A
PRODUÇÃO CRIATIVA NA ARTE E NA DOENÇA
Juliana
Corrêa
Observando a biografia de escritores, pintores, poetas e artistas
em geral, percebemos que um elo que os une é a criatividade.
Alguns desses artistas tornam-se indivíduos criativos de
um modo bastante específico, ao acessarem as camadas mais
profundas da psique. Tal acesso às profundezas da alma
também é comum à psicose e, de fato, muitos
indivíduos criativos famosos apresentam sintomas neuróticos
e psicóticos, em maior ou menor grau. Existe, assim, uma
relação evidente entre a arte e a doença
mental.
De acordo com a psicologia analítica, o artista é
um indivíduo que possui determinada permeabilidade entre
consciente-inconsciente. Embora outros indivíduos também
apresentem tal permeabilidade, no artista os conteúdos
gerados pelo inconsciente são trazidas à consciência
através da arte. Jung faz distinção entre
a arte produto da neurose, que segundo ele é permeada de
conteúdos pessoais, e a arte cuja fonte está no
inconsciente coletivo. Nos casos em que a arte é produto
de uma neurose o artista busca inspiração em seu
próprio inconsciente pessoal, porém essa fonte de
inspiração pode se extinguir com a dissolução
dos conflitos. Com esse tipo de arte Jung foi bastante impiedoso,
dizendo que deveria ser relegada ao “método purgativo
freudiano” (SIC) sem remorso, e que “A neurose não
cria arte. Ela é não criativa e inimiga da vida.
Ela é o fracasso e a não-realização.”
(JUNG: 2001, p. 337). Tal espécie de arte teria mais afinidade
com os sintomas do que com os símbolos, e assim, pode ser
totalmente reduzida à biografia do próprio autor.
Embora detenha muitos méritos, muito da obra de Woody Allen,
por exemplo, baseada em seus conflitos pessoais, poderia desvanecer
caso tais conflitos fossem sanados. Contudo, a criação
originária dos extratos mais profundos da psique não
pode ser esgotada tão facilmente: “A resolução
de qualquer repressão jamais poderá destruir o que
é realmente criativo” (JUNG: 1981, §206).
Neste segundo tipo de arte, de conteúdo simbólico
e sobretudo universal, Jung depositava maior interesse. O conteúdo
da arte proveniente do inconsciente coletivo não tem sua
origem nos sintomas ou numa repressão, pois jamais passou
pela consciência, e suas imagens pertencem ao patrimônio
comum da humanidade. E é exatamente por esse motivo, que
essa espécie de obra de arte nos sensibiliza de forma tão
arrebatadora, pois está repleta de significados e experiências
comuns a todos. A arte do inconsciente pessoal, por outro lado,
geralmente não resiste, não é deixada à
posteridade, principalmente diante da velocidade vertiginosa das
informações na época atual. As artes fruto
da neurose são sombras que passam e se vão; mas
há aquilo que fica: o tempo conserva o que realmente possui
valor. Não cultivamos a leitura de obras desconhecidas
do passado, mas de clássicos dignos de aprofundado estudo,
pois os símbolos que eles portam transcendem a sua época.
Assim, podemos ser mais críticos com aqueles que atribuem
seu insucesso à “falta de oportunidades” de
um ambiente inoportuno. De fato, o meio de muitos criadores brilhantes
como Van Gogh e Goya foi injustamente árido. Entretanto,
tal fato muitas vezes tem servido de justificativa a uma igual
falta de talento, ou até a um excesso de “talento”
neurótico.
O homem verdadeiramente criativo não se beneficia da neurose,
porém não pode se abster da criação,
na medida em que o impulso criativo é mais forte do que
ele. Conforme comenta Jung, não se trata, nesse caso, de
um “talentozinho agradável” (SIC). Sua força
criadora não pode ser reprimida, e poderá pressioná-lo
de tal forma a restar pouca energia psíquica às
demais atividades, algo que muitas vezes se torna um obstáculo
em sua vida. Devido a isso, observamos algumas características
comuns a esses artistas.
Muitas vezes o artista não consegue se adaptar às
exigências do meio pois o inconsciente lhe subtrai a energia
da consciência que seria utilizada a esse propósito.
O estereótipo do artista incompreendido e de certa forma
exilado da sociedade ilustra bem esse fato: muitas vezes esses
indivíduos não conseguem se comunicar com os demais
da mesma forma com que se comunicam com o próprio inconsciente.
A adaptação ao meio exige certo controle da atenção
consciente, algo que o imperativo dos arquétipos inconscientes
ativados chega a suplantar, gerando uma enorme tensão e
desconforto. De um lado vemos uma força inconsciente que
pressiona e exige expressão. De outro, as ânsias
e exigências do homem comum, como o avanço na carreira,
o sustento da família, etc. Podemos observar que alguns
artistas optam pelo descaso em relação a essas últimas
exigências, refugiando-se no ostracismo e, muitas vezes,
acusando a própria sociedade de não lhes oferecer
as devidas oportunidades. Sofrem por se verem de certa forma marginalizados
por essa sociedade.
Tal tendência à inadaptação sofrida
pelo indivíduo criativo é uma conseqüência
do chamado “rebaixamento do nível mental”,
que ocasiona a perda do interesse nas atividades conscientes e
a descida aos níveis arcaicos da psique. O nível
de consciência rebaixado também ocasiona a conhecida
preponderância do amoral sobre o ético em alguns
artistas, assim como uma infantilidade comumente vista com maus
olhos pela comunidade em geral. Hoje em dia, é nas excentricidades
de algumas pessoas famosas que as peculiaridades éticas
e morais se manifestam de forma mais patente.
Talvez seja exatamente devido à conduta excêntrica,
original ou extemporânea que a mente criativa seja capaz
de exteriorizar aquilo que os demais não vêem. Enquanto
todos voltam sua atenção às tarefas cotidianas
mais burocráticas e enfadonhas, esses indivíduos
estão literalmente imersos na psique: eles experimentam
como uma realidade viva muito do que o homem em geral ignora.
São os anseios, as imagens e experiências ignoradas
pela maioria das pessoas comuns justamente o que desponta de forma
irresistível e muitas vezes aflitiva na consciência
do homem criativo, o qual muitas vezes surge como cura para o
modo de vida unilateral da época em que vivemos: “Partindo
da insatisfação do presente, a ânsia do artista
recua até encontrar no inconsciente aquela imagem primordial
adequada para compensar de modo mais efetivo a carência
e unilateralidade do espírito da época.” (JUNG:
1991, §130). Jung fala aqui da enantiodromia, a tendência
de qualquer atitude ou estado a originar aquilo que seria o seu
oposto. Segundo ele, toda tendência geral é necessariamente
uma atitude unilateral. O homem comum é afetado pela tensão
desses opostos de forma bem mais branda do que o homem criativo.
Este, por estar em contato com o inconsciente de uma forma mais
direta, tende a corrigir essa unilateralidade inconscientemente
com sua obra. Dessa forma, a obra de arte, ao trazer à
tona uma realidade inconsciente, tem a função social
de orientar o espírito da época. Zarathustra surgiu
com esse propósito na obra de Nietzsche, sob a forma de
um salvador, ou sábio:
He
(Zarathustra) is going to produce the enantiodromia, he is going
to supply mankind with what is lacking, with that which they hate
or fear or despise, with that which the wise ones have lost, their
folly, and the poor ones the riches. In other words he is going
to supply the compensation1. (JUNG: 1988, p.19)
É
conhecida a idéia de que a extrema criatividade de alguns
artistas os aproxima muito da loucura. Temos muitos exemplos de
indivíduos criativos que manifestaram sintomas graves de
doença mental, sendo Van Gogh e Nietzsche alguns dos mais
ilustres. Tal proximidade entre a criatividade e a psicose se
deve à influência exercida, em ambos os casos, pelo
inconsciente coletivo, que é a fonte comum de imagens primordiais
compartilhada na produção psicótica e nas
expressões artísticas. Jung percebeu, já
no início de sua carreira, que a produção
de alguns pacientes estava repleta de mitos e símbolos
universais, isto é, que muitos desenhos e esculturas produzidos
por esses pacientes representavam arquétipos com os quais
eles jamais haviam entrado em contato conscientemente. Foi dessa
forma que postulou o inconsciente coletivo, que diferentemente
do inconsciente freudiano, não é um reservatório
de memórias e experiências reprimidas pelo ego, mas
um substrato que transcende nossas vivências pessoais. A
obra de William Blake, por exemplo, dificilmente poderia ser resultado
de sua experiência pessoal no mundo.
Por outro lado, foi apenas através da insanidade que alguns
indivíduos produziram o que há de mais importante
em suas obras. A inspiração de Sylvia Plath, famosa
escritora americana, é interrompida quando ela finalmente
encontra equilíbrio na figura de Ted Hughes, durante seu
casamento. O contato com o inconsciente e, conseqüentemente,
a produção criativa, foi retomado apenas após
a separação, com o surgimento de um estado patológico
deflagrado pela crise de seu casamento. Alguns indivíduos
são produtivos apenas enquanto o rebaixamento do nível
mental se faz presente, não conseguindo manifestar sua
criatividade quando existe um vínculo forte com a realidade.
Seria arriscado dizer que tais indivíduos deveriam procurar
aquilo que os vincula à realidade para manter a consciência.
Entretanto, em sua autobiografia o ex-editor dos poemas de Sylvia
Plath, Al Alvarez, acredita que alguns artistas pagam um preço
alto em troca do mergulho no inconsciente:
I
had always believed that genuine art was a risky business and
artists experiment with new forms not in order to cause a sensation
but because the old forms are no longer adequate for what they
want to express. In other words, making it new in the way Sylvia
did had almost nothing to do with technical experiment and almost
everything to do with exploring her inner world - with going down
into the cellars and confronting her demons.2 (ALVAREZ: 1999,
p. 56)
Alguns
escritores, entretanto, não necessitam abrir mão
da consciência para expressar o inconsciente, isto é,
eles exploram tal “mundo interior” de forma mais lúcida
e não se vêem tão inundados pelo conteúdo
simbólico arrebatador. Nesse sentido, é também
o nível de consciência mantido quando se vivencia
o inconsciente aquilo que separa a arte da doença mental.
Ao contrário do que acredita Alvarez, a arte em si talvez
não seja um negócio arriscado, pois surge como conseqüência
de um comprometimento, e muitas vezes, pode ainda servir como
uma função auto-organizadora da psique.
Um outro aspecto que pode intrigar considerando a linha tênue
entre a arte e a doença mental é o fato de que as
imagens universais produzidas na arte e na psicose podem representar
os mesmos arquétipos. Além disso é natural
questionarmo-nos qual seria a diferença entre a obra do
artista e a produção da loucura pois muitas vezes,
sobretudo na arte moderna, a produção do artista
é distorcida à maneira fragmentada e caótica
da produção esquizofrênica. Em primeiro lugar,
no doente mental a produção não possui um
objetivo consciente, é antes um sintoma involuntário
de sua personalidade fragmentada. O artista, por sua vez, manifesta
a tendência atual do inconsciente coletivo, uma vez que
sua função, conforme mencionado, é a de solucionar
a atitude unilateral da época. Ademais, a produção
é vivenciada de forma diferente em ambos os casos:
A
distorção do sentido e da beleza pela objetividade
grotesca ou pela igualmente grotesca irrealidade é, no
doente, uma manifestação conseqüente da destruição
de sua personalidade. No artista, porém, é um propósito
criativo. O artista moderno, longe de vivenciar e sofrer em sua
criação artística a expressão da destruição
de sua personalidade, encontra justamente na destrutibilidade
a unidade de sua personalidade artística. (JUNG: 1991,
§175)
Na
arte e na doença mental o tratamento dado às imagens
inconscientes tem uma aparente semelhança, que se manifesta
na falta de sentimento e harmonia, na fragmentação
e impulsos contraditórios, numa expressão esquizofrênica
onde não há uma tentativa de comunicação:
Nada vem ao encontro de quem o contempla, tudo se afasta dele,
até mesmo uma beleza ocasional aparece apenas como um imperdoável
atraso de uma retirada. É o feio, o doentio, o grotesco,
o incompreensível e o banal que está sendo procurado,
não para esclarecer, mas para disfarçar, um disfarce
porém, que não aproveita a quem está buscando,
mas, qual névoa fria que procura esconderijo, paira, sem
querer, sobre pantanais desabitados como um espetáculo
que pode prescindir do espectador. (JUNG: 1991, § 209)
Não
obstante tal tendência compartilhada, Jung nega que a obra
de James Joyce, por exemplo, que possui “uma semelhança
grave” (SIC) com a esquizofrenia, tenha os mesmos traços
encontrados na doença mental comum. Resta assim a doença
mental incomum, para a qual, segundo ele, a psiquiatria não
tem critério, e a qual “pode ser uma espécie
de sanidade mental, inconcebível para a inteligência
mediana, ou um poder espiritual superior” (1991, §
173).
Finalmente,
uma outra possibilidade de associarmos a psicose à arte
é o fato de que em ambas observamos a presença de
algo denominado por Jung de complexo autônomo. Trata-se
de um conceito associado por Jung ao próprio nascimento
de uma obra, pois “abrange quase todas as formações
psíquicas que se desenvolvem em primeiro lugar bem inconscientemente
e só a partir do momento em que atingem o valor limiar
da consciência, também irrompem na consciência”
(1991: p. 123). O complexo autônomo surge muitas vezes personificado
e como não pertencente ao próprio ‘eu’,
e na doença mental, manifesta-se na forma de vozes, ou
na identificação com personalidades históricas.
Embora o indivíduo criativo seja, muitas vezes, dominado
por tais complexos autônomos, isso por si só não
caracteriza a doença mental, pois pessoas normais também
são dominadas por eles. A diferença está
na intensidade com que isso ocorre. Ainda que em todos os casos
o complexo autônomo tenha a propriedade de dominar e influenciar
a personalidade, na produção artística não
se trata de fragmentos dissociados, mas de representações
arquetípicas repletas de sentido.
Assim, percebemos que tanto a arte legítima quanto a loucura
compartilham a imersão no inconsciente coletivo. O que
parece existir também em ambas é a necessidade de
transcender as imagens inconscientes, o que eventualmente ocorre
com a ampliação da consciência. Podemos arriscar
a hipótese de que o nível de profundidade alcançado
em tal mergulho e o nível simultâneo de consciência
é o que provavelmente define o impacto da obra em determinada
época.
1. Ele (Zarathustra) produzirá a enantiodromia, suprirá
à humanidade do que está faltando, do que ela necessita,
daquilo que as pessoas odeiam ou desprezam, a tolice aos sábios,
a pobreza aos ricos, ou seja, Zarathustra promoverá uma
compensação.
2.
Sempre acreditei que a verdadeira arte é um negócio
arriscado e os artistas experimentam novas formas não para
causar sensação, mas porque as antigas não
são mais adequadas para o que desejam expressar. Em outras
palavras, inovar do modo com que fez Sylvia não teve quase
nenhuma relação com experimentação
técnica e relacionava-se quase totalmente com a exploração
de seu mundo interior – com descer os porões e confrontar
seus demônios.
Referências:
· ALVAREZ, A. Where Did It All Go Right? Londres: Richard
Cohen Books, 1999.
· JUNG, C.G O Desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis:
Ed. Vozes, 1981.
· _____ Jung’s Seminar on Nietzsche’s Zarathustra.
Princeton: Princeton University
Press, 1988.
· _____ O Espírito na Arte e na Ciência. Petrópolis:
Ed. Vozes, 1991.
· _____ Cartas Vol I. Petrópolis: Ed. Vozes, 2001.