A
IMPORTÂNCIA DO ESTUDO DOS MITOS PARA A COMPREENSÃO
DOS ARQUÉTIPOS
Maria
Elizabeth R. Rolim de Moura
Os
arquétipos fazem parte de um universo pouco definível,
mas imprescindível para a compreensão do indivíduo
em seu todo. E, segundo o próprio Jung a significação
etiológica do arquétipo fica menos fantástica
quando consideramos a mitologia oculta no homem (Jung, 1936/37).
Para os arquétipos inexistem definições finais,
existem apenas formas de tentar compreender o seu funcionamento
no homem.
Da mesma maneira, não existe uma compreensão final
dos mitos, mas sim versões e modos de entendimento deste
universo fantástico e com temas definidos.
Os mitos fazem parte da humanidade e são representados
através de manifestações arquetípicas
do indivíduo.
Jung conta em seu livro de memórias que desde 1909, sentiu
necessidade do estudo da mitologia para poder compreender a simbologia
de uma psicose latente (Jung,1963).
Podemos verificar que em suas obras os personagens mitológicos
são fontes de compreensão para o entendimento dos
processos humanos, pois são manifestações
dos arquétipos em si. Em 1950, no prefácio de sua
4ª edição dos símbolos de transformação,
Jung deixa mais uma vez registrado a importância dos mitos
para o estudo das manifestações arquetípicas
(Jung,1995).
E.C.Whitmont apresenta um estudo sobre a simbologia junguiana,
onde o arquétipo é considerado como o elemento central
do complexo, e que para serem transformadosé necessário
atingir o núcleo arquetípico que é caracterizado
por imagens e representações mitológicas
( Whitmont,1995).
Isto nos leva a uma conexão com a estrutura do indivíduo,
o consideramos em sua própria história, pois traz
consigo predisposições de ancestrais, de mitos,
e repete a mesma simbologia de acordo com seu momento atual.
Na psicologia analítica existem vínculos com os
mitos para estudos dos arquétipos,tendo em vista que o
inconsciente fala através da linguagem simbólica,
a imagem arquetípica, podemos entendê-la a partir
dos mitos.
Do arquétipo da sombra ao do self Jung apresentou vários
estudos, e podemosperceber que ao longo de suas obras, um mesmo
personagem mitológico, apresenta no indivíduo diversas
situações arquetípicas.
Kore, personagem bastante analisada por Jung, nos mostra o arquétipo
da ânima e do self.
Podemos estudar o lado místico de Kore, a relação
mãe e filha e o lado onde existe a divisão filha
e mulher, vemos com isto, situações repetitivas
em nosso dia a dia.
O arquétipo da grande mãe é bastante explorado
onde aparecem várias personagens mitológicas, inclusive
através delas podemos ver os dois lados da grande mãe,
e não somente o lado bom, temos entre elas Deméter
e Gaia.
Com o estudo de Hermes, Jung chegou a explicar alguns vínculos
com os fenômenos paranormais, tendo como base ter sido Hermes
o intérprete do oráculo, poderia considerar uma
situação arquetípica com os videntes.
Psiquê e Eros que representam os arquétipos da ânima
e ânimus ( Von Franz, 1997), assim como os bandidos representam
a sombra.Isis o arquétipo da ânima.
E, assim cada personagem mitológico apresenta uma vinculação
com as situações existentes.
Entretanto, mito considerado como favorecedor de modelos para
conduta humana (Mircea Eliade, 1998) e como situações
que se repetem, nos levam a necessidade do estudo dos acontecimentos
da humanidade comparando as situações. Da mitologia
grega, da história do Oriente, da Bíblia, entre
outros, verificamos que existe esta transmissão além
do tempo e do espaço.
Na mitologia grega matava-se em nome de "Zeus", nas
civilizações bíblicas, matava-se em nome
de "Deus", repetição da mitologia grega,
na época atual mata-se em nome de "Alá",
ou como queiram denominar seu ser supremo, o fator a ser considerado
é que assim como se repetem as guerras "santas",
assim se repetem todas as condutas.
CONCLUSÃO
Se partirmos do pressuposto que os indivíduos são
um processo num mundo mágico, cheio de mitos, de histórias
e estórias contidas em cada um de nós e que o mesmo
símbolo pode significar várias implicações
e conotações diferentes, de acordo com cada indivíduo,
e o que determina o significado é o contexto histórico
de cada um que traz consigo além de suas características
genéticas, pessoais, individuais, socioculturais, traz
algo de muito especial que vem de espaço e tempo inexistentes.
Alguma coisa que sai da memória da coletividade, chega
ao indivíduo através de formas próprias.
Transcende a consciência, mas registra, influencia seu mundo.
Fica impossível uma clara explicação dos
arquétipos em si, mas é muito clara a ligação
com os mitos, com os símbolos.
Sendo que a psicologia analítica trabalha com os símbolos,os
mesmos não se definem, mas cada um tenta interpretá-los
amplificando-os de acordo com seu EU.
Para concluir, citamos Jung, que em seu livro de memórias,
ao contar de casos psiquiátricos referiu-se a um de seus
casos:
" Precisei suscitar-lhe idéias mitológicas
e religiosas, pois era um desses seres que devem desenvolver uma
atividade espiritual. Sua vida adquiriu então um sentido;
quanto à neurose, desapareceu.
Nesse caso, não utilizei "método" algum;
sentira a presença do numem". (Jung,1963, p.127).