A
QUESTÃO MENTE - CORPO
Ricardo
Franco de Lima
A
QUESTÃO MENTE – CORPO E A PSICOLOGIA ANALÍTICA:
REFERÊNCIAS PARA O TRABALHO CORPORAL NA PSICOTERAPIA
Resumo
O presente artigo tem como objetivo, buscar um embasamento para
a realização de trabalhos corporais na psicoterapia
junguiana, em referenciais como: a discussão filosófica
sobre a questão mente – corpo; as relações
entre as pesquisas da Neurociência e a Psicologia Clínica.
Esses trabalhos configuram-se como possibilidades de atendimentos
na psicologia, compreendendo o indivíduo em sua totalidade.
Palavras – Chave: mente – corpo; neurociência;
psicologia junguiana; trabalhos corporais
“Meu
corpo não é meu corpo, é ilusão de
outro ser. Sabe a arte de esconder-se. E é de tal sagaz
que a mim de mim ele oculta meu corpo, não meu agente.
Meu envelope selado. Meu revólver de assustar. Tornou-se
meu carcereiro, me sabe mais que me sei”
Carlos Drummond de Andrade
1
– Introdução
A
formação acadêmica em Psicologia tem privilegiado
crescentemente a observância dos fenômenos ditos essencialmente
psíquicos ou mentais. Por outro lado, diminuem as disciplinas
que enfocam as bases biológicas e neuropsicológicas
dos fenômenos psíquicos e comportamentais.
Se considerarmos que a saúde deve ser vista em sua totalidade,
em suas dimensões física, mental, social e por que
não, espiritual, será que os psicólogos realmente
têm dedicado uma atenção à ela ?
O ser humano foi dividido em corpo e mente, onde médicos
e psiquiatras ocupam-se com a saúde corporal e os psicólogos,
com a mental. Essa divisão chega a extremos quando, por
exemplo, para um psiquiatra, os transtornos mentais são
exclusivamente resultados de alterações estruturais
e funcionais do sistema nervoso e curados somente através
do tratamento farmacológico. Por outro lado, na psicologia,
imperam tendências psicologizantes, onde busca-se explicações
exclusivamente subjetivas para compreender o sofrimento. Naturalmente,
sabemos que esse quadro representa o exemplo de um extremo, que
é específico e não generalizável.
A mudança paulatina no paradigma das ciências, do
antigo (clássico), para o que vem sendo chamado de holístico
ou sistêmico, nos coloca diante da necessidade de adoção
de um novo posicionamento interno e frente ao Outro. Essa mudança
é premente nas profissões de ajuda e cuidado, como
a medicina, assistência social, psicologia e outras.
2-
Questão Mente – Corpo/ Mente – Cérebro
Segundo
Sanvito (1991), o estudo do cérebro e de suas funções,
exige um abordagem pluralista que envolva aspectos neurobiológicos,
comportamentais e sociais. Sobre esse estudo Sabbatini & Cardoso
(2001) afirmam que as neurociências são essencialmente
integrativas, pois seu objeto de estudo é um ser integrado.
Assim, o estudo da mente e do cérebro requer uma extensa
colaboração de diferentes disciplinas científicas,
tais como: a biologia molecular, celular e do desenvolvimento,
genética, bioquímica, matemática, estatística,
física, ciências cognitivas, lingüística,
psicologia, etc.
A questão mente – corpo subsidia e delimita esse
estudo, à medida em que representa uma visão de
homem/mundo, assim como uma posição teórica
e metodológica.
Essa dicotomia, no entanto, não é recente. Aranha
& Martins (1993) descrevem que no século V a.C., Platão
acreditava que a alma vivia no mundo das idéias antes de
unir-se e tornar-se prisioneira do corpo. Então, passava
a ser composta de duas partes: uma superior (intelectiva) e outra
inferior ( do corpo).
A sistematização dessa questão foi feita
por Descartes que considerou que o homem é composto de
duas partes: a substância pensante, de natureza espiritual
(a mente) e a substância extensa, de natureza material (o
corpo). Essa posição é chamada de paralelismo
psicofísico. Ele também foi um interacionista, pois
acreditava que essas duas substâncias interagiam. Tal interação
ocorreria à partir de uma região específica
do cérebro: a glândula pineal. Essa escolha deveu-se
ao fato de que a pineal é a única glândula
do corpo que não é bilateralmente duplicada.
O dilema sobre a questão mente – corpo determinou
o surgimento de diferentes visões teóricas, as quais
podemos dividir em dois grandes grupos: a) teorias dualistas:
admitem a existência de dois aspectos distintos que podem
ou não interagir; b) teorias monistas: admitem a existência
de um só elemento, seja ele material ou imaterial. Apesar
das subdivisões que esses grupos podem sofrer, abordaremos
apenas, de um modo geral, esses dois grupos (Para conhecer as
subdivisões, ver em Dalgalarrondo, 2000).
Para os dualistas, corpo e mente são unidades distintas.
A visão mais amena do dualismo é o dualismo interacionista,
defendido por filósofos como Descartes e Herbart, por exemplo.
Segundo Popper & Eccles (1977), apesar das interações
entre os fenômenos mentais e o substrato neural, não
haveria identidade entre eles, o que, para Sanvito (1991), seria
incompatível com a lógica, pois se mente e cérebro
são distintos, não haveria como conceber um intercâmbio
entre eles.
Na posição monista, haveria o risco de reducionismo
ao considerar apenas a existência da matéria ou do
espírito.
Dalgalarrondo (2000) considera um outro grupo de autores que poderiam
ser reunidos no que ele chama de “teoria da mente ‘emergente’”.
Entre esses autores está o norte americano Roger W. Sperry,
ganhador do prêmio Nobel (1981). Ele intitula-se mentalista,
ao postular que os fenômenos mentais emergem do cérebro
e exercem um controle sobre a atividade neural. Desse modo, o
mental transcende o fisiológico, do mesmo modo que este
transcende o molecular e assim por diante.
De acordo com Covian (1989, p. 20) essa teoria consiste em:
“(...)
aceitar a emergência, na hierarquia cerebral, de um nível
novo que atua segundo princípios e leis diferentes daqueles
da neurofisiologia e não redutíveis à eles.
Entre ambos os níveis há uma interação
nos dois sentidos, que nem violenta a explicação
científica, nem reduz a experiência mental a fenômenos
neurofisiológicos (...). O mentalismo não aceita
experiências conscientes que não estejam ligadas
à função cerebral, mas admite a existência
de fenômenos mentais subjetivos com realidades potentes
e primárias, não redutíveis aos fenômenos
físico – químicos”.
Assim,
o cérebro poderia gerar fenômenos que, por sua vez,
exercem um controle sobre o funcionamento do nível inferior.
Haveria um continuum dentro de uma estrutura hierárquica,
ou seja, cérebro – mente é feito de partes
inseparáveis de uma hierarquia (SANVITO, 1991). Um exemplo
desse controle que a atividade mental pode exercer sobre o cérebro,
são as modificações nerofisiológicas
ocorridas durante as práticas meditativas (JEVNING et al.,
1992).
Também podemos conceber que a atividade mental e consciente
representa um continuum. Segundo Revel & Ricard (1998, p.
56):
“Esse
continuum não tem começo nem fim, pois o consciente
não pode nascer do nada nem do inanimado; cada instante
de consciência nasce de um instante de consciência
que o precede e gera um instante (...) que se seguirá.
Assim como na física fala-se do principio de conservação
de energia – a matéria – a energia não
pode ser criada nem desaparecer, mas somente se transformar –
poderíamos falar aqui de um princípio de conservação
da consciência. Existe, portanto, um continuum, um fluxo
de consciência constante para cada ser, o qual pode se transformar
exatamente como a água de um rio pode ser poluída
ou purificada”.
Partindo
dessas considerações, podemos afirmar que não
haveriam fronteiras distintas e fixas entre corpo – mente
/ cérebro – mente.
Apesar de o neurônio ser a unidade anátomo –
funcional do sistema nervoso, só podemos conceber as funções
superiores do cérebro (pensamento, linguagem, raciocínio,
inteligência...) como atividades que emergem da rede neuronal,
na interação do indivíduo com seu ambiente
(SANVITO, 1991).
Além disso, o cérebro representa a ponte entre a
recepção das informações do ambiente
e o seu processamento e atribuição de significados.
Nesse processo de interação, as conexões
neuronais modificam-se constantemente, apesar da determinação
global de suas estruturas pelos genes. Essa modificação
ocorre à nível estrutural e funcional e recebe o
nome de plasticidade cerebral.
Os estudos dos processos mentais e cerebrais, contribuíram
para o desenvolvimento das neurociências. Dentro desse campo,
existem diferente áreas de pesquisa como: neurociência
da cognição, neuroanatomia, neuropsicologia, psicofisiologia,
neurologia e outras.
Apesar dos avanços nessas áreas, suas interações
com a prática da psicologia clínica são pouco
significativas. Esse fato talvez represente a perpetuação
de uma visão dualista ou ainda, uma dificuldade no estabelecimento
de pontes entre diferentes metodologias de pesquisa e práticas.
Pesquisas que traçam um paralelo entre a Psicologia Clínica
e as Neurociência, procuram demonstrar que a psicoterapia
possui um efeito na atividade mental e neuronal do indivíduo.
Dentre elas, destacamos uma desenvolvida por Baxter et al. (1992),
cujos resultados demonstram que o funcionamento de uma região
cerebral, poderia sofrer alterações à partir
do tratamento farmacológico ou psicoterapêutico.
Nesta pesquisa, pacientes com o transtorno obsessivo – compulsivo
foram divididos em dois grupos de tratamento: a) submetidos à
terapia farmacológica com fluoxetina; b) submetidos à
psicoterapia comportamental. Ambos os grupos foram submetidos,
antes e depois do tratamento, ao mapeamento cerebral através
de uma técnica de neuroimagem, chamada PET Scan, que consiste
numa tomografia por emissão de pósitrons e permite
a identificação das regiões cerebrais ativadas.
Os resultados indicaram um melhora clínica à nível
dos sintomas nos dois grupos e ambos tratamentos modificaram o
padrão de funcionamento e comunicação sináptica
de uma mesma região cerebral, chamada núcleo caudado,
pertencente aos núcleos da base. Os resultados foram reproduzidos
em um estudo posterior (SCHAWARTZ et al., 1996).
Esses estudos nos mostram a importância de olharmos o ser
humano em sua totalidade e nesse caso específico, as correspondências
entre as atividades psicológicas e seu substrato neural
e corporal.
Sobre isso Maturana (1991, p. 5) afirma:
“(...) muitas pessoas temem a perda de figura da percepção
psicológica pelo fato de reconhecer a existência
do fundamento biológico. Creio que é um temor infundado,
porque não se trata de reduzir os fenômenos psicológicos
a fenômenos biológicos, como fenômenos moleculares,
etc., se trata de entender as condições que lhe
dão origem na dinâmica biológica; poder entender
o que está acontecendo na sucessão histórica
dos seres vivos, em particular na convivência humana”.
3
– A questão mente – corpo e a psicologia analítica
A
questão mente – corpo também esteve presente
na obra de Carl Gustav Jung. Com formação médica,
Jung não pode deixar de incluir em sua teoria psicológica,
os aspectos somáticos. Com isso, alertava para a necessidade
de integração entre esses conhecimentos.
“Sem
nos envergonharmos das insuficiências do nosso diletantismo
histórico, vamos ter que freqüentar mais um pouco
a escola dos filósofos – médicos daquele passado
longínquo, do tempo em que o corpo e a alma ainda não
tinham sido retalhados em diversas faculdades. Apesar de sermos
especialistas, por excelência, nossa especialidade, curiosamente,
nos compele ao universalismo, à profunda superação
da especialização, para que a integração
de corpo e alma não seja apenas uma conversa fiada”
(JUNG, 1981, p. 79).
Segundo Jung (1989, p. 16) haveria duas correntes opostas para
se compreender as relações entre corpo e mente.
Uma considera a mente como sendo um epifenômeno do corpo,
ou seja, redutível aos processos cerebrais, enquanto em
outra, o corpo seria um apêndice da mente. Jung afirma que
“(...) os processos do corpo e processos mentais desenrolam-se
simultaneamente e de maneira totalmente misteriosa para nós.
É por causa de nossa cabeça lamentável que
não podemos conceber o corpo e psique como sendo uma única
coisa”.
Ele acrescenta: “Corpo e mente são os dois aspectos
do ser vivo, e isso é tudo o que sabemos. Assim, prefiro
afirmar que os dois elementos agem simultaneamente, de forma milagrosa,
e é melhor deixarmos as coisas assim, pois não podemos
imaginá-las juntas” (ibid, p.69).
Ele utiliza o conceito de sincronicidade para descrever a manifestação
da unidade mente – corpo, pois seria impossível determinar
as origens de um fenômeno. Assim, “a psique depende
do corpo, e o corpo depende da psique” (JUNG, 1981, p. 2).
Podemos notar que Jung assume uma postura bastante parcimoniosa,
ao propor uma ampliação da questão mente
– corpo e adotar a sincronicidade como princípio
explicativo.
Adotando a perspectiva de que os eventos psíquicos e corporais
são sincrônicos, podemos conceber que a utilização
de trabalhos corporais no setting psicoterapêutico encontraria
um embasamento filosófico e teórico.
Ao longo da história da Psicologia, diversos autores se
destacaram nesse campo, como Reich, Lowen, Navarro, Boyesen, Kelleman
e outros. Da mesmo forma, inúmeras técnicas e recursos
foram desenvolvidos pelas abordagens psicológicas. Não
podemos deixar de mencionar que um referencial comum de influência
dessas técnicas, vem da psicologia oriental e do conhecimento
de práticas como por exemplo, a meditação
e o yoga.
Na psicoterapia, o paciente deve descobrir que pode expressar-se
por meio de diversos caminhos, seja através da palavra,
de uma pintura, um texto, o relato de sonhos, ou ainda, corporalmente.
Desse modo, amplia-se seu campo experiencial, na medida em que
explora e descobre criativamente, com o auxílio do terapeuta,
novas possibilidades de expressão. O trabalho corporal
pode ser utilizado na psicoterapia, como um técnica expressiva
auxiliar.
De acordo com Mautner (1982, p. 75) “o terapeuta corporal
surge como reação à eliminação
do corpo do setting terapêutico e, ainda, como reação
à caracterização do relato verbal como porta
única da expressividade do homem”. O terapeuta que
lida com o corpo, trabalha com a dimensão imediata das
sensações e dos processos sensoriais.
No entanto, diante dessas possibilidades de recursos expressivos
surge uma questão: a utilização de muitos
recursos numa tentativa de apreender o ser holisticamente, não
poderia ter um efeito oposto, o de pulverizá-lo em diferentes
porções expressivas, sem um trabalho efetivo com
nenhuma delas ? Sobre esta questão, devemos considerar
sempre o bom senso e a responsabilidade do psicoterapeuta como
um cuidador. Desse modo, percebemos a necessidade dele estar atento
ao momento presente e em contato com o que o paciente expressa,
pois é dessa percepção que a melhor decisão
a ser seguida é tomada.
Para Jung (1963, p. 120) “a psicoterapia e as análises
são tão diversas quanto os indivíduos”.
O terapeuta deve estar atento à direção de
desenvolvimento indicada pelo paciente. Por esse motivo, Jung
dizia não ser sistemático e seguidor de um método
rigidamente.
Um exemplo de trabalho corporal utilizado na psicoterapia, desenvolvido
por Pëtho Sándor é a Calatonia. Originalmente,
o termo vem do grego “khalao” que significa “relaxação”.
Ela é um técnica de recondicionamento psico –
físico, conduzida pelo terapeuta, que utiliza estímulos
monótonos através de toques nos dedos dos pés,
calcanhar e parte posterior das pernas do paciente (SÁNDOR,
1974).
Sándor (ibid, p. 100) afirma que o material surgido na
vivência, fornece bases para o trabalho verbal posterior.
“A comunicação pode ser verbal ou averbal
e a interpretação seguirá linhas diferentes:
aquele que considera apenas o fato em si, e a especulativa –
intuitiva que se baseia no simbolismo inerente ou suposto, reduzindo
ou ampliando, dependendo do sistema ou ‘escola’ a
que recorre”.
Por fim, não foi objetivo deste artigo, defender a idéia
de que o trabalho psicoterapêutico só estará
completo se for complementado com a vivência corporal. Pelo
contrário, devemos ter em mente que a observância
daquilo que o corpo do paciente expressa (rubor, tremores, olhar,
etc), nos fornece um rico material para sua compreensão
como um ser integrado. O diferentes trabalhos corporais, assim
como o trabalho com a arte, com a música, enfim, representam
um campo de possibilidades que auxiliam o paciente em seu processo
de individuação.
“(...)
a nossa psicoterapia reconheceu seu objetivo, isto é, que
o fator fisiológico e o fator espiritual têm que
ser considerados em nível de igualdade” (JUNG, 1981,
p. 80)
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