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AMOR E MATRIMÔNIO

Eugen Drewermann

"O sono da vida sem amor e a gratidão para com o destino" (Gn 2,22.23)

O “sono profundo”, durante o qual Deus cria a mulher, é propriamente um aturdimento paralisante, uma mistura de angustia, cansaço e desespero. No ventre da baleia Jonas dorme um sono semelhante da desventura (Jn 1,5.6). E nós podemos pensar que Adão, desde quando lhe falta o amor é constrito com efeito a sentir a sua vida como um sono mortal deste tipo. Com efeito ele se “acorda” verdadeiramente somente quando encontra a mulher que Deus lhe “conduziu” (Gn 2,22). A mulher que ele então encontra havia sido procurada em todos os seres vivos sem encontrar aquilo pelo qual o seu coração ansiava; agora, no entanto, encontra aquilo que desde sempre lhe faltava e descobre que se encontra diante daquilo que o seu coração desejava.

Podemos, portanto, interpretar tranquilamente a linguagem simbólica da “costela”, com a qual Javé plasma a mulher, assim – todo amor real consiste na descoberta que o outro encarna precisamente aquilo do qual um sente a falta em seu próprio peito; em todo verdadeiro amor o outro aparece como a encarnação feita figura precisamente daquele vazio feito de desejo e nostalgia que se abre no próprio coração, e tal espaço vazio dá a impressão de se algo colocado por Deus mesmo; no amor o outro aparece como a maravilhosa realidade viva de uma busca e de uma peregrinação que durou uma vida. Ou em outras palavras: o amor consiste na sensação que um deveria literalmente “arrancar das costelas”uma coisa como o outro caso ele não existisse.

No mesmo tempo o amor consiste em uma profunda gratidão em relação do “destino”de Deus. O outro, quando alguém se enamora dele, entra de fato sempre na própria vida com a violência de uma disposição fatal; a pessoa o sente vir ao seu encontro como um enviado de Deus; ele não saiu à sua procura; neste momento de grandíssima felicidade a pessoa percebe somente mais claramente do que em qualquer outro momento de sua vida de ser objeto de um guia silencioso, de um destino escondido do qual não é possível fugir a não ser que se queira agir em completa contradição consigo mesmo. “Eis que desta vez é ela”( Gn 2,23), esta exclamação de Adão exprime muito bem esta dupla impressão feita de surpresa e constrição , de acaso aparente e de intrínseca necessidade que acompanha a descoberta do amor.

Pag. 168 - 169

A busca do nome certo para a amada presa pelo amor (Gn 2,23)

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Em todo caso é difícil encontrar um modo de caracterizar melhor o amor que não seja este processo de conferir um nome, com a condição de que, como sempre se faz na interpretação dos mitos relativos às origens se tome o episódio aparentemente isolado como uma enunciação relativa à essência da realidade em questão. Então não se poderá senão concordar com o javista – o amor é, entre outras coisas, uma contínua tentativa de encontrar um nome justo do amado; sob o fascínio daquilo que é ao mesmo tempo igual e diferente, no âmbito do nome “homa” ele é entre outras coisas uma incessante interrogação – quem é você? É um esforço constante de compreender e de caracterizar ainda mais a fundo a essência do outro. /.../.

Pag. 170
A forma madura do amor em Deus: o abandono do pai e da mãe no âmbito do mundo, no âmbito do tempo

( Gn 2, 24)

A força do amor se manifesta no javista sobretudo pelo fato que ele é capaz de transformar uma criança em adulto. É o amor que manifesta o espaço de uma nova segurança ao interno da qual uma criança pode abandonar a mão dos pais e empenhar-se em uma nova relação de maneira livre e ao mesmo tempo intimamente vinculante. Em certo sentido se pode, sem dúvida, demonstrar que em todo amor conjugal sobrevivem elementos do amor de um filho pelos pais, e somente quando a confiança no amado e na força da própria personalidade é suficientemente grande uma pessoa está em grau de “abandonar o pai e mãe e unir-se à sua mulher” (Gn 2, 24). Implicitamente, porém, neste processo de amadurecimento psíquico está inserido um problema eminentemente teológico que se esclarece sobretudo pelo amor de transferência.

No amor entre o homem e a mulher se revivem necessariamente as relações emotivas infantis com os próprios pais; e para “abandonar” em sentido verdadeiro e próprio “o pai e a mãe” não basta separar-se exteriormente dos pais e fundar uma própria família; a coisa importante é, antes de tudo, renunciar a esperar dos homens em geral uma segurança infantil. Segundo Gn 2,24 o mistério do amor está em aprender a renunciar um dia à pretensão que o outro deva de novo dar ou substituir com a sua existência a segurança que a pessoa encontrou quando criança em seus pais, e a questão é aquela de saber em que condições tal renúncia seja possível. Para a psicologia do profundo o “pai”e a “mãe”são figuras arquetípicas de uma aceitação e segurança absoluta. Às aspirações deste tipo uma pessoa não pode no fundo renunciar; podemos somente obter que o desejo de uma sustentação absoluta não se dirija mais ao campo humano e seja ancorado no Absoluto. Em outras palavras, somente a partir de uma prévia fé em Deus é possível limitar a uma medida humana e humanamente possível as expectativas presentes no amor por outro homem. Somente a partir de um ancoramento religioso do arquétipo do pai e da mãe no Absoluto, em Deus, o amor entre os homens pode permanecer humano, somente assim ele se torna duradouro e válido de maneira devida, e por isto compreendemos como o javista seja, com efeito, do parecer que somente na fé em Deus, somente na ordem do paraíso terrestre, seja possível se tornar realmente adultos, abandonar realmente o pai e a mãe e assumir assim uma relação duradoura com um homem ou com uma mulher. /.../

Pag. 171- 172
Eugen Drewermann

Psicanalisi e teologia morale
Queriniana, Brescia,1996, 3.ed

Cap. V – La sicurezza nel cerchio dell’amore.

Una spiegazione dell’imagine dell’uomo

proposta dal racconto jahvistivo delle origini (Gn 2,22-25)

Pag.159-180


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