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A ROSA E O TEMPO

Suzana Lyra Strapasson

Após a leitura de um texto intitulado “A Rosa de Paracelso” - (1983) Jorge Luis Borges (1899 – 1986) De Quincey - Writings XIII , 345 – que carinhosamente me foi ofertado por uma formadora, vários pensamentos me ocorreram, e diante de reflexões, uma imagem se fez presente a mim:

A via Láctea oferecia uma lua cheia
Ao pequeno vale que, silencioso,
Acolhia uma rosa branca, e esta,
Exalava um delicado perfume
por entre montanhas.
Pequenas gotículas de orvalho fizeram
De suas pétalas moradia,
Tão cristalinas quanto as águas imaculadas
Do riacho que, lentamente
Espreguiçavam-se pelas encostas...
E a terra, úmida e sóbria
Ninava as raízes da rosa
Como a uma filha querida.
Naquele momento ,
Em ritmo de sístole e diástole
A rosa era a mediadora
Entre céu e terra;
Perfil da eternidade.


A imagem por si só tão poética, é sinônimo de virtude. A rosa, formosa por sua delicadeza nos remete ao mais além da forma – ao presente e ausente, ao etéreo e concreto – como que oriunda das águas primordiais sobre as quais se eleva. Como símbolo de regeneração, poderia representar a taça da vida que acolhe a alma.
Creio que só quando penetramos a imagem da rosa, o âmago da mesma se revela como num desabrochar, surgindo assim um sentimento deste objeto contemplado, o que torna-se simplesmente, uma origem absoluta de consciência, e que nos diz para não buscarmos antecedentes inconscientes, pois seria em vão.
Muito me tocou quando li de Saadi de Chiraz : “ Irei colher as rosas do jardim, mas o perfume da roseira me embriagou” . Esta imagem sugere-me a unidade na totalidade ,algo que transcende a nossa visão, pois num primeiro momento , temos a tendência de compartimentar; podemos definir os limites das rosas no jardim, mas o perfume da roseira não é delimitado por tempo e espaço. Como diz Plotino: “ A eternidade é uma vida que persiste em sua identidade, sempre presente a ela mesma em sua totalidade”(Enéadas,3,7).
Ah o tempo, fixo, imutável, de uma regularidade cíclica, contra o qual somos impotentes, entre o nascimento e a morte ele transita dono de si mesmo ,e nos remete ao tempo divino, sem limites entre céu e terra, e nos aguarda via imaginarium .
O tempo é freqüentemente simbolizado pela rosácea , pela roda, com seu movimento giratório, num constante ir e vir . Para Jung , as rosáceas das catedrais representam o self do homem, um centro transposto ao plano cósmico. E o centro é a imagem dos opostos que deve ser concebido como um foco de intensidade dinâmica, lugar de condensação e coexistência de forças opostas, que vai da unidade à multiplicidade, do interior ao exterior, do não-manifestado para o manifestado, do eterno para o temporal.
Numa citação em Romanos, 7,14,8; Gálatas, 5,13,6,8- observo a manifestação dos opostos quando leio: “O homem encontra-se dilacerado entre a carne e o espírito, despedaçado pela dupla tendência que o anima, de um lado, o desejo sincero de acertar, e de outro, uma vontade ineficaz”. Claro, a rosa enquanto símbolo de regeneração, ressurreição, amor e imortalidade, sugere ao próprio homem, a busca de todas as possibilidades de criação ou manifestação, pois, que mudança ocorre em nossas vidas quando caímos sob o império do tempo, este que desgasta, sempre buscando ultrapassar os contrários.
Quantas vezes olhamos o mundo de forma errada, e ousamos dizer que ele nos engana, assim falou em uma entrevista um de meus poetas favoritos Rabindranath Tagore , e em Oferenda Lírica- Gitânjali, nos fala do tempo do aqui e agora e da eternidade num belíssimo poema: “O nascimento e a morte das folhas são o giro mais rápido de um redemoinho cujos ciclos mais amplos avançam lentamente entre as estrelas”.
Retomando a imagem da rosa, o branco sugere ali a cor da alvorada, momento de vazio total entre a noite e o dia, quando o mundo onírico recolhe ainda toda realidade: ali está o ser interdito, suspenso numa brancura côncava e passiva. É só quando a brancura se deixa macular que dá lugar ao rubro. O branco cede lugar ao vermelho, como a primeira manifestação do despertar do dia.
“Branco, eu sou em verdade;
sou um sábio muito velho, cuja essência é luz...
mas sou projetado, também eu,dentro do poço obscuro
Observa o crepúsculo e a alvorada...
É um momento de permeio;
Um lado se volta para o dia, que é brancura;
O outro, dirige-se para a noite, que é negrume,
E daí a púrpura do crepúsculo matutino
E do crepúsculo do anoitecer ”
(Core, 247).


Para encerrar esse pequeno texto onde tentei articular a imagem da rosa e o tempo, trazendo minhas reflexões bem como algumas citações preferidas, gostaria de deixar aqui a fala de Jung sobre o tempo quando, em construção de sua casa , numa pedra rejeitada, ele deixou a seguinte inscrição gravada :
“O tempo é uma criança -brincando como uma criança-
sobre um tabuleiro de xadrez, o reino da criança.
Eis Telésforo, que vaga pelas regiões sombrias
desse cosmos e que brilha qual estrela
erguendo-se das profundezas.
Indica o caminho dos portões do sol e
da terra dos sonhos”
( Memórias, sonhos e reflexões, pp227/215 )

É como se a verdade viesse até nós com sua palavra final, mas, essa palavra rapidamente nos reporta à palavra seguinte.


Texto desenvolvido por Suzana Lyra Strapasson – Psicóloga CRP 08/06273


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