NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO
Letícia Capriotti
Agosto - 2005
A mitologia nos conta a história de Narciso, belo jovem pelo qual muitos se apaixonam, mas que rejeita qualquer relacionamento. O jovem que um dia se depara com a própria imagem refletida no lago e por ela se apaixona. Uma história de amores impossíveis, de imagens que enganam e sobretudo uma história que fala de auto-conhecimento e transformação. Sim, e a transformação é muito importante, pois não podemos esquecer que essa história aparece no livro “As Metamorfoses” de Ovídio que relata, entre outras tantas metamorfoses da mitologia também a de Narciso. Vamos olhar mais de perto alguns aspectos desse mito e o que ele pode nos dizer a respeito da natureza humana.
Penso que nessa história há dois narcisos diferentes: aquele que é o jovem do início do mito e aquele que é flor, aquele que passou pela metamorfose. Comecemos falando do primeiro.
Ovídio nos conta em “As Metamorfoses” que Narciso era um jovem de beleza sem igual, cujo rosto é comparado a uma estátua de mármore de Paros. Conta também que muitos jovens e muitas jovens o desejavam, “mas tanta – tão rude soberba acompanhava suas formas delicadas – nenhum jovem, nenhuma jovem o tocara”. Narciso rejeita e repele com especial rudeza a ninfa Eco, que por ele perdidamente se apaixonara.
Paremos a história aqui e observemos algumas características desse jovem Narciso: ele é alguém que basta-se a si mesmo, rejeitando “com rude soberba” qualquer contato amoroso com o outro. Junito Brandão nos lembra que Narciso foi descrito como “extremamente belo, mas orgulhoso para com Eros e em relação àqueles que o amavam”. De tão centrado em si, Narciso rejeita o envolvimento erótico com o outro, e isso é uma violência contra Eros.
Temos a imagem de um jovem duro e impenetrável – assim é o Narciso do início da história. Essa imagem da dureza, da impenetrabilidade é reforçada pela comparação de sua beleza com uma estátua de mármore. Para esse Narciso não há o outro, há apenas ele próprio.
O DSM IV descreve aqueles que sofrem do Transtorno de Personalidade Narcisista como tendo “um padrão invasivo de grandiosidade, necessidade de admiração e falta de empatia”. Entre outras coisas, como atitudes arrogantes e insolentes, cita também como características da personalidade narcisista uma crença de ser “especial” e único, possuindo expectativas irracionais de receber um tratamento especialmente favorável ou obediência automática às suas expectativas, além de serem insensíveis, superficiais e não-empáticos. Essa última característica me chama atenção. A ausência de empatia, a relutância em reconhecer ou identificar-se com os sentimentos e necessidades alheias. Como acabei de dizer sobre Narciso: de tão centrado em si, rejeita o envolvimento com o outro. As patologias descritas nos manuais de psiquiatria sempre existem em maior ou menor grau em todos nós, então vale a reflexão: Quantas vezes não fazemos isso em nossas vidas? De tão centrados que estamos em nós mesmos, em nossos problemas e alegrias, temos dificuldade em perceber sentimentos e necessidades alheias. Queremos (ou até acreditamos) que o mundo gire ao redor de nossos umbigos. E isso se dá tanto no plano individual quanto no coletivo. Como é fácil, centrados em nossas crenças, acusarmos o outro (de outra religião, de outra crença, de outros povos) de coisas que não nos damos conta de fazer também...
Voltando ao mito, é justamente a dificuldade que Narciso tem com a alteridade, a dificuldade em se relacionar e se colocar no lugar do outro que desperta a raiva de todos à sua volta e que culmina com a maldição de Nêmesis: “que ele ame e não possa possuir o objeto amado”. Realmente, quem (tendo um dia se relacionado com um narcisista) nunca se sentiu tão rejeitado, tão incompreendido por alguém que desejou: “tomara que um dia você possa sentir o mesmo que estou sentindo”. – uma maldição que pode ser uma bênção, pois pode propiciar a metamorfose.
E aí então Narciso se depara com a própria imagem refletida no lago e se apaixona. É interessante esse trecho da narrativa de Ovídio, pois existem dois momentos distintos: num primeiro momento, Narciso não percebe que é sua própria imagem que vê (como quando passamos distraídos por nossa imagem refletida num espelho e nos assustamos, achando que tem alguém ali) e depois ele se dá conta, ele percebe que está vendo a si mesmo.
Esse para mim é o momento crucial da história. É o momento em que aquilo que Tirésias havia previsto se realiza. Tirésias fora consultado por Liríope (mãe de Narciso) com a seguinte pergunta: Narciso viveria muitos anos? A resposta foi: Se não se conhecer... Se não se vir...
Quando vê aquele belo jovem diante de si, Narciso não reconhece ser sua própria imagem – claro, pois não se conhece! É no momento de insight em que percebe tratar-se de si próprio que o que Tirésias havia previsto se concretiza: depois daquilo, ele já não pode mais ser o Narciso que era. Antes podia ser um jovem frio, insensível e distante. Depois dali ele precisa mudar... A transformação... A metamorfose.
Muitos dizem que Narcisismo é excesso de amor próprio, excesso de auto-estima. Penso que é justamente o contrário. O narcisismo é a condição na qual uma pessoa não se ama (daí a diferença entre auto-estima adequada e narcisismo – esse último é uma defesa). O DSM IV acrescenta que pessoas portadoras do distúrbio de personalidade narcisista possuem uma “auto-estima muito frágil” e têm “medo de que sejam reveladas suas falhas ou imperfeições”. Essa condição leva Moore a dizer que “o narcisismo é sinal de que a alma não está sendo suficientemente amada”. Esse fracasso amoroso surge como seu oposto porque a pessoa procura arduamente encontrar a auto-aceitação - buscando espelhos. Então, puramente por defesa, encontramos pessoas (como nos conta Moore) que possuem a dureza como uma qualidade básica, encontramos uma auto-absorção desprovida de alma e amor, uma rigidez e um auto-fascínio. Nathan Schwartz-Salant lista algumas características do paciente narcisista em análise:
- Carece de penetrabilidade
- Rejeita interpretação
- Não pode tolerar críticas
- Não pode integrar a abordagem sintética
- Baixa capacidade empática
- Orgulho de não ter necessidades
- Carece de sentido da história e seus processos
- Funcionamento masculino e feminino perturbado
- Potencial para formação de constelações arquetípicas positivas
Voltando ao mito, é interessante notar que é à beira da lagoa que Narciso pela primeira vez reflete e descobre algo sobre si mesmo. É na água, nesse elemento de sua herança natal (já que ele é filho de uma ninfa com um rio) que aquele Narciso duro e impenetrável pode recuperar sua umidade natural e sua fria auto-absorção se transforma em amável diálogo com o mundo. E então ele torna-se flexível, belo, enraizado – transforma-se em flor.
A pessoa narcisista se detém numa só visão a seu próprio respeito (rasa, da superfície) e as outras possibilidades são rejeitadas. Medo, insegurança fazem-no agarrar-se a traços rígidos e a “achar feio tudo o que não é espelho”. Quando descobre a “outra” face na lagoa, desprende-se de si. Moore nos fala do narcisismo como uma oportunidade de a alma encontrar seus outros aspectos.
A pessoa narcisista simplesmente não sabe como é profunda e interessante sua natureza. “Não se conhece”. A pessoa narcisista se esforça muito para ser amada, mas nada consegue, porque não percebeu que precisa amar a si mesma como “outro” antes de poder ser amada.
Schartz-Salant diz que, na análise, “se o estágio do ‘fique calado e escute’ for negociado com sucesso, a reação de contra-transferência ao fato de o analista ser controlado também pode transformar-se. O analista pode passar a sentir uma maior empatia pelo analisando e mais facilidade para penetrar-lhe as camadas profundas. Ainda há um controle, mas agora ele pode ser sentido como um apelo: “fique comigo!” E esse apelo pode ser experimentado como um pedido para que o analista fique com meu íntimo, com meu valor. Essa mudança na qualidade de controle é impressionante. De alguém que era experimentado como uma pessoa enfadonha e superficial, emerge uma pessoa que conhece o significado do termo espírito”
Pois o que o narcisista não entende é que a auto-aceitação que busca não pode ser forçada ou forjada. Narciso só fica pronto para se amar quando aprende a amar aquele eu como objeto. Narciso só pode se transformar verdadeiramente quando transforma o “espelho” em “janela”; quando sai da auto-centração e consegue enxergar o outro – algo que pode ser propiciado pela relação analítica. Essa transformação fica poeticamente ilustrada na música “Sampa” de Caetano Veloso. Nessa música ele relata como era auto-centrado e não conseguia ver a beleza no outro que não o espelhasse (“Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto/ Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”) e humildemente acrescenta: “é que Narciso acha feio o que não é espelho”, mostrando assim já ter se flexibilizado frente à cidade de São Paulo e poder assim enxergar a beleza mesmo que ela não seja um espelho.
Sampa
Caetano Veloso
Composição: Caetano Veloso
*homenagem à cidade de São Paulo, Brasil
Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
é que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
da dura poesia concreta de tuas esquinas
da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee, a tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
que só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
chamei de mau gosto o que vi
de mau gosto, mau gosto
é que Narciso acha feio o que não é espelho
e a mente apavora o que ainda não é mesmo velho
nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
afasto o que não conheço
e quem vende outro sonho feliz de cidade
aprende de pressa a chamar-te de realidade
porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
da força da grana que ergue e destrói coisas belas
da feia fumaça que sobe apagando as estrelas
eu vejo surgir teus poetas de campos e espaços
tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Panaméricas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
mais possível novo quilombo de Zumbi
e os novos baianos passeiam na tua garoa
e novos baianos te podem curtir numa boa.
Bibliografia
BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Ed. Vozes. Petrópolis, RJ: 1999
MOORE, Thomas. Cuide de sua alma. Ed. Siciliano. São Paulo, SP: 1992
OVÍDIO. Metamorfoses. Ed. Madras. São Paulo, SP: 2003
SWARTZ-SALANT, Nathan. Narcisismo e transformação do caráter. Ed. Cultrix. São Paulo, SP: 1982