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A ENERGIA MERCURIAL DA PAIXÃO

Maria de Lurdes Bairão Sanches

No encontro com a solidão, encontramos o que há de mais genuíno dentro de nós mesmos.

De algum modo, buscamos no outro, respostas para o enigma de nossa existência. Talvez um episódio de paixão confirme este tipo de busca. Busca esta que permanece quase sempre incompreensível, já que cada novo encontro, por sua transitoriedade, traz diferentes elementos de interpretação. Na tentativa de suportar a finitude desta nossa existência fugaz, buscamos nos fusionar com outro ser, que, de algum modo, está ou não predisposto, a fazer esta volta para um mundo paradisíaco em que não há eu/tu, mas um eu muito pequeno tomado por um grande tu, que ao mesmo tempo me remete ao eu. Quase que o gancho do outro torna-se pouco importante para nossa aproximação; muitas vezes, é o outro que nos apreende, e, nós mesmos vamos, desavisadamente, entre 1000 aspas, sendo tomados até que quando nos damos conta já fomos fisgados pela flecha do Cupido, como está no mito grego.

Já fui castigada muitas vezes, vezes até, em direção a mesma pessoa; confuso, muito confuso, já que cada vez parece ser a única e a última: ledo engano, agora já me coloca mais como paciente, pacientemente diante de uma nova paixão.

O que eu entendo por paixão e qual suas relações com a energia psíquica este é o tema do que pretendo conversar.

Tentarei trabalhar aqui sob 4 pontos de vista, de modo não linear, mas tentando conectar um com o outro:

- aspectos etimológicos da paixão

- a intimidade da paixão

- aspectos míticos da paixão

- a paixão como opus, a Psicologia da Transferência- a paixão na obra se Jung, obra na qual, a palavra paixão aparece muitas vezes, mas pelo que pesquisei, nenhuma nos índices remissivisos- discussão para um próximo encontro.

Aspectos etimológicos:

No alemão, a palavra paixão ( LEINDENSCHAF), vem de LEIDEN, que significa SOFRER, e também, VIAJAR.

Convido-os a iniciar comigo esta viagem pela intimidade da paixão; o caminho é difícil, as imagens são belas e estimulantes, as fantasias são infinitas e muitas vezes causam pânico.

Há entretanto um a mais : quem se priva empobrece sua experiência, quem nela se engaja, fará a experiência do novo, do inesperado. Não há como sobreviver sem se apaixonar.


Há aquelas pessoas que sempre se apaixonam e outras que dizem ter vivido apenas uma paixão, que se transformou em amor e que foi a única verdadeira.

Será que cabe à paixão o adjetivo de verdadeira ou falsa?


Dia desses alguém me disse que falar sobre a paixão é tão longe de tudo, tão longe quanto se falar “e viveram felizes para sempre”.

Fiquei matutando sobre o assunto e concluí que “viveram felizes para sempre” fica circunscrito ao mito apenas, entretanto a paixão, embora tenha o caráter da divindade, do numinoso, acontece pra valer.


Ouvi de uma mulher apaixonada:


“O mundo inteiro começa e acaba ali

Não tenho mais eu,

Não tenho mais limites,

Você me ocupa inteira,

Depois me persegue na noite solitária”


Que aventura é esta, tão inexplicável, em que tudo parece estar profundamente dentro e completamente fora, ao mesmo tempo.

“O mundo está todo fora e eu estou todo dentro de mim”, afirma M.Ponty

O ser apaixonado transborda paixão no olhar, no cheiro de rosas, na luminosidade da pele, na harmonia dos gestos e no contínuo desejo de estar vivo. Será mesmo? Difícil poder concluir.


Com a presença do mercúrio fugidio poderemos amaciar este percurso’. Como a paixão, Mercúrio é diabólico e simbólico, separa e une. Alivia a dor nos tombos das crianças, quem não lembra da presença do mercúrio que aquieta a ferida de uma queda de bicicleta, mas...


Mercúrio é o metal pressuposto para o opus alquímico, ele está sempre presente , é mineral, é vegetal, é animal e é humano. Mercúrio é alma, é vínculo. Mercúrio representa o inconsciente e como tal tem propriedades paradoxais, consegue entretanto ser sempre reconhecido como ele mesmo. Com Afrodite forma a composição entre corpo e alma, entre corpo e espírito.


Neste sentido toda relação humana profunda está sendo entremeada pela presença de Mercúrio, cada relação humana profunda é ungida por Mercúrio, que pela capacidade de ligar os opostos permite o aparecimento da coniunctio.


Voltando aos aspectos etimológicos.


No francês, paixão vem do latim PATIOR, e quer dizer sofrer, conhecer as provocações, suportar


Assim como no catalão, língua mãe de Salvador Dali, PASSIÓ, vem do verbo PATIR, que significa, adoecer, sofrer, suportar e até mesmo cumprir uma pena. Na cultura catalana todos os sentimentos de amor e de dor são extremados: io patesho, é uma das formas de falar que mais se ouve; eles sofrem muito e eles se apaixonam muito- Dali dizia que jamais sobreviveria sem Gala, sua musa inspiradora e amante eterna. Apaixonam-se tanto, que querem até excluir sua etnia do resto da Espanha.


Do mesmo, em português, vem também do latim, passio,passionis e significa : movimento violento, impetuoso, do ser para o que ele deseja; afeto excessivo; arrebatamento, cólera, sofrimento prolongado, desgosto e mágoa


Aqui este espaço para se recordar este lado da paixão, como sofrimento, como a paixão de Cristo, que morreu na Cruz para nos salvar. Assim a paixão aproxima-se tanto da morte, quanto da vida.


E no dia a dia, em nossa cultura popular, língua falada e na imagem poética, apaixonado, pode ser confundido com caído, embeiçado, enamorado perdidamente, enrabichado, mas também irritado e encolerizado, e é como se percebe o ser apaixonado.


O poeta modernista, Semana de Arte Moderna,1922, que é um dos primeiros a introduzir temas genuinamente brasileiros à poesia , até então presa a padrões europeus, escreveu um poema intitulado Juca Mulato. Juca Mulato vivia feliz e solto trabalhando numa fazenda; como que numa participação mística com a natureza, seu cavalo pigarço, só pelos campos escuros , admirando a flora e a fauna a sua volta, escutando os barulhos mais íntimos da Mãe natureza.

E de repente Juca Mulato que vivia para a luta começa a ficar caído, quebrado, como se tivesse sido ferido.


“ Juca Mulato pensa: a vida era-lhe um nada...

Uns alqueires de chão; o cabo de uma enxada;

Um cavalo pigarço; uma pinga da boa;

O cafezal verdoengo; o sol quente e inclemente...


Nessa noite, porém, parece-lhe mais quente,

O olhar indiferente,

Da filha da patroa...”


Juca Mulato percebe a ruptura entre dois mundos, o dele e o da filha da patroa, e aprende a diferenciar o que acontece dentro do que acontece fora de sua própria psique. No olhar do outro, Juca Mulato passa a se ver de um modo novo. O olhar é um símbolo da consciência que quando se adquire jamais poderá ser excluída.


“Sofre, Juca Mulato, é tua sina, sofre...

Fechar ao mal do amor nossa alma adormecida

É dormir sem sonhar, é viver sem Ter vida...

Ter a um sonho de amor o coração sujeito

É o mesmo que cravar uma faca no peito.

Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:

Não amar, é sofrer; amar, é sofrer mais! ”


Como no processo de análise, chega-se a uma dor que não se suporta e se vai em busca de socorro.


Em Psic. da Transf., par. 500, ao citar as Bodas Químicas, um texto alquímico, o herói do drama, que é apenas um convidado, “penetra sorrateiramente na alcova secreta de Vênus adormecida para admirar-lhe a beleza nua. Para castigá-lo por essa intrusão, Cupido lhe fere a mão com uma flechada.”


Afrodite, a deusa nascida das espumas do mar, do sêmen de Urano, inspira amores comuns e então se chama pandêmica, quando inspira amores etéreos, chama-se urânica.

Seu filho, Eros, tem o poder de introduzir a experiência amorosa aos mortais.

A ousadia do herói é seu próprio castigo:


“Hoje pago essa ousadia...

Ela os olhos de mim tolhe.

Queixar-me disso por quê?

Antes era eu que não a via

Agora, por mais que me olhe,

É ela que não me vê.”


O castigo é também o caminho para o processo de individuação, é a possibilidade de Juca Mulato deixar de ser apenas um capataz da fazenda para ser um ser que se descobre enquanto indivíduo.

Entretanto, a flechada do Cupido produz um mal que não tem cura:


“Antes de amar eu dizia:

Para cortar na raiz

Esta constante agonia,

Preciso amar algum dia,

Amando serei feliz.

Amei... Desventura minha!

Quis curar-me e piorei,

O amor só mágoas continha,

E, aos tormentos que eu já tinha,

Novos tormentos juntei!”


E é a partir destes tormentos que se pode sair deste movimento incestuoso, de dentro de si mesmo, e se expandir para o conhecimento do outro; e quando se inicia este processo não tem mais volta. Juca Mulato vai ao feiticeiro negro, que cochilava à porta de sua tapera e que vai logo exibindo seus poderes curativos; só que, diante da queixa de seu paciente, encolhe-se e vai l dizendo:


“Juca mulato! Esquece o olhar intangível!

Não há cura, ai de ti! para o amor impossível.

Arranco a lepra ao corpo; estirpo da alma o tédio;

só para o mal de amor nunca encontrei remédio...

Como queres possuir o límpido olhar dela?

Tu és qual um sapo a querer uma estrela...

A peçonha da cobra eu curo... Quem souber

cure o veneno que há no olhar de uma mulher!

Vencendo o teu amor, tu vences teu tormento.

Isso conseguirás só pelo esquecimento.

Esquecer um amor dói tanto que parece

que a gente vai matando um filho que estremece,....

Foge! Arrasta contigo essa tortura imensa,

que o remédio é pior do que a própria doença,

pois, para se curar um amor tal qual êsse...

Juca Mulato: esquece!


Como certeza esta não é a proposta analítica diante da paixão, já que a percebemos como um fio nos conduz ao mais íntimo de nosso ser.


Desperdiçar uma paixão é mesmo como perder um filho, já que é mesmo uma construção de dentro da alma!


O que, pode, será, aliviar uma paixão?

Em todas as línguas há um nome para a flor da paixão, que é a passiflora, dizem, pelo formato de suas folhas ( cujos órgãos representam os instrumentos da paixão: coroa de espinhos, pregos, martelos ), mas cujo efeito, quando tomada é o de diminuir a energia, de acalmar os sofrimentos, a flor que acalma. Que diminui a energia excessiva presente na paixão. O remédio está no próprio veneno. O ser apaixonado, algumas vezes, desperdiça energia por não se poder conter dentro de si mesmo. Em outras, volta-se para dentro e produz muito, com muita criatividade. Outras, ainda, persegue o outro pela incapacidade de percebê-lo como outro.

Admitindo o processo é que me aproximo do novo que está por vir.


Depois de mais afastada de seu estado apaixonado uma mulher envia um cartão explicativo para sua vítima:


“À distância podemos reconhecer os fantasmas, que algumas vezes, nos povoam. Peço-lhe para aceitar minhas considerações.”


Em todas as línguas a paixão tem o significado de uma tendência que domina totalmente a personalidade e por isto mesmo associada a perturbações do espírito- condenadas pelo escolástica, por Kant e resgatada pelo romantismo.


No Nome da Rosa- Umberto Ecco

Adso, o discípulo de Guilherme, o franciscano que vai tentar descobrir um crime acontecido numa abadia da Itália Medieval, sente, pela primeira vez, um ardor de fogo, diante da nudez da virgem e recebe de outro frade a seguinte admoestação:


“Não existe nada no mundo, nem homem, nem diabo, nem qualquer coisa, que eu considere tão suspeito como o amor, pois este penetra mais a alma que outra coisa qualquer. Não há nada que ocupe tanto e amarre o coração como o amor. Por isso, a menos que não tenha as almas que a governam, a alma cai, pelo amor, numa imensa ruína. ...Repara eu não te digo essas coisas somente sobre o mau amor, de que naturalmente todos devem fugir como de algo diabólico, eu digo isso com grande medo também do bom amor que corre entre Deus e o homem, entre o próximo e o próximo.”


Estaria aqui sendo tratada a questão de que diante da paixão o ego , o centro da psique consciente, perde a supremacia e é engolido por forças maiores?

Verifiquem por exemplo, as imagens de Trisão e Isolda antes e depois de se apaixonarem: entre a tranquilidade e o desespero do olhar.

Assinala aqui que até a paixão por Deus pode me impedir de viver, como ,no poema do místico, Sjoão da Cruz:

Em mim eu não vivo já,

Não posso sem Deus estar;

Sem Ele é sem mim ficar,

Este viver que será?

Mil mortes me causará,

Minha vida é só sofrer,

Morrendo por não morrer

E ainda assim a vida que vivo

É a privação de viver;

a um contínuo morrer

Até que viva contigo;

Meu Deus, ouve o que te digo:

Que já não quero viver,

E morro por não morrer


Como explica Jung, no par. 501 da Psic. Da Transf.:


“O poder de assimilação do arquétipo explica não só a vasta propagação deste tema, como também o fato de ele apoderar-se do indivíduo com tão apaixonada intensidade, a ponto de muitas vezes ir contra toda razão e lucidez.... Sua consequência extrema é a dissolução do eu no inconsciente e, portanto, algo semelhante à morte.”


Este solutio alquímico representado pela paixão, que faz você sentir-se como se estivesse novamente boiando no líquido ami niótico, retira-lhe todas as possibilidades de controle, remete-o a um “bouleversement”, a uma confusão inimaginável. Neste sentido, a paixão é uma forma de participação mística, de unus mundus, e por isto mesmo, um contato com o numinoso, neste sentido, também divina. Pela paixão compartilhamos a centelha divina que há em cada um de nós.


“Este forno sagrado, este banho maria, esta retorta de vidro, este forno secreto, é o lugar, a matrix ou o útero e o centro do qual jorra , borbulha e se origina a tintura divina....Conheceis o fogo dos filósofos; ele é a chave que guardavam escondida... o fogo é vida-do-fogo-amor que emana de Vênus divina, ou do amor de Deus; o fogo de Marte, por ser demasiado quente, ardente e selvagem, secaria e queimaria a matéria; por isso, o fogo-amor de Vênus é o único dotado das propriedades do fogo verdadeiro.”


Deste modo você poderá conhecer o que está dentro de você, seu verdadeiro ser liberto de todo egoísmo perverso e pecaminoso.


“O pai desta criança é Marte, é a vida fogo que procede de Marte enquanto qualidade do pai. Sua mãe é Vênus, o suave fogo amor que procede da qualidade do filho.” Psic. da Transferência par.508


Agora, o melhor fogo é o fogo-amor –de Vênus e não o fogo-ira de Marte que asfixiaria e mataria a criança; entretanto, paradoxalmente, sem a ira e o furor de Marte, não seria abençoada a tintura.


A tintura abençoada da paixão é o re-encontro com nosso ser profundo, ou seja, no homem com seus aspectos femininos e na mulher com seus aspectos masculinos. Este fundo da alma, a anima e o animus são tarefa para a vida, como diz Jung, é como “carregar uma cruz”, símbolo da totalidade e ao mesmo tempo da paixão. Carregar a cruz é também caminhar, é processo de individuação e o alquimista compara ao opus.

Apenas um metal fugidio, que unge e que separa pode nos propiciar esta tarefa de transformação, do ser dividido, num ser único.


No encontro verdadeiro, na verdadeira coniunctio não nos comparamos e não nos medimos: SOMOS


A paixão revela-se portanto numa experiência única, em que, o herói, que somos todos nós mortais em busca do significado de nossas próprias vidas, convidado para as bodas nupciais de Marte, o fogo ira, com Vênus, o fogo aparentemente brando do amor que intermediado pela flecha de Cupido e ungido por Mercúrio, consegue trazer para dentro de si mesmo a experiência que até então pensou Ter significado apenas fora dele.


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