INTEGRAÇÃO
PSICOFÍSICA DE C.G.JUNG
Celso
Barreto
Existem
muitos pioneiros no trabalho da somaterapia, Freud, Sandor Ferenczi,
Adler, Reich, Jung e outros.
O
objetivo deste ensaio é apresentar C.G.JUNG como um dos
pioneiros a abrir caminhos em uma abordagem de Integração
"corpomente", apesar de ainda em nossos dias, o ambiente
acadêmico persistir com preconceitos para desenvolver esta
abordagem.
Tenho
informações que alguns profissionais da Psicologia
Analitica já estão desenvolvendo este trabalho em
forma de vivências, utilizando a fundamentação
junguiana para a Integração Psicofísica.
Para
iniciar a apresentação deste trabalho escolhi algumas
falas de Jung proferidas em alguns seminários que esboçam
a idéia corpomente segundo suas observações.
Relacionamento
consciente - inconsciente - corpo
"A
consciência é produto da percepção
e orientação no mundo externo que provavelmente
se localiza no cérebro e sua origem seria ectodérmica.
No tempo de nossos ancestrais a consciência derivaria de
um relacionamento sensorial da pele com o mundo externo. É
bem possível que a consciência derivada dessa localização
cerebral retenha tais qualidades de sensação e orientação"(Par.14
- Fund.Psic.Anal.Jung).
Obs:
Tanto a pele quanto o sistema nervoso originam-se da ectoderme
e também criam os órgãos dos sentidos: olfato;
paladar; audição; visão; tato; ou seja ,
tudo o que acontece fora do organismo. Portanto o SN é
uma parte escondida da pele, ou ao contrário, a pele pode
ser considerada como a porção externa do SN.
"Nossos
conteúdos inconscientes são potencialidades que
podem vir a ser, mas que não são, porque não
tem definição. Somente quando se tornam definidas
elas podem aparecer. Nada é definido no inconsciente, enquanto
algo estiver no inconsciente, nada pode ser dito sobre ele. Definição
aparece quando a matéria aparece. De acordo com a filosofia
Tântrica, a matéria é a definição
do pensamento divino, o pensamento criador. Porém isto
é meramente uma projeção psicológica,
pois enquanto o pensamento de alguém não atingir
um corpo, ele não é definido. Dar corpo aos pensamentos
significa que se pode falar a respeito dos mesmos, pintá-los,
mostrá-los, fazê-los aparecer claramente aos olhos
do mundo.
Até
mesmo certas doenças do corpo podem trazer o caráter
da idéia, talvez representem a idéia de alguma coisa
que simplesmente não pode ser engolida. Uma coisa que não
pode ser aceita é representada por um espasmo da garganta,
por exemplo, e pode ir tão longe que a pessoa pode não
conseguir comer.
Então,
tais idéias suspensas podem se expressar facilmente no
corpo; em certos problemas de pele, perturbações
do sistema nervoso periférico, talvez com anestesia, problemas
de estomago e intestino, ou seja , diarréia ou constipação.
As pessoas que não querem deixar algo ir embora podem produzir
uma extraordinária constipação. Existem muitas
coisas engraçadas a esse respeito, quase cômicas,
tão óbvias que quase não se acredita, pois
somos pouco inclinados a acreditar nas coisas óbvias, sempre
achamos que a verdade precisa ser muito complicada, muito sutil.
Se alguem fala algo muito simples, todo mundo pensa que não
é verdade"
(
Pgs.136,137 Assim Falou Zarathustra, Jung).
Exemplificando
este texto de Jung, recebo sempre em meu consultório pessoas
que persistem em não acreditar que as reações
físicas que estão tendo, estão diretamente
ligadas a sua vida psíquica, pois parece simples demais
que tal situação ocorrida em sua vida possa estar
afetando-o desta maneira. O que facilita meu trabalho é
que estas pessoas geralmente já passaram pela mão
de diversos especialistas da área da medicina e também
já fizeram todos os exames necessários para diagnosticar
que fisicamente eles não tem disfunção alguma
do órgão ou parte afetada, receberam apoio medicamentoso
e foram encaminhados para um psicólogo.
Apresentarei
em seguida como Jung abordou a situação citada acima
com um de seus clientes e depois como vejo a evolução
deste trabalho nos tempos atuais para quem associa outras técnicas
de apoio para auxiliar seus clientes a entrar em contato consigo
próprio e sua vida interior(psique).
"Certa
vez tratei um caso assim; o homem ficou reduzido a um esqueleto.
Podia somente engolir duas xícaras de leite por dia, e
para cada xícara necessitava duas horas, e toda vez que
tomava um gole um pouco maior ele simplesmente recusava - precisava
tomar aos golinhos. Ficava tão cansado que temia morrer.
Ninguém sabia o que fazer, e então esse pobre homem
acabou indo a uma feiticeira. Vejam, eu fui chamado como último
recurso, quando o homem estava praticamente morto. Eu sou tão
extremamente não científico, que posso curar um
tal caso. Quando tal homem caiu eventualmente em minhas mãos
eu perguntei sobre seus sonhos. Logicamente, eu sabia que ele
não podia engolir alguma coisa, e naturalmente tinha as
maiores resistências para chegar lá, mas seus sonhos
me conduziram.
Sua
noiva era representada como uma espécie de prostituta em
seus sonhos, então eu lhe disse para ir para casa e perguntar
a um amigo o que pensava da moça. E o primeiro homem para
quem perguntou disse-lhe; "É claro todo mundo sabe,
ela é simplesmente uma moça fácil"Ela
havia tido relações sexuais com dois outros homens
enquanto era sua noiva. Isto era o que ele não queria saber,
estava convencido de que ela era a mais pura das virgens, vinda
das melhores famílias. Bem depois de uma semana que ele
se fora, recebi uma carta sua, bastante amarga dizendo: "Eu
posso comer agora! o senhor tinha razão. tive de desistir
do relacionamento. Penso que estou curado. Atenciosamente"
Podia se ver sua emoção; ele não gostou da
idéia, mas é o preço para nos curarmos"(Pags.136,
Assim falou Zarathustra, Jung).
Este
caso deixa muito claro o relacionamento consciente-inconsciente-corpo,
mas nem sempre a evolução do caso chega ao término
com resultados positivos , muitas vezes a pessoa faz a integração
entre essas partes, mas não consegue alterar muito suas
reações físicas, como se o corpo tivesse
incorporado a nova forma de funcionar ou seja o desenvolvimento
de complexos psiquicos resultará também em uma reaprendizagem
corporal, seja de movimentos ou de funcionamento. É necessário
utilizar-se também do auto conhecimento físico para
que a pessoa sinta-se mais solta e mais leve.
Trabalhei
com um homem que relatou ter vários problemas de contusão
de ombro e pescoço, investiguei sua história de
vida e o mesmo falou ser o filho mais velho, que teve de ajudar
a todos da família, é extremamente religioso e fiel
as leis de sua crença, casou-se e por vários motivos
separou-se da mulher, encontrou outra mulher e vive com ela a
anos e não consegue regularizar a situação
com ela , porque casamento na igreja é uma vez só,
então ele feriu as leis de Deus e vive sofrendo por isso.
Trabalha em uma empresa onde é chefe de uma seção
com muitos funcionários, sua responsabilidade e dever é
de tanto peso, que chega a executar as tarefas dos funcionários
com receio de que eles não a executem e isto venha a compremeter
sua imagem de responsabilidade. Quando ele trazia suas dores para
a terapia, eu pedia que exemplificasse por qual situações
de stress ele havia passado naquela semana e de como ele reagia
fisicamente. Ex; estava dirigindo e alguém falou algo que
o desagradou, agarrou o volante com muita força e dirigiu
assim durante um bom tempo, na sua mesa de trabalho recebe telefonemas
de vários departamentos e agarra o telefone com muita força.
Estas associações foram trazendo a consciência
do paciente os aspectos de sua rigidez, de como ele agarrou todas
as leis que eram apresentadas para ele com todas as suas forças
psiquicas e físicas, mas isto não fez com que soltasse
seu ombro. Começou a trabalhar com o que já havia
conquistado em análise, houve um alívio do sofrimento
que tinha imposto a sua alma, mas seu ombro continuava doendo.
Iniciei trabalhos corporais com ele com o objetivo de mobilizar
maior relaxamento muscular e passei exercícios para que
ele fizesse todo dia, exercício que consistia em apertar
o ombro o máximo possível e ir ganhando consciência
dele ao soltá-lo lentamente. Em poucos dias ele trouxe
um sonho (sic) "sonhei que saía de meu ombro um bicho
branco em forma de lagarta, eu fiquei muito assustado, mas depois
desse sonho não tive mais dores"
O
paciente se reorganizou no trabalho delegando funções
e responsabilidade a seus funcionários e confiando mais
, casou-se com a mulher que morava com ele e deixou o tratamento.
Ao
falar aqui sobre complexos acho necessário trazer um parágrafo
de Jung sobre o assunto.
"...provavelmente
os senhores já observaram que, ao me fazerem perguntas
difíceis, não consigo responde-las imediatamente
porque o assunto é importante, e o meu tempo de reação,
muito longo. Começo a gaguejar e a memória não
fornece o material desejado. Tais distúrbios são
devidos a complexos - mesmo que o assunto tratado não se
refira a um complexo meu.. Trata-se simplesmente de um assunto
importante, tudo o que é acentuadamente sentido torna-se
difícil de ser abordado, porque esses conteúdos
encontram-se, de uma forma ou de outra, ligados com reações
fisiológicas, com processos cardíacos, com o tônus
dos vasos sanguíneos, a condição dos intestinos,
a inervação da pele, a respiração.
Quando houver um tônus alto, será como se esse complexo
particular tivesse um corpo próprio e até certo
ponto localizado em meu corpo, o que o tornará incontrolável
por estar arraigado, acabando por irritar meus nervos. Aquilo
que é dotado de pouco tônus e pouco valor emocional
pode facilmente ser posto de lado porque não tem raízes.
Não é aderente"(Parágrafo 148, Fundamentos
da Psicologia Analítica, Jung).
Jung
e sua leitura corporal
Ao
aplicar o teste de associação de palavras, Jung
comenta as características da respiração
de uma pessoa durante a aplicação; ele observa as
nuances de alteração do ritmo respiratório
que sugerem a diferença de reação do indivíduo
frente a complexos conscientes e inconscientes.
"Os
presente diagramas ilustram muito bem as diferenças de
reações entre os complexos consciente e os inconscientes.
Em C, por exemplo, o complexo é consciente. A palavra estímulo
atinge a pessoa causando uma inspiração profunda.
Mas, quando atinge um complexo inconsciente, o volume da respiração
é restrito, como se pode ver em D, I. Há um espasmo
do tórax, quase não havendo respiração.
Dessa forma prova-se empiricamente a diferença fisiológica
entre reação consciente e outra inconsciente"
(Parágrafo 134, Fundamentos da Psicologia Analítica,
Jung).
Esses
níveis de respiração são muito comuns
em nosso trabalho diário, e a forma de trabalhar com isso
tradicionalmente é auxiliar a pessoa a descobrir os valores
simbólicos de sua vida psiquica, hoje além da palavra,
podemos utilizar também do auto-reconhecimento corporal
associado a situação complexa. É uma forma
de encontrar outros caminhos para encontrar com o inconsciente
( quando percebo ou torno consciente minha respiração
contida, associo também o momento e situação
do ocorrido identificando melhor minhas reações,
isto é não somente no nível do pensamento,
mas também em meu corpo)
Como
Jung exemplificou no texto inicial deste ensaio "nossos conteúdos
inconscientes são potencialidades que podem vir a ser,
mas que não são, porque não tem definição"
Outra
leitura corporal de Jung
"Se
prestarmos bastante atenção em um homem que trabalha
com as percepções sensoriais, veremos que as linhas
de direção de seus olhos têm a tendência
de convergir, de encontrar-se num determinado ponto, ao mesmo
tempo, a expressão ou o olhar da pessoa intuitiva apenas
cobre a superfície das coisas. Ela não olha fixamente,
mas globaliza os objetos num todo, e entre as muitas coisas que
percebe, estabelece um ponto na periferia do campo e visão,
e isto constitui o pressentimento.
Com
bastante segurança é possível dizer a partir
dos olhos de uma determinada pessoa, se ela é intuitiva
ou não. É inerente ao caráter do intuitivo
o não prender-se à observação de detalhes,
ele sempre busca apreender a totalidade da situação
e então, repentinamente, qualquer coisa emerge dessa globalização.(parágro
30, Fund.Psicologia Analítica, Jung).
Mais
uma vez, Jung nos mostra a amplitude de suas observações,
nunca separando, sempre associando um ponto ao outro e criando
integrações psicofísicas. De uma forma simples
ele mostra como identificamos um tipo psicológico através
dos movimentos dos olhos.
Pretendo
aqui encerrar esse trabalho dizendo que o material apresentado,
acho ser suficiente para esclarecer a Integração
Psicofísica de C.G.Jung, mas existe muito material deste
mesmo conteúdo em toda a sua vasta obra e abrange diversos
níveis de entendimento.
Como
ele mesmo diria "Todo psicoterapeuta não só
tem seu método; ele próprio é esse método"
o que indica as milhares de possibilidades de tratamento e cada
um desenvolve a sua forma, baseando-se em fundamentação
da Psicologia Analítica.
Celso
Barreto
Psicólogo CRP 08/04493
Bibliografia
para maiores Informações:
-
A prática da Psicoterapia, C.G.Jung, Ed.Vozes
- Fundamentos da Psicologia Analítica, C.G.Jung, Ed.Vozes
- Seminários sobre: Assim Falou Zarathustra, C.G.Jung,
Clube Psicólogico de Zurique.