiano Floristan; Juan-Jose Tamayo, (ed.) Conceptos Fundamentales
del cristianismo, Coleccion estructuras e procesos, Serie Religion,
Madrid, Editorial Trotta, 1993, .p.1137-1144
Cf. Eugenio Fizzotti, Verso una psicologia della religione.1.Problemi
e protagonisti.Collana Studi e ricerche di catechetica, Leumann
(Torino), Editrice Elle Di Ci, 1992. capítulo 4 - "Gli
inizi della psicologia della religione" p. 69-116. Ainda
para esta visão histórica ver também Benkö
Antal, Psicologia da religião, São Paulo, Edições
Loyola, 1981. p.9-21; Hans-Jürgen Fraas, A religiosidade
humana Compêndio de psicologia da religião,São
Leopoldo, Sinodal, 1997. p.13-24
(vi)Cf. Antoine Vergote, Psicologia religiosa, Ensayistas 58,
Madrid, Taurus, 1969, p.14
(vii)C.G.Jung, Memórias, Sonhos, Reflexões. Reunidas
e editadas por Aniela Jaffé, Rio de Janeiro, Editora Nova
Fronteira, 1995
(viiviii)Esta é a visão de Giuseppe de Rosa, in
Jung, la religione e il cristianesimo. II - La visione religiosa
de Jung in La Civiltà Cattolica 1994, II, p.129-142
(ix)Para nosso estudo nos servimos da seguinte edição:
Santo Agostinho, Confissões, Coleção Patrística
10, São Paulo, Paulus, 1997, 450 p.
(x)Cf. Marie-Louise von Franz, Sguardo dal sogno. Collana di Psicologia,
Milano, Raffaelo Cortina Editore, 1989,p.90-97
(xi)Importante este texto de Agostinho, Confissões VI,6
- "Desejava ter, em relação a fatos não
demonstráveis, a mesma certeza com que dizia que sete mais
três são dez. Não era eu tão insensato
a ponto de julgar que mesmo essa verdade fosse incompreensível;
queria ter, a respeito de todo o resto, a mesma compreensão
que tinha sobre isso, tanto em relação às
coisas corpóreas não atingidas pelos sentidos, quanto
em relação às espirituais, que eu só
podia conceber em termos materiais. Só a fé podia
curar-me: desse modo, os olhos da minha inteligência já
purificada, se dirigiriam à tua verdade imutável
e perfeita". É uma antecipação de seu
princípio: intelligo ut credam, credo ut intelligam ( entendo
para crer, creio para entender).
(xii)Cf. Jung, Tipos psicológicos, Obras completas VI,
par.11-24
(xiii)Um estudo atual e aprofundado sobre este tema pode ser visto
em Verena Kast, Pais e filhas, mães e filhos. Caminhos
para auto-identidade a partir dos complexos materno e paterno,
São Paulo, Edições Loyola, 1997
(xiv)Existe uma vasta literatura sobre os sonhos e seu significado
dentro da psicologia analítica, particularmente as várias
obras de Marie-Louise von Franz sobre o assunto. Nos serviremos
somente daquelas que tocam diretamente o tema da psicologia e
da religião: Marie-Louise von Franz, Sguardo dal sogno,
op.cit.; Antonio Gentili, Anna Maria Vacca, Te i nostri cuori
sognino. Per un´arte cristiana del sognare, Collana Dentro
il mistero 3, Milano, Editrice Àncora, 160 p.; Morton T.
Kelsey, Deus, sonhos e revelação, Interpretação
cristã dos sonhos, Coleção Amor e Psique,
São Paulo, Paulus, 1996, 466 p.; James A. Hall, Sonhos,
símbolos religiosos do inconsciente, São Paulo,
Edições Loyola, 1994, 105 p.
(xv)Agostinho, Confissões, III,20
(xvi)Cf. Jung,Tipos psicológicos, Obras completas,VI, par.853ss
(xvii)Agostinho, Confissões, III,1
(xviii)Agostinho, Confissões, IV,22
(xix)Agostinho, Confissões, IV,24
(xx)Agostinho, Confissões, VII,26
(xxi)Agostinho, Confissões, VIII,19
(xxii)Agostinho, Confissões, X,4
(xxiii)Agostinho, Confissões, IV,22