ARTE
E PSICOLOGIA
Clara
Rossana Ferraro de Sá
SINOPSE
Este
artigo enfoca vários aspectos que compõem o fenômeno
da criação, tais como os polos da destrutividade
/ criatividade, sua relação com as imagens e o divino;
o trabalho Imagético tanto na Arte quanto na Psicoterapia
e sua contribuição para o
auto-conhecimento,aprofundamento
e conscientização de si.
Reapresenta
e exercita o potencial criador na busca da forma e da ordenação
de novas realidades nos níveis, individual e coletivo.
Luz
- brilha!
Brilhante
brilho do sol.
Centro.
Certeza
certa,
centelha
divina
Vida!
Para
que nasças
Vejo
o escuro pulsar
do
início...
Disformes
formas
escuras,
se
contorcem querendo envolver,
intenção
de fazer
morrer,
sumir,
desaparecer!
Dançam
a dança do eterno nascer.
Pára!
Parir.
Olha!
Escuta
O
acalanto
lento
encanto,
delicado
tempo,
voz
da criação!
Adentrar
os mistérios da Arte e sua relação com o
divino,o sagrado, é semelhante a buscar o invisível
no mundo da matéria, é necessário um mergulho
nas profundezas,no interior das aparências.
Como
diz Bachelard,é necessário uma poética do
devaneio,um devaneio da profundidade.
Com
esta intenção inicio com um jogo poético,pois
creio ser a chave para abrir as portas do inconsciente,este reduto
arqueológico da Psique, o IMAGINAL, segundo Hillman.
Sentimentos
difusos,por vezes intensos,precisam ser suportados,assim como
a certeza de encontrar a luz divina que nos une no Amor.
É
portanto,o Amor na Alma,que sustenta o poder criador,por vezes
perigoso.
Jung
nos alertou dizendo que "o homem não possui poderes
criadores,mas é, antes,possuído por eles."
Como
um instinto que é, a criatividade, dentre outros instintos
– o sexual, o religioso, o instinto de sobrevivência-
traz consigo o perigo da dissolução na identificação
com os poderes criadores.
Quando
Jung escreve sobre Zaratustra,afirma que "As forças
criadoras te mantém preso aos cordões e danças
de acordo com os movimentos delas, segundo sua melodia... Mas
se sabes que és criativo, mais tarde serás crucificado
porque todo aquele que se identifica com Deus será desmembrado,
o
spiritus phantasticus, nosso espírito criador, é
capaz de penetrar nas profundezas ou nas alturas do universo,tal
como Deus, ou como um grande demônio; mas que devido a isso,também
terá de passar pela divina punição,que tomaria
a forma de Dioniso ou da crucifixão de Jesus."
Neste
sentido creio que o artista é um servo de Deus pois reconhece
sua missão e a executa; se desmembrando enquanto desmembra
a matéria, se integrando enquanto vê surgir a imagem,
a forma viva nascida da forte tensão de forças contidas
no processo criativo.
É
o fogo divino que forja a imagem e a faz concreta nas mãos
do artista.
E
este ponto de saída energética na palma da mão
está diretamente ligado ao chacra do coração,
a linguagem do eterno feminino, a linguagem do Amor.
Em
Bachelard encontramos que "o trabalho de nossas mãos
restitui a nosso corpo as nossas energias, as nossas expressões,
às próprias palavras de nossa linguagem, forças
originais. Através do trabalho da matéria, nosso
caráter adere de novo a nosso temperamento. ...o trabalho
sobre os objetos, contra a matéria,é uma espécie
de psicanálise natural. Oferece chance de cura rápida
porque a matéria não nos permite enganarmo-nos sobre
nossas próprias forças. ...o trabalho com a matéria
põe o trabalhador no centro de um universo e não
mais no centro de uma sociedade. A um passo do homem cósmico."
É
nesta dialética entre as mãos e a matéria
que vemos surgir a mensagem enviada por este centro organizador
da Psique- o Self- com uma finalidade que aponta para o novo,
o qual em forma de imagem transcende a tensão dos opostos.
Com
a imaginação e a vontade se administra a potência
das forças contidas no homem, na matéria e na natureza.
O
fio condutor para o encontro com o divino é portanto a
imagem a serviço do homem e sua realização.
Tanto
na Arte como na Psicoterapia, a imaginação criativa
nos traz uma compreensão mais profunda do mundo.
Em
sua capacidade de gerar imagens a Psique relaciona-se com as profundezas,com
os domínios de Hades,o mundo das trevas, da bidimensionalidade.
É
na Alma ( Psique ) que o corpo,ligado ao biológico, ao
instintivo e o espírito se encontram e no amálgama
do Amor dialogam produzindo vida.
A
idéia de profundidade sugere que a imaginação
primária consiste em ver o particular como que de alguma
maneira incorporando e expressando um significado mais universal.
Na medida em que adentramos as imagens encontramos uma forma básica,primordial
arquetípica.
Em
A Dança do Universo , Gleiser reafirma que a GEOMETRIA
é a linguagem de Deus. Lembremos do triângulo como
um símbolo fundamental,com o menor número de linhas
retas forma um desenho geométrico com conteúdo.
Basta um toque de dedos indicadores e polegares e podemos captar
energia cósmica para os centros vitais, usufruindo assim
de um campo energético dado pelo contato com o divino.
Centrando-nos.
Ouvi
dizer que a Física quântica trouxe Deus para a ciência,
Jung trouxe Deus para a Psicologia e eu acrescentaria que a Arte
sempre esteve com Deus , ela é inspiração
divina.
A
paixão pela forma nos diz da luta da imaginação
com o caos primordial, a prima matéria, fonte de toda a
criatividade que no absurdo desalinho encontra sentido, compõe,
dá harmonia, proporção, perspectiva, paz,
Nirvana , a libertação de toda as dualidades, que
para nós ocidentais equivaleria à libertação
da imaginação.
A
imaginação contém as formas, as histórias
a serem contadas para nos aliviar a angústia de viver.
Rollo May nos diz da busca para além do nível psicodinâmico
dos sonhos até encontrar as formas básicas. E estas
nos guiam para a compreensão de nós mesmos enquanto
únicos e enquanto participantes do coletivo. Nos guiam
para a compreensão da particularidade que somos, para o
nosso Dom nato, um chamado para o nosso Daimon, para o que eu
devo fazer e o que eu preciso Ter. Hillman resgata a imagem do
fruto do Carvalho para nos falar do destino e deste daimon que
acompanha a alma na descida à terra e se revela na necessidade
que impulsiona a realizar o caminho da individuação
e a responder às perguntas da eterna Esfinge : quem eu
sou, de onde vim, para onde vou e o que estou fazendo aqui. O
que há em meu fruto de Carvalho? Quais as necessidades
do meu gênio? Qual o caminho da minha felicidade? Esta felicidade
que em grego antigo – eudaimonia – significa daimon
satisfeito.
Toda
auto-realização implica auto-conhecimento, conhecer-se
a si mesmo a partir da relação com o outro e nesta
arte da relação o indivíduo adquire consciência
atingindo novos níveis de compeensão de si e do
mundo.
O
Processo Análítico busca trazer à consciência
diversos níveis de nosso ser e, como a Arte, tem a capacidade
de religar, reconectar com a essência divina.
O
resgate da Alquimia para a psicologia analítica nos permite
encontrar na relação com a matéria, imagens
nascidas do interior do homem e que nos trazem um paralelo com
o processo de análise em um processo químico de
transmutação da matéria a começar
pela nigredo,um estado caótico da condição
primeira do estado da matéria ou, a nível psicológico
um estado de dissociação das energias no qual nos
deparamos com nossa própria sombra e a consequente dor
psíquica do reconhecimento do lado desconecto que precisa
de integração. Num segundo momento temos a albedo,
estágio de purificação e embranquecimento
da matéria,ou a catarse, clarificação e conexões
psíquicas necessárias à ampliação
da consciência bem como o confronto com a contra-sexualidade
( anima-animus ). O terceiro estágio, ou de amarelecimento-citrinitas-
é considerado como uma passagem ao estágio seguinte
o qual para a Psique seria o momento de educação
e auto-educação, o compromisso ético de transportar
para a vida o conhecimento adquirido. A personalidade madura é
conseqüência do trabalho realizado, o opus alquímico,com
o nascimento do Homem Interior ou o reino de Deus dentro de nós.
A iluminação . O surgimento do ouro puro para os
alquimistas ou o estágio da rubedo onde ocorre a integração
masculino/feminino, espírito/matéria, micro e macrocosmos.
Se,
como diz Fayga Ostrower, "é ao nível de valores
internalizados que se dá a criação, então
o entrelaçamento da Arte com a Psicologia também
se dá a nível do auto-conhecimento, do aprofundamento
e conscientização de si.
Mas,
o que é preciso para criar?
Quais
as características de uma pessoa que está em contato
com o seu potencial criador?
Maureem
Murdock nos diz que é preciso tempo, espaço interno
e permissão para errar. Pois o impulso criativo interior
quando vem à tona, requer canalização, produção
para que se expresse de forma positiva.
Algumas
atitudes encontradas na produção divergente como
a capacidade de transformação, originalidade, flexibilidade,
disponibilidade para resolver problemas, talento, engenhosidade
e fluidez expressiva seja ela verbal, ideativa ou associativa,
compõem o perfil para a expressão do potencial criador.
Uma
vez conhecidos os ítens de informação e armazenados
na memória, estão em situação de ser
integrados quando as ocasiões o exigem. Revivificar os
ítens de informação armazenados na memória
para atingir certos objetivos é o fundamental da produção
psicológica seja ela divergente ou convergente. Ambas supõem
a criação de informação a partir da
informação dada e a informação depende
muito do armazenamento da memória.
As
atitudes que têm importância especial para o pensamento
criativo são a fluidez, flexibilidade e originalidade de
pensamento. Na produção divergente a resposta a
um problema se alterna com a avaliação. Vale-se
de uma conduta de ensaio e erro. Na produção convergente
o problema pode ser estruturado de maneira rigorosa e assim a
estrutura e a resposta surgem sem muitas dúvidas, há
muitas restrições e buscas limitadas, os critérios
são restritos, definidos,rigorosos e exigentes. Nestes
aspectos configuram o oposto do pensamento criador.
Reapropriando-se
do indivíduo criativo Fayga Ostrower afirma que "a
este torna-se possível dar forma aos fenômenos, porque
ele parte de uma coerência interior que absorve os múltiplos
aspectos da realidade externa e interna, os contém e os
"compreende"coerentemente,e os ordena em novas realidades
significativas para o indivíduo. Como ser coerente,ele
estará mais aberto ao novo por que mais seguro dentro de
si. Sua flexibilidade de questionamento, ou melhor, a ausência
de rigidez defensiva ante o mundo, permite-lhe configurar espontaneamente
tudo o que toca".
O
poder criador é um potencial estruturante que gera consciência
diante da vida, quer ele apareça na relação
terapêutica, quer na relação homem-matéria
da qual surge a obra de arte. E ambos, Artista e Terapeuta só
realizam a obra em cumplicidade com Deus, sua presença
permissão e em uma atmosfera de Amor. Os passos a serem
seguidos precisam ser vividos com um profundo respeito aos mistérios
da realização de uma obra e só alcançam
a compreensão aqueles que assumem uma atitude de entrega
e confiança.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Avens,Roberts
– Imaginação é Realidade – 1993,
ed.Vozes.
Bachelard,Gaston
– A Terra e os Devaneios da Vontade- 1991,ed.Martins Fontes.
Edinger,Edward
F. – Anatomia da Psique – 1985,ed.Cultrix.
Guilford,J.P.
- La Naturaleza de la inteligencia humana- 1977,editorial Paidos.
Hillman,James
– O Código do Ser- 1997,ed. Objetiva.
Jung,C.G.
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May,Rollo
– A Coragem de Criar – 1982,ed.Nova Fronteira.
Murdock,Maureen
– A filha do Herói- 1998, Summus ed.
Ostrower,Fayga
– Criatividade e Processos de Criação –
1987,ed.Vozes.