A PAIXÃO DE CRISTO OU RAMBO VESTIDO DE CRISTIANISMO?
Priscila Alonso
O filme de Mel Gibson sobre a paixão de Cristo é mais um filme americano de violência pela violência, só que desta vez com a capa religiosa do cristianismo. Pretendendo falar do sofrimento de Cristo, o diretor, apesar de ter pesquisado imagens de quadros de artistas universais, não conseguiu profundidade, não conseguiu “mergulhar”.
Senti-me caindo nas garras da mídia; extremamente incomodada por ver tanta violência e sangue e por não ter sido dada a dimensão profunda do que poderia ter sido mostrado. As imagens do filme são recheadas de sofisticações tecnológicas, onde às vezes temos a impressão que o sangue pingará em nós.
Cristo é um símbolo vivo em nossa cultura e, portanto, muito próximo de nós miticamente. Na sua figura, a coletividade está imersa. Nós somos os personagens de nossas histórias de origem; vivemos e repetimos os mitos freqüentemente. O mito encarna-se na humanidade, sendo expressão do arquétipo. Porém, perde a essência e o sentido se reduzido a valores e leis impostos pela ótica unilateral.
A cultura judaico-cristã nos impregnou de valores relacionados ao bem e ao mal, e Mel Gibson perdeu a oportunidade de delicadamente mergulhar nisso sem moralismos, desfazendo regras e leis que se impregnaram sobre nossa consciência coletiva. Ao contrário: ele reforçou o sensacionalismo e o empobrecimento desse olhar sem alma. A figura de Cristo elucida o arquétipo do si-mesmo, representa a totalidade psíquica, simboliza o que pode ser único em nós, o que temos de humano e divino, de centro e borda ao mesmo tempo. O filme ficou na luta do poder, do Cristo com o Anticristo. A alma continuou pensada e “prensada” em termos de opostos, presa nas sizígias de bem e mal, sombra e luz...
Não vi no filme imagens feitas com alma, ou da alma. Explico: não fui tocada pela alma, pela psique. Poderíamos ter tido a oportunidade de assistir, com olhos atuais, ao sofrer de Cristo com interioridade, não com literalização, superficialidade. O sofrimento não precisa virar show. “Sofrer” é adquirir conhecimento através da experiência, seja ela doída ou não; é viver na carne, na pele, na alma. A função da narração do mito seria fazer com que a experiência daquele homem pudesse despertar em nós, ao ser mostrada, ligações do que sabemos com o que não sabemos conscientemente. Mas não como um “Rambo”, um herói literal e sangrento.
O filme trata de um assunto difícil e tabu nos dias atuais, que é a morte. Talvez seja esse o assunto tabu de nossos dias, mais que sexo, drogas e rock. Quanto nos angustia pensarmos em morte - e adiamos essa experiência diariamente, maquiando-a com idéias e atitudes imediatistas. A natureza simbólica de Cristo continuou na sombra, ou seja, a qualidade da dor, a convivência com aquilo de que não gostamos, o que em nós é estranho, o que desconhecemos, o que perdemos... o movimento de ir “para dentro” continuaram aprisionados nas idéias horizontais e agitadas de nossos dias.
A Paixão de Cristo confirma a tendência moderna de destruir e negar toda e qualquer tradição e enraizamento. Reforça a luta do bem contra o mal e perde a oportunidade de abrir uma fresta para a reflexão sobre contradições, paradoxos, sofrimento, amor, liberdade, denúncia, angústia, dor e prazer através de um personagem tão rico de significados e presente em nossa cultura.
Não há, neste texto, nenhuma pretensão religiosa nem filosófica - pois esta seria uma outra discussão. Trata-se, apenas, de um desabafo que faço após cenas tão massacrantes, espetaculares do ponto de vista tecnológico, mas sem nenhuma reflexão. Como os americanos...
Paixão de Cristo, A (The Paisson of the Christ) – US-2004;
dir. Mel Gibson, Drama
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